








   IMPOSSIBLE

          IMPOSSIVEL

   Danielle Steel




     Digitalizao e reviso : Ftima Toms

           Formatao:Marcia.Sil













     Traduo de
     LDIA GEER
     Crculo De Leitores
        Sobrecapa: JOO ROCHA
     ISBN 978-972-42-4122-7
     Copyright  2005 by Danielle Steel Impresso e encadernado para Crculo de
Leitorespor Printer Portuguesa Casais de Mem Martins, Rio de Mouro em Agosto de 2007
     Nmero de edio: 6778
     Depsito legal nmero 262 656/07 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     Para os meus maravilhosos filhos, Beatrix, Trevor, Todd, Nick, Samantha, Victoria, 
Vanessa, Maxx e Zara, os quais no s tornam a minha vida possvel, mas tambm feliz e 
cheia de jbilo e de amor. Sinto-me abenoada e afortunada por vos ter, com toda a 
vossa alegria, amor e momentos de ternura que partilhamos de maneira to profunda. 
Presto-vos a minha homenagem, agradeo-vos, dou-vos mais apreo do que sou capaz 
de expressar.
     Quem me dera que um dia venham a ser to abenoados como eu fui, com filhos 
como vocs.
     Com todo o meu amor,
     Me 
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     [...] Que significa cativar?
      uma coisa de que toda a gente se esqueceu. [...] Significa criar laos...
     [...]
     [...] Para mim no passas, por enquanto, de um rapazinho em tudo igual a cem mil 
rapazinhos. E eu no preciso de ti. E tu no precisas de mim. [...] Mas, se me cativares, 
precisaremos um do outro. Sers para mim nico no mundo. Serei nica no mundo para 
ti...
     [...]
     [...] Mas se tu me cativares, ser como se o Sol iluminasse a minha vida. Distinguirei, 
de todos os passos, um novo rudo de passos. Os outros passos fazem-me esconder 
debaixo da terra. Os teus ho-de atrair-me para fora da toca, como uma msica. [...] Por 
isso, quando me tiveres cativado, vai ser maravilhoso.
     [...]
     Cativa-me, por favor...
     [...]
     S se conhecem as coisas que se cativam. [...] Mas como no existem mercadores 
de amigos, os homens j no tm amigos. Se queres ter um amigo, cativa-me!
     Como  que hei-de fazer?
     Tens de ter muita pacincia. [...] Primeiro, sentas-te um pouco afastado de mim, 
assim, na relva. Eu olho para ti pelo rabinho do olho e tu no dizes nada. A linguagem  
uma fonte de mal-entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto...
     [...] 
     [...] ainda no sois nada. [...] Ningum vos cativou, nem vs cativastes ningum. [...] 
Mas fiz dela minha amiga, e agora  nica no mundo.
     
     
     
     
     
     (Excertos de O Prncipe zinho, traduo de Alice Gomes, Editorial Aster.) 
     se me cativares
     e se eu te cativar no perders a tua maravilhosa
     e temerria liberdade
     ou o ar
     que respiras,
     que no foi perdido,
     mas encontrado,
     depois de cativado e de corpo inteiro,
     em silncio, conseguirs
     encontrar-me,
     e eu,
     finalmente, ter-te-ei
     encontrado.
     d. s. 
     
     
     
     
     
     
     
     
                                                      
     
     
                                               RESUMO
                                               
     
     Existem momentos que ficam para a eternidade. Mas depois desses secretos 
momentos vividos pelos amantes, como se volta  rotina dos dias? Como se esqueceo 
fulgor da paixo que tinge os dias de vivas e vivazes cores? Impossvel, diriam alguns. E 
talvez seja de facto impossvel renunciar a uma inesperadafelicidade.
     Sasha e Liam so como gua e fogo. Ela uma ponderada e inteligente galerista, ele 
um pintor sem regras movido pelas sensaes. Encontram-se, odeiam-se,apaixonam-se. 
Mas como podem viver um com o outro sendo to diferentes? 
     Uma arrebatadora histria de amor entre a Europa e os Hamptons, nos EUA, a 
contagiar-nosde um doce e picante formigueiro romntico. Danielle Steel atenta, sensvel, 
ousada  no seu melhor.
     Liam busca e busca o seu caminho. A pintura no  apenas um trabalho  uma 
forma de estar no mundo, de olhar a vida e senti-la. Quando se cruza com Sasha,uma 
poderosa galerista, detesta o seu arrogante mundo de certezas. Casada, com filhos, uma 
estvel e bem sucedida carreira como dona de algumas das maisimportantes galerias do 
mundo, tudo na sua vida parece, simplesmente, perfeito.
      O confronto que se estabelece entre to diferentes personalidades acabacontudo 
por revelar algo mais forte e violento: a paixo. Inesperada para ela, procurada por ele, a 
paixo acontece sem que a possam controlar. Vivem entouma secreta relao. Ela 
hesita em acabar com o slido casamento, teme o escndalo, a reprovao dos filhos, 
mas a Liam interessa apenas o presente, averdade dos momentos que vivem quando 
esto sozinhos. Para ele nada mais importa, para ela h muito em jogo.
     Um romance a arrebatar-nos da tranquilidade dos dias, e a lanar-nos no mundo das 
emoes fortes que s mesmo Danielle Steel consegue criar com tanta cor,verdade e 
intimismo. Ler este livro  assim participar um pouco nas emoes vividas pelas 
personagens,  deixar que esse formigueiro de quem ama e se d paixo nos contamine 
tambm a ns, leitores.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
                                                     CAPTULO 1
     
     A Galeria Suvery, em Paris, situava-se num edifcio impressionante, uma elegante 
casa apalaada do sculo xvII na Faubourg Saint-Honor. Os coleccionadores eram 
recebidos apenas com hora marcada, transpondo os imponentes portes de bronze que 
davam acesso ao ptio interior. Mesmo em frente tinham a galeria principal e  esquerda 
ficavam os escritrios de Simon de Suvery, o proprietrio. 
      direita encontrava-se o espao que a filha havia acrescentado  galeria, a ala de 
arte contempornea. Nas traseiras da manso havia um amplo e requintado jardim, 
repleto de esculturas, em grande parte da autoria de Rodin. Simon de Suvery ocupava 
aquele espao havia mais de quarenta anos. O seu pai, Antoine, fora um dos 
coleccionadores de arte mais importantes da Europa, enquanto Simon, antes de ter 
aberto a galeria, havia sido um reputado perito em pinturas da Renascena e dos mestres 
holandeses. Agora era consultor de vrios museus em todo o territrio europeu, alm de 
ser extremamente conceituado entre os coleccionadores particulares, sendo admirado, e 
muitas vezes temido, por todos os que o conheciam.
     Simon de Suvery era uma figura intimidante, alto e com uma constituio fsica 
possante, feies austeras e olhos escuros de expresso to acerada que parecia 
penetrar-nos at ao fundo da alma. Simon no tivera pressa em casar. Na juventude 
andara atarefado a estabelecer-se no seu ramo de actividade, pelo que no havia perdido 
tempo com romances. 
     Aos quarenta anos, desposou a filha de um importante coleccionador norte-
americano. Foi uma unio bafejada pela felicidade e pelo sucesso. Marjorie de Suvery 
nunca se envolveu pessoalmente nos assuntos da galeria, a qual j se encontrava bem 
estabelecida antes de se ter casado com Simon. Sentia-se fascinada por aquele espao 
dedicado  arte, admirando os trabalhos que o marido expunha. 
     Estava profundamente enamorada, tendo passado a sentir um interesse apaixonado 
por tudo o que ele fazia. Marjorie tambm se dedicava s artes plsticas, embora nunca 
tivesse tido -vontade para mostrar os seus trabalhos. Pintava paisagens e retratos de 
grande suavidade, sendo frequente que oferecesse essas pinturas de presente aos 
amigos. Verdade fosse dita, Simon sentira-se tocado pelo trabalho dela, mas nunca ao 
ponto de ficar impressionado. 
     Era implacvel nas suas escolhas, impiedoso nas decises que tomava em relao 
 galeria. Tinha uma vontade frrea, um esprito aguado, muita argcia para os negcios 
e um corao generoso, embora este estivesse enterrado muito fundo e, por vezes, bem 
escondido. Ou, pelo menos, era o que Marjorie dizia, embora nem toda a gente 
acreditasse nela... Simon era justo na forma como lidava com os que trabalhavam para si, 
honesto com os seus clientes e persistente quando queria algo que considerava que a 
sua galeria devia possuir. 
     Por vezes, levava vrios anos at conseguir adquirir um quadro ou uma escultura 
em especial, mas no descansava at conseguir concretizar os seus objectivos. Havia 
cortejado a mulher nos mesmos moldes, at terem contrado matrimnio. E depois de a 
ter, guardou-a como se fosse um tesouro
     - em grande parte s seu. Apenas comparecia em eventos sociais quando 
considerava que era indispensvel e tinha por hbito receber os clientes numa das alas 
da manso.
     Decidiram ter filhos j numa fase bastante adiantada do casamento. De facto, essa 
deciso coube a Simon, e esperaram dez anos at ao nascimento de uma criana. 
     
     
     Sabendo quanto Marjorie ansiava ter filhos, finalmente Simon acedeu aos desejos 
da mulher, sentindo-se apenas um pouco desiludido quando Marjorie deu  luz uma 
menina em vez de um menino. J tinha cinquenta anos quando Sasha nasceu e Marjorie 
trinta e nove. O beb passou de imediato a ser o amor da vida da me; tornaram-se 
inseparveis. Marjorie passava horas a fio com a filha, ria-se s gargalhadas e falava-lhe 
como se estivesse a arrulhar, brincando com ela no jardim.
      Quase entrou numa fase de luto quando Sasha comeou a ir  escola, o que 
obrigou a que estivessem separadas durante parte do dia. Sasha era uma criana terna e 
adorvel, uma mistura interessante dos progenitores. Possua um certo ar de austeridade 
do pai, a par da suavidade etrea da me. Marjorie era uma mulher loura de fisionomia 
anglica e olhos azuis, com a aparncia de madona de uma pintura italiana. Sasha tinha 
feies delicadas como a me e cabelo e olhos escuros como os do pai, mas, ao contrrio 
dos progenitores, era baixa e de aspecto frgil. 
     O pai costumava arreli-la, na brincadeira, dizendo-lhe que ela se assemelhava a 
uma miniatura de criana. Contudo, no havia nada de pequeno na alma de Sasha; 
possua a fora de vontade frrea do pai, o calor humano, a amabilidade e ternura da 
me, ao que se associava a franqueza que aprendera com o pai durante os primeiros 
anos de vida. J tinha quatro ou cinco anos quando ele comeou a reparar nela com 
olhos de ver, e quando isso aconteceu, s falava de arte com a filha. 
     Nos seus tempos livres, Simon percorria a galeria com ela, identificando os quadros 
e respectivos autores, mostrando-lhe os trabalhos de cada um reproduzidos em livros de 
artes plsticas, esperando que ela repetisse os nomes dos pintores e que fosse mesmo 
capaz de os soletrar quando j tinha idade para saber escrever. Em vez de se rebelar, a 
garota absorvia tudo o que ele lhe ensinava, retendo todas as informaes, por nfimas 
que fossem, que o pai lhe dava. Simon tinha muito orgulho nela. Tambm se sentia cada 
vez mais apaixonado pela mulher, que adoeceu trs anos depois de Sasha ter nascido.
     Inicialmente, a doena de Marjorie constituiu um mistrio para todos os mdicos que 
foram consultados e, bem no ntimo, Simon acreditava que o mal era psicossomtico. No 
tinha pacincia para doenas nem fraquezas, acreditando que qualquer problema de 
natureza fsica poderia ser dominado e superado. Mas, ao invs de conseguir ultrapassar 
a doena, Marjorie estava cada vez mais enfraquecida. 
     Somente decorrido um ano conseguiram obter um diagnstico em Londres, o qual 
foi confirmado em Nova Iorque: Marjorie sofria de uma doena degenerativa rara que lhe 
atacava os nervos e os msculos, e que, numa ltima fase, lhe incapacitaria os pulmes e 
o corao. Simon optou por rejeitar este diagnstico e Marjorie mostrou-se corajosa face 
a tal atitude, queixando-se pouco, fazendo tudo o que as foras lhe permitiam durante 
tanto tempo quanto lhe foi possvel na companhia do marido e da filha, descansando 
sempre que tinha oportunidade. 
     A doena nunca lhe esmoreceu o esprito, mas, como seria de esperar, o seu corpo 
acabou por sucumbir. Quando Sasha tinha sete anos j ela estava de cama, tendo vindo 
a falecer pouco depois de a filha completar nove anos. No obstante o que todos os 
mdicos lhe haviam dito, Simon ficou atordoado. Tal como Sasha. Nenhum dos 
progenitores a tinha preparado para a morte da me. 
     Tanto Sasha como Simon haviam-se acostumado ao interesse que Marjorie 
mostrava sempre por tudo o que ambos faziam e  maneira como participava na 
existncia dos dois, at mesmo depois de estar acamada. A percepo repentina de que 
ela desaparecera do seu mundo atingiu-os como uma bomba, unindo Sasha e o pai como 
nunca. Para alm da galeria, Sasha tornou-se o foco da vida de Simon.
     Sasha cresceu a amar a arte; era a sua fome, a sua sede, o seu sono, constitua 
tudo o que conhecia, o que fazia e amava alm do pai. 
     Era-lhe to dedicada quanto ele a ela. At mesmo em criana, j sabia tanto a 
respeito da galeria como Simon, assim como dos seus trabalhos complicados e 
intrigantes, conhecendo todos os que ali trabalhavam. Havia ocasies em que Simon 
pensava que, apesar de ainda ser muito novinha, ela era mais arguta em relao  galeria 
e muito mais criativa do que qualquer dos seus funcionrios. A nica coisa que o 
aborrecia, e que nem sequer tentava disfarar, era a paixo crescente da filha pela arte 
moderna e contempornea. Os trabalhos de arte contempornea irritavam-no 
sobremaneira, nunca hesitando em apelid-los de sucata, quer em privado quer em 
pblico. Simon amava e respeitava os grandes mestres da pintura e nada mais.
     Tal como o pai, Sasha estudou na Sorbonne, onde se licenciou em Histria da Arte; 
e tal como prometera  me, doutorou-se na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. 
Depois do doutoramento, trabalhou durante dois anos como estagiria no Museu 
Metropolitano de Arte, o que completou a sua educao acadmica. Durante esse 
perodo, ia a Paris com frequncia, por vezes apenas para passar um fim-de-semana. 
Simon tambm a visitava em Nova Iorque to amido quanto lhe era possvel. Alegava 
como desculpa que precisava de contactar com clientes e coleccionadores que tinha nos 
Estados Unidos da Amrica, aproveitando tambm para visitar alguns museus, mas o que 
ele queria realmente era poder ver Sasha, recorrendo a qualquer desculpa que lhe 
permitisse visitar a filha.
     Aquilo que Simon nunca esperara era o aparecimento de Arthur Boardman na vida 
de Sasha. Conheceu-o durante a primeira semana que passou na Universidade de 
Columbia aquando do doutoramento. Na altura tinha vinte e dois anos e casou-se com ele 
decorridos seis meses, a despeito dos protestos do pai. Inicialmente, 
     Simon ficou horrorizado por a filha se casar to nova. E a nica coisa que o 
abrandou, levando-o a acabar por dar o seu consentimento, foi o fato de Arthur lhe ter 
garantido que quando Sasha conclusse os estudos e o estgio em Nova Iorque se 
mudaria para Paris com ela, cidade em que passariam a viver. 
     Foi por pouco que Simon no o obrigou a assinar essa promessa com o seu prprio 
sangue. Mas at mesmo ele era incapaz de resistir ao ver como Sasha se sentia feliz. 
Finalmente, cedeu, admitindo que Arthur Boardman era uma boa pessoa e o homem certo 
para a filha.
     Arthur tinha trinta e dois anos, mais dez que Sasha. Estudara em Princeton e 
doutorara-se em Harvard. Tinha um cargo respeitvel num banco de investimentos de 
Wall Street que, muito convenientemente, possua uma sucursal em Paris. Desde os 
primeiros tempos do casamento, comeou a exercer toda a sua influncia para que o 
nomeassem para a gerir. Ao fim de um ano nasceu o primeiro filho, Xavier. 
     Dois anos depois, foi a vez de Tatiana chegar ao mundo. Apesar da maternidade, 
Sasha no descurou os seus estudos. Por sorte, as duas crianas nasceram no Vero, 
logo a seguir ao final do ano lectivo, e Sasha contratou uma ama para a ajudar a cuidar 
dos filhos enquanto ela ia s aulas e trabalhava no museu. 
     Aprendera a fazer malabarismos com o tempo, alm de ter observado o pai a gerir a 
galeria quando era criana. Adorava ter uma vida to preenchida e amava Arthur e os 
filhos. E se bem que ao princpio Simon fosse um av um tanto ou quanto relutante, no 
tardou a mostrar um grande entusiasmo pelas crianas, que eram encantadoras.
     Sasha passava com os filhos todos os momentos livres, tal como a me fizera 
consigo, entoando as mesmas canes e partilhando as mesmas brincadeiras. De facto, 
Tatiana era extraordinariamente parecida com a av materna, semelhana que, de incio, 
enervava Simon, mas,  medida que Tatiana foi crescendo, adorava sentar-se a observar 
a neta, enquanto pensava na falecida esposa. Era como se ela tivesse renascido na pele 
da garota.
     Cumprindo o que prometera, Arthur mudou-se com a famlia para Paris quando 
Sasha acabou o estgio de dois anos no Museu Metropolitano de Nova Iorque.
     
      Para todos os efeitos, o banco de investimentos entregava-lhe a sucursal de Paris 
para que ele a gerisse aos trinta e seis anos de idade; tal como Sasha, a administrao 
do banco depositava toda a confiana nele. Quanto a Sasha, ia passar a ter uma vida 
ainda mais ocupada do que em Nova Iorque, onde trabalhara no museu em regime de 
tempo parcial, dispondo do resto do seu tempo para cuidar dos filhos. 
     Em Paris, iria trabalhar com o pai na galeria. Agora j estava preparada para isso. 
Ele tinha concordado que ela sasse todos os dias s quinze horas, para poder estar com 
as crianas, mas Sasha sabia que teria tambm bastante do seu tempo ocupado com 
funes sociais, devido  posio do marido. Regressou a Paris vitoriosa, 
academicamente bem qualificada, empolgada e intrpida, entusiasmada por poder voltar 
ao seu pas. 
     O mesmo se aplicava a Simon, contentssimo por ela estar em casa e a trabalhar, 
finalmente, com ele. Havia vinte e seis anos que aguardava esse momento, que, por fim, 
chegara, para grande satisfao de pai e filha.
     Simon continuava a ter o mesmo aspecto austero que ostentava quando ela era 
criana, mas at mesmo Arthur reparou que, depois de se terem mudado para Paris, com 
o passar dos anos, a atitude de Simon foi abrandando de modo quase imperceptvel. De 
tempos a tempos, at se entretinha a tagarelar com os netos, muito embora, a maior parte 
das vezes em que os visitava, preferisse ficar sentado a observ-los. Nunca se sentira 
muito  vontade na presena de crianas pequenas, nem mesmo com Sasha, durante a 
meninice desta. Quando se mudaram para Paris j Simon tinha setenta e seis anos. Foi a 
partir dessa altura que a vida de Sasha conheceu um grande impulso.
     A primeira deciso que precisavam de tomar era decidir onde passariam a viver; 
Simon surpreendeu o casal ao resolver-lhes o dilema. Sasha planeara procurar um 
apartamento na margem esquerda. A famlia j era grande de mais para o andar que era 
propriedade do banco, no dcimo sexto bairro. Simon ofereceu-se para lhes ceder a ala 
da manso em que vivia, um espao elegante, com trs pisos, que fora a sua casa no s 
durante todo o tempo em que estivera casado, assim como nos anos anteriores e depois 
disso. 
     E insistiu, alegando que era grande de mais apenas para ele, alm de que os 
joelhos j se ressentiam quando tinha de subir as escadas, se bem que Sasha no 
acreditasse inteiramente no que o pai dizia; ele ainda conseguia fazer caminhadas de 
vrios quilmetros. Simon ofereceu-se para se mudar para o outro lado do ptio, para o 
ltimo andar da ala, onde se situavam os escritrios e armazns suplementares. E no 
perdeu tempo, metendo mos  obra para remodelar aquele espao, acrescentando-lhe 
umas bonitas janelas ovais sob o telhado de mansarda.
     Tambm mandou colocar uma cadeira motorizada para subir e descer as escadas, 
fazendo as delcias dos netos sempre que os autorizava a utiliz-la. Nessas alturas, subia 
as escadas ao lado deles, que soltavam risos de satisfao. Sasha ajudou-o nos 
trabalhos de remodelao e decorao, o que lhe deu uma ideia, que inicialmente, porm, 
no foi do agrado do pai. Era um plano que acalentava havia vrios anos e com o qual 
sonhara toda a vida: queria expandir a galeria para poder incluir trabalhos de artistas 
contemporneos. 
     A ala que anteriormente fora utilizada como armazm era perfeita para a 
concretizao do seu plano; situava-se no extremo oposto do ptio, onde ficavam os 
escritrios e os novos alojamentos do pai. Era evidente que abrir o piso trreo priv-los-ia 
de parte do espao que servia para armazenagem, mas j tinha consultado um arquitecto 
para lhes desenhar um novo armazm aproveitado ao mximo no andar de cima.  
primeira meno de poder vir a negociar trabalhos de arte contempornea, Simon ficou 
furibundo. 
     
     No tinha a mnima inteno de estragar o bom nome da sua galeria, de pr a sua 
reputao em perigo, vendendo os mamarrachos de que Sasha tanto gostava, da autoria 
de artistas que persistia em dizer que no possuam talento. Foi preciso quase um ano de 
discusses azedas para Sasha conseguir convenc-lo.
     S quando ela ameaou deixar a galeria e comear a trabalhar por conta prpria  
que Simon finalmente cedeu - se bem que com uma dose considervel de rancor e uma 
resmunguice feroz. No entanto, ainda que senhora de uma maneira de ser mais branda, 
Sasha era to inflexvel como o pai, o que lhe permitiu manter-se firme. Mas, mesmo 
depois de ter concordado com o seu plano, nem sequer se atrevia a reunir-se com os 
novos artistas nos escritrios principais, por o pai se comportar com tanta grosseria com 
eles. Todavia, a teimosia de Sasha igualava a de Simon. 
     Um ano depois de se terem mudado para Paris, inaugurou a ala de arte 
contempornea com toda a pompa e circunstncia. E, para grande perplexidade do pai, 
as crticas foram extremamente favorveis, no apenas por ela ser Sasha de Suvery, mas 
tambm porque tinha golpe de vista para o que eram trabalhos de arte contempornea de 
qualidade,  semelhana do que acontecia com o pai no campo de que se ocupava.
     Notavelmente, Sasha conseguia manter um p nos dois mundos: era conhecedora 
no respeitante ao que ele negociava de forma to competente como era brilhante em 
relao aos trabalhos modernos. Quando completou trinta anos, trs anos depois de ter 
aberto a Suvery Contempornea, esta j era a galeria de arte contempornea mais 
importante de Paris e talvez mesmo da Europa. 
     Alm do mais, nunca se divertira tanto em toda a sua vida, assim como Arthur. Ele 
adorava o que Sasha fazia, dando-lhe o seu apoio em todas as decises, em todos os 
investimentos, mais ainda do que o pai, que continuava a mostrar relutncia, apesar de, 
em ltima anlise, sentir um grande respeito por tudo o que ela conseguira concretizar em 
termos de arte contempornea. De facto, Sasha colocara a galeria do pai na vanguarda, o 
que fizera com grande impacto.
     Arthur adorava o contraste entre a vida profissional da mulher e a sua. Agradava-lhe 
a jovialidade que transparecia dos trabalhos que ela exibia, assim como o esprito 
brincalho dos artistas de artes plsticas com quem trabalhava, to diferente do dos 
banqueiros com quem ele tinha de lidar. Era frequente acompanh-la nas viagens que 
fazia a outras cidades para contactar novos artistas, alm de lhe agradar sobremaneira ir 
com ela a mostras de arte. 
     De comum acordo, tinham remodelado a ala de trs pisos em que viviam, 
transformando-a quase num museu de arte contempornea, com obras de pintores que 
comeavam a ser conhecidos. E os trabalhos que ela negociava na Suvery 
Contempornea eram, em termos financeiros, muito mais acessveis do que os 
impressionistas e quadros antigos de grandes mestres que o pai transaccionava. Os 
negcios de um e outro iam de vento em popa.
     Sasha geria o seu ramo do negcio havia oito anos quando tiveram de fazer face  
primeira crise grave. O banco de investimentos de que Arthur era scio h vrios anos 
insistiu com ele para que voltasse a gerir as instalaes de Wall Street. Dois dos scios 
haviam falecido num acidente areo com um avio particular e todos eram unnimes em 
que Arthur era a escolha bvia para gerir a sede do banco. 
     Na verdade, ele era a nica escolha. Por isso, e em boa conscincia, Arthur no 
tinha maneira de poder recusar-se. Para ele, a sua carreira tambm era muito importante, 
e a administrao do banco no tencionava dar-lhe qualquer sada. Precisavam dele em 
Nova Iorque.
     Sasha chorava copiosamente quando explicou a situao ao pai, fazendo que as 
lgrimas assomassem tambm aos olhos dele. 
     
     Durante os treze anos de casamento, Arthur sempre dera  mulher todo o seu apoio 
incondicional, o que se estendeu a todos os aspectos da sua carreira, e agora chegara a 
hora de ela fazer o mesmo por ele, mudando-se de novo para Nova Iorque. Seria pedir 
demasiado ao marido que abandonasse a sua carreira profissional por causa dela, de 
maneira que Sasha pudesse continuar a trabalhar com o pai na galeria, mesmo levando 
em conta que, inegavelmente, ele estava a envelhecer. 
     Nesta altura Sasha j tinha trinta e cinco anos e, se bem que no parecesse nem se 
comportasse como se tivesse essa idade, o pai j fizera oitenta e cinco. Alm do mais, 
fora afortunado por Arthur ter podido viver em Paris durante tanto tempo sem que com 
isso prejudicasse a sua carreira profissional. Mas agora chegara a altura de ele voltar  
terra onde nascera e de Sasha o acompanhar.
      maneira muito caracterstica de Sasha, precisou apenas de seis semanas para 
encontrar uma soluo. Mudar-se-iam para Nova Iorque dentro de um ms. Esta ideia fez 
o pai ficar com a respirao suspensa, de to horrorizado que se sentiu. Ops-se de 
imediato  ideia da filha, mostrando a mesma atitude que adoptara quando ela sugeriu 
que comeassem a negociar em arte moderna. Mas desta vez ela no o ameaou, pelo 
contrrio, implorou-lhe. 
     O que Sasha pretendia era abrir uma sucursal da galeria em Nova Iorque, que se 
dedicaria tanto aos trabalhos de artes plsticas antigos como modernos. O pai achou a 
ideia um disparate. A Suvery era a galeria de arte mais conceituada de Paris, contactada 
diariamente por norte-americanos que adquiriam peas de grande valor, assim como por 
museus de todo o mundo. No tinham qualquer necessidade de abrir uma sucursal em 
Nova Iorque, no fosse o facto de Sasha ir passar a viver nessa cidade, querendo 
continuar a trabalhar para o pai e na galeria que adorava, tal como fazia havia nove anos.
     Na verdade era um ponto de viragem na vida de todos. Arthur achava que a ideia da 
mulher era brilhante, dando-lhe todo o seu apoio, e foi ele quem acabou por conseguir 
convencer o sogro, se bem que at mesmo no dia em que partiram Simon continuasse a 
insistir em que a ideia era uma loucura. Sasha ofereceu-se para financiar o projecto com o 
seu prprio dinheiro, no que foi secundada por Arthur, mas, no fim, como sempre, o pai 
acabou por fazer o que ela queria. Assim que chegou a Nova Iorque, arranjou um 
apartamento na Park Avenue para a famlia; as instalaes da Galeria Suvery Nova 
Iorque ficariam num prdio em arenito na Rua Sessenta e Quatro, entre a Quinta Avenida 
e a Madison. 
     Como habitualmente, quando Sasha se empenhava a fundo num projecto, 
concretizando-o com uma energia e um trabalho incansveis, este revelou-se uma ideia 
brilhante. Entretanto, o pai visitou-os em vrias ocasies e, com alguma casmurrice, 
reconheceu que o espao era ideal para o que pretendiam, embora, como seria de 
esperar, a uma escala reduzida. Porm, quando chegou a altura de ir a Nova Iorque para 
a inaugurao da galeria de arte, o que teve lugar nove meses mais tarde, todo ele era 
sorrisos. 
     Sasha tornou-se uma personalidade muito admirada e respeitada no mundo da arte 
de Nova Iorque. Aos trinta e cinco anos, era uma das negociantes de arte mais 
importantes em todo o mundo, a exemplo do que acontecia com o pai, tendo acabado por 
integrar os corpos directivos dos Museus de Arte Moderna e Metropolitano, uma grande 
honra, porque ningum fizera parte dos dois simultaneamente at ento.
     Xavier e Tatiana, nesta altura, tinham doze e dez anos, respectivamente. Xavier 
adorava desenhar, enquanto Tatiana pegava em qualquer mquina fotogrfica que 
estivesse  mo, tirando fotografias incrivelmente divertidas a adultos surpresos. Tatiana 
parecia um pequeno elfo louro e Xavier era muito parecido com o pai, com a diferena de 
ter herdado o cabelo quase de um negro-azeviche do av e da me. Eram crianas lindas 
e encantadoras e ambas bilingues. 
     Sasha e Arthur concordaram em matricul-los no Lyce em Nova Iorque, mas 
Tatiana no se cansava de repetir que queria voltar para Paris; sentia saudades das 
amigas. Pelo contrrio, quase de imediato, Xavier afirmou que preferia viver em Nova 
Iorque.
     Durante os dois anos seguintes, foi com grande satisfao que Sasha geriu a sua 
galeria em Nova Iorque. Viajava frequentemente para Paris, regra geral duas vezes por 
ms. s vezes seguia no Concorde, quando tinha reunies importantes com o pai, 
regressando ainda nessa noite a Nova Iorque, para junto de Arthur e dos filhos. No Vero 
levava-os sempre de novo a Frana. Passava bastante tempo com o pai na casa que ele 
alugara havia vrios anos em Saint-Jean Cap Ferrat, mas alojava-se no den Roc com as 
crianas, pois, apesar de Simon adorar os netos, se passasse muito tempo com eles 
comeava a sentir-se enervado. E embora Sasha no gostasse de o admitir, a verdade  
que o pai estava a envelhecer. Tinha oitenta e sete anos e, a pouco e pouco, ia 
declinando.
     Com grande pesar, ambos haviam falado sobre o que ela devia fazer quando 
estivesse sozinha a gerir o negcio das galerias. Sasha tinha dificuldade em imaginar tal 
situao, ao contrrio do pai, que encarava o caso com toda a naturalidade. Tivera uma 
vida bastante longa e no receava o que o destino lhe reservava. Havia ensinado bem os 
que trabalhavam para si. Com o tempo, ela conseguiria viver quer em Paris quer em Nova 
Iorque, tendo pessoas competentes a trabalhar para si em qualquer das duas cidades. 
Teria de dividir o seu tempo pelas duas galerias, como  evidente, viajando com 
regularidade entre uma e outra, mas a escolha quanto  cidade em que passaria a residir 
era sua, graas  previdncia e perspiccia do pai. 
     Tinham gerentes excelentes nas duas galerias, mas era em Paris que ela se sentia 
em casa, o que no significava que no gostasse de viver e trabalhar em Nova Iorque. 
Era inegvel que, nessa altura, Arthur estava de tal maneira ligado ao banco que no 
podia viver em qualquer outro lugar que no fosse Nova Iorque. Sasha tinha noo de 
que no poderia mudar-se para outro local at que ele se aposentasse. E uma vez que 
Arthur tinha apenas quarenta e sete anos, a aposentadoria  ainda estava muito longe. 
Sentia-se afortunada por o pai continuar a gerir a galeria de Paris, a despeito dos seus 
oitenta e sete anos. 
     Simon era notvel, apesar de o seu ritmo de vida ter abrandado quase 
imperceptivelmente. No obstante, ou talvez devido a isso mesmo, Sasha ficou atnita 
quando ele faleceu de morte sbita, com oitenta e nove anos. No fundo, sempre 
acalentara o sonho de que ele vivesse para sempre. Mas Simon morreu precisamente 
como teria desejado: estava sentado  sua secretria quando foi acometido de uma 
apoplexia fulminante. Os mdicos disseram que no havia sofrido. Morreu de um 
momento para o outro depois de ter concludo um negcio importante com um 
coleccionador da Holanda.
     Em estado de choque, Sasha seguiu de avio para Paris nessa mesma noite; 
atordoada, deambulou pela galeria como se no soubesse o que fazia, incapaz de 
acreditar que o pai havia desaparecido para sempre. A cerimnia fnebre foi um 
acontecimento importante. O presidente da Repblica esteve presente, assim como o 
ministro da Cultura, e todas as pessoas relevantes do mundo das artes compareceram 
para prestar homenagem ao falecido, assim como os amigos, clientes, Arthur e as 
crianas. 
     Era um dia frio de Novembro e chovia intensamente quando o corpo baixou  terra 
no Cemitrio Pre Lachaise, situado no vigsimo bairro, no extremo oriental de Paris. 
Simon ficou rodeado por personalidades como Victor Hugo, Proust, Balzac e Chopin, uma 
ltima morada adequada  pessoa que fora em vida.
     
     Depois do funeral, Sasha passou as quatro semanas seguintes em Paris a tratar de 
vrios assuntos com os advogados, a organizar as coisas e a guardar os papis e 
pertences do pai. A estada foi mais prolongada do que o necessrio, mas desta feita a 
perspectiva da partida era-lhe insuportvel. Pela primeira vez desde que deixara de viver 
em Paris Sasha queria continuar na sua terra natal, ficar perto do local onde o pai vivera e 
trabalhara. Um ms mais tarde, quando finalmente entrou no avio que a levaria para sua 
casa em Nova Iorque, sentia-se rf.
      Os estabelecimentos comerciais e as ruas, decorados de acordo com a quadra 
natalcia, pareciam-lhe uma afronta depois da perda que acabara de sofrer. Foi um ano 
muito difcil para Sasha, mas, a despeito disso, as duas galerias prosperavam. Os anos 
que se seguiram foram pacficos, felizes e produtivos. Sentia saudades do pai, mas, a 
pouco e pouco, foi criando razes em Nova Iorque  medida que as crianas cresciam, e 
continuava a voltar a Paris duas vezes por ms, a fim de orientar a gesto da galeria.
     Oito anos depois da morte do pai, as duas galerias iam de vento em popa e eram 
igualmente bem-sucedidas. Arthur comeara a falar em aposentar-se quando fizesse 
cinquenta e sete anos. Tivera uma carreira respeitvel e de sucesso, mas, em privado, 
confidenciava a Sasha que se sentia cansado. Xavier, j com vinte e quatro anos, vivia e 
pintava em Londres, expondo os seus trabalhos numa pequena galeria no Soho.
      Apesar de Sasha adorar os quadros do filho, ainda no tinham a qualidade 
necessria para os expor nas suas galerias. O amor que lhe dedicava no a impedia de 
ver que ele ainda teria de progredir. Possua talento, mas, como artista, ainda no atingira 
o auge da maturidade. Todavia, era um apaixonado pelo seu trabalho. O rapaz adorava 
tudo o que se relacionasse com o mundo da arte de que fazia parte em Londres e Sasha 
sentia-se muito orgulhosa do filho. Acreditava que um dia seria um grande pintor, e, com o 
tempo, esperava poder vir a expor os seus trabalhos.
     Quanto a Tatiana, licenciara-se na Brown havia quatro meses em Belas-Artes e 
Fotografia. E comeara a trabalhar como terceira-assistente de um fotgrafo de renome 
em Nova Iorque, o que, na prtica, significava que ocasionalmente lhe mudava os rolos 
de pelcula, lhe levava o caf e varria o cho do estdio, mas a me assegurou-lhe que ao 
princpio as coisas eram assim mesmo. 
     Nenhum dos filhos mostrava o mnimo interesse em trabalhar nas galerias com ela. 
Ambos eram de opinio de que o que fazia era maravilhoso, mas queriam ter vidas e 
carreiras profissionais independentes. Sasha apercebia-se de quo raro era aprender 
tanto como ela aprendera com o pai; a oportunidade que ele lhe dera e a educao que 
lhe havia sido proporcionada por ter sido criada no seio da atividade profissional que 
Simon abraara e junto dele no tinham preo. Era com pesar que reconhecia no ser 
capaz de seguir esse exemplo em relao aos filhos.
     Sasha perguntava-se se um dia Xavier quereria trabalhar consigo na galeria, mas, 
para j, tal possibilidade parecia remota. Agora que Arthur comeava a falar na hiptese 
de se aposentar, sentia-se atrada para as suas razes em Paris. Por muito que gostasse 
do ambiente empolgante de Nova Iorque, a vida parecia-lhe sempre muito mais agradvel 
quando voltava  sua terra natal. Para ela, a sua casa continuava a ser em Paris, apesar 
de possuir dupla nacionalidade, graas  me, francesa, e a dezasseis dos seus quarenta 
e sete anos, um tero da sua vida, passados em Nova Iorque. 
     Mas, no seu ntimo, Sasha continuava a ser francesa. Arthur no se opunha  ideia 
de voltarem a viver em Paris depois de se aposentar, e no Outono comearam a falar 
mais a srio sobre o assunto.
     Numa sexta-feira soalheira de Outubro, um dos ltimos dias de tempo quente, 
Sasha fazia uma breve inspeo a um lote de pinturas que planeavam vender a um 
museu de Boston. Mantinham os quadros dos mestres antigos e os trabalhos mais 
tradicionais nos dois andares superiores do prdio de arenito. 
     O primeiro e segundo pisos estavam reservados s peas contemporneas, pelas 
quais atualmente eram famosos. O gabinete de Sasha situava-se num canto das traseiras 
do piso trreo.
     Depois de ter percorrido os andares de cima, guardou alguns papis dentro da pasta 
e olhou pela janela do gabinete para o jardim cheio de peas de estaturia. Tal como 
acontecia com a maior parte dos trabalhos de arte moderna, era um reflexo do gosto de 
Sasha. Adorava ficar a observar as peas que se encontravam no jardim, especialmente 
quando nevava, mas ainda faltavam dois meses para a chegada das primeiras neves, 
pensou, enquanto pegava na pasta bastante cheia.
      Estaria ausente da galeria durante toda a semana seguinte, pois partiria na manh 
de domingo para Paris, onde ia inteirar-se de como as coisas estavam a correr. 
Continuava a fazer as suas viagens de rotina de duas em duas semanas, tal como vinha a 
acontecer desde a morte do pai, havia oito anos. Era uma negociante que no delegava 
poderes, quer numa cidade quer noutra, e j estava muito acostumada a estas viagens 
regulares. Era um hbito fcil de manter e que no a impedia de ter a sua vida, os seus 
amigos e os seus clientes nas duas cidades. Sasha sentia-se to  vontade em Paris 
como em Nova Iorque.
     Estava a pensar no fim-de-semana quando o telefone comeou a tocar, 
precisamente quando se preparava para deixar o gabinete. Era Xavier que lhe ligava de 
Londres. Sasha olhou de relance para o relgio, constatando que era quase meia-noite no 
pas onde o filho se encontrava. Assim que ouviu a sua voz esboou um sorriso. Amava 
os dois filhos, contudo, sob certos aspectos, sentia-se mais prxima de Xavier. Sempre 
achara que era mais fcil lidar com ele. Tatiana era mais chegada ao pai, embora tambm 
tivesse algumas afinidades com Simon. 
     A sua maneira de ser possua uma faceta mais dura e crtica, que a tornava menos 
propensa a ceder e a ser consensual do que o irmo. Xavier e a me eram almas gmeas 
sob muitos aspectos: ambos possuam um carcter brando e eram igualmente 
compreensivos, sempre dispostos a perdoar algum que amassem ou um amigo. Tatiana, 
pelo contrrio, adoptava uma postura mais endurecida face  vida e s pessoas.
     - Estava com medo de que a me j tivesse sado - disse Xavier com um sorriso e 
um bocejo. Sasha fechou os olhos, pensando nele e visualizando o rosto do filho. Sempre 
fora uma criana encantadora e agora era um jovem extremamente bem-parecido.
     - De facto j estava de sada, apanhaste-me por um triz. O que  que ests a fazer 
em casa numa sexta-feira  noite?
     - Xavier tinha uma vida social muito activa no mundo artstico de Londres, ao que se 
associava uma fraqueza por mulheres bonitas - em grande nmero. Era uma coisa que 
sempre divertira a me, sendo frequente que brincasse com ele por causa disso.
     - Acabei de chegar a casa - explicou Xavier, defendendo a sua reputao.
     - Sozinho? Estou decepcionada... - continuou Sasha, atazanando-o. Divertiste-te?
     - Fui com um amigo  inaugurao de uma galeria e depois fomos jantar. Toda a 
gente se embebedou e as coisas comearam a ficar um pouco descontroladas, por isso 
achei por bem vir para casa, antes de sermos todos presos.
     - Parece ter sido muito interessante... - retorquiu Sasha, voltando a sentar-se  sua 
mesa de trabalho e olhando para o jardim, enquanto pensava quanto sentia a falta dele. O 
que  que estavam a fazer para poderem ser presos? Apesar de gostar muito de 
mulheres, a maior parte delas eram inofensivas e bastante cordatas. Ele era apenas um 
homem jovem que se queria divertir e que, por vezes, se comportava como se ainda fosse 
um rapazinho, sempre a fazer traquinices. 
     A irm gostava de afirmar, para quem a quisesse ouvir, que era muito mais 
respeitvel do que ele, considerando que as mulheres com quem Xavier saa eram 
desprezveis.
      Nunca perdia uma oportunidade de o repetir, no s  me, mas tambm ao irmo, 
que, cheio de ardor, saa em defesa das suas damas, independentemente de quem elas 
fossem, atrevidas ou no.
     - Fui  inaugurao com um pintor que conheo.  um tanto ou quanto excntrico, 
mas tem muito talento. Quero que a me o conhea um dia destes. Chama-se Liam 
Allison. Os seus quadros de pintura abstracta so fantsticos. A exposio a que fomos 
esta noite  magnfica, embora ele no tenha sido dessa opinio. Aborreceu-se durante a 
inaugurao e embebedou-se. 
     Depois fomos jantar a um pub e ficou ainda mais embriagado. - Xavier adorava 
telefonar  me para lhe falar das suas amizades; eram poucos os segredos que no 
partilhava com ela. Sasha divertia-se a ouvir as histrias e peripcias do filho. Desde que 
ele sara de casa que sentia a sua falta.
     - Deve ter sido uma maravilha... Estou a referir-me ao facto de ele se ter 
embebedado. - Presumia que o amigo fosse mais ou menos da idade do filho. Dois 
rapazes folgazes, mas sem que sassem dos eixos.
     - Por acaso at foi. Quando estvamos no bar, despiu as calas. Mas o mais 
divertido foi o fato de ningum ter reparado nisso at ele ter perguntado a uma rapariga se 
queria danar. Acho que nessa altura j ele prprio se tinha esquecido de que estava sem 
calas, mas quando foi para a pista em cuecas houve uma velhota que lhe bateu com a 
mala de mo. Ento o Liam convidou-a para danar, e at chegou a dar algumas voltas 
com ela. Foi a coisa mais divertida que vi! 
     A velhota tinha pouco mais de um metro e vinte de altura e no parava de lhe bater 
com a mala. Parecia uma cena tirada dos Monty Python!... Ele  um danarino excelente. 
- Sasha ria-se enquanto o filho lhe contava a histria, imaginando a cena, o pintor em 
cuecas a danar com uma mulher de idade enquanto ela lhe batia. - O Liam foi muito 
corts com ela e toda a gente se ria a bandeiras despregadas, mas pouco depois o 
empregado do bar disse que ia chamar a Polcia; achei que era melhor lev-lo para casa 
e entreg-lo  mulher.
     - Ele  casado? - perguntou Sasha, que pareceu ter ficado admirada com aquela 
informao. - Com a tua idade?
     - O Liam no tem a minha idade, me. Tem trinta e oito anos e trs filhos. So umas 
crianas encantadoras. A mulher tambm  muito simptica.
     - Ento... e onde  que ela estava? - perguntou Sasha num tom de voz em que se 
adivinhava alguma censura.
     - Ela detesta sair com ele - replicou Xavier, como se aquilo fosse a coisa mais 
natural do mundo. Liam Allison tornara-se um dos seus melhores amigos em Londres. Era 
um pintor que encarava a sua actividade com muita seriedade e a vida com alguma 
ligeireza, senhor de um sentido de humor extravagante e com uma grande propenso 
para pregar partidas, para gracejar e para brincadeiras de mau gosto.
     - Estou a ver por que razo a mulher detesta sair com ele - comentou Sasha, 
referindo-se ao amigo do filho. Eu tambm no gostaria de sair com um marido que despe 
as calas em pblico e depois pede a senhoras de idade que dancem com ele.
     - Foi mais ou menos isso que ela disse quando o levei para casa. O Liam perdeu a 
conscincia mal o deitei no sof, e tomei um copo de vinho com ela antes de sair.  uma 
boa mulher.
     - Tem de ser, para aturar isso tudo. Ele  alcolico? Por momentos, Sasha pareceu 
assumir uma atitude circunspecta, perguntando-se com que tipo de pessoas o filho se 
daria. O amigo de Xavier no lhe parecia ser a companhia ideal nem uma boa influncia.
     - No, no  alcolico - replicou Xavier, rindo-se. S se sentia aborrecido, por isso 
apostou comigo que ningum haveria de reparar durante uma hora se ele despisse as 
calas no pub. E ganhou. Ningum reparou nisso at ele ter comeado a danar!
     - Bem, s espero que no tenhas despido as tuas... retorquiu Sasha, falando com 
uma autoridade maternal que fez com que Xavier se risse dela. Adorava-a.
     - No, no despi as calas. O Liam afirmou que era uma cobardia da minha parte 
no me atrever a faz-lo, e disse que apostaria o dobro se eu tambm despisse as 
minhas. Mas no despi.
     - Muito obrigada, meu querido. Fico bastante aliviada por saber isso - retorquiu 
Sasha, consultando o relgio. Tinha combinado encontrar-se com Arthur s dezoito horas, 
e j passavam dez minutos. Adorava falar com o filho. - Detesto ter de fazer isto, mas 
prometi ao teu pai ir ter com ele a casa, e j estou atrasada dez minutos. Vamos de carro 
para os Hamptons depois do jantar.
     -J calculava. S quis saber se estavam bons.
     - Ainda bem que telefonaste. Planeaste alguma coisa de especial para este fim-de-
semana? - Sasha gostava de se manter a par das andanas do filho, assim como de 
Tatiana, embora em relao a esta no o fizesse com tanta frequncia. A filha mostrava 
ser mais independente. Fosse como fosse, ultimamente era mais provvel que ela 
contactasse Arthur do que a me. Sasha no falara com a filha durante toda a semana.
     - No tenciono fazer nada de especial. O tempo tem estado horrvel. Acho que vou 
ficar em casa a pintar.
     - ptimo. No domingo  noite vou viajar para Paris. Ligo-te quando chegar. Tens 
tempo para me visitar esta semana?
     - Talvez. Falamos no domingo  noite. Tenha um bom fim-de-semana. Diga ao pai 
que gosto muito dele.
     - Assim farei. Tambm gosto muito de ti... e diz ao teu amigo que da prxima vez 
deve ficar com as calas vestidas. Tens muita sorte por os dois no terem acabado na 
cadeia, por causarem tumulto ou por comportamento indecente em pblico, por se 
divertirem em excesso ou por qualquer outro motivo. - Xavier divertia-se sempre onde 
quer que estivesse e, aparentemente, era o que acontecia com o seu amigo Liam. No 
era a primeira vez que mencionava o seu nome, tendo dito sempre que queria que a me 
visse os trabalhos dele. 
     Um dia destes tencionava fazer-lhe a vontade, se bem que ainda no tivesse tido 
tempo. Andava sempre a correr de um lado para o outro, e quando ia a Londres era para 
se encontrar com pintores que j representava, alm de querer ver Xavier. J lhe dissera 
que lhe enviasse diapositivos dos trabalhos do amigo, mas ele nunca o fizera, o que a 
levava a pensar que no falava a srio ou que sentia que ainda no estava preparado 
para lhe mostrar esses trabalhos. 
     Fosse como fosse, o homem parecia ser uma pessoa revoltante. Ela j representava 
vrias personagens extravagantes e no estava bem certa de querer mais outra, por 
muito divertido que Xavier o achasse. Era muito mais fcil lidar com artistas que 
encaravam as suas carreiras com seriedade e se comportavam como pessoas adultas. 
Homens com quase quarenta anos que tinham um comportamento censurvel e se 
despiam em pblico eram uma dor de cabea, e ela no precisava de mais como esses. 
Falamos no domingo - concluiu Sasha. Telefono-lhe para Paris. 
     Adeus, me - despediu-se Xavier animadamente antes de desligar; Sasha sorria 
enquanto se apressava a sair do gabinete. No queria que Arthur ficasse mais tempo  
sua espera e, alm disso, ainda tinha de preparar o jantar para os dois, mas estava muito 
contente por ter podido falar com o filho.
     Acenou a todos de passagem enquanto abandonava as instalaes num passo 
apressado; chegada  rua, mandou parar um txi que a levasse at ao apartamento, 
situado a pouca distncia, ainda a pensar em Xavier. Sabia que Arthur estaria  sua 
espera, ansioso por poder deixar a cidade. O trnsito era sempre impossvel  sexta-feira, 
embora fosse um pouco menos intenso se esperassem at depois da hora do jantar. O 
tempo estava esplndido. Apesar de j ser Outubro, fazia calor e estava muito sol. 
Sentada no txi, descontraiu-se por momentos, fechando os olhos. A semana tinha sido 
longa e estava cansada. O apartamento a que voltava era a nica coisa na vida deles que 
considerava desadequada. Havia doze anos que l viviam, desde que se tinham mudado 
de Paris para Nova Iorque, e agora que os filhos haviam sado de casa parecia 
demasiado grande para os dois. No desistia de insistir com Arthur para que o vendesse, 
aps o que poderiam mudar-se para um andar mais pequeno na Quinta Avenida, com 
vista para o parque. Por outro lado, como pensavam na hiptese de se instalarem em 
Paris depois de ele se aposentar, concordaram que seria melhor esperar at decidirem 
definitivamente o que fazer. 
     Caso mudassem para Paris, apenas precisariam de ter em Nova Iorque uma 
segunda residncia pequena. Encontravam-se num daqueles momentos raros em que 
Sasha sentia que a vida deles estava a mudar. Era o que lhe parecia desde que Tatiana 
se licenciara, tendo-se mudado para a sua prpria casa. Havia ocasies em que sentia 
um vazio na sua vida, agora que os filhos tinham sado de casa. Arthur costumava brincar 
a respeito desse assunto sempre que ela o mencionava, recordando-lhe que era uma das 
mulheres mais ocupadas de Nova Iorque ou de qualquer outra cidade do mundo, mas, 
fosse como fosse, Sasha sentia falta dos filhos. 
     Tinham sido uma parte vital da sua existncia, pelo que, por vezes, ficava triste, 
sentindo-se fragilizada e menos til, agora que ambos haviam partido. Estava grata por 
tanto Arthur como ela gostarem de viajar e de passar tempo juntos. Se possvel, estavam 
mais unidos do que nunca e ainda mais apaixonados. Vinte e cinco anos de casamento 
no haviam diminudo o amor e a paixo que sentiam um pelo outro, pelo contrrio, a 
familiaridade e a passagem do tempo tinham reforado os laos afetivos e de unio entre 
os dois, os quais eram cada vez mais fortes.
     Arthur estava  espera de Sasha quando esta chegou a casa, sorrindo-lhe assim 
que a viu. Ainda vestia a camisa branca que levara para o escritrio nessa manh e tinha 
arregaado as mangas. Atirara o casaco para as costas de uma cadeira. J havia 
guardado num saco de viagem algumas das coisas que levariam para o fim-de-semana 
na casa que tinham em Southampton. Sasha planeara preparar uma salada para 
acompanhar galinha fria. Ambos gostavam de sair da cidade depois da hora de ponta; os 
fins-de-semana nos meses de Vero e de Outono eram impossveis.
     - Como  que foi o teu dia? - perguntou Arthur, dando-lhe um beijo na cabea. 
Sasha penteava o cabelo todo para trs, prendendo-o num carrapito, tal como fizera toda 
a vida, mas durante os fins-de-semana, quando estavam nos Hamptons, fazia uma trana 
comprida que lhe caa pelas costas. 
     Adorava vestir roupas velhas, calas de ganga rotas e camisolas largas ou T-shirts 
desbotadas. Era um alvio no se vestir formalmente como tinha de fazer todos os dias 
para ir para a galeria. Arthur adorava jogar golfe e fazer caminhadas pela praia. Na sua 
juventude fora um marinheiro exmio, paixo que os filhos haviam herdado, e adorava 
jogar tnis com Sasha. A maior parte das vezes, durante os fins-de-semana, ela fazia um 
pouco de jardinagem ou aninhava-se confortavelmente a ler um livro.
     Tentava no ter de trabalhar durante os fins-de-semana, muito embora, por vezes, 
tivesse de levar papis da galeria consigo. semelhana do que acontecia com o 
apartamento da cidade, actualmente a casa da praia tambm era demasiado grande s 
para os dois, mas isso era algo que a incomodava menos. No lhe era difcil imaginar-se 
um dia com netos, alm de que era frequente que os filhos fossem l de visita 
acompanhados dos amigos. 
     Para Sasha, a casa nos Hamptons parecia-lhe sempre cheia de vida, talvez devido  
vista para o oceano de que desfrutavam. Pelo contrrio, o apartamento da cidade dava-
lhe uma sensao de solido e de morte.
     
     - Peo desculpa por me ter atrasado - disse Sasha, encaminhando-se 
apressadamente para a cozinha, depois de lhe ter dado um beijo. Aps tantos anos de 
casamento, continuavam a amar-se e a divertir-se juntos. - O Xavier ligou-me quando j 
me preparava para sair.
     - Como  que ele est?
     - Acho que estava um pouco embriagado. Tinha sado com uma pessoa que tem um 
comportamento muito reprovvel.
     - Uma mulher? - perguntou Arthur com um interesse renovado.
     - No, um pintor. Despiu as calas em pblico.
     - O Xavier despiu as calas? - Arthur pareceu ter ficado atordoado, enquanto Sasha 
temperava a salada.
     - No, o amigo  que se despiu. Outro pintor destrambelhado!... - retorquiu Sasha 
com um abanar de cabea, dispondo a galinha numa travessa.
     Enquanto ela preparava o jantar para os dois, colocando toalhetes e guardanapos 
de linho e uns pratos bonitos na mesa da cozinha, Arthur mantinha-se de p a falar sobre 
banalidades. Sasha gostava de fazer aquele tipo de coisas para o marido, que nunca 
deixava de reparar, elogiando-a pelo trabalho que tivera.
     - Trouxeste a pasta cheia de papis, Sasha - comentou ele, olhando para a pasta 
enquanto se servia de um pouco de salada, com uma expresso relaxada e de 
contentamento. Adorava os fins-de-semana que passavam na praia. Eram sagrados para 
os dois. Nunca permitiam que o que quer que fosse interferisse nos seus fins-de-semana, 
excepto uma doena grave ou um acontecimento inadivel. A no ser em qualquer destes 
casos, todas as sextas-feiras, chovesse ou fizesse sol, de Vero ou de Inverno, faziam-se 
 estrada s dezanove horas, seguindo em direco a Southampton.
     - No domingo vou para Paris - recordou-lhe ela enquanto comiam a salada e lhe 
servia outro pedao da galinha que a empregada lhes deixara j preparada.
     - Tinha-me esquecido. Quanto tempo pensas ficar l?
     - Quatro dias, talvez cinco. Tenciono voltar para casa antes do fim-de-semana.
     A conversa entre eles era tpica de duas pessoas casadas havia muitos anos e que 
estavam muito acostumadas uma  outra. No diziam nada de importante, limitando-se a 
desfrutar da companhia mtua. Arthur falou-lhe de algum que estava prestes a reformar-
se, assim como de uma transaco de somenos importncia que no havia corrido de 
acordo com as expectativas. Quanto a Sasha, contou-lhe que firmara contrato com um 
novo artista, um jovem pintor brasileiro muito talentoso. 
     Tambm mencionou que Xavier lhe dissera que tentaria ir a Paris para a ver durante 
a semana seguinte. O filho era organizado, estabelecendo o seu prprio horrio, ao 
contrrio de Tatiana, que tinha de se sujeitar aos caprichos do fotgrafo seu empregador. 
Este trabalhava muitas horas todos os dias, o que a obrigava a ficar at tarde no estdio, 
e ela gostava de passar os tempos livres com os amigos. No entanto, era preciso levar 
em considerao que era dois anos mais nova do que o irmo, continuando a lutar pela 
sua prpria independncia.
     - Quem  a rapariga da semana? - perguntou Arthur com uma expresso divertida. 
Conhecia bem o filho, tal como Sasha. Ao olhar para Arthur com um sorriso nos lbios, 
reparou, como acontecia muitas vezes, como ele continuava bem-parecido. Era um 
homem alto e magro, mantinha-se em boa forma fsica e tinha feies bem delineadas, 
com um queixo firme. Sasha apaixonara-se por ele desde o primeiro momento em que 
entrou na sua vida. Na verdade, amava-o mais do que nunca. Tinha noo de quanto era 
afortunada. Muitas das suas amigas de Nova Iorque estavam divorciadas, uma ou duas 
haviam enviuvado, e nenhuma parecia capaz de encontrar um homem decente. No se 
cansavam de lhe lembrar a sorte que tinha. De qualquer forma, ela sabia-o. Desde que se 
haviam conhecido que Arthur era o amor da sua vida.
     - A ltima vez que lhe perguntei disse-me que era a modelo de um pintor qualquer 
que conheceu numa aula de desenho - replicou Sasha com um sorriso rasgado. Xavier 
era conhecido entre os amigos e familiares por ter sempre uma corte de mulheres que o 
adoravam, mas passava a vida a mudar de namorada. Era extremamente bem-parecido, 
alm de ser uma pessoa de quem era impossvel no gostar, pelo que as mulheres o 
achavam irresistvel. E ele era igualmente incapaz de lhes resistir. 
     J desisti de lhe perguntar como  que elas se chamam  acrescentou Sasha, 
levantando a mesa, enquanto o marido lhe sorria com uma expresso de admirao. 
Colocou os pratos dentro da mquina de lavar loua. Atualmente viviam de uma maneira 
muito simples e frugal, se bem que quando os filhos viviam com eles a famlia se reunisse 
todas as noites  mesa. Mas agora Arthur e Sasha jantavam na cozinha, sempre uma 
refeio leve e fcil de preparar, o que era muito mais simples.
     - H anos que no pergunto ao Xavier como  que as namoradas se chamam - 
retorquiu Arthur, rindo-se do comentrio dela. - Todas as vezes que tratava uma pelo 
nome prprio, constatava que ele j tinha tido cinco depois dessa. Agora j no caio na 
esparrela. - Foi trocar de roupa, vestindo umas calas de caqui e uma camisola velha, 
mas confortvel, exemplo que Sasha seguiu.
     Vinte minutos mais tarde estavam prontos para partir, fazendo a viagem na carrinha 
de Sasha. Mantinha aquela viatura, apesar de os filhos j terem sado de casa, porque 
era til quando precisava de ir buscar os trabalhos dos artistas em princpio de carreira. 
Trouxera alguns produtos de mercearia na parte de trs, assim como um pequeno saco 
de viagem com as coisas dos dois. Conservavam as roupas de praia em Southampton, 
para no terem de levar muita coisa sempre que iam l. 
     Tambm guardava a mala de viagem que levaria para Paris, assim como a pasta 
demasiado cheia a que o marido aludira. Planeava ir diretamente de Southampton para o 
aeroporto no domingo, para o que teria de partir num voo que sasse s primeiras horas 
da manh, o que lhe permitiria chegar a Paris ao fim do dia. Quando era forada a isso, 
seguia no voo noturno, mas no havia nada de premente nessa semana, e para ela fazia 
mais sentido viajar num voo diurno, apesar de detestar no poder passar o domingo com 
Arthur.
     s vinte e duas horas j estavam em Southampton e Sasha ficou surpreendida ao 
aperceber-se de que se sentia cansada. Como de costume, Arthur  que havia conduzido, 
o que lhe permitira passar pelas brasas durante a viagem; foi com satisfao que se 
deitou ainda no era meia-noite. Antes disso tinham estado sentados no alpendre a 
admirar o oceano banhado pelo luar. O tempo estava clido; passava uma brisa amena e 
a noite era de uma limpidez cristalina. Quando se deitaram adormeceram mal 
descansaram a cabea na almofada.
     Como acontecia frequentemente quando estavam na casa da praia, fizeram amor 
quando acordaram, pela manh. Depois deixaram-se ficar deitados, aninhados um no 
outro. A sua vida sexual no sofrera de tdio ao longo dos anos, pelo contrrio, melhorara 
com a familiaridade e um afecto muito profundo. Pouco depois, Arthur foi com ela para a 
casa de banho, tomando duche, enquanto Sasha relaxava num banho de imerso; 
adorava a indolncia de que desfrutavam nas manhs passadas em Southampton. 
Depois do banho, foram para a cozinha e Sasha preparou o pequeno-almoo, aps o que 
fizeram uma longa caminhada pela praia. 
     O dia estava magnfico, quente e soalheiro, e mal se sentia uma ligeira brisa. Era a 
primeira semana de Outubro e no tardaria muito que o Outono trouxesse alguma 
frialdade, mas ainda era cedo para isso. Parecia que estavam no Vero.
     No sbado, Arthur levou Sasha a jantar fora a um pequeno restaurante italiano de 
que ambos gostavam muito. Depois do jantar, j em casa, sentaram-se no alpendre a 
beber um copo de vinho enquanto conversavam. A vida parecia decorrer de forma 
harmoniosa e sem grandes atribulaes. 
     Nessa noite deitaram-se cedo, uma vez que Sasha teria de se levantar de 
madrugada, a fim de seguir para o aeroporto, embarcando no avio que a levaria a Paris. 
No lhe agradava deixar o marido sozinho, contudo, aquelas viagens eram situaes 
comuns na vida de ambos. Para Sasha, ausentar-se durante quatro ou cinco dias no era 
nada de especial. Nessa noite, aninhou-se nos seus braos, com o corpo encostado ao 
dele, at que adormeceram. 
     Tinha de se pr a p s quatro horas, saindo de casa s cinco, para poder estar no 
aeroporto por volta das sete horas, a fim de embarcar no voo que partiria s nove. O 
avio aterraria em Paris s vinte e uma, hora local, o que lhe permitiria chegar a casa por 
volta das vinte e trs horas e dormir descansadamente antes de comear a trabalhar no 
dia seguinte.
     Quando o despertador tocou, s quatro da manh, silenciou-o imediatamente, deu 
um abrao demorado a Arthur e depois, bastante a contragosto, levantou-se da cama. s 
escuras, foi para a casa de banho em bicos de ps, vestiu umas calas de ganga e uma 
camisola preta e calou uns sapatos de pala Hermes confortveis que j tinham visto 
melhores dias. Porm, havia muito que Sasha deixara de se vestir com elegncia para 
voos prolongados; o conforto parecia-lhe mais importante. 
     Regra geral, conseguia dormir durante a viagem. Deteve-se a olhar demoradamente 
para Arthur antes de sair e depois baixou-se para o beijar ao de leve na cabea, com 
cuidado, para no o despertar. Mesmo assim ele mexeu-se, sorrindo-lhe, apesar de 
continuar adormecido. Momentos depois pestanejou e o sorriso alargou-se, estendendo a 
mo e puxando-a para junto de si.
     - Amo-te, Sasha - sussurrou numa voz sonolenta. Volta depressa. Vou ter saudades 
de ti. - Arthur dizia-lhe sempre este tipo de meiguices, o que fazia que ela o amasse ainda 
mais. Beijou-o na face, aps o que lhe aconchegou as roupas da cama, tal como 
costumava fazer aos filhos quando eram pequenos.
     - Tambm te amo - murmurou. - Volta a dormir. Telefono-te quando chegar a Paris. - 
E ligava sempre. Sabia que o apanharia antes de ele seguir de automvel para a cidade, 
desejando poder continuar ali junto dele.
     Seria bom quando Arthur se aposentasse, porque poderia acompanh-la em todas 
as viagens que tivesse de fazer. Era uma ideia que cada vez lhe agradava mais, pensou, 
fechando a porta do quarto o mais silenciosamente possvel e encaminhando-se para a 
sada. Na noite anterior ligara a pedir um txi. O motorista j se encontrava  sua espera 
defronte de casa, no tendo tocado  campainha, seguindo as instrues dela.
      Sasha disse-lhe qual a companhia area em que viajaria e o aeroporto para que 
devia seguir; sorrindo para consigo prpria, olhava pela janela do carro. Tinha bem 
conscincia de quanto a sua vida era abenoada. Era uma mulher de sorte, com um 
marido que amava e que tambm a amava, dois filhos sensacionais, alm de ser 
proprietria de duas galerias de arte que lhe haviam proporcionado uma satisfao 
inexcedvel e lhe permitiram ter uma vida desafogada desde sempre. No havia mais 
nada que almejasse ou pudesse vir a ter. Sasha de Suvery Boardman sabia que tinha 
tudo. 
                                            CAPTULO 2
     
     O voo para Paris decorreu sem incidentes. Sasha almoou e viu um filme a bordo, 
aps o que dormiu umas trs horas, despertando quando j aterravam no Aeroporto 
Charles de Gaulle. Conhecia a maior parte das hospedeiras e o comissrio de bordo, os 
quais, acostumados aos seus hbitos, a deixaram sossegada. Era uma passageira de 
trato fcil e muito afvel, que s bebia gua durante o voo. Sasha sabia bem o que fazer a 
fim de evitar os efeitos da diferena de fusos horrios. 
     
     Comia frugalmente, dormia e bebia muita gua, indo para a cama assim que 
chegava a casa, sabendo de antemo que na manh seguinte se sentiria ptima, tendo-
se ajustado facilmente  diferena horria. Havia doze anos que viajava com regularidade 
entre Paris e Nova Iorque.
     O tempo em Paris estava frio e chuvoso. Se bem que em Nova Iorque desfrutassem 
nessa altura do Vero de S. Martinho, ali estava-se em pleno Inverno. Havia levado um 
xaile de caxemira para colocar por cima do casaco quando aterrassem; como de costume, 
 sua espera tinha um automvel com motorista. Trocaram algumas banalidades sobre o 
tempo e o voo durante o percurso at ao centro de Paris, de onde seguiram para a casa, 
mergulhada em silncio. 
     A empregada de limpeza, que ia trabalhar todos os dias teis, deixara comida j 
cozinhada no frigorfico, como era hbito. Assim que transps a entrada Sasha pegou no 
telefone para ligar a Arthur. Para ele eram dezassete horas e pareceu ficar encantado ao 
ouvi-la. Preparava-se para fechar a casa em Southampton, aps o que seguiria para a 
cidade.
     - Tenho saudades tuas - disse ele, depois de ela lhe descrever o tempo que fazia em 
Paris. Havia ocasies em que Sasha se esquecia de como os Invernos podiam ser 
deprimentes naquela cidade. - Talvez no fosse m ideia se abrisses uma galeria em 
Miami - acrescentou Arthur na brincadeira. Sabia que, a despeito do mau tempo, bem no 
ntimo Sasha queria mudar-se para Paris, com o que ele estava disposto a concordar e o 
que fariam no prximo ano, depois de se aposentar. Tambm gostara de viver em Paris 
durante os primeiros anos de casamento. Alis, Arthur gostava de viver nas duas cidades. 
Tudo o que lhe interessava era estar com Sasha; adorava partilhar a sua vida com ela.
     - Na tera-feira vou a Bruxelas, e passarei o dia l para falar com um novo artista e 
saber se est tudo a correr bem com os outros - informou Sasha.
     - S quero que estejas em casa no prximo fim-de-semana. - Haviam combinado ir a 
uma festa de aniversrio de uma das melhores amigas de Sasha. A aniversariante 
enviuvara no ano anterior, tendo comeado a sair recentemente com um homem de quem 
ningum parecia gostar. Alis, durante o ano anterior sara com vrios homens, mas 
nenhum cara no goto das pessoas que conhecia. Todas gostavam muito dela e 
albergavam a esperana de que aquele novo namorado no tardasse a desaparecer da 
sua vida. O marido fora um dos amigos mais chegados de Arthur, tendo falecido em 
consequncia de uma doena cancergena prolongada e dolorosa. 
     Tinha apenas cinquenta e dois anos, a mesma idade da viva. Esta costumava dizer 
piadas de mau gosto sobre como era deprimente ter de voltar a procurar marido ao cabo 
de vinte e nove anos de casamento. Tanto Sasha como Arthur sentiam-se pesarosos por 
ela, o que os levava a suportar os homens pouco simpticos com quem saa. Sasha sabia 
melhor do que ningum, pelas conversas que as duas tinham, at que ponto a amiga se 
sentia sozinha.
     - Vou tentar voltar para casa na quinta-feira; se no for possvel, estarei a na sexta-
feira. Quero ver o Xavier, por isso a minha partida depende dele - explicou Sasha, pondo 
o marido a par dos seus planos.
     - Diz-lhe que tenho saudades dele - afirmou Arthur. Continuaram a conversar 
durante mais uns minutos. Depois de ter desligado, Sasha preparou uma salada, passou 
uma vista de olhos por alguns papis que o gerente da galeria lhe deixara e comeou a 
abrir a correspondncia que lhe fora endereada para Paris. Convites para vrias festas, 
uma srie de anncios referentes  inaugurao de exposies de artes plsticas, assim 
como uma carta de uma amiga. 
     Era muito raro que fosse a jantares de festa em Paris, excepto quando eram 
organizados por clientes importantes, ocasies em que sentia que devia estar presente. 
     No lhe agradava muito ir a estes eventos sem Arthur, preferindo a vida pacata que 
ambos levavam, com excepo dos festejos ligados s artes plsticas ou jantares com 
amigos ntimos.
     Telefonou para Xavier, como prometera, mas o filho tinha sado. Deixou uma 
mensagem no atendedor de chamadas. Mais ou menos  meia-noite foi deitar-se, tendo 
adormecido pouco depois. Na manh seguinte acordou s oito horas, ao som do 
despertador. O tempo continuava chuvoso e nublado, dando a impresso de que se 
estava em pleno Inverno. 
     Vestiu uma gabardina e atravessou a correr o ptio interior at  galeria; eram nove 
horas e trinta minutos e s dez reuniu-se com Bernard, o gerente. A galeria encerrava s 
segundas-feiras, o que lhes permitia ter um dia sossegado para poderem trabalhar. Sasha 
e Bernard planearam exposies e o calendrio para o ano seguinte.
     Comeu sentada  secretria e a tarde passou num pice. Eram quase dezoito horas 
quando a secretria lhe disse que tinha a filha em linha, a ligar-lhe de Nova Iorque. Xavier 
costumava telefonar-lhe com muito mais frequncia do que Tatiana, e nesse dia j tinha 
falado com ele duas vezes. Ficou combinado que iria a Paris jantar com a me na quarta-
feira, pelo que poderia voltar para junto de Arthur na quinta-feira seguinte. 
     Com um sorriso nos lbios, Sasha pegou no telefone, pronta para ouvir mais queixas 
contra o fotgrafo para que Tatiana trabalhava. S esperava que a filha no se tivesse 
despedido. Havia ocasies em que Tatiana era muito teimosa, no sendo do seu feitio 
agir com subservincia para com os outros, tal como no aceitava ser alvo de injustias, e 
Sasha sabia que ela considerava que o patro no a tratava como devia ser. Dado que 
tinha uma licenciatura da Brown em Belas-Artes, esperara poder fazer mais do que servir-
lhe caf e varrer o estdio depois de ele sair ao fim do dia.
     - Bonjour, chre - saudou Sasha em francs sem ter conscincia de que o fazia. 
Ficou surpreendida pelo silncio do outro lado da linha e pensou que a ligao tinha sido 
cortada, deduzindo que Tatiana voltaria a telefonar-lhe. Preparava-se para desligar 
quando ouviu um som gutural que lhe pareceu mais animal do que humano. - Tati? Cest 
toi? s tu? Minha querida, o que se passa? - Nessa altura j se tinha apercebido de que a 
filha chorava convulsivamente ao telefone. Passou muito tempo at que ela comeasse a 
falar.
     - Mezinha... volte para casa... - No obstante toda a sofisticao recentemente 
adquirida, de um momento para o outro a filha parecia uma criana de cinco anos.
     - O que  que aconteceu? Foste despedida do teu emprego? - Era a nica coisa que 
ocorria a Sasha que pudesse deixar a filha naquele estado de desolao. Tatiana, de 
momento, no tinha namorado, portanto, a sua tristeza no podia dever-se a um desgosto 
de amor.
     - O paizinho... - disse ela, mas recomeou a chorar convulsivamente. Sasha ficou 
com o corao apertado, com a sensao de que estava prestes a saltar-lhe do peito. 
Pelo amor de Deus, o que  que lhe poderia ter acontecido?
     - Tatiana, diz-me o que se passa! Depressa! Ests a assustar-me.
     - Ele... Telefonaram-me do escritrio dele h minutos...
     - Em Nova Iorque era quase meio-dia. Sasha sabia que se Arthur tivesse sofrido 
algum acidente a caminho da cidade com certeza algum lhe teria telefonado na noite 
anterior. O marido trazia sempre consigo todos os nmeros de telefone dela, tal como ela 
prpria fazia em relao aos nmeros dele.
     - Ele est bem? - perguntou Sasha, com a sensao de que o seu peito estava a ser 
apertado por um torno enquanto esperava pela resposta. Tatiana continuava a chorar 
descontroladamente.
     - Ele sofreu um ataque de corao... no escritrio... chamaram os paramdicos...
     - Oh, meu Deus!... - Sasha fechou os olhos com fora enquanto ouvia a filha,  
espera do resto com a mo que segurava o telefone a tremer descontroladamente.
     - Mezinha... ele morreu. - Para Sasha, o mundo parou por completo depois de 
Tatiana ter dito aquilo. A sala parecia rodopiar. Sem ter conscincia do que fazia, pegava 
no telefone com uma das mos, enquanto com a outra se agarrava  extremidade da 
secretria que em tempos havia sido do pai, para se equilibrar. Tinha a sensao de estar 
prestes a cair num abismo.
     - No pode ser, isso foi um engano! - disse Sasha, como se conseguisse negar o 
inevitvel ou, atravs do poder da sua mente, fosse capaz de desfazer o que sucedera. - 
Isso no  verdade! - gritou, com as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto. Sentia-se como 
se todas as fibras do seu ser tivessem sido atingidas por uma descarga elctrica e 
esforava-se por conseguir respirar.
     -  verdade - confirmou Tatiana num tom de voz em que se adivinhava um desgosto 
incomensurvel. - Foi a senhora Jenkins quem me telefonou. Levaram-no para o hospital, 
mas ele j tinha falecido. Mezinha... venha j para casa...
     - Vou imediatamente - disse Sasha, pondo-se de p com uma expresso de pnico 
estampada no rosto e olhando  sua volta, como se estivesse  espera que algum se 
materializasse, indo em seu socorro, dizendo-lhe que o que acontecera no era verdade. 
Mas no apareceu ningum; encontrava-se sozinha. - Onde  que ests?
     - Estou no trabalho.
     - Vai para casa... no, no vs para casa, vai para a galeria. No quero que estejas 
sozinha. Informa as pessoas do que aconteceu. Compreendero a situao. - Enquanto 
ouvia o que a me lhe dizia, Tatiana continuava a chorar. Sasha sabia que havia um voo 
para Nova Iorque s vinte e uma horas, que lhe permitiria chegar sete horas depois. Em 
Nova Iorque eram seis horas mais cedo. 
     Chegaria  cidade por volta das onze dessa mesma noite, hora local, cinco da 
manh em Paris. Tambm sabia que a sua leal assistente levaria Tatiana para casa dos 
pais. - Deixa-te estar a, Tati. Vou ligar  Mareie para que te v buscar. - Mareie 
trabalhava para Sasha desde que esta abrira a galeria. Era uma mulher muito afvel, de 
quarenta e poucos anos, que nunca casara e no tinha filhos, mas que gostava dos filhos 
de Sasha como se fossem seus. 
     E depois acrescentou, como se a ideia tivesse acabado de lhe ocorrer no meio do 
caos: - Gosto muito de ti, Tati. Estarei em casa assim que me for possvel. - Quando 
pousou o telefone, Sasha tremia da cabea aos ps. Num momento de loucura, ligou o 
nmero do telemvel de Arthur. Foi atendida pela secretria dele, a senhora Jenkins, que 
lhe disse que se preparava precisamente para lhe ligar, mas Sasha retorquiu que Tatiana 
j a tinha posto ao corrente da situao.
      Durante uns momentos de insanidade, Sasha quisera acreditar que Arthur atenderia 
o telefone... mas quem atendeu foi a secretria do marido. Lamento do fundo do corao, 
senhora Boardman... tenho tanta pena... foi tudo to sbito. Eu no sabia... ele nem 
chegou a chamar-me... tinha-o visto cinco minutos antes. Fui ao gabinete do senhor 
Boardman para que assinasse uns documentos e dei com ele todo curvado sobre a 
secretria. J tinha deixado este mundo. 
     Eles ainda tentaram... mas no foi possvel fazer nada - interrompeu-se, poupando a 
Sasha a cena de horror a que assistira quando os paramdicos tentaram, em vo, 
reanim-lo. Ela tambm chorava. Farei tudo o que estiver ao meu alcance. Quer que 
telefone para algum? Para o hospital? Para uma casa morturia? Lamento tanto...
     - Tratarei de tudo quando chegar a casa, obrigada. Ou Mareie trataria de tudo. No 
queria que mais ningum tomasse qualquer deciso com respeito ao marido. Nem sequer 
queria ser ela prpria a tom-las. Mas, primeiro que tudo tinha de telefonar ao filho.
     Em poucas palavras, ps Eugnie, a sua secretria em Paris, ao corrente do 
sucedido, pedindo-lhe que tratasse de lhe arranjar passagem area para Nova Iorque, 
aps o que foi ao gabinete contguo, onde tinha deixado as suas coisas. 
     A secretria de Sasha ficou atordoada. A princpio no queria acreditar no que ouvia, 
mas quando viu a expresso no rosto dela compreendeu que era verdade. 
     Sasha estava branca como a cal da parede; dava a impresso de se encontrar em 
estado de choque. Eugnie via as mos dela a tremerem que nem varas verdes quando 
pegou no telefone para ligar a Xavier.
     Eugnie saiu do gabinete, regressando pouco depois com uma chvena de ch, 
aps o que voltou a sair para tratar da passagem area. Nessa altura Sasha j falava com 
Xavier, tendo comeado a chorar ao telefone; o filho ficou to abalado como ela. 
Ofereceu-se para ir ter com a me a Paris, acompanhando-a na viagem para Nova 
Iorque, mas ela sabia que se o voo dele sofresse qualquer atraso corriam o risco de se 
desencontrarem. 
     Assim, disse-lhe que fosse diretamente para Nova Iorque nessa mesma noite, caso 
pudesse. No que isso agora fizesse alguma diferena para o pai, mas era importante 
para ela, assim como para Tatiana. Xavier chorava de mansinho quando desligou o 
telefone. O resto da noite foi uma sequncia de imagens desfocadas.
     Eugnie fizera a mala de Sasha, como esta lhe pedira, aps o que cancelou todos 
os compromissos que tinha agendados para essa semana. A sua viagem a Bruxelas teria 
de ser adiada. Num momento fugaz, toda a sua vida havia ficado destruda. Sasha nem 
sequer estava capaz de pensar racionalmente no que lhe sucedera, e nem queria tentar. 
A secretria e o gerente da galeria acompanharam-na ao aeroporto e, tratando-a como 
progenitores preocupados, seguiram com ela at  porta de embarque, onde, 
discretamente, explicaram ao empregado de servio o que lhe sucedera, depois de Sasha 
j ter embarcado. Ambos estavam preocupados por ela se encontrar sozinha a bordo. 
Bernard tinha-se oferecido para a acompanhar, mas Sasha, corajosamente, declinara a 
oferta, facto de que se arrependeu assim que o avio levantou voo. 
     Sentia-se prestes a soobrar sob uma vaga de pnico to intensa que receou estar 
ela prpria  beira de um ataque cardaco. Uma das hospedeiras de bordo comentou com 
outra que Sasha tinha ficado, literalmente, com uma colorao esverdeada, acompanhada 
de suores frios. Cobriram-na com cobertores, pedindo ao passageiro que seguia ao seu 
lado que mudasse para outro lugar, permitindo assim que o comissrio de bordo se 
sentasse ao lado dela durante algum tempo.
      Perguntaram-lhe se tinha tranquilizantes, ao que respondeu que no, 
acrescentando que nunca tomara esse tipo de medicamentos. Mas a verdade  que 
tambm nunca havia perdido um marido. Nem sequer quando o pai falecera se sentira 
assim, no obstante o desgosto que a morte dele lhe causara. Mas Simon j tinha oitenta 
e nove anos, alm de a ter advertido em inmeras ocasies de que a sua morte, um dia, 
seria inevitvel, pelo que se sentia bem consciente disso. Portanto, estava mais ou menos 
preparada para a morte do pai. Mas nunca para aquilo!
     Nunca para a morte de Arthur! Na vspera ele dissera-lhe que a amava. Sasha 
deixara-o a dormir na cama, na casa de Southampton, e agora ele tinha partido. No era 
possvel! Aquilo no estava a acontecer! Mas a verdade  que estava. A nica vez que se 
recordava de ter sentido um desgosto to grande, tendo ficado completamente fora de si 
e atemorizada, foi quando a me faleceu, tinha ela apenas nove anos.
      Agora voltava a sentir-se como se fosse uma criana. Como uma rf. Chorou 
durante toda a viagem at Nova Iorque. Entretanto, depois de Bernard ter telefonado de 
Paris, Mareie foi para o aeroporto, ficando  espera dela do lado de fora da alfndega. 
Deixara Tatiana ao cuidado de uma amiga no apartamento.
     Mareie no lhe perguntou como estava a sentir-se. No havia necessidade de o 
fazer. Sasha mal conseguia falar. Era a mulher mais competente e dinmica que Mareie 
tivera oportunidade de conhecer, mas naquele momento parecia completamente 
destruda. 
     Em silncio, abraou-a, apertando-a carinhosamente e levando-a para fora do 
aeroporto enquanto Sasha chorava, despertando a curiosidade das pessoas, que a 
fitavam, atnitas. Momentos depois j a tinha sentado no automvel e o motorista seguiu 
velozmente em direco ao centro de Nova Iorque. 
     Sasha estava demasiado perturbada para conseguir falar e a meio caminho da 
cidade comeou a fazer perguntas  toa e sem coerncia, cujas respostas, face  
situao, no tinham a mnima importncia. No interessava quem ou como, onde ou 
quando Arthur deixara este mundo. Sem aviso. Sem um nico som. Sem sequer se 
despedir dos filhos e da mulher. Desaparecera.
     O encontro entre Sasha e Tatiana, meia hora depois, no apartamento deu origem a 
momentos extremamente dolorosos de presenciar. Mareie limitou-se a ficar em silncio a 
chorar. Sentindo que no podia fazer nada que aliviasse tanto sofrimento, foi preparar 
umas sanduches, as quais, porm, ningum comeu. Serviu caf e gua, que tambm 
ningum bebeu. Ainda tentou convencer Sasha a tomar uma bebida, mas ela tambm no 
quis. s duas da manh chegou Xavier, vindo de Londres. 
     Tinha ligado a um amigo, pedindo-lhe que o fosse buscar ao aeroporto. Quando 
entrou, vinha acompanhado por um dos seus jovens amigos, que era pintor. Foi 
imediatamente ao encontro da me. Ps os braos  volta dela e de Tatiana e os trs 
ficaram abraados a chorar. Mareie sentia um desgosto excruciante s de olhar para eles. 
Ficaram sentados a conversar durante a maior parte da noite. A nica pessoa que 
petiscou a comida que Mareie preparou foi o amigo de Xavier. Os outros no comeram 
nem beberam nada.
     Na manh seguinte, a realidade revelou-se em toda a sua crueza. Sasha foi ao 
hospital, insistindo em ver o marido. Queria ficar a ss com ele, e quando saiu da sala 
parecia um fantasma, mas no vinha a chorar. Encontrava-se em estado de choque: 
tinha-se despedido de Arthur. Em seguida foram  agncia funerria para tratar do enterro 
e o proco foi falar com ela ao apartamento; Mareie manteve-se ao seu lado durante todo 
o tempo. Xavier foi com Tatiana para o apartamento da irm. Depois de o proco ter 
sado, Sasha virou-se para Mareie e perguntou, meio atordoada:
     - Isto est realmente a acontecer? No sou capaz de acreditar. Estou sempre  
espera que surja algum que me diga que  apenas uma brincadeira de mau gosto. Mas 
no , pois no? - Mareie respondeu-lhe com um abanar de cabea. Chegaram ao fim do 
dia, que pareceu muito longo, com Sasha a sentir-se e a parecer uma morta-viva que 
tentava confortar os filhos. Nessa noite, finalmente, comeram uma piza, mas ningum 
quis mais nada. Tatiana dormiu no seu antigo quarto e Xavier saiu com uns amigos; 
quando regressou a casa vinha embriagado. 
     Sasha ficou sentada na sala de estar a olhar para o vazio. No conseguia suportar a 
perspectiva de ir para o quarto que partilhara com o marido; s queria que ele estivesse 
junto de si. Quando, por fim, foi para a cama, demasiado exausta para conseguir conciliar 
o sono, sentiu o cheiro da loo de barba que ele usava na sua almofada, enterrando o 
rosto na fronha e chorando desconsoladamente, dando largas ao seu desgosto. Mareie 
ficou l em casa, dormindo no sof, a amiga leal sempre presente. Nessa noite passou 
vrias horas a ligar para pessoas amigas da famlia, a fim de as pr ao corrente dos 
pormenores relativos ao funeral. Tambm telefonou para a galeria de Paris. Todos viriam 
s exquias fnebres.
     Mareie encomendou as flores, enquanto Sasha escolheu a msica. Os amigos 
comearam a passar l por casa, oferecendo-se para ajudar. As pessoas que conduziriam 
cada um ao seu lugar, aquando da cerimnia religiosa, foram seleccionadas de entre os 
melhores amigos e scios de Arthur. Sasha parecia sentir-se morrer quando teve de 
escolher as roupas com as quais o marido seria sepultado. Mas, melhor ou pior, todos 
conseguiram vestir-se para o funeral, tendo chegado a horas. Aps a cerimnia fnebre, 
os presentes voltaram para casa de Sasha. 
     Muito tempo depois, ela admitiu que no se recordava de nada. No se lembrava da 
msica nem das flores, tal como no tinha ideia das pessoas que haviam ido ao funeral. 
Tambm no se recordava de quem estivera em sua casa depois das exquias. 
Aparentara uma postura normal e s de esprito, to composta quanto possvel perante as 
circunstncias. Contudo, na realidade, encontrava-se em estado de choque, o mesmo se 
passando com os filhos. Apegavam-se desesperadamente uns aos outros como as 
pessoas num navio prestes a naufragar, sabendo que morreriam afogadas. E Sasha 
estava prestes a afundar-se. A parte mais difcil teve lugar no dia a seguir. 
     A vida com a sua rotina, sem Arthur. O horror de viver o dia-a-dia sem ele. A dor que 
sentia era indescritvel. Como um acto de cirurgia sem anestesia, Sasha no conseguia 
acreditar na realidade do que era acordar todos os dias sabendo que no poderia tocar-
lhe e que jamais voltaria a v-lo. Tudo o que antes lhe fora querido, maravilhoso e fcil 
era agora agonizante e excruciantemente difcil. No havia qualquer compensao por 
conseguir sobreviver todos os dias sem ele, no valia a pena acordar todas as manhs, 
no havia nada que pudesse aguardar com expectativa, nenhuma razo que justificasse 
continuar viva, exceto os filhos.
     Decorridas duas semanas, Xavier voltou para Londres. Telefonava  me com muita 
frequncia. Ao fim de uma semana, Tatiana retomou o trabalho. Sasha ligava-lhe todos os 
dias e, a maior parte das vezes, Tatiana desatava a chorar mal ouvia a voz da me. O 
nico conforto que Sasha tinha, para alm da simpatia discreta dos que trabalhavam para 
si e do apoio inabalvel de Mareie, era quando falava com amigas que haviam passado 
pela mesma situao.
      Na verdade detestava falar com elas e, a maior parte das vezes, eram conversas 
que s serviam para a deixar deprimida, mas, pelo menos, elas diziam-lhe com 
sinceridade o que podia esperar. E nada do que lhe contavam parecia promissor.
     Alana Applebaum, cujo marido havia sido amigo de Arthur e a cuja festa de 
aniversrio Sasha no pudera ir porque o funeral de Arthur tivera lugar no dia anterior, 
confidenciou-lhe que o primeiro ano fora uma tortura. Havia ocasies em que continuava 
a ser. Mas depois do aniversrio que assinalou o primeiro ano de viuvez fizera um esforo 
para comear a sair com outros homens. A maior parte eram uns mentecaptos, pelo que 
ainda no havia encontrado um nico minimamente aceitvel, mas, pelo menos, no 
ficava sozinha em casa a chorar. Segundo a sua teoria, por muito mau que um homem 
com quem sasse fosse, era prefervel a estar s.
     Uma das amigas mais chegadas que Sasha tinha em Paris, a qual perdera o marido 
havia trs anos devido a um acidente de esqui em Val dIsre, via as coisas de uma 
maneira diversa. Dizia que preferia estar sozinha do que acompanhada de um imbecil. 
Tinha quarenta e cinco anos e enviuvara aos quarenta e dois, e afirmava que no 
existiam homens decentes disponveis, porque todos os de bom carcter estavam 
casados. Os outros eram uns idiotas, ou pior ainda. 
     Afirmava insistentemente que se sentia mais feliz sozinha. No entanto, Sasha notara 
que durante os ltimos dois anos a amiga comeara a beber em excesso, e muitas vezes, 
quando telefonava a Sasha para a confortar, no tendo em linha de conta a diferena 
horria, esta apercebia-se de que ela estava embriagada. A amiga no conseguia lidar 
com a situao da melhor maneira.
     Sasha comentou com Mareie os telefonemas dessa amiga:
     - Quem sabe se a nica maneira de se conseguir sobreviver no ser passar a 
beber? - Ouvir o que as amigas diziam era bastante deprimente. E a situao das 
divorciadas que Sasha conhecia no era melhor, pois tinham de viver com um desgosto 
intolervel, embora pudessem escudar-se no dio que nutriam pelos ex-maridos, em 
especial se tivessem sido trocadas por mulheres mais jovens. Ouvir o que tinham a dizer 
era assustador. 
     O resultado era Sasha evitar o convvio com elas, isolando-se e tentando 
embrenhar-se no trabalho. Por vezes isso ajudava, mas geralmente no lhe servia de 
grande lenitivo.
     O primeiro Natal sem Arthur chegou e passou por entre uma srie de agonias. 
Xavier e Tatiana passaram a consoada com a me, e por volta da meia-noite estavam 
todos sentados na sala de estar a chorar desconsoladamente. Nenhum queria abrir os 
presentes, Sasha ainda menos do que os filhos. Tatiana oferecera-lhe uma estola em 
caxemira, porque Sasha parecia estar sempre com frio, provavelmente porque comia e 
dormia muito pouco. Quanto a Xavier, ofereceu-lhe uma coleco de livros de arte que 
sabia que ela queria. Contudo, o Natal no tinha qualquer encanto sem Arthur.
     No dia seguinte, os filhos foram esquiar com os amigos. Sasha tomou um 
comprimido para dormir s vinte horas da vspera de Ano Novo, acordando apenas s 
duas da tarde do dia seguinte, sentindo-se grata por no ter dado pela passagem do ano. 
Ela e Arthur nunca tinham feito nada de especial na vspera do Ano Novo, mas, pelo 
menos, estavam juntos.
     S em Maio  que voltou a sentir-se um pouco mais animada. Nessa altura j 
haviam passado sete meses desde a morte de Arthur. Tudo o que fizera desde ento 
resumia-se a viajar para Paris uma vez por ms, ficando sentada, aninhada e a enregelar, 
em casa durante a noite, tratando dos assuntos que a haviam levado  cidade o mais 
depressa possvel, a fim de poder voltar para Nova Iorque. Delegou tanto quanto podia 
nos gerentes das galerias durante esses meses, ficando grata pela sua ajuda. 
     Sem eles ter-se-ia sentido completamente perdida, e pouco faltou para que isso 
acontecesse. Os domingos eram os piores dias da semana, em qualquer das cidades, 
porque no podia ir para o trabalho. Desde que o marido falecera que no ia  casa nos 
Hamptons. No queria voltar l sem ele, mas tambm no queria vend-la. Limitou-se a 
deix-la como estava, dizendo aos filhos que podiam utiliz-la sempre que quisessem. 
Quanto a si, no tencionava voltar a usufruir da casa da praia. 
     No tinha a mnima ideia quanto ao que faria da sua vida. Para alm do trabalho, 
que nessa altura no lhe proporcionava qualquer satisfao, no havia nada que a 
impedisse de se entregar inteiramente ao desgosto que sentia. A sua vida era como uma 
terra inspita de desespero. Nunca se sentira to perdida e desprovida de esperana.
     Os gerentes das duas galerias, e at mesmo Mareie, incentivavam-na a conviver 
com as pessoas amigas. Havia vrios meses que no retribua nenhum dos telefonemas 
que recebera, com excepo dos que eram feitos das galerias. E at mesmo esses 
passava-os a outros, sempre que possvel. Desde a morte de Arthur no quisera falar 
com ningum.
     Em Maio, finalmente, sentiu-se um pouco melhor. Para sua grande surpresa, em 
Junho aceitou um convite de Alana para um jantar, no obstante ter-se arrependido de 
imediato. Mas arrependeu-se ainda mais quando a noite do jantar chegou.
     A ltima coisa que lhe apetecia era vestir-se para sair. Mareie, para a incentivar, 
dissera-lhe que Arthur haveria de querer que ela se distrasse. Ter-se-ia sentido 
devastado se visse o estado em que se encontrava. Perdera quase dez quilos. As 
pessoas que no a conheciam diziam que estava com um aspecto fabuloso, mas no 
faziam a mnima ideia porqu. Para essas pessoas, uma aparncia emaciada e a 
magreza devido a um grande desgosto parecia-lhes algo muito elegante.
     Portanto, numa noite fatdica de Junho, Sasha saiu pela primeira vez desde que 
enviuvara. Vestiu um fato de calas e casaco de seda preta calou uns sapatos de salto 
alto, apanhando o cabelo todo para trs num carrapito. Os brincos de diamantes que 
usava haviam sido uma prenda de Arthur no Natal antes de ter falecido. Sasha chorou 
quando os ps nas orelhas. Constatou que as roupas lhe estavam largas. Emagrecera 
imenso e, de um momento para o outro, todas as suas roupas estavam largas de mais.
     O jantar comeou de forma muito mais agradvel do que esperara; o facto de 
conhecer a maior parte das pessoas presentes ajudou bastante. Nesta altura j Alana 
tinha outro namorado, que, contra o que seria de esperar, parecia um homem decente. 
Falou com ele durante algum tempo e ficou a saber que era um coleccionador de arte 
contempornea e que j fizera, inclusive, uma ou duas aquisies na sua galeria. A 
agonia para Sasha comeou quando descobriu que Alana lhe pedira que trouxesse um 
amigo, que passou o jantar a tentar conquist-la. 
     Era um homem inteligente e talvez at interessante, no fosse o facto de ter 
comeado a fazer-lhe perguntas, como se ela se tivesse inscrito numa daquelas agncias 
que arranjam encontros por computador, o que no era o seu caso; no tinha qualquer 
inteno de vir a faz-lo, agora ou mais tarde. Sabia que Alana j se encontrara com 
homens atravs de servios via Internet em mais de uma ocasio. Era uma perspectiva 
que horrorizava Sasha. No queria sair com homem nenhum, fosse aquele ou qualquer 
outro. Estava firmemente determinada a chorar a morte de Arthur
     para sempre.
     - Ento, quantos filhos tem? - perguntou-lhe ele sem rodeios antes mesmo de se 
sentarem para jantar, enquanto Sasha se perguntava se no seria melhor alegar uma 
enxaqueca sbita, desaparecendo. Mas sabia que Alana se sentiria ofendida. Tambm 
sabia que a sua anfitri agira movida pela melhor das intenes, mas no era aquilo que 
Sasha queria. Tudo o que desejava era que a deixassem em paz e sossego. As suas 
feridas continuavam abertas. Alm disso, no sentia a mnima vontade de substituir 
Arthur. Jamais!
     - Tenho dois filhos j crescidos - respondeu Sasha com frieza.
     - Isso  timo - retorquiu ele com uma expresso de alvio. Sasha sabia que 
trabalhava como corretor na Bolsa, tendo dito, sem que ela lhe perguntasse, que era 
divorciado havia catorze anos. Parecia ter mais ou menos uns cinquenta, dois anos mais 
velho do que Sasha.
     - Na verdade, no  timo - retorquiu ela com sinceridade e sorrindo-lhe com 
tristeza. - Saram de casa e sinto terrivelmente a sua falta. Quem me dera que fossem 
mais novos e ainda vivessem comigo!... - Ele pareceu sentir algum mal-estar perante esta 
resposta.
     - No est a planear ter mais filhos, pois no? - perguntou. Sasha ficou com a 
impresso de que o homem tinha uma lista e ia eliminando cada pergunta  medida que 
as fazia.
     - Adoraria ter mais, mas enviuvei. - No que lhe dizia respeito, aquilo esclarecia a 
questo. Mas no era esse o caso dele.
     - Provavelmente acabar por casar de novo... - Poof, de uma penada o homem 
apagara Arthur, avanando para a pergunta seguinte. Mas para Sasha o assunto no 
ficara arrumado.
     - No tenciono voltar a casar! - replicou com uma expresso obstinada, quando j se 
encaminhavam para a sala de jantar, verificando, com consternao, que ele ficaria 
sentado ao seu lado. Era evidente que Alana tinha um plano.
     - Durante quanto tempo esteve casada? - perguntou ele com um interesse renovado. 
Na verdade, no queria mulheres que andassem  procura de marido. Era prefervel ter 
um caso que no implicasse compromissos.
     - Durante vinte e cinco anos - respondeu ela afetadamente quando se sentaram. O 
homem no perdia um segundo a fazer perguntas.
     - Claro, estou a ver por que razo no tenciona voltar a casar. Ao fim de tantos anos 
torna-se montono, no  verdade? Eu estive casado onze anos, e chegou! - Horrorizada, 
Sasha ficou a olhar para ele, no lhe dando resposta durante uns minutos que se 
prolongaram.
     - Nunca me fartei do meu casamento! - acrescentou por fim, com firmeza. - Estava 
muito apaixonada pelo meu marido!
     -  uma pena - retorquiu ele, comeando a atacar o primeiro prato. Foi o nico 
momento de descanso que deu a Sasha. - O mais provvel  ter guardado uma 
recordao melhor do que foi na realidade. A maior parte das pessoas que enviuvam 
sofrem de uma espcie de iluso. Todas acreditam que foram casadas com santos depois 
de estes falecerem, mas enquanto estavam vivos no gostavam assim tanto deles.
     - Posso garantir-lhe - ripostou Sasha, fitando-o com uma expresso altaneira e 
sentindo uma vontade quase irresistvel de lhe arremessar com o que tivesse  mo - que 
adorava o meu marido. O que  um facto e no uma iluso
     - acrescentou num tom de voz de uma frieza glacial.
     - De acordo, como queira... - retrucou o homem com uma expresso de 
perplexidade. - Acredito no que me est a dizer. Mas adiante; com quantos homens saiu 
desde que ele morreu? - Por acaso, nesse momento Alana olhou na direco deles, 
reparando no semblante da amiga e percebendo que as coisas no estavam a correr 
nada bem. Sasha estava lvida, tanta a indignao que sentia.
     - No sa com homem nenhum, tal como no tenciono sair com quem quer que seja. 
Nunca mais! O meu marido faleceu h oito meses, e este  o primeiro convite que aceito 
para uma reunio social. - O seu parceiro de mesa ficou a olhar para ela, embasbacado.
     - Oh, meu Deus, voc  uma virgem!... - Inicialmente, pareceu que ele considerava 
que a sua atitude era bastante estranha, mas depois fitou-a com uma expresso de 
interesse, como se ela fosse um desafio. Mas havia encontrado em Sasha algum que lhe 
faria frente.
     - No, no sou uma virgem, como pe a questo. Tal como no tenciono vir a ser 
desflorada. Sou uma viva de quarenta e oito anos que estava muito apaixonada pelo 
marido. - Com estas palavras, virou-lhe as costas, comeando a conversar com a outra 
pessoa sentada ao seu lado  mesa do jantar, um homem que ela e Arthur haviam 
conhecido bem. Era casado e tanto Sasha como Arthur simpatizavam muito com a mulher 
dele.
     - Sentes-te bem? - perguntou-lhe o amigo de longa data, olhando-a com alguma 
preocupao quando Sasha se virou para ele; os seus olhos chispavam. Falou-lhe em voz 
baixa. Sasha acenou em sinal de concordncia, mas tinha os olhos marejados de 
lgrimas. O homem  sua esquerda no s a insultara, como tambm a fizera sentir-se 
deprimida. Aquilo era o que poderia esperar a partir de agora na sua condio de viva, e 
pensou para consigo se, de futuro, no passaria a dizer s pessoas que viesse a 
conhecer que era casada. 
     No tinha o mnimo desejo de ser a virgem de quem quer que fosse. Sentia que 
isso a despojava de toda a dignidade e respeito que tomara como garantidos enquanto 
estivera casada com Arthur. No s perdera o homem que amava, como tambm se 
apercebeu, de um momento para o outro, que se tornara constrangedoramente 
vulnervel, tendo perdido a proteco em sociedade que um marido amante e dedicado 
lhe proporcionara, assim como o escudo seguro e de bem-estar subjacente ao 
casamento.
     - Estou ptima - respondeu em voz baixa ao seu companheiro de mesa.
     - Lamento muito, Sasha - disse ele com uma expresso cheia de simpatia, batendo-
lhe ao de leve na mo, o que fez com que as lgrimas que lhe haviam assomado aos 
olhos comeassem a correr-lhe pelas faces, forando-a a procurar um leno na pequena 
bolsa de noite. No podia sair de casa sem um leno. Enquanto se assoava, embaraada, 
sentia-se uma figura pattica.
     
     
     Durante o resto da refeio, mal tocou na comida, aps o que desapareceu com o 
maior aprumo possvel, enquanto os outros convivas se dirigiam para a sala de estar, 
onde tomariam o caf. Nem sequer teve nimo para se despedir de Alana, prometendo a 
si mesma que lhe telefonaria na manh seguinte.
     No precisou de o fazer; Alana ligou-lhe para a galeria. Era sbado, mas Sasha 
estava no gabinete a trabalhar, o que era habitual nos ltimos tempos. As viagens de fim-
de-semana at aos Hamptons tinham-se acabado, ocasies que ela adorara na 
companhia de Arthur e que no era capaz de enfrentar sozinha.
     - O que  que se passou? - perguntou Alana num tom de queixa. - Ele  um homem 
verdadeiramente simptico, quando o conhecemos melhor. E gostou de ti. Disse que te 
achou fantstica! - Sasha considerou aquela informao ainda mais deprimente.
     -  muito amvel da parte dele, mas eu no queria conhecer homem nenhum, Alana. 
S aceitei o teu convite para jantar.
     - No podes continuar sozinha para sempre, Sasha. Mais cedo ou mais tarde vais 
ter de sair do teu casulo. Ainda s uma mulher nova. E, sejamos realistas, tens de 
concordar que no existem muitos tipos decentes por a. Este  um dos poucos que 
restam. - Ou, pelo menos, era o que Alana achava. No entanto, ela provara ao longo do 
ltimo ano que a sua capacidade de discernimento no era muito fivel, e revelara mesmo 
um certo sentimento de desespero.
     - No quero nenhum homem - retorquiu Sasha com tristeza. Gostava da amiga, mas 
detestava a transformao que sofrera. O seu bom gosto, bom senso e dignidade eram 
valores que parecia terem sido atirados pela janela fora no momento em que enviuvara. 
Sasha tinha a certeza de que nem todas as vivas eram como a amiga. Alm disso, Alana 
tinha grandes problemas financeiros, o que era motivo para andar desesperada por 
encontrar um marido que os resolvesse. E tal como Arthur dissera antes de falecer, os 
homens sentiam isso ao longe. gua-de-Pnico, fora assim que ele lhe chamara. No 
era um perfume que agradasse aos homens por a alm...
     - Tu queres o Arthur - continuou Alana, como se estivesse a esfregar sal nas feridas 
da amiga. - Pois bem, se queres saber a verdade, eu tambm quero o Toby. Mas ambos 
desapareceram, Sasha, essa  que  a realidade. Nunca mais voltaro, e ns estamos 
aqui sem eles. Temos de tirar partido desta situao adversa da melhor maneira que nos 
for possvel.
     - Mas acontece que no estou preparada para isso - retorquiu Sasha numa voz 
afvel. No disse  amiga quanto o seu comportamento lhe parecia insensato nem at 
que ponto se estava a tornar constrangedor. - Talvez continuar sozinha seja a atitude 
mais adequada. Nem sequer sou capaz de me imaginar a sair com um homem. - Alis, 
to-pouco desejava faz-lo.
     - Sasha, tens quarenta e oito anos e eu cinquenta e trs. Somos novas de mais para 
continuarmos sozinhas. - Sasha sentira-se jovem enquanto estivera casada com Arthur. 
Desde que ele morrera que se sentia como uma mulher muito idosa.
     - No sei bem, Alana. No sei qual  a resposta. S sei que neste momento preferia 
morrer a sair com qualquer homem. - Como sempre, mostrava-se cruamente sincera.
     - Tens de ser paciente contigo prpria. D uma oportunidade a estes sujeitos; mais 
cedo ou mais tarde encontrars um que te agrade. - A julgar pelos indivduos com quem 
Alana sara ao longo do ltimo ano, com excepo daquele com quem andava 
actualmente, nenhum era homem que uma mulher no seu perfeito juzo quisesse, 
excepto, talvez, pelo seu dinheiro. Os objectivos de vida de Alana eram completamente 
diferentes dos de Sasha. Tudo o que esta tentava fazer era conseguir sobreviver  perda 
de Arthur. - Vais ver que daqui a alguns meses pensars de maneira diferente.
     Espera at ao fim do primeiro ano. Nessa altura estars preparada.
     - Espero bem que no. Tenho os meus filhos, as minhas galerias e os meus artistas. 
     - Mas a verdade  que sem Arthur nada tinha significado para ela, excepo feita 
aos filhos. Actualmente mal conseguia concentrar-se no trabalho. Servia apenas para a 
fazer sair do apartamento em Nova Iorque ou para ir at  sua casa em Paris. Todavia, 
nada na sua vida lhe proporcionava alegria.
     - Sabes bem que isso no chega... - insistiu Alana em tom de censura.
     - Talvez seja o suficiente para mim.
     - Pois bem, para mim no  - retorquiu Alana com firmeza. - Quero encontrar um 
fulano como deve ser e casar. - Se no fosse um homem de carcter, pelo menos que 
fosse rico. Porm Sasha no tinha interesse em qualquer das alternativas. - Concede a ti 
mesma mais seis meses, e vais ver que tambm andars  procura de um homem.
     - Meu Deus, espero bem que no! - ripostou Sasha com azedume. S de pensar 
nessa probabilidade sentia-se ainda mais deprimida.
     - A ver vamos... - acrescentou Alana, como se ela  que soubesse o que 
aconteceria. Mas uma coisa era certa: no era fcil para ningum, divorciadas ou vivas, 
encontrar homens decentes nos tempos que corriam. Alana disse que ouvia o mesmo de 
todas as suas amigas. Tal como Sasha, embora isso no lhe interessasse.
     Na semana seguinte voltou a Paris, desta feita para uma estada de duas semanas. 
Pela primeira vez em vrios meses visitou os seus artistas espalhados por vrias cidades 
da Europa - Bruxelas, Amesterdo e Munique. Aquando da viagem de regresso a casa, 
teve oportunidade de passar por Londres para ver o filho. 
     Xavier estava bastante animado e a produzir novos trabalhos muito mais 
interessantes. Sasha ficou impressionada quando os viu. Deu ao filho o nome de uma 
galeria com cujos responsveis, na sua opinio, deveria falar, o que o deixou assaz 
satisfeito. No queria expor os seus trabalhos na Suvery. Para ele, essa possibilidade 
tresandava a nepotismo, e estava determinado a ser bem-sucedido pelos seus prprios 
mritos.
     Durante os ltimos meses, Xavier tinha falado  me, em vrias ocasies, do seu 
amigo Liam Allison. Insistia em dizer que Liam era um dos pintores mais talentosos que 
conhecia, e queria que ela visse os seus trabalhos.
     - Terei todo o gosto em faz-lo, mas quero que, em primeiro lugar, ele me envie 
diapositivos desses trabalhos. Sasha no queria perder tempo e a visualizao dos 
diapositivos seria um bom processo de avaliao. Mas, apesar de ter dito isso inmeras 
vezes a Xavier, a verdade  que o amigo do filho nunca chegou a enviar-lhe os 
diapositivos. Xavier alegava que ele era tmido, o que no era invulgar num artista 
inexperiente, e at mesmo nos mais experientes, mas, com base nas histrias com que 
Xavier a regalava constantemente, ele parecia ser tudo menos tmido. 
     Sempre que Xavier saa dos eixos ou se comportava de forma menos correcta, 
sempre que ia a uma festa mais desregrada ou fazia alguma coisa um tanto irresponsvel 
ou imoderada, Liam parecia estar presente. Mais recentemente, os dois tinham ido 
almoar numa tarde de domingo de indolncia, beberam de mais, e em seguida 
apanharam um txi para o aeroporto e partiram para Marraquexe, onde ficaram durante 
quatro dias. Mais tarde, Xavier disse que nunca se tinha divertido tanto em toda a sua 
vida. Telefonou  me quando voltou para Londres. Ela estava preocupada por ele no 
lhe ter retribudo os seus telefonemas ao cabo de quase uma semana.
     - Deixa-me adivinhar - disse Sasha quando o filho finalmente deu notcias, contando-
lhe onde estivera. - Esse tal Liam esteve envolvido na tua aventura. - Nesta altura, j 
quase conseguia adivinhar o que acontecera. Sempre que Xavier fazia alguma coisa 
inesperada ou algo tresloucada, o que lhe diria a seguir era que havia estado 
acompanhado de Liam.
     - Ele  completamente louco! A mulher deve ser uma santa...
     - Ela tem muito bom feitio - reconheceu Xavier sem hesitar -, se bem que s vezes 
fique um pouco aborrecida. Trabalha, e espera que ele cuide das crianas.
     - O mais provvel  ter de o sustentar, assim como aos filhos - retorquiu Sasha, 
habituada quele tipo de situaes. Conhecia outros artistas como ele, se bem que 
nenhum to exuberante ou indiferente aos padres convencionais de comportamento, 
pelo menos a fazer f no que Xavier lhe contava. - Se eu estivesse no lugar dela, acho 
que o matava.
     - Estou em crer que j o ameaou algumas vezes. No me parece que a viagem a 
Marrocos tenha sido o ponto alto no casamento deles.
     - O que no admira. Pelo que tu dizes, ele parece uma dessas crianas com quem 
eu no te deixava brincar quando eras pequeno, porque s serviam para te meter em 
sarilhos. O que acabar por acontecer um dia destes, ou ento ele meter-se- numa 
alhada de que ter muita dificuldade em sair.
     - Ele no tem mau fundo e nunca faz nada que seja perigoso. S gosta de se divertir 
e detesta que lhe digam como deve comportar-se. Acho que foi criado com uma data de 
regras rgidas, ou algo no gnero.  alrgico a fazer o que se espera ou imponha que 
faa. Gosta de andar  rdea solta.
     -  o que parece. Mal posso esperar para o conhecer retrucou Sasha com pouco 
entusiasmo. Na verdade, a sua esperana era vir a detestar o seu trabalho, isto , se ele 
chegasse a enviar-lhe os diapositivos. Pelo que o filho dizia, o homem dava a impresso 
de ser uma dor de cabea de que ela no precisava, embora, por vezes, as pessoas que 
possuam uma energia e personalidade como ele fossem extraordinariamente talentosas. 
O que os artistas de artes plsticas como Liam precisavam, na opinio de Sasha, era de 
serem admoestados com severidade e de rdea curta. 
     Serem aperreados at entrarem nos eixos, caso contrrio, esqueciam-se de que 
tinham de trabalhar, apesar de Xavier afirmar que Liam era diligente e consciencioso no 
respeitante  pintura. Em tudo o mais  que era irresponsvel. Xavier continuava 
determinado a apresentar o amigo  me. Estava convicto de que a Suvery era a galeria 
perfeita para Liam expor os seus trabalhos. Mas at ao momento nunca conseguira junt-
los, para grande alvio de Sasha.
     Sasha passou o ms de Julho em Nova Iorque, mas nunca chegou a ir perto da 
casa nos Hamptons. No conseguia forar-se a ir l, por isso disse a Tatiana que a 
usasse. Sasha nem sequer queria ver a casa da praia. Em Agosto foi para Saint-Tropez, 
uma estada de duas semanas passadas com pessoas do seu crculo de amigos. Foi uma 
fase em que se sentia estranhamente alheada, como se no tivesse razes. Passou o 
resto do ms na casa de Paris. 
     Era como um berlinde numa caixa de sapatos: o mundo dava-lhe a sensao de ser 
demasiado grande para ela, agora que estava sem Arthur. A sua existncia parecia que 
no se ajustava. Nunca se tinha sentido to pequena e to s em toda a sua vida. At 
mesmo quando o pai morrera, tivera sempre Arthur ao seu lado para atenuar o desgosto 
que sentira. Mas agora no podia contar com ningum; restavam-lhe as recordaes da 
sua vida com ele e as visitas ocasionais aos filhos.
     Em finais de Agosto regressou a Nova Iorque, tendo-se sentido suficientemente 
corajosa para ir a Southampton no fim-de-semana do feriado da primeira segunda-feira de 
Setembro. Era a primeira vez que l ia em quase um ano e, de certo modo, era um alvio. 
Foi como se voltasse a encontrar uma parte do marido de que sentira uma falta tremenda. 
O guarda-roupa continuava cheio das coisas dele, e quando olhou para a cama que 
ambos haviam partilhado recordou-se da ltima vez em que tinham estado juntos. Arthur 
dissera-lhe, num murmrio, que a amava na manh em que ela partira para o aeroporto; 
antes de sair beijou-o e ele voltou a adormecer. Naquela casa as recordaes eram 
avassaladoras, e Sasha passou vrias horas a pensar nele enquanto caminhava pela 
praia. Mas ali, finalmente, sentiu que o processo de cicatrizao tinha comeado.
     Quando voltou para a galeria, depois desse fim-de-semana, estava com melhor 
aparncia. Havia quase um ms que andava a matutar numa ideia. Ainda no tomara 
qualquer deciso. Tratava-se de uma coisa que planeara com Arthur.
     Agora parecia-lhe fazer mais sentido do que antes: queria voltar para a sua casa; 
viver em Nova Iorque sem ele era algo que lhe custava muito.
     Setembro passou a voar, com a abertura de uma vaga para um novo artista, que ela 
ficou a representar, e outra exposio individual. Era responsvel por todas as 
exposies, seleccionando os trabalhos que seriam exibidos e onde coloc-los, 
procurando contrastes e combinaes de modo a dar o maior realce a cada pintura, 
tirando o mximo partido dos quadros. 
     Era algo para que tinha forte intuio e que adorava fazer. Tambm se encontrou 
com vrios clientes mais antigos, e que conhecia bem, e assistiu s reunies de direco 
dos museus a que se encontrava ligada, alm de estar a planear uma cerimnia religiosa 
em memria de Arthur para assinalar o primeiro aniversrio do seu falecimento. Xavier 
prometera-lhe que viria de Londres para poder estar presente. A cerimnia foi, como seria 
de esperar, uma ocasio de grande tristeza para a famlia. Todos os que haviam sido 
scios de Arthur estiveram presentes, assim como os filhos e os amigos mais chegados 
de ambos, pessoas amigas, que ficaram entristecidas ao verem como ela ainda se sentia 
infeliz e desgostosa. Quando saram da igreja, mal conseguiam acreditar que j havia 
passado um ano.
     Nessa noite, depois da cerimnia religiosa, Tatiana disse  me que se demitira do 
emprego, tendo decidido viajar para a ndia com alguns amigos, onde permaneceria 
vrios meses. Queria tirar fotografias, aperfeioar o seu estilo, e quando regressasse 
tencionava procurar trabalho numa revista. Prometeu que voltaria por altura do Natal. A 
filha tinha vinte e trs anos e alegou que precisava de alargar os seus horizontes, o que 
deixou Sasha um tudo-nada preocupada; no entanto, reconhecia que s lhe restava 
deixar que ela seguisse o seu caminho. 
     Depois foi a vez de ela prpria informar os filhos sobre os seus planos. Tinha 
decidido mudar-se para Paris, passando a dirigir l a galeria, invertendo o sentido das 
viagens regulares que fizera durante os ltimos treze anos. Desde a morte de Arthur que 
desejava retornar s suas razes. E depois da partida de Tatiana, pelo menos em Paris 
estaria mais prxima de Xavier. A filha ficou surpreendida com a sua deciso, mas Xavier 
mostrou-se muito satisfeito.
     - Acho que essa mudana vai ser boa para a me - disse ele afectuosamente. 
Durante o ltimo ano tinha andado preocupado com ela. No passado, a me sempre lhe 
parecera sentir-se mais feliz em Paris, o que esperava viesse a repetir-se. Os ltimos 
doze meses haviam sido de muita tristeza para Sasha.
     - Tenciona vender o apartamento? - perguntou Tatiana, mostrando-se preocupada. 
Era muito raro que ultimamente ficasse l, mas gostava de saber que estaria  sua 
disposio caso fosse preciso. No tivera conhecimento dos planos do pai para quando 
se aposentasse, tal como no estivera a par das conversas dos pais sobre a venda do 
apartamento, aps o que comprariam uma casa mais pequena.
     - Ainda no.  onde ficarei sempre que vier a Nova Iorque. - Tatiana pareceu 
aliviada. De facto, a mudana para Paris alteraria muito pouco a existncia de Sasha. 
Passaria a estar em Paris durante trs semanas do ms, em vez de uma ou duas, 
enquanto a estada em Nova Iorque passaria a ser de uma semana ou mais, caso fosse 
necessrio. Sempre tivera os ps bem assentes nas duas cidades e havia treze anos que 
vivia dessa maneira. Os gerentes que se encontravam  frente das duas galerias estavam 
bem habilitados para fazer o que ela queria, mantendo-se em comunicao constante 
com Sasha sempre que ela se ausentava. No que lhe dizia respeito, tratava-se de uma 
mudana a que se ajustaria com facilidade.
     Sasha esperou por Novembro para se mudar para Paris. O ms de Outubro era 
sempre muito movimentado no mundo da arte de Nova Iorque. Havia reunies de 
direco dos museus em que tinha de estar presente, alm de precisar de organizar 
algumas exposies, e antes de transferir a maior parte das suas actividades para Paris 
ainda queria visitar alguns dos seus amigos em Nova Iorque. Havia quase um ano que 
no via certas pessoas. Deu um pequeno jantar em honra de Alana, que acabara de ficar 
noiva e parecia sentir-se extremamente aliviada. 
     Ia casar com o homem que apresentara a Sasha em Junho passado e ambos 
aparentavam estar muito satisfeitos. E, como de costume, Alana no conseguiu resistir a 
perguntar-lhe se j estava pronta para comear a sair com outros homens. Sempre que 
se encontrava com Sasha, fazia-lhe a mesma pergunta. Era um ritual que Sasha passara 
a detestar.
     - Ainda no - respondeu-lhe com um sorriso prazenteiro antes de se afastar. Isso 
jamais viria a acontecer, disse para consigo. Passou um ltimo fim-de-semana nos 
Hamptons antes de partir, tendo celebrado o Dia de Aco de Graas, na ltima quinta-
feira de Novembro, com amigos. Xavier regressara a Londres e Tatiana j se encontrava 
na ndia com os seus companheiros de viagem. Para Sasha era mais fcil ir a casa de 
uma pessoa amiga por ocasio do Dia de Aco de Graas. Parecia-lhe mais impessoal e 
menos doloroso. Em sua casa, no ano anterior, a ausncia de Arthur ainda era muito 
recente, e por isso extremamente dolorosa para os trs. 
     Este ano tinha sido melhor. Ficou surpreendida ao encontrar um amigo de longa 
data durante um jantar para que fora convidada, e ainda mais ao saber que, ao fim de 
trinta e quatro anos de casamento, ele acabara de se divorciar. Tinha a mesma idade de 
Arthur e havia muitos anos que no o via. Durante o jantar, discretamente, contou a 
Sasha que a mulher se tornara alcolica, tendo sofrido de graves problemas mentais ao 
longo dos ltimos vinte anos de casamento. Apesar de mostrar tristeza, tambm se sentia 
aliviado por ter posto fim quela situao, lamentando saber que Sasha estava prestes a 
mudar-se para longe. 
     Passaram uns bons momentos a conversar durante o jantar e Sasha reparou que a 
anfitri os olhava com uma expresso esperanosa. Esperara que acontecesse alguma 
coisa quando convidou os dois; eram os nicos presentes que no estavam casados. 
quando ele lhe telefonou no dia seguinte. Ligou quando ela estava a fazer as malas que 
levaria na viagem para Paris. Partiria no dia seguinte. Pensei que talvez quisesses jantar 
comigo - disse ele, denotando alguma hesitao e um certo constrangimento.
     Sempre gostara dela e de Arthur e, tal como Sasha, havia vrios anos que no saa 
com ningum. Parecia sentir-se inseguro e um pouco nervoso.
     - Teria adorado aceitar o teu convite - retorquiu Sasha com -vontade. Sabia que 
estava de partida, portanto, para si aquela questo no se punha e, fosse como fosse, 
no teria constitudo problema. No que lhe dizia respeito, eram to-somente amigos de 
longa data, e nunca viriam a ser mais do que isso. - Mas parto amanh para Paris. Vou 
mudar-me de vez para l - acrescentou com alvio. Sabia que tinha tomado a melhor 
deciso. At mesmo os filhos estavam de acordo.
     - Lamento saber isso. Tinha esperana de te convencer a ires ao cinema comigo ou 
jantar um dia destes. - Ficara satisfeito por a ter encontrado de novo. E at mesmo Sasha 
era forada a reconhecer que no havia nada que lhe pudesse apontar. Era um bom 
homem - com a diferena de no ser Arthur e ela no estar interessada em envolver-se 
amorosamente com quem quer que fosse.
     - Virei todos os meses a Nova Iorque por alguns dias. Vais ter de assistir  
inaugurao de uma das nossas exposies - convidou ela vagamente, e ele prometeu 
que iria.
     - Quando for a Paris dou-te uma apitadela. De vez em quando tenho de ir l em 
negcios.
      - Mas a verdade  que andava  procura de algum mais acessvel em termos 
geogrficos e emocionais, pelo que estava certa de que nunca mais voltaria a contact-la. 
No entanto, era algo que, francamente, lhe era indiferente. Ele desejou-lhe felicidades e 
na manh seguinte Sasha apanhou um txi que a levou ao aeroporto. s nove horas j se 
encontrava no ar e meia hora depois adormecera profundamente. 
     Quando partiu de Nova Iorque a manh estava lmpida e fresca, mas quando 
chegou a Paris constatou que fazia um frio de enregelar e chovia a cntaros. Recordou 
mais uma vez quanto os Invernos em Paris podiam ser deprimentes. Todavia, 
independentemente do tempo, sentia-se contente por l estar. Nessa noite adormeceu na 
sua cama, na casa de Paris, ao som da chuva, que caa, inclemente.
     Quando acordou, na manh de domingo, o nevoeiro era to cerrado que quase no 
se via um palmo  frente do nariz. O dia estava frio e pardacento e a casa bastante 
hmida. Quando se deitou, nessa noite, at os lenis lhe causaram uma sensao de 
desconforto, sentindo uma frialdade que se lhe entranhava nos ossos. Por momentos, 
teve saudades do apartamento acolhedor e confortvel em Nova Iorque. Aquilo de que se 
apercebeu enquanto tentava conciliar o sono foi que, onde quer que se encontrasse, teria 
por companhia a sua infelicidade. No interessava qual a cidade em que vivesse nem 
qual a cama em que se deitasse. Onde quer que estivesse, qualquer que fosse o pas ou 
cidade, a sua cama estaria sempre vazia e ela sozinha. 
     
     
                                               CAPTULO 3
     
     Durante o ms de Dezembro, Sasha teve uma vida muito ocupada em Paris. O 
negcio da galeria florescia a olhos vistos. Reuniu-se com um grande nmero dos seus 
clientes mais importantes, os quais pareciam querer fazer aquisies de vulto, ou vender 
parte das suas coleces de arte, antes do final do ano. Falava com Xavier quase 
diariamente e tratara de tudo para ir passar uns dias com os filhos a uma estncia de 
esqui. No dia a seguir ao Natal partiriam para Saint-Moritz. Havia vrios clientes 
importantes que estariam a fazer esqui a na mesma altura.
     A sua vida social em Paris era bastante mais formal do que em Nova Iorque. Os 
seus clientes de Nova Iorque eram pessoas bem-sucedidas, mas, de uma maneira geral, 
mais informais, e muitos deles, ao longo dos anos, haviam-se tornado bons amigos. As 
pessoas com as quais se dava nos Estados Unidos eram interessantes e vinham de toda 
uma diversidade de origens e actividades profissionais.
      Por outro lado, em Paris existiam determinados parmetros sociais que eram muito 
caractersticos dos europeus. A maior parte dos seus clientes vinham da classe 
aristocrtica, frequentemente com ttulos nobilirquicos, de linhagem ou com fortunas 
estabelecidas h muitas geraes, como os Rothschilds e outros, que recebiam de 
maneira faustosa, muitos dos quais tambm haviam sido amigos do pai. As festas para 
que era convidada eram infinitamente mais elegantes em termos de vesturio e muito 
mais requintadas do que aquelas a que ia em Nova Iorque, ou a que costumava 
comparecer quando Arthur era vivo. 
     Em Paris era bastante mais difcil declinar esses convites, uma vez que grande 
nmero das pessoas que a convidavam lhe compravam peas de arte de muito valor. 
Consequentemente, sentia-se obrigada a ir s suas festas. Queixava-se disso a Xavier, 
mas o filho insistia em que lhe faria bem distrair-se. Porm, mesmo com a sua idade, era 
frequente que Sasha fosse, de longe, a pessoa mais nova na sala, e a maior parte das 
vezes sentia-se entediada. Por razes profissionais, era obrigada a ir a essas festas, mas 
sentia-se sempre satisfeita quando podia voltar para casa.
     
     Em meados de Dezembro, num daqueles dias nublados e cinzentos em que 
trabalhava no seu gabinete, a secretria informou-a de que chegara um cliente que queria 
falar com ela. Sasha tinha-o conhecido num jantar de festa na noite anterior. O indivduo 
estava interessado na aquisio de uma pea importante de arte flamenga, e Sasha 
sentiu-se satisfeita por ele ter dado seguimento  conversa que haviam tido sobre o 
assunto. Saiu do seu gabinete para o receber, mostrando-lhe vrias pinturas que pareceu 
terem-lhe agradado.
     Era bvio para qualquer pessoa, excepto para Sasha, que no decurso da visita de 
duas horas e meia que o cliente fizera  galeria a proprietria tambm lhe agradara 
bastante. Convidou-a para jantar no Alain Ducasse no dia seguinte, a fim de discutirem a 
possvel aquisio de um dos quadros em que estava interessado. 
     O Ducasse era um dos melhores restaurantes de Paris, e Sasha sabia que a 
refeio se prolongaria por trs ou quatro horas, o que considerava entediante, mas a 
verdade  que era uma oportunidade de vir a fazer uma venda no valor de um milho de 
dlares. Actualmente, a nica coisa em que pensava era no trabalho, excepto quando 
falava com Tatiana ou Xavier.
     - Quem sabe se ele no estar interessado em mais alguma coisa alm do quadro, 
me... - disse Xavier na brincadeira quando ela lhe falou do convite que aceitara para o 
jantar no dia seguinte.
     - No sejas disparatado, o meu pai passava a vida a ir a jantares com os clientes! E 
acredita no que te digo, ningum estava interessado nele! - replicou, se bem que 
soubesse de algumas mulheres dispostas a seduzir o pai depois da morte da me. No 
entanto, nunca viu qualquer empenho romntico da parte do pai por quem quer que fosse. 
Tal como ela, tinha permanecido fiel  memria da mulher at ao fim. Ou, pelo menos, 
fora essa a impresso que o pai lhe deixara. Era um assunto que nunca discutira com ele. 
Se ao longo dos anos tinham existido outras mulheres na sua vida, agira com a maior 
discrio, mas Sasha duvidava disso.
     - Nunca se sabe... - Xavier insistiu, esperanado. Nem ele nem a irm queriam que 
ela acabasse sozinha. - A me  uma mulher lindssima e ainda  muito nova.
     - No, no sou. J fiz quarenta e oito anos.
     - Na minha opinio, ainda  nova. Um dos meus amigos anda com uma mulher mais 
velha do que a me.
     - Isso  revoltante! Quanto a mim,  assdio infantil retorquiu Sasha, rindo-se. A 
hiptese de vir a sair com um homem mais novo parecia-lhe absurda.
     - No diria a mesma coisa se fosse um homem da sua idade que andasse com uma 
mulher mais nova...
     - Isso  diferente - retrucou ela enfaticamente, e desta feita foi Xavier que se riu dela.  
No, no . S est acostumada a ver isso. Faz igualmente sentido que seja uma mulher 
mais velha a sair com um homem mais novo.
     - Ests a tentar dizer-me que a tua ltima apaixonada tem o dobro da tua idade? 
Porque se for isso nem sequer quero saber nada a esse respeito. - Mas, do mal o menos, 
Sasha sabia que, se fosse esse o caso, a mulher seria substituda no espao de uma 
semana. Com Xavier era o que acontecia sempre, qualquer que fosse a idade delas. No 
que dizia respeito a mulheres, o filho era um autntico cata-vento.
     - No, ainda no experimentei isso, mas no hesitaria, se conhecesse uma mulher 
mais velha de quem gostasse e com quem quisesse andar. bota-de-elstico, me! - Regra 
geral, a me no era assim; de facto, Xavier adorava a abertura de esprito que ela 
mostrava sempre em relao a ele. No que dizia respeito a esse aspecto, era tipicamente 
francesa e nunca mostrava um mnimo de preocupao (ou intromisso) quanto  vida 
amorosa do filho, que, por sinal, era bastante activa. 
     
     
     Sasha sempre fora muito mais liberal do que as mes dos outros colegas e amigos 
com quem estudara em Nova Iorque. Lembrava-se que a me tinha o hbito de lhe 
comprar preservativos, assim como para os seus amigos, que deixava num boio de vidro 
enorme que havia no quarto.
      No lhe fazia perguntas, mas tinha o cuidado de manter o boio sempre cheio. 
Sasha preferia adoptar uma atitude realista em relao a esse tipo de assuntos. Nesse 
sentido, possua um esprito realmente francs.
     - Estou a avisar-te de que se casares com uma mulher que tenha o dobro da tua 
idade no tenciono ir ao teu casamento, em especial se for uma das minhas amigas.
     - Nunca se sabe... S penso que a me devia manter uma mente aberta com 
respeito a si prpria. - Sabia que a me no sara com nenhum homem desde a morte do 
pai. Me e filho mantinham uma relao to franca que Xavier sabia que ela lhe diria, se 
fosse esse o caso.
     - Talvez eu devesse comear a parar pela escola primria das redondezas, ou 
divulgar o meu nmero de telefone entre os alunos do Lyce. At podia adoptar um deles, 
caso no encontre ningum com quem namorar... - Sasha ria-se do filho e da imagem 
absurda e um tanto ou quanto revoltante de si prpria com um rapazinho ou mesmo com 
um homem muito mais novo do que ela. Estava acostumada a viver com algum mais 
velho.
     - Quando quiser arranjar um namorado, me, tenho a certeza de que o far - disse 
Xavier com toda a tranquilidade.
     - Mas acontece que no quero! - retorquiu ela com firmeza e com o riso a 
desaparecer da sua voz. Aquele era um assunto que no desejava aprofundar com o filho 
nem to-pouco com qualquer outra pessoa.
     - Eu sei, mas espero bem que isso venha a acontecer um destes dias. - Havia 
catorze meses que o pai falecera, e Xavier sabia melhor que ningum quanto a me se 
sentia sozinha. Ela costumava telefonar-lhe todos os dias quando chegava a casa, e no 
lhe era difcil aperceber-se da tristeza na sua voz quando no estava a trabalhar. 
Detestava pensar nela naquela situao. 
     Tatiana fora para a ndia, pelo que tinha muito menos contacto com a me do que 
ele. Alm disso, tinha a impresso de que a me falava mais abertamente com ele. Havia 
entre ambos aquela ligao muito especial de afeto que por vezes existe entre mes e 
filhos, como confidentes e amigos.
     Sasha disse-lhe que ia a Nova Iorque para uma reunio de direco na semana 
seguinte e que regressaria a Paris num voo que partiria no dia anterior ao da vspera de 
Natal. Ele e Tatiana tinham ficado de chegar a Paris na tarde da vspera de Natal. No dia 
a seguir ao de Natal partiriam para Saint-Moritz. Era com expectativa que os trs 
esperavam por esse momento. O novo potencial cliente tambm possua uma casa nessa 
estncia de esqui, mas Sasha esperava j ter concludo a venda nessa altura.
     No dia seguinte o cliente foi busc-la a casa para jantar, tendo-a levado ao Alain 
Ducasse, na Plaza Athne, tal como combinado. Sasha teria preferido um jantar mais 
simples, mas nem por isso menos requintado, no Le Voltaire, mas tratava-se de um jantar 
de negcios, pelo que teria de ir onde o cliente a quisesse levar. No era difcil perceber 
que ele tentava impression-la, mas a verdade  que Sasha nunca se sentira 
particularmente deslumbrada por uma culinria complicada e rica, por muitas estrelas que 
o restaurante possusse. O Alain Ducasse tinha trs.
     Previsivelmente, a refeio estava soberba. A conversa havia sido interessante e a 
venda parecia estar iminente quando Gonzague de Saint Mallory a levou a casa. Era 
encantador, bem-educado, extremamente rico, um conde e um pedante de primeira 
ordem. Le comte de Saint Mallory. Fora casado duas vezes, tinha cinco filhos que 
reconhecia e de que falava e outros trs de que todos sabiam e que ele no reconhecera. 
     Em questes desta natureza, Frana era um pas pequeno, e Paris uma verdadeira 
aldeia. Os casos amorosos do conde eram lendrios, cuidava bem das suas amantes e 
dos filhos ilegtimos, um tema habitual de conversa no crculo social a que pertencia.
     - Estava a pensar que talvez gostasse de ver como  que o quadro ficaria na casa 
de Saint-Moritz antes de me decidir
     - disse o conde com uma expresso pensativa enquanto a levava a casa no seu 
Ferrari. Um automvel como o dele s muito raramente era visto nas ruas de Paris, uma 
cidade em que os carros grandes no eram muito convenientes. Sasha conduzia um 
pequeno Renault, uma viatura fcil de manobrar e de estacionar. No sentia necessidade 
de se exibir num automvel de preo elevado em Paris ou em qualquer outra cidade. - 
Talvez pudesse ir at l para ver como ficava e dar-me a sua opinio - acrescentou 
quando encostavam ao passeio defronte da casa apalaada onde se situavam a galeria e 
a residncia de Sasha.
     - No seria difcil - replicou Sasha afavelmente. Podemos enviar-lhe o quadro para 
Saint-Moritz, onde chegarei dentro de duas semanas com os meus filhos. - Assim que ela 
disse isto, o conde deu a impresso de ter ficado irritado.
     - Pensei que pudesse ficar em minha casa. Talvez lhe fosse possvel lev-los a 
Saint-Moritz numa outra altura. No que lhe dizia respeito, os filhos dela podiam ser 
dispensados sem problemas de maior. Mas Sasha no era da mesma opinio.
     - Lamento ter de lhe dizer que isso est fora de questo
     - redarguiu Sasha, olhando-o bem de frente e com toda a clareza. - H muito tempo 
que planemos esta viagem. Mas, ainda que no fosse esse o caso, estou ansiosa por 
poder passar umas frias com os meus filhos. - Sasha tentava transmitir-lhe que dali no 
levaria nada, independentemente dos filhos. No tinha a mnima inteno de misturar 
negcios com prazer, em especial com ele. O homem tinha a reputao de ser um 
mulherengo. Tinha cinquenta e quatro anos e era do conhecimento geral que gostava de 
sair com mulheres muito mais novas. Presumo que queira vender o quadro - continuou 
Gonzague com a mesma clareza. - Estou em crer que me est a compreender, 
mademoiselle de Suvery...
     - Compreendo, sim, monsieur le comte. O quadro est  venda, mas eu no. Nem 
mesmo por um milho de dlares! 
     Terei todo o prazer de ver como  que o quadro fica em sua casa enquanto estiver 
em Saint-Moritz - acrescentounum tom de voz mais cordial. Mas nesta altura os olhos do 
conde j coruscavam. Ambos tinham marcado a sua posio sem qualquer ambiguidade, 
e ele no gostava do que ouvia. As mulheres nunca se lhe recusavam, sobretudo as 
mulheres da idade de Sasha. Na sua opinio, estaria a fazer-lhe um favor caso se 
decidisse a ir para a cama com ela. Sasha parecia-lhe uma mulher triste e solitria, mas, 
aparentemente, no estava to sozinha como ele julgara. To-pouco estava desesperada 
por efectuar a venda do quadro.
     - No h necessidade de ir l para o ver - replicou com frieza. - Decidi que afinal no 
vou comprar essa pintura. Na verdade, sinto-me seriamente preocupado por pensar que 
talvez seja falsa - acrescentou enquanto saa do automvel, que contornou para abrir a 
porta do lado de Sasha com toda a cortesia. Porm, ela j se encontrava no passeio, 
fitando-o com uma expresso de fria quando ele chegou junto dela.
     - Muito obrigada pelo magnfico jantar - agradeceu com frieza. - No fazia a mnima 
ideia, a acreditar na sua reputao, que se dedicasse a comprar mulheres, e por um 
preo to elevado. Estaria em crer que um homem com o seu encanto e inteligncia seria 
capaz de as arranjar de graa. Quero agradecer-lhe esta noite encantadora. - Antes que 
ele tivesse oportunidade de dizer alguma coisa, Sasha encaminhou-se para o porto de 
bronze, marcou o cdigo que lhe abriu a porta e desapareceu. Segundos depois ouviu o 
motor do automvel, que arrancava velozmente. 
     Toda ela tremia, de to indignada que se sentia quando entrou em casa. O estupor 
tentara compr-la juntamente com o quadro, pensando que estava to desesperada para 
efectuar a transaco que estaria disposta a deitar-se com ele. Era uma atitude que 
ultrapassava o insulto! Quando Arthur era vivo, ningum se teria atrevido a trat-la com 
tanta falta de respeito. Quando telefonou a Xavier ainda estava a tremer; momentos 
depois j havia narrado o episdio ao filho. Manifestamente, Xavier no cabia em si de 
contente, regozijando-se quando ela lhe contou o que disse ao conde no final da 
conversa.
     - A me  fantstica! Tem muita sorte por ele no a ter atropelado com o Ferrari 
quando se foi embora.
     - Tenho a certeza de que teria tido muito prazer nisso. Mas que grande sacana que 
o homem me saiu! - desabafou Sasha, fazendo com que o filho se risse de novo. Estou de 
acordo. Mas a me devia sentir-se lisonjeada: ouvi dizer que ele anda com raparigas mais 
novas do que a Tatiana... Passa bastante tempo aqui, vai muitas vezes ao Annabels.
     - Isso no me surpreende. - O Annabels era um clube privado de Londres 
frequentado por pessoas do mais elevado estrato social, assim como por um grande 
nmero de homens de idade acompanhados por mulheres muito mais novas. Sasha e 
Arthur haviam ido l em inmeras ocasies. Eram membros do clube, e tambm 
frequentavam o Harrys Bar; os dois estabelecimentos eram propriedade da mesma 
pessoa.
     - Como  que vocs, homens, conseguem agir desta maneira sem sofrer qualquer 
consequncia?
     - H mulheres que adoram. A maior parte das proprietrias de galerias de arte, 
provavelmente, teriam ido para a cama com ele s para lhe venderem um quadro.
     - Sim, e depois, no dia seguinte, a pintura ser-lhes-ia devolvida. - O pai tinha-a 
advertido em relao a homens como o conde quando comeara a trabalhar com ele. 
Gonzague de Saint Mallory no era um espcimen nico e, na opinio de Sasha, possua 
um carcter que no abonava minimamente a seu favor.
     Nessa noite, quando se deitou, ainda estava furiosa devido quele incidente. Na 
manh seguinte informou o gerente da galeria de que no venderiam o quadro ao conde.
     - Oh! Pensei que ontem  noite ias jantar com ele comentou Bernard.
     - E fui, mas o conde comportou-se de uma forma censurvel, e teve muita sorte por 
eu no o ter esbofeteado. Aparentemente, estava a contar poder comprar os meus 
servios juntamente com o quadro. Pensou que eu devia ir com ele para o chal que 
possui em Saint-Moritz, cancelando as frias que planeei com os meus filhos.
     - E no aceitaste a proposta? - perguntou Bernard, fingindo-se escandalizado. - 
Sasha, mas que negociante to fraca que me saste! Meu Deus, pensa bem, um milho 
de dlares por gua abaixo! No tens o mnimo sentido de responsabilidade para com o 
negcio do teu pai? - Bernard adorava arreli-la. Ao cabo de quinze anos a trabalhar na 
galeria, haviam estabelecido uma verdadeira relao de amizade.
     - Ora, cala a boca, Bernard! - retorquiu ela com um leve sorriso, dirigindo-se para o 
seu gabinete e recomeando a trabalhar. Para Sasha, aquela havia sido a proposta mais 
ultrajante que lhe fora feita. Na semana seguinte contou o sucedido  gerente da galeria 
de Nova Iorque, a qual se mostrou francamente chocada.
     - Os norte-americanos no se comportam dessa maneira! - retorquiu Karen,
     - Provavelmente, alguns comportam-se muito pior. Estou a comear a acreditar que 
 algo caracterstico apenas da populao masculina, que no tem nada a ver com a 
nacionalidade, se bem que seja possvel que os franceses sejam mais ousados nesta 
matria, mas tenho a certeza de que estas situaes tambm ocorrem aqui. Nunca 
ningum te deu a entender que terias de ir para a cama a fim de conseguires vender uma 
determinada pintura? - perguntou Sasha, rindo-se  socapa e encostando-se para trs na 
cadeira. 
     Ao fim e ao cabo, o incidente comeava a parecer-lhe divertido. Karen, a gerente da 
galeria de Nova Iorque, ficou a pensar no assunto por momentos, aps o que abanou a 
cabea.
     - No me parece. Talvez eu no me tenha apercebido.
     - E o que  que farias, caso tivesses percebido? - Sasha estava a brincar com ela. 
Eu teria dormido com ele e depois pagava-lhe o milho de dlares - interveio Mareie, a 
assistente de Sasha. Vi o retrato dele numa revista. O homem  de morrer, Sasha!
     - Sim, de facto  - admitiu Sasha, embora no se mostrasse impressionada com 
isso. Achava que o seu falecido marido era muito mais bem-parecido do que o conde. A 
postura, de uma cortesia exagerada, e as maneiras melfluas do homem no lhe haviam 
agradado. Preferia a aparncia e maneira de ser francas, estilo Gary Cooper, de Arthur. 
Homens como Gonzague de Mallory eram coisa que no faltava, com ou sem Ferrari. 
Conhecia bem o gnero.
     Os trs dias que esteve em Nova Iorque foram to preenchidos que passaram num 
pice. Precisava de falar com vrios artistas e clientes importantes com quem ficara de se 
encontrar, alm de ter assistido  reunio de direco que a levara a Nova Iorque. Passou 
as duas primeiras noites no apartamento, aproveitando para separar as coisas de Arthur. 
Tinha prometido a si mesma que, no mnimo, arrumaria algumas delas. Precisara de 
catorze meses, e agora os roupeiros pareciam-lhe vazios e tristes depois de ter tirado as 
coisas dele. Mas havia chegado a altura de o fazer.
     Na ltima noite que passou em Nova Iorque foi a uma festa de Natal que uns amigos 
deram. Para ela, havia qualquer coisa de agridoce por estar em Nova Iorque antes da 
quadra natalcia. Era uma altura que lhe trazia a recordao do tempo em que os filhos 
eram pequenos e os levava a patinar no gelo no Centro Rockefeller, alm de lhe trazer 
tambm  memria os dois Natais anteriores, quando Arthur ainda estava vivo. Era-lhe 
difcil estar ali. Sentia-se satisfeita por poder ver os amigos, mas tambm estava farta de 
lhes explicar que no havia nenhum homem na sua vida. 
     Parecia ser a nica pergunta que as pessoas lhe faziam ultimamente, como se ela 
no existisse a menos que tivesse uma relao com um homem. Era uma atitude que a 
fazia sentir-se, de uma maneira estranha, como se fosse um fracasso, agora que o marido 
morrera e ela ficara sozinha. Observar as amigas casadas que saam com os respectivos 
maridos fazia-a sentir-se como se fosse uma espcie nica no meio da Arca de No. Foi 
um grande alvio poder regressar a Paris no dia seguinte, entusiasmada ao pensar que os 
filhos chegariam logo no dia a seguir.
     Tratou de arranjar algum que fosse a sua casa cozinhar o peru para a consoada, e 
j tinha enfeitado a rvore de Natal e decorado o resto da casa com motivos alegricos. 
Era com grande expectativa que aguardava Tatiana, que no via h dois meses. A filha 
parecia sentir-se bem e estar feliz, dizendo que tinha passado umas semanas 
maravilhosas; mal podia esperar para mostrar as fotografias  me. Estavam a v-las 
quando Xavier contou  irm o que se passara entre a me e Gonzague.
     - A me esteve quase a cancelar a nossa viagem para Saint-Moritz - disse ele,  
guisa de lance de abertura. Tatiana mostrou uma expresso de surpresa. - Foi por um triz 
que no foi sem ns para poder vender um quadro no valor de um milho de dlares a um 
conde francs.
     - No, no foi nada disso, mido asqueroso... - Sasha contou o episdio  filha, que 
pareceu ficar chocada por um playboy parisiense ter tentado ir para a cama com a me 
com o engodo da possibilidade de efectuar a venda de um quadro no valor de um milho 
de dlares.
     - Isso  revoltante, me! - afirmou Tatiana com sinceridade e afecto pela me. No 
lhe era difcil imaginar quanto a situao devia ter sido humilhante para ela. No, no . 
Acho at que a me devia sentir-se lisonjeada... - declarou Xavier.
     - Ele  um chauvinista asqueroso! - ripostou Tatiana, olhando, furiosa, para o irmo. 
- Deve ter sido horrvel para a me!
     - Est bem, est bem, vocs duas ganharam. Vou procur-lo para lhe dar uma surra. 
Onde  que ele vive? - perguntou Xavier virando-se para a me, que desatou a rir.
     - No te devia ter contado nada. Nunca mais me deixars em paz por causa desta 
histria!
     - Deixo, sim. E a propsito, tenho-me esquecido de lhe dizer. Finalmente o Liam 
decidiu que lhe ia enviar os diapositivos. J mos mostrou. So muito bons - adiantou 
Xavier, cheio de orgulho do amigo.
     - Vou ficar  espera de os poder ver. 
     - Sasha sabia que, por vezes, Xavier tinha um bom golpe de vista, mas 
tambmhavia ocasies em que procurava ajudar os amigos atravs dela. Nunca sabia 
bem o que esperar, mas decerto que valeria a pena ver os diapositivos. Havia alguns 
anos que ouvia falar do jovem artista norte-americano que vivia em Londres. Bem, a 
verdade  que ouvira mais sobre as suas aventuras e escapadelas do que sobre os seus 
trabalhos.
     - Estou em crer que a me vai ficar impressionada com o trabalho dele - garantiu 
Xavier. Sasha acenou em sinal de concordncia, sem fazer comentrios. Continuava 
esperanada em que no fosse esse o caso; o homem dava-lhe a impresso de ser uma 
fonte de dores de cabea.
     - Diz-me l outra vez qual  o apelido dele? - perguntou Sasha, mostrando pouco 
interesse.Liam Allison.  de Vermont, mas desde que saiu da faculdade que vive em 
Londres.
     - No me esquecerei do nome. Se gostar dos diapositivos, vou tentar encontrar-me 
com ele da prxima vez que vier c. - De vez em quando, Xavier conseguia descobrir-lhe 
artistas de qualidade; quem sabe se esta no seria uma dessas ocasies? Sasha estava 
sempre disposta a ver os trabalhos que lhe eram apresentados. Era por isso que gozava 
da reputao que tinha. Sasha possua um esprito aventureiro e um golpe de vista que 
nunca falhava, mas tambm sabia de antemo que Liam no era pessoa em quem se 
pudesse confiar. Era uma concluso a que inevitavelmente chegara depois de todas as 
complicaes em que Xavier se metera com ele.
     Nessa noite foram  Missa do Galo, e passaram o dia seguinte confortavelmente em 
famlia. Tatiana trouxera da ndia um sari lindssimo para oferecer  me, assim como um 
bonito par de sandlias douradas a condizer. Quanto a Xavier, comprara-lhe um bracelete 
em ouro numa loja de antiguidades em Londres. Era o gnero de prenda que o pai teria 
oferecido  me, e Xavier sentiu um grande carinho ao ver que o rosto dela se iluminava 
de satisfao quando o enfiou no brao.
     Sasha olhou para os dois filhos quando foram para a cama na vspera de Natal, 
sorrindo-lhes com uma expresso de ternura.
     - Sou a mulher mais afortunada do mundo - disse ela, e cada palavra vinha-lhe do 
fundo do corao. Pela primeira vez em muito tempo, era realmente assim que se sentia. 
     
                                           CAPTULO 4
     
     Sasha e os filhos passaram uns dias inolvidveis em Saint-Moritz, se bem que estes 
a tivessem arreliado impiedosamente por causa do incidente com Gonzague. Ficaram 
alojados no Hotel Palace, em acomodaes opulentas. De vez em quando, Sasha 
adorava estragar os filhos com mimos, especialmente durante as frias. Ela e Arthur 
desde sempre haviam procedido dessa forma. Sentiam-se afortunados por terem meios 
que lhes permitiam tais extravagncias e as viagens que tinham feito constituam 
recordaes que todos guardavam ciosamente. Nesse ano, Saint-Moritz entrou para o 
lbum de recordaes.
     Parte do tempo de Sasha foi passado a esquiar com os filhos, aproveitando o resto 
para ficar a ss consigo e com os seus pensamentos. Xavier era um esquiador notvel, e 
Tatiana era to gil como o irmo, apenas um tudo-nada mais responsvel e menos 
temerria. Os dois jovens conheciam pessoas da sua idade com quem saam  noite, e 
eram mais as vezes em que Sasha jantava sozinha no seu quarto do que o contrrio. Mas 
no se incomodava com isso. Trouxera vrios livros, at porque no tencionava participar 
na vida nocturna da estncia turstica.
      Sentia-se descansada, contente e relaxada quando regressaram a Paris. Tatiana 
ficou apenas alguns dias, uma vez que queria voltar para Nova Iorque, a fim de procurar 
um novo emprego; quanto a Xavier, deixou-se ficar mais um ou dois dias depois da 
partida da irm, aps o que voltou para o seu estdio em Londres. Antes de ter partido de 
Paris, chegaram os diapositivos do amigo Liam Allison. Para grande surpresa - e 
desagrado de Sasha, constatou que eram de melhor qualidade do que o filho lhe 
garantira. Ficou impressionada, se bem que, para poder tomar uma deciso quanto a 
represent-lo, ou no, precisava de ver os trabalhos de pintura ao vivo.
     - Vou tentar ir at a na prxima semana, ou talvez na semana a seguir - disse 
Sasha a Xavier, tencionando cumprir o que dizia. Porm, s na ltima semana de Janeiro 
 que teve oportunidade de ir a Londres, planeando falar com trs dos seus artistas e 
conhecer Liam. Foi com alguma expectativa que lhe marcou uma hora para visitar o 
estdio na ltima tarde que passou em Londres. 
     As aventuras e o comportamento irresponsvel que Xavier lhe havia descrito no 
contribuam para que se sentisse ansiosa por vir a ter uma relao profissional com ele, 
contudo, era impossvel negar o seu talento. Sentia que tinha de o conhecer. Uma vez 
chegada ao estdio, Sasha sentiu-se satisfeita por ter ido.
     Com uma fisionomia onde se lia ansiedade e um sorriso de nervosismo, Liam abriu-
lhe a porta. Xavier acompanhou a me, dando uma palmada de encorajamento no ombro 
do amigo. Tinha noo de quanto Liam se sentia ansioso. Sasha, com uma expresso 
quase de austeridade, aparentava indiferena e profissionalismo quando entrou no 
estdio. Vestia umas calas de ganga preta e uma camisola da mesma cor, calava botas 
pretas e o cabelo era quase to negro como a camisola, e, como fazia com frequncia, 
prendera-o num carrapito apertado. Apesar de no ser muito alta, Liam achou que tinha 
um aspecto aterrador quando lhe apertou a mo.
      Sabia que o que quer que dissesse, ou pensasse, a respeito do seu trabalho teria 
um impacto na sua vida que perduraria para sempre. Caso considerasse que era 
inadequado ou conclusse que lhe faltava qualidade para ser representado pela sua 
galeria, ele sentiria essa rejeio quase como se fosse uma agresso fsica. Enquanto a 
observava, sentia-se vulnervel e receoso. Educadamente, Sasha agradeceu-lhe por a ter 
convidado a ir ao seu estdio.
      Liam no tinha maneira de saber, a despeito de tudo o que Xavier lhe dissera, que o 
que lhe parecia ser uma atitude de frieza escondia a timidez caracterstica de Sasha. O 
que lhe interessava eram os trabalhos de arte, mais do que a pessoa. No entanto, era 
inegvel que Liam era difcil de ignorar. Ouvira demasiadas histrias a seu respeito 
contadas pelo filho, e sabia bem que ele era uma pessoa pouco moderada e que, 
frequentemente, tinha um comportamento reprovvel. O nico factor mitigador, esperava 
ela, era ter mulher e trs filhos. Com certeza no podia ser totalmente irresponsvel e 
sem nada que abonasse a seu favor, uma vez que era um chefe de famlia.
      Xavier nunca dera a entender que ele fosse promscuo, somente que era 
irreprimvel e um brincalho de primeira ordem, alm de no gostar que lhe dessem 
lies de moral. Resistia a todos os esforos que se tentassem fazer a fim de que 
mudasse o seu comportamento, tal como gorava qualquer expectativa para que passasse 
a agir como uma pessoa adulta, considerando isso como uma forma de controlo. 
     
     De acordo com o que Xavier dizia, escudava-se em grande parte no facto de ser um 
artista, como se isso lhe permitisse qualquer irreverncia e fosse justificao para no 
viver em consonncia com as convenes que regiam os demais, podendo fazer o que 
lhe desse na real gana. Era um estilo de vida a que Sasha no estava acostumada, sendo 
frequente que constatasse ser difcil lidar com pessoas como ele. Trabalhavam quando 
bem lhes apetecia, divertiam-se sempre que podiam e, regra geral, no cumpriam os 
prazos para as exposies. 
     No fundo, os homens como ele queriam ser tratados como crianas. Ao que tudo 
indicava, a mulher estava disposta a satisfazer os seus caprichos, mas no era esse o 
caso com Sasha, por muito bem-parecido e encantador que ele pudesse ser. Se 
encarasse o seu trabalho com seriedade, pelo menos em certa medida, esperava que se 
comportasse como um adulto responsvel ou que, no mnimo, fingisse comportar-se 
como tal. Levando em considerao tudo o que ouvira a seu respeito, no se sentia bem 
certa de que Liam estivesse preparado para crescer. E no fim, encantador ou no, o seu 
trabalho teria de falar por si.
     Num passo lento, atravessou o estdio at  parede onde ele pendurara algumas 
telas de grandes dimenses pintadas com cores vivas. Assentes em cavaletes, viu outros 
trs quadros mais pequenos. Os trabalhos de Liam eram assombrosos e plenos de vigor, 
o uso das cores poderoso, e o tamanho das telas maiores fazia com que o trabalho a 
impressionasse ainda mais. Deteve-se a admirar as pinturas durante bastante 
tempo,acenando com a cabea em silncio, enquanto ele sustinha a respirao. Xavier 
sabia que o silncio da me era bom sinal, mas Liam no estava a par disso. Ao ver como 
ela se concentrava em silncio no seu trabalho, sentia-se como se fosse desfalecer. 
Continha a respirao, at que, finalmente, Sasha se virou para ele, dizendo seis breves 
palavras:
     -  fantstico! Quero os seus trabalhos! - Tempos depois, Liam admitiu perante ela 
que quase desmaiou de alvio. Em vez disso, porm, lanou um grito de vitria, agarrou-a 
e f-la rodopiar, levantando-a no ar com um sorriso de orelha a orelha, at que finalmente 
a pousou no cho.
     - Oh, meu Deus, nem consigo acreditar!... Adoro-a! Oh, meu Deus! Estava 
convencido de que me ia dizer que o meu trabalho no prestava para nada, que era uma 
grande porcaria!
     - No  porcaria nenhuma - retorquiu Sasha, sorrindo-lhe, sentindo-se empolgada 
por ele e agradecida a Xavier por ter descoberto Liam e lhe ter falado nele. - Pelo 
contrrio,  brilhante. A forma como usa as cores faz, literalmente, com que o meu 
corao bata mais depressa e as lgrimas me assomem aos olhos. No entanto, durante o 
prximo ano no vamos poder expor os seus trabalhos. 
     Temos um calendrio mais do que sobrecarregado. Quero que a sua primeira 
exposio seja em Nova Iorque e no em Paris. - As exposies em Paris nunca tinham 
muito impacto, por isso preferia apresentar as exposies de arte contempornea mais 
importantes em Nova Iorque. Xavier tambm sabia que isso era bom sinal, prometendo a 
si mesmo que mais tarde diria isso mesmo a Liam. No queria revelar os segredos da 
me enquanto ela estivesse presente. Sentia-se nas nuvens por ter sido ele quem os 
apresentara. Desde sempre estivera convicto de que o trabalho de Liam era excelente, 
sentindo um grande alvio e entusiasmo ao ver que a me concordava com a sua opinio.
     - Oh, meu Deus! - repetiu Liam  beira das lgrimas, sentando-se no cho. Havia 
quase vinte anos que trabalhava com aquele objectivo e agora, finalmente, os seus 
desejos tinham-se concretizado. Iria expor os seus trabalhos na Galeria Suvery em Nova 
Iorque. Tinha a sensao de estar a viver um sonho. E a prpria Sasha de Suvery 
encontrava-se ali, sentada no seu estdio e a adorar a sua obra. Dizia-lhe que teria de 
trabalhar mais, a fim de estar preparado para a exposio. 
     - O que  que posso fazer para lhe agradecer? - perguntou, olhando para ela como 
se fosse uma viso que tivesse acabado de se materializar no seu estdio. Sentia-se 
como um garoto que de repente se vira diante de uma virgem estigmatizada.
     - S precisa de continuar a pintar bons quadros. Pelo sim, pelo no, trouxe comigo 
um contrato que foi redigido em Paris. Se quiser, pode analis-lo com um advogado. No 
tenho pressa que mo devolva assinado. - Sasha nunca fazia presso sobre os artistas 
para que assinassem os contratos que celebrassem consigo.
     - Uma ova  que no h pressa! E se voc mudar de ideias? Onde  que est? D-
me isso, que eu assino j! - Era como se estivesse nas nuvens. Ao observ-lo, Sasha 
concluiu que parecia ter quase a mesma idade do filho.
     Sabia, com base nos dados pessoais que ele lhe enviara juntamente com os 
diapositivos, que tinha trinta e nove anos, porm, olhando para ele, nunca teria adivinhado 
a sua idade. Havia aprendido com alguns artistas conhecidos, alm de j ter exposto os 
seus trabalhos em algumas galerias de pequena dimenso, mas tinha o aspecto de um 
garoto. Tudo nele dava a impresso de liberdade, -vontade e juventude. 
     Era alto, magro e muito bem-parecido. Tinha o cabelo louro e liso, que, a maior parte 
das vezes, lhe caa pelas costas. Para ser apresentado a Sasha, prendera-o num rabo-
de-cavalo. Tinha uma pele aveludada e fisionomia juvenil. Os ombros eram largos, as 
mos esguias e graciosas, andando pelo estdio como um adolescente; calava tnis e 
vestia calas de ganga e T-shirt, tudo cheio de tintas. Andava  sua volta qual criana 
ansiosa, suplicando-lhe que lhe desse o contrato.
     - Deixei-o no hotel - disse ela num tom de voz que pretendia sosseg-lo; 
subitamente, Sasha parecia ter assumido uma atitude maternal. Agora que ele estava 
prestes a ser um dos seus artistas, sentia que tinha de o proteger. - Tenciono deix-lo c 
antes de partir, ou talvez o envie por um estafeta. No vou mudar de ideias, Liam. Nunca 
fao isso - acrescentou afavelmente. Expressava-se numa voz calma, sentindo-se 
comovida por ele se mostrar to entusiasmado.
      Liam afirmou que aquele era um dos momentos mais significativos da sua vida. 
Sasha no era dessa opinio, mas sentia-se satisfeita por aquilo ter tanto significado para 
ele. Era um dos aspectos de que mais gostava ao expor o trabalho de artistas 
recentemente chegados ao mundo das artes: estava em posio de lhes dar uma 
oportunidade. Sempre adorara essa faceta da sua actividade profissional, trabalhar com 
artistas jovens como ele. Apesar de Xavier ter razo, uma vez que ele no era to jovem 
quanto isso, mas a verdade  que parecia. 
     Tudo nele era juvenil. Tinha apenas menos nove anos do que ela, mas agia como se 
tivesse uns catorze, com a aparncia de um rapaz com mais ou menos vinte e cinco anos, 
e no como um homem de trinta e nove. Aos seus olhos, no parecia ser mais velho do 
que Xavier, o que fazia com que sentisse um certo instinto maternal em relao a ele. - 
Quer mostrar o contrato  sua mulher antes de o assinar? 
     - O estdio encontrava-se numa tal desarrumao que era bvio que Liam no vivia 
ali, o que era confirmado por no ver qualquer sinal da presena da mulher e dos trs 
filhos que Xavier lhe mencionara. Presumiu que viveriam noutro lugar qualquer, muito 
embora se vissem roupas dele espalhadas por todo o estdio cheias de tinta. Certamente 
era a roupa com que trabalhava. Sasha s podia assumir que existia outro lugar mais 
arrumado e limpo algures onde ele vivia com a famlia.
     - Ela est em Vermont - explicou Liam num tom contrito. - Envio-lhe uma fotocpia 
depois de o ter assinado. Nem vai acreditar numa coisa destas - acrescentou, lanando 
um olhar de relance a Xavier e depois  me deste.
     Quando Liam serviu vinho para os trs, todos pareciam satisfeitos. Sasha bebeu 
apenas um pequeno gole, enquanto Liam bebeu metade do seu no espao de um minuto. 
Sentia-se realmente nas nuvens. Para Sasha, tinha sido um verdadeiro achado e, mais do 
que nunca, desejou que Xavier comeasse a trabalhar com ela. 
     Como a me, tinha olho para o talento. Ambos haviam herdado essa particularidade 
do pai de Sasha. Mas Xavier queria continuar a viver em Londres e vir a ser um artista, e 
no um negociante de arte, em Nova Iorque ou em Paris. Talvez um dia abrissem uma 
galeria em Londres. Pela primeira vez em muitos anos, Sasha estava a pensar em 
expandir o negcio. Todavia, Xavier ainda era muito novo para assumir tal 
responsabilidade. Talvez um dia... O filho acabara de completar vinte e cinco anos, se 
bem que ela tivesse entrado no negcio quando tinha apenas mais um ano, aos vinte e 
seis, sob a tutela do pai. - Permitem-me que vos convide para jantar? - perguntou Liam, 
esperanado. - Gostaria de celebrar. - Parecia prestes a rebentar de entusiasmo.
     - Adoraria ir, mas... - comeou Xavier a dizer com uma expresso matreira, e Sasha 
compreendeu imediatamente o que ele estava a pensar. Deus o livrasse de um jantar com 
um artista e a me que interferisse com a sua vida amorosa! Sem sombra de dvida, o 
filho no estava preparado para entrar no negcio da famlia. Na sua idade j ela estava 
casada e a trabalhar num museu, alm de ter tido dois filhos. Xavier ainda estava muito 
longe de atingir esse patamar.
     Sasha hesitou por breves momentos. Esperara poder jantar com Xavier nessa noite, 
uma vez que no sabia que o filho j tinha outros planos, mas isso era tpico dele. Virou-
se para Liam:
     - E que tal se fosse eu a convid-lo para jantar, Liam? A partir de agora sou eu quem 
negoceia os seus trabalhos, portanto, no precisa de me convidar. Podemos aproveitar 
para nos conhecermos melhor - sugeriu cordialmente. Liam viu nela um calor humano de 
que at ento no se apercebera. Sasha mostrava um recato e uma estabilidade que lhe 
agradavam. Tudo nela dava a impresso de fiabilidade e solidez, caractersticas que 
admirava muito. Ao princpio, sentira-se atemorizado, mas sob a capa fria e profissional 
adivinhava
     que ela era uma pessoa calorosa. A reputao de Sasha intimidava-o, mas no era 
esse o caso quando em presena dela.
     Sasha perguntou a si mesma se ele teria algum fato. A maior parte dos seus artistas 
mais jovens no possua um nico fato, e Liam no lhe parecia diferente dos outros. 
Verdade fosse dita, tinha um aspecto pior do que alguns, embora fosse muito bem-
parecido. Era um homem bonito e deveras atraente.
     - Ser um prazer. Posso assinar o contrato durante o jantar - retorquiu ele com um 
sorriso que j deslumbrara muitas pessoas.
     - Sim, mas primeiro deve l-lo com ateno - aconselhou Sasha num tom de 
censura. - Tem de se certificar de que est de acordo com as condies. No deve 
assin-lo sem o ler ou mesmo mostr-lo a um advogado.
     - Por si, estaria disposto a vender-me como escravo, ou mesmo a dar-lhe o meu 
testculo esquerdo, se fosse esse o seu desejo - afirmou Liam sem rodeios, enquanto 
Sasha pestanejava. No entanto, estava acostumada quele tipo de conversa dos seus 
artistas.
     - Para dizer a verdade, isso no ser necessrio - retrucou Sasha com algum 
formalismo. - Tanto quanto me recordo, os testculos no costumam constar dos 
contratos. Pode ficar com ambos. Estou certa de que a sua mulher se sentir bastante 
aliviada. - Liam sorriu-lhe sem lhe responder. Ao fit-lo, ocorreu-lhe a imagem de um 
rapazinho de grande beleza. Era um prazer olhar para ele e, a despeito da fisionomia 
juvenil, era um homem extraordinariamente talentoso.
      - Onde  que gostaria de ir jantar? - perguntou Sasha, se bem que tivesse pensado 
em levar Xavier ao Haris Bar, mas o filho vinha de uma cepa inteiramente diferente, uma 
vez que possua vesturio para todas as ocasies, alm de saber como se comportar. 
Duvidava que Liam tivesse quer modos quer roupas melhores do que as que vestia na 
altura. Ao fim e ao cabo, era um artista esfomeado, embora, Se dependesse dela, essa 
situao no se fosse manter por muito mais tempo. 
     Acreditava que ele faria sensao em Nova Iorque e, eventualmente, em Paris. Liam 
era um verdadeiro achado, uma ave rara, algum com um talento incomensurvel e que 
era capaz de produzir trabalhos realmente extraordinrios.
     - Gostaria de me vestir como deve ser e lev-la a jantar para lhe agradecer - insistiu 
Liam humildemente, falando ao corao de Sasha.
     - Como  que se vai vestir a rigor? - perguntou ela, olhando-o de alto a baixo numa 
atitude maternal. Ele trazia  superfcie a faceta maternal de Sasha. Tudo nele fazia com 
que uma pessoa sentisse que era um rapaz e no um homem feito. Subitamente, tudo o 
que queria era proteg-lo e ajud-lo. Sentia-se empolgada perante a perspectiva de vir a 
trabalhar com ele, lanando-o numa carreira de sucesso. Para Sasha, Liam era uma 
descoberta das mais importantes. Aquele era um momento significativo no s para ele, 
mas tambm para ela.
     - Tenho um fato e duas camisas boas. Uma delas est lavada. Acho que usei a outra 
para polir o carro - disse, olhando-a com uma expresso acanhada e fazendo com que ela 
se risse. Havia qualquer coisa nele de endiabrado e irresistvel. Recordava-lhe Xavier 
quando tinha cerca de catorze anos e se esforava por ser um homenzinho. Xavier 
atingira os seus objectivos. Liam ainda no conseguira. Sendo assim, vamos ao Harrys 
Bar - disse Sasha simplesmente. Adorava jantar l. Era o seu restaurante preferido em 
Londres.
     - Com um caraas! No consigo acreditar que isto me esteja a acontecer. Acreditas? 
- perguntou, voltando-se para Xavier com um sorriso de orelha a orelha, o qual se 
mostrou radiante pelo amigo. Aquilo tinha corrido muito melhor do que esperara. Sentia-
se empolgado por Liam e agradecido  me por ter dado uma oportunidade ao amigo.
     - Sim, acredito - respondeu Xavier sem hesitar.
     - Homem, estou em dvida para contigo, e muito! E com estas palavras Liam abriu a 
mo, batendo na do amigo.
     Na ptica de Sasha, ambos pareciam dois garotos no balnerio de um clube 
desportivo, e s esperava que ele nessa noite se comportasse como devia ser no Harrys 
Bar. Com os artistas nunca se sabia, razo por que s muito raramente os levava quele 
restaurante, mas com Liam decidiu arriscar. Havia qualquer coisa nele de inocente e 
encantador, e se sasse da linha ou caso se comportasse de modo espalhafatoso e 
falasse alto, dir-lhe-ia que tivesse maneiras. 
     Para ela, os seus artistas eram como crianas, por vezes at mesmo os mais velhos. 
Sentia-se como uma segunda me, o que lhe dava muito trabalho, mas era parte daquilo 
que ela mais amava no seu trabalho. Os artistas eram os seus pintainhos e ela a galinha-
me. E apesar de no ser muito mais velha do que ele, Liam dava a impresso de estar a 
precisar de uma me, como o Peter Pan.
     - O jantar fica combinado para as vinte horas. O meu motorista estar aqui s 
dezanove e trinta e em seguida vai buscar-me ao hotel. Esperarei no trio - indicou 
Sasha, aps o que saiu com Xavier.
     - No se esquea de trazer o contrato - recordou-lhe Liam quando j desciam as 
escadas.Tinha sido uma tarde bastante produtiva para ambos e Liam esperava pela hora 
do jantar com muita expectativa. Queria falar com ela sobre a exposio e acerca da 
quantidade de quadros de que iria precisar. Estava disposto a trabalhar como um 
condenado s gals durante todo o ano, a fim de produzir os melhores trabalhos que 
fizera at ento. No tencionava decepcion-la. Aquela era a sua grande oportunidade, 
facto de que estava bem ciente. 
     Havia trabalhado durante toda a sua vida com vista quele momento. E por muito 
que se permitisse comportar-se de maneira reprovvel na sua vida pessoal, ou nas noites 
em que ia para a farra com Xavier, sempre encarara o seu trabalho com grande 
seriedade. Desde a meninice que sabia que havia nascido para ser pintor. 
     Era uma particularidade que o tinha diferenciado e isolado dos demais at mesmo 
em criana, caracterstica que se manteve mais tarde, na adolescncia e na juventude. 
Sempre soubera que era diferente, o que no o incomodava por a alm. A me sempre o 
encorajara, dizendo-lhe que devia seguir os seus sonhos. O resto da famlia no lhe dera 
o mesmo incentivo, e at o pai o tratara como se fosse uma aberrao. Tal atitude criara 
um fosso entre eles. Parecia que s a me era capaz de ver o gnio especial de que era 
dotado. Os outros, o pai, os irmos e at mesmo os amigos, pensavam apenas que era 
esquisito, e os seus primeiros trabalhos de pintura no tiveram o mnimo significado para 
eles. O pai dizia que eram uma porcaria; quanto aos irmos, referiam-se-lhes 
classificando-os de gatafunhos. 
     Mantinham-no  margem de tudo o que faziam, e no seu isolamento ele procurara 
conforto na pintura.  semelhana do que acontecia com todos os que haviam sofrido 
numa primeira fase das suas vidas, Liam era muito diferente do que parecia ser. Sasha 
ainda no sabia, mas j o pressentia. Todos os artistas que conhecia haviam passado por 
qualquer desgosto ou inferno pessoal. 
     Como consequncia, talvez as suas vidas fossem mais amarguradas, contudo, 
essas adversidades imprimiam mais pujana aos seus trabalhos, alm de reforarem o 
empenho com que abraavam a sua arte. O facto de ter perdido a me quando ainda era 
muito nova dotara-a de uma maior compaixo para com eles, alm de estar mais em 
sintonia com as adversidades pelas quais haviam passado. Compreendia-os melhor do 
que s vezes ela prpria se apercebia. Era como se existisse uma harmonia que nunca 
era verbalizada entre eles.
     - Sempre acreditei que a me gostaria do trabalho dele
     - disse Xavier quando j estavam no automvel, mostrando-se satisfeito. -  
extremamente talentoso - acrescentou, cheio de orgulho do amigo.
     - Sim, de facto  - concordou Sasha, sentindo-se confiante e entusiasmada por o 
filho ter descoberto to excelente pintor. Tinha muito orgulho na perspiccia que o filho 
demonstrava possuir.
     - Alm disso, tambm  um tipo muito simptico garantiu Xavier. -  generoso, 
honesto e sincero. Adora a mulher e os filhos. Ainda que por vezes aja de uma maneira 
um bocado destrambelhada, sem dvida que  um bom homem.  estouvado, mas no 
faz mal a uma mosca.
     -  uma pena que ela esteja em Vermont. Teria gostado muito de a conhecer. A 
pessoa com quem se  casado pode dar-nos a saber muita coisa sobre ns prprios - 
disse Sasha placidamente, e por momentos Xavier no fez qualquer comentrio. Ela  
uma pessoa estupenda. Esto casados h muitos anos, mas h j algum tempo que ela 
foi para Vermont.
     - O que  que queres dizer com isso? - perguntou Sasha, olhando para o filho com 
uma expresso interrogadora.
     - Continuam casados ou ela deixou-o?
     - Acho que a resposta  afirmativa para as duas hipteses. Continuam casados, mas 
parece-me que decidiram separar-se por uns tempos, ou qualquer coisa assim. Ele no 
costuma falar sobre esse assunto. Todos os Veres ela volta  terra natal, Vermont, para 
visitar os pais, mas este ano no regressou em Setembro, como  costume. O Liam disse 
que ela tencionava ficar por l durante uns meses. 
     Desde Julho que est l. Ele  um tipo excelente, mas no me parece que seja 
muito fcil viver ao seu lado. Ela  que o sustentou, a trabalhar como empregada de mesa 
em restaurantes de estncias tursticas de Vero e de Inverno, enquanto ele tirava o 
curso de Belas-Artes. Em Londres trabalhava como secretria. Em grande parte,  ela 
que continua a sustent-lo, e aos filhos, alm de aturar as merdas todas dele de artista 
extravagante. 
     No me parece que ele alguma vez quisesse divorciar-se dela, mas tambm no 
acho que ela tenha tido uma vida fcil a sustentar cinco pessoas. S espero que ela volte 
para junto dele.  uma boa mulher e sei que o Liam a ama.
     - Talvez agora possamos vir a mudar a vida dele - retorquiu Sasha. Aquela histria 
era-lhe familiar. A maior parte dos seus artistas faziam a vida negra s mulheres com 
quem viviam, limitando-se a pintar, enquanto os outros custeavam o seu talento. O 
casamento de Liam no era o primeiro a atravessar dificuldades, ou mesmo a impor 
sacrifcios, em nome da arte. Nada daquilo era novidade para ela. - Eu podia dar-lhe um 
pequeno adiantamento, caso isso o ajudasse. Verei o que  que ele diz durante o jantar. 
Talvez isso o ajude a resolver a situao com a mulher.
     - Provavelmente teria muito significado, e para ele viria mesmo a calhar. O filho mais 
velho vai entrar na faculdade para o ano que vem. Com certeza que precisar de dinheiro. 
Com um pouco de sorte, faremos com que ganhe bastante, mas no  uma coisa que 
acontea da noite para o dia - disse Sasha, embora ambos soubessem que, por vezes, 
isso era possvel. Depois do que Xavier acabara de lhe contar, Sasha esperava que as 
coisas corressem assim em relao a Liam. 
     Sem dvida que a sua famlia era to merecedora quanto ele prprio, especialmente 
com um filho prestes a entrar para a faculdade. Liam no parecia ter idade suficiente para 
ter um filho com quase vinte anos. Ele prprio parecia um adolescente.
     Xavier deu um abrao  me, prometendo-lhe que no dia seguinte tomaria o 
pequeno-almoo com ela. Combinaram encontrar-se s dez, uma vez que Sasha teria de 
fazer alguns telefonemas de negcios logo pela manh. Estava a pensar em ir para o 
aeroporto ao meio-dia, e queria passar as ltimas horas em Londres com o filho.
     - V se esta noite te portas como deve ser - disse a srio, embora num ar de 
brincadeira, uma advertncia maternal; Xavier ria-se ao afastar-se. Pelo menos, esta 
noite Liam no estar com ele, pensou Sasha. Mas agora que conhecera Liam, sentia-se 
menos preocupada pela influncia que ele pudesse exercer sobre o filho. Alm do mais, 
comeava a admitir que Xavier tinha razo. Liam dava a impresso de ser infantil, talvez 
mesmo imaturo, mas inofensivo.
     - At amanh! - gritou Xavier, acenando-lhe num gesto de despedida antes de entrar 
no carro; momentos depois arrancou, satisfeito consigo prprio. A tarde havia sido 
produtiva. Liam estava a caminho do sucesso. A sua carreira, que parecia no ir a lado 
algum, mudara drasticamente no sentido ascendente.
     
     
                                             CAPTULO 5
     
     Precisamente s dezanove horas e trinta minutos, o motorista de Sasha foi buscar 
Liam e depois Sasha ao Claridge, s dezanove horas e quarenta e cinco minutos. Tal 
como ela dissera, estava  espera no trio, sentando-se ao lado de Liam assim que o 
carro chegou. Ele vestia um fato preto com um aspecto bastante decente e uma camisa 
vermelha que ele prprio pintara e que em tempos havia sido branca. 
     Tinha-se esquecido de que fora isso que fizera  outra camisa boa, aquela de que 
no se servira para polir o automvel. Pintou-a numa noite em que se embebedou, 
pensando que seria divertido. Agora, como havia concludo nessa noite, era a nica 
camisa que tinha. 
     Esperava que agradasse a Sasha. Ela no gostou, mas no fez qualquer 
comentrio. Ele era um pintor. Tal como o filho; porm, se este tivesse usado alguma 
coisa daquele estilo para ir ao Harrys Bar, ela t-lo-ia descomposto. Mas acontecia que 
Liam no era seu filho.
     Como quem no quer a coisa, olhou para os sapatos que ele calava, os quais eram 
quase decentes, mas no inteiramente. 
     Eram uns sapatos pretos clssicos, de adulto, a que, por qualquer razo 
inexplicvel, ele tirara os atacadores. Enquanto se vestia, Liam chegou  concluso de 
que, provavelmente, os teria usado para alguma coisa, talvez para atar uma encomenda 
que enviara para qualquer lugar, mas j no se lembrava ao certo. De qualquer modo, 
achava que os sapatos ficavam melhor sem atacadores, preferindo-os assim. Tinha 
acabado de se barbear e de tomar duche, e emanava uma fragrncia deliciosa, alm de 
ter o cabelo louro e comprido impecavelmente lavado, tendo-o prendido com uma fita 
negra que enrolara por cima do elstico que segurava o rabo-de-cavalo.
      Estava com muito bom aspecto, e se no fosse a camisa e a falta dos atacadores 
nos sapatos teria mesmo uma aparncia respeitvel, mas era preciso no esquecer que 
ele era um artista extravagante. Liam no vivia segundo as convenes da sociedade, 
coisa que nunca fizera. 
     No via qualquer razo para viver de acordo com as regras de quem quer que fosse, 
alm das suas, razo por que, em parte, a mulher havia ficado em Vermont, no o vendo 
desde Julho. Contudo, no obstante a camisa pintada de vermelho e o rabo-de-cavalo, 
havia nele algo de distinto e aristocrtico. Era um homem lindssimo, um homem de 
contrastes. Numa outra vida ou profisso, poderia ter sido actor ou modelo, advogado ou 
banqueiro, mas a camisa que pintara de vermelho mostrava que no s era um artista, 
como um garoto rebelde. Parecia dizer: Olhem para mim. Posso fazer o que quiser. No 
h porra nenhuma que possam fazer contra isso!
     - Estou com bom aspecto? - perguntou, nervoso, a Sasha, que acenou 
afirmativamente. No queria magoar os seus sentimentos e, ao fim e ao cabo, a camisa 
era um trabalho de arte. S quando entraram no Harrys Bar  que se lembrou da falta 
dos atacadores. E quando ele se sentou num banco alto no bar tambm se apercebeu de 
que no calara meias. O chefe de mesa conhecia-a bem e, sem dizer nada a Liam, 
entregou-lhe uma gravata preta que, na verdade, condizia muito bem com a camisa. 
Ajudou-o a fazer o n, tal como sucedera com Xavier quando o filho era garoto. Liam 
confessou que havia vrios anos que no punha uma gravata, tendo-se esquecido de 
como se dava o n. No parecia minimamente constrangido. 
     O facto de todos os que se encontravam no restaurante estarem vestidos com 
elegncia, os homens com fatos de bom corte e camisas feitas por medida em Paris e as 
mulheres com vestidos de noite de estilistas famosos, era coisa que no o incomodava 
nem um pouco. Se havia algo que no faltava a Liam era confiana em si prprio, com 
excepo do que dizia respeito a Sasha. Queria impression-la, mas no sabia como. Ela 
parecia uma mulher to competente e confiante, mostrando uma postura to serena 
quando falava com ele, que, subitamente, se sentiu como a pessoa inocente que era. 
Sasha tratava-o como se fosse uma criana. 
     Quando lhe perguntou como estava, disse-lhe que parecia muito bem, tendo entrado 
no restaurante orgulhosa de o ter ao seu lado, comportando-se como se todos os homens 
no restaurante devessem ter uma aparncia semelhante  dele. Caminhar ao lado dela 
deixava-o quase estonteado, sentindo-se como se fosse Picasso quando se sentou  
mesa.
     Liam j lhe tinha perguntado pelo contrato duas vezes quando estavam no 
automvel. Para lhe poupar a ansiedade, assim como os seus prprios nervos, Sasha 
entregou-lho quando se sentaram  mesa. Liam assinou-o sem sequer o ler, no obstante 
ela o ter advertido de que devia faz-lo, e depois olhou-a com uma expresso radiante. A 
partir de agora passaria a ser um artista da Suvery. Era tudo o que sonhara ao longo dos 
ltimos dez anos da sua existncia. Finalmente, o sonho realizara-se, e tencionava 
saborear cada momento. Sabia que aquela era uma noite que jamais esqueceria, tal 
como Sasha. Estava quase certa de que um dia haveriam de se rir daquela ocasio, a 
noite em que ele entrara no Harrys Bar usando uma camisa que ele prprio pintara. 
     A despeito da sua aparncia juvenil e algo apalhaada, parecia envolto numa urea 
de grandeza.
     Depois de Liam ter bebido um martini no bar, Sasha mandou vir champanhe para os 
dois, com o qual lhe fez um brinde, aps o que ele bebeu  sade dela. Bebeu dois 
copos. Em seguida, sem sequer pestanejar, acabou o que restava na garrafa. Nessa 
altura j lhe confiara que era a ovelha negra da famlia. O pai era banqueiro e vivia em 
So Francisco; tinha dois irmos, um formara-se em Direito e o outro em Medicina, e 
ambos haviam desposado meninas de sociedade.
      Porm, desde o incio que fora diferente deles. Os irmos haviam-no atormentado, 
dizendo-lhe que fora adoptado, o que no era verdade, mas logo na primeira fase da sua 
vida mostrara que era diferente. Detestava tudo aquilo de que os irmos gostavam, 
odiava praticar desporto e no era um bom aluno, enquanto eles se revelavam estudantes 
brilhantes. Ambos eram capites dos clubes universitrios que integravam, praticando 
futebol, basquetebol e hquei em patins. 
     Em vez disso, Liam ficava sentado no seu quarto a pintar. Os irmos atazanavam-no 
impiedosamente, deitando as suas pinturas no lixo. Liam contou a Sasha que o pai lhe 
dissera, logo de incio, que estava extremamente desiludido com ele, pois s causava 
constrangimento  famlia. Durante um ano de pesadelo, para o punir por ter ms notas, 
fora enviado para uma academia militar. 
     Uma noite entrou sorrateiramente no refeitrio, tendo pintado caricaturas de todos os 
professores nas paredes, alguns em poses pornogrficas, um plano astuto que 
arquitectara a fim de ser expulso, o que, confiou a Sasha com um sorriso rasgado, dera o 
resultado desejado. Quando voltou para casa, a tortura s mos da famlia continuou. 
Finalmente, sem saberem que mais haviam de fazer com ele, decidiram ignor-lo por 
completo. 
     Agiam como se ele no existisse, deixando de o chamar para o jantar,  noite, e sem 
se darem ao incmodo de falar com ele quando estava na mesma diviso com os 
familiares. No seio da sua prpria famlia, Liam adquiriu o estatuto de inexistente, 
acabando por ser banido por completo. Quanto pior o tratavam, pior era o seu 
comportamento. Uma vez que no se enquadrava na famlia, no cumprindo as regras 
estabelecidas, tal como no se cingia aos planos que haviam arquitectado para ele, 
optaram por o excluir inteiramente da vida familiar. 
     Em mais de uma ocasio ouvira o pai dizer que tinha dois filhos e no trs. Liam no 
vivia em conformidade com a maneira como a famlia conduzia a sua existncia, portanto, 
haviam decidido bani-lo. Eventualmente, acabou por agir como um inadaptado at mesmo 
na escola. Apesar de lhe pedirem que pintasse cenrios para o clube de teatro ou se 
precisassem de cartazes ou letreiros, durante o resto do tempo ningum lhe prestava a 
mnima ateno, quer em casa quer na escola. 
     Os outros alunos referiam-se a ele como o pintor louco, o que, inicialmente, 
considerou um insulto, mas tempos depois concluiu que at lhe agradava, fazendo 
plenamente jus  maneira como se lhe referiam. Por vezes, durante a adolescncia, 
perguntava a si mesmo se seria so de mente.
     - Cheguei  concluso de que, se me permitisse agir de acordo com o que diziam 
que eu era, um artista louco, poderia fazer tudo o que me desse na veneta, e a partir da 
passei a fazer o que me apetecia. - E, uma vez que no se dava ao trabalho de estudar, 
acabava inevitavelmente por ser expulso de todos os colgios em que o matriculavam. 
At que, por fim, no ltimo ano desistiu de estudar, nunca se tendo dado ao incmodo de 
acabar o curso. 
     Mas depois de casar a mulher convenceu-o a estudar para conseguir o diploma. No 
entanto, os estudos no haviam significado nada para ele. A escola foi apenas um lugar 
onde era torturado por ser diferente dos colegas. 
     De acordo com o que dizia, ningum,  excepo da me, reconheceu (nem se 
interessou) que ele tinha talento. Na sua famlia, a arte no constitua uma ocupao 
aceitvel.
      As nicas coisas que interessavam eram as actividades desportivas e acadmicas, 
e ele no possua qualificaes em qualquer delas, nem to-pouco tentava. Sasha 
perguntava-se se ele no teria tido qualquer incapacidade de aprendizagem, o que 
justificaria o facto de ter tido tanta a averso  escola. Era o caso com muitos dos seus 
artistas, caracterstica que para eles havia sido fonte de grande infelicidade, compensada 
apenas pelo seu talento artstico. Contudo, no o conhecia o suficiente para lhe fazer 
esse tipo de pergunta, pelo que se conteve, limitando-se a ouvir a histria da vida dele 
com interesse e compaixo.
     Liam dizia insistentemente que desde o momento em que sara do ventre da me 
estava destinado a dedicar-se  pintura. Uma vez, numa manh de um Dia de Natal, 
antes de o resto da famlia se ter levantado, pintara um mural numa das paredes da sala 
de estar, aps o que decidira pintar tambm o piano de cauda e um sof. Era evidente 
que a camisa que vestia era apenas uma verso mais recente da mesma forma de arte. 
Nessa manh fatdica, tinha ele sete anos, no foi capaz de compreender por que razo 
ningum gostara nem apreciara o que ele tinha feito. O pai deu-lhe uma tareia, e, numa 
narrativa emocionada e um tanto ou quanto incoerente, explicou que a me, depois desse 
incidente, tinha adoecido gravemente. 
     Veio a falecer no Vero seguinte, e a partir da a sua vida passou a ser um autntico 
pesadelo. A nica pessoa que o protegia, que o amava e o aceitava tal como ele era tinha 
desaparecido. Havia noites em que nem sequer se davam ao trabalho de lhe dar de 
comer. Era como se tivesse morrido quando a me faleceu. A arte tornou-se ento o seu 
nico conforto, a sua nica sada, o nico elo de ligao a ela que lhe restava, uma vez 
que a me amara tudo o que o filho fazia. Comovido, confidenciou a Sasha que durante 
muitos anos, e por vezes at mesmo agora, sentia que pintava para a me. As lgrimas 
assomaram-lhe aos olhos quando disse isto. 
     Os outros membros da famlia agiam como se ele fosse louco, opinio que 
continuavam a manter, e acrescentou que no via o pai nem os irmos havia vrios anos.
     Tinha conhecido a mulher, Beth, aquando de uma viagem que fizera para ir esquiar, 
em Vermont, depois de ter sado de casa, aos dezoito anos, tendo ido para Nova Iorque, 
onde se dedicara  pintura. 
     Casou-se aos dezanove anos, altura em que pintava e passava fome em Greenwich 
Village. Beth tinha trabalhado que nem um escravo, de acordo com o que Liam dizia, para 
o sustentar desde ento, para grande desagrado da famlia dela. Eram pessoas to 
conservadoras como as da sua prpria famlia e tambm no gostavam dele. 
Detestavam-no pela sua falta de sentido de responsabilidade e incapacidade de sustentar 
a filha. Ele e Beth tinham tido trs filhos, dois rapazes, um com dezassete e outro com 
onze anos, e uma garotinha que tinha apenas cinco anos. Eram a luz da sua vida, tal 
como para Beth, at que ela voltara para Vermont, para junto da famlia, em Julho ltimo.
     - Acha que ela voltar para si? - perguntou Sasha, mostrando-se preocupada. Havia 
qualquer coisa de to gentil e vulnervel nele que fazia com que lhe apetecesse enla-lo, 
resolvendo tudo o que pudesse preocup-lo. No entanto, sabia por experincia prpria, 
devido ao contacto com outros artistas, que as complicaes que eles criavam nas suas 
vidas muitas vezes eram quase impossveis de resolver. 
     O relacionamento dele com a famlia dava a impresso de ser muito difcil de salvar 
e, provavelmente, nem sequer valia a pena tentar. Mas Sasha sentia-se tocada ao ouvi-lo 
falar da infncia to solitria que tivera, assim como da mulher e dos filhos. Parecia 
perdido sem eles, e Sasha apercebeu-se de que havia muita coisa que ficara por dizer. 
Quando lhe perguntou se Beth voltaria, ele olhou-a com uma expresso de sinceridade, 
hesitou por momentos e depois respondeu-lhe com um abanar de cabea. 
     Provavelmente no voltar - afirmou, parecendo convicto do que dizia. Acreditava 
que Beth o deixara para sempre.
     -  possvel que quando ela souber que as coisas esto a melhorar em termos 
financeiros isso altere a situao. - Por qualquer razo que no sabia explicar, Sasha 
desejava que Beth voltasse, para bem de Liam. Contudo, no estava certa de que ele 
quisesse a mesma coisa. Parecia entristecido por estarem separados, mas dava a 
impresso de aceitar o facto como algo inevitvel. Tinham casado havia vinte anos, uma 
unio que obviamente no fora nada fcil, sobretudo para ela. Liam parecia um homem 
que cometera um crime, sentindo um remorso profundo, embora soubesse que no podia 
alterar a situao.
     - O problema no  esse, no tem a ver com finanas.
     - Liam parecia bem claro quanto a isso, pelo que Sasha no conseguiu impedir-se 
de se perguntar qual teria sido a natureza do problema. Estavam a comer um prato de 
massa, que acompanhavam com um bom bordus francs.
     - Ento, qual foi o problema? - Talvez as crianas constitussem uma presso 
excessiva para o casal. Sasha perguntava-se se teria sido isso ou, muito simplesmente, o 
desgaste que as relaes sofriam com a passagem do tempo.
     - Em Junho fui para a cama com a irm dela - confessou Liam numa voz 
enrouquecida, mostrando-se contrito, e apesar do seu esforo para disfarar, Sasha ficou 
com uma expresso chocada. Ainda que no houvesse outras razes, aquilo era 
inacreditavelmente estpido, atraioar uma mulher que tivera inmeros empregos para 
poder sustent-lo e aos trs filhos ao longo de vinte anos. E Xavier dissera que ela era 
uma mulher simptica. Talvez Liam no fosse to boa pessoa como pensara. Sem dvida 
que a sua confisso era uma indicao disso mesmo.
     - O que  que o levou a fazer uma coisa dessas? - perguntou ela como se estivesse 
a falar com uma criana.
     - Ficmos completamente bbedos quando a Beth e as crianas foram para fora 
durante um fim-de-semana. Contei-lhe tudo quando voltou. Imaginei que a Becky lhe 
contaria. So irms gmeas.
     - Idnticas? - Sasha achava a histria fascinante, embora pattica, sentindo-se 
arrastada para o seu drama enquanto ele o descrevia, tal como acontecera quando lhe 
contara o que sucedera com os pais e os irmos. Nem sequer sabia qual a razo para 
essa atraco, nem se Liam merecia que lhe desse ouvidos, mas gostava dele, queria 
ajud-lo. Todavia, sentia-se horrorizada pelo facto de ter trado a mulher. Na opinio de 
Sasha, o seu comportamento denotava falta de fibra moral, o que a perturbava. No 
entanto, havia nele uma inocncia que impelia uma pessoa a perdoar-lhe, por muito grave 
que o delito tivesse sido.
     - No so gmeas idnticas, mas quase. A Becky andava atrs de mim havia vrios 
anos. Na manh seguinte nem queria acreditar no que tinha feito, mas a verdade  que 
fiz. Parecia prestes a chorar enquanto falava. Quando contou a Beth o sucedido, chorou 
mesmo.
     - Voc  alcolico, Liam? - perguntou Sasha, mostrando uma expresso algo 
austera. Sem dvida que ele no estava a dar descanso ao vinho, embora no lhe 
parecesse embriagado.
     - No, apenas estpido. Durante o ltimo ano, eu e a Beth passmos o tempo a 
discutir. Ela queria que eu fosse  procura de emprego; estava farta de trabalhar e passar 
fome em nome da arte. Alm disso, os pais andavam sempre a atazan-la para que me 
deixasse e voltasse para casa. O pai  carpinteiro e a me professora. Acham que os 
meus trabalhos so uma merda. Eu tambm j tinha comeado a pensar a mesma coisa. 
At hoje. - Sorriu a Sasha com uma expresso de gratido. Era difcil resistir-lhe. Mesmo 
depois de ter ouvido a sua confisso de adultrio, era-lhe difcil sentir-se indignada com a 
sua atitude. Liam tinha razo. Era simplesmente uma estupidez. 
     Mas, apesar disso, havia qualquer coisa de ingnuo nele, o que tornava quase 
impossvel que no se gostasse dele. Sasha no conseguia explicar aquilo de maneira 
racional; sentia-se atrada por ele no s como pessoa, mas mesmo como homem.
     - O que  que a Becky faz? - perguntou num tom de voz de desconfiana.
     -  empregada de bar numa estncia de esqui. Ganha dinheiro a rodos e tambm 
vai para a cama com tipos a rodos. Sempre se quis deitar comigo, e talvez eu tambm a 
tivesse desejado. No sei dizer. Vinte anos passados com a mesma mulher  muito 
tempo. Eu era virgem quando casei com a Beth e nunca a atraioei at essa altura. - Mas 
at ele prprio tinha percepo de que a sua atitude era censurvel.
     - No existe desculpa que justifique o que fiz - disse a Sasha com toda a 
sinceridade. - Portei-me de uma maneira revoltante.
     - No acredita que ela talvez acabe por lhe perdoar? Para seu bem, Sasha esperava 
que isso viesse a acontecer. Ele era um homem decente e talentoso que cometera 
apenas um erro, se bem que, inegavelmente, um erro grave, em vinte anos. E sustentar 
cinco pessoas sem a ajuda de ningum no devia ter sido pra doce para Beth.
     - No acredito que venha a perdoar-me. Teve cimes da Becky durante toda a vida. 
A Becky consegue sempre conquistar os homens que quer, enquanto a Beth teve de me 
aturar, alm de ter tido trs filhos e uma vida de trabalho. Eu nunca tive um meio de 
subsistncia que lhe proporcionasse uma existncia decente. Foi a Beth quem nos 
sustentou durante todos estes anos, sem nunca ter deixado de acreditar em mim. Isto , 
at eu ter ido para a cama com a Becky... 
     Telefonei-lhe e s crianas no Natal e ela disse-me que ia meter os papis para o 
divrcio. No a posso censurar,  natural que esteja farta de mim. Pelo menos agora j 
poderei enviar-lhe algum dinheiro. Ela bem o merece, ao fim de tantos anos. - Era um 
homem decente, ainda que um pouco alheado da realidade, talvez mesmo por ser um 
artista. Sasha tinha ouvido histrias muito piores antes da sua, mas a maneira como o 
casamento deles terminara deixava-a entristecida. Era um desperdcio e uma pena. 
Todos estavam a pagar pelo erro dele.
     - H quanto tempo no v os seus filhos?
     - No os vejo desde que ela se foi embora. No tinha dinheiro para a passagem 
area para poder ir visit-los, e o mais certo era os pais dela matarem-me assim que me 
vissem. O pai est muito irritado comigo.
     - Ela contou-lhe o que aconteceu?
     - No, a Becky  que contou. Ela tambm me odeia, porque queria que eu deixasse 
a Beth para casar com ela. Afirmou que sempre esteve apaixonada por mim. s vezes, 
entre irmos gmeos acontecem umas merdas muito estranhas... Ou, pelo menos, era o 
que se passava com elas. A Beth diz que a Becky lhe teve rancor durante toda a vida.  
uma mulher deslumbrante, mas, apesar disso, nunca encontrou um homem que quisesse 
casar com ela. Engravidou quando tinha dezassete anos, e os pais obrigaram-na a dar a 
criana, um menino, para adopo. 
     Estou em crer que isso a deixou desarranjada do juzo. Quando o rapaz fez dezoito 
anos, ela tentou descobrir o seu paradeiro, o que conseguiu h cerca de seis anos, tendo 
ficado a saber que ele tinha morrido dois anos antes numa coliso frontal de automveis. 
Ficou de rastos. Acho que se culpa pela morte dele. Talvez odeie a Beth por ela ter trs 
filhos maravilhosos, no sei.  um assunto complicado.
     -  o que parece. Ao que tudo indica, voc entrou num campo de minas quando 
dormiu com ela em Junho passado.
     - Sei que sim. A Beth diz que a Becky me armou uma cilada. Esperou durante vinte 
anos para o fazer. Com trs garrafas de vinho branco ordinrio deitei por gua abaixo 
vinte anos de casamento com a mulher mais decente que existe em todo o mundo.
     - Por que razo no apanha um avio para Vermont e vai falar com ela? - insistiu 
Sasha. - Posso dar-lhe um adiantamento, Liam.
      De qualquer maneira, j tencionava faz-lo. - Ele parecia estar a precisar de 
dinheiro, at mesmo antes de ela saber que no via os filhos havia seis meses.
     - Agora  tarde de mais - retorquiu Liam, simplesmente. - Ela recomeou a andar 
com o antigo namorado do liceu. Disse-me que vo casar assim que estivermos 
divorciados. A mulher dele morreu o ano passado, deixando-o com quatro filhos. Ele tem 
dinheiro,  director de uma estncia de esqui, e est disposto a sustentar a Beth e os 
meus filhos. Parece-me ser um bom partido, e muito melhor do que estar casada com um 
pintor louco.  o que ela tambm parece pensar. - Via-se que se sentia infeliz, mas 
adoptou uma atitude filosfica quanto  situao.
     - E voc  um pintor louco, Liam? - perguntou Sasha suavemente. Sob certos 
aspectos, era o que dava a impresso de ser, mas por outro lado no. Acima de tudo, 
parecia uma pessoa imatura, mas generosa. Era inacreditvel pensar que um homem to 
atraente como ele s tivesse dormido com uma mulher em toda a sua vida, com excepo 
de uma nica noite, em que fora para a cama com a irm gmea da mulher. Era um 
assunto que possua uma faceta srdida, mas isso no impedia que fosse uma pessoa 
como devia ser, o que Xavier confirmava. Sasha confiava nele. Todos os seus instintos 
lhe diziam que Liam era boa pessoa. Destrambelhado e imaturo, talvez, mas, no ntimo, 
era um homem bom.
     - Por vezes sou um pintor louco - replicou. - H ocasies em que s quero divertir-
me como um garoto. Mas em que  que isso prejudica algum?
     - Calculo que dependa das pessoas que ficarem magoadas. Neste caso, foi o que 
sucedeu a Beth. E s suas crianas. E tambm me parece que voc saiu magoado de 
toda esta confuso. Mas, verdade seja dita, a Becky  muito culpada.Ela est-se nas 
tintas, s se interessa com o seu bem-estar. Nunca se importou com os outros.
     - Aparentemente, parece que sim - concordou Sasha, ficando em silncio a pensar 
naquilo, mas de sbito apercebeu-se de que Liam a observava.
     - E quanto a si? O Xavier acha que o Sol no nasceria nem se poria sem a Sasha no 
mundo. Ele  doido por si!  muito raro que um rapaz da idade dele goste tanto da me, 
mas agora que falei consigo, acho que ele tem razo.  muito afortunado por ter uma me 
to compreensiva. - Liam tambm tivera uma me assim, mas perdera-a ainda era 
criana.
     - Eu tambm gosto muito do meu filho.  um excelente rapaz, assim como a irm. 
Sinto que sou uma mulher cheia de sorte - disse Sasha, sorrindo.
     - Talvez no tenha assim tanta sorte. Sei que o seu marido morreu o ano passado - 
acrescentou Liam numa voz cheia de simpatia.
     - Sim,  verdade - confirmou ela serenamente, mas as lgrimas assomaram-lhe aos 
olhos, o que a deixou constrangida. Os seus desgostos no diziam respeito a Liam e no 
queria sobrecarreg-lo com eles, do mesmo modo que no desejava partilhar a sua dor. - 
Faleceu h quinze meses. Fomos casados durante vinte e cinco anos. - E ele tambm 
havia sido o nico homem na vida dela. 
     Os dois tinham isso em comum, perdido a me quando ainda eram crianas, tendo 
sofrido as consequncias emocionais inevitveis de um acontecimento que tivera uma 
repercusso to marcante nas suas vidas.
     - A viuvez deve ser bastante difcil para si - continuou Liam com uma expresso de 
simpatia quando j acabavam de comer a massa; fitava-a com olhos que reflectiam muita 
gentileza.
     -  verdade. J no me custa tanto como nos primeiros tempos, no entanto, tenho 
dias em que  bastante difcil. Ele acenou, num gesto de compreenso. Tinha perdido 
Beth devido  sua prpria estupidez e a um erro fatal; ela perdera Arthur porque o destino 
assim determinara. - Mas temos de continuar, no nos resta outra alternativa. O meu 
trabalho ajuda a atenuar a dor.
     - Sim, mas  noite no pode procurar refgio nos seus quadros. J comeou a sair 
com algum? - Era um assunto que no lhe dizia respeito, mas, mesmo assim, Sasha 
decidiu responder. No queria que ele se apercebesse de quo vulnervel e s se sentia. 
Se ia passar a represent-lo, teria de lhe dar a impresso de que era uma pessoa forte, 
ou pelo menos assim pensava.
     - No, no saio com ningum. E quanto a si? - Sasha sentia-se curiosa em relao a 
ele. Tal como ele com respeito a ela. Ao fim e ao cabo, ele contara-lhe tudo sobre a sua 
famlia e o casamento, tendo passado a existir uma ligao entre os dois bastante alm 
do que ela esperara e, certamente, desejara. Pela primeira vez, teve noo de que se 
sentia atrada por um dos seus artistas, e no podia permitir que isso acontecesse. Nada 
os impedia de se abrirem em confidncias durante um jantar. 
     Eram duas pessoas muito ss, que haviam sofrido perdas importantes durante a 
infncia, em consequncia do que ficaram privadas de uma meninice feliz, alm de terem 
perdido pessoas que amavam j na idade adulta, contudo, Sasha jamais deixaria que as 
afinidades entre os dois fossem alm disso. No tinha a mnima inteno de ceder  
atraco que sentia por ele. Era uma pessoa demasiado disciplinada e sensata para 
admitir uma coisa dessas. Do mesmo modo que no permitiria que ele manifestasse 
quaisquer sentimentos de afecto por ela, caso existissem, o que lhe parecia bastante 
improvvel.
     - Sa com duas pessoas - admitiu Liam. - Foi o Xavier quem mas apresentou. - 
Sorriu  me do amigo, que era quem agora tratava dos aspectos financeiros relativos ao 
seu trabalho. A ligao entre os dois parecia algo estranha, at mesmo na perspectiva 
dele. - Mas no se passou nada entre ns. Eram apenas umas rapariguinhas. Alm disso, 
qual seria o objectivo? Eu ainda estava muito perturbado por causa do problema com a 
Beth. Aconteceu no Vero passado, logo a seguir a ela ter partido. 
     Desde ento no tenho sado com outras mulheres, embora agora, que sei que ela 
est prestes a voltar a casar, o caso mude de figura. Contudo, no conheci ningum que 
me agradasse. A maior parte das mulheres que esto dispostas a ter uma relao com 
artistas tambm so bastante destrambelhadas - disse Liam sorrindo, o que, 
repentinamente, lhe deu uma expresso mais adulta. - E quanto a si? O que  que deseja 
da vida?
     - Nada. No sou uma dessas mulheres patticas que se sentem desesperadas por 
encontrar um marido, e penso que namorar na minha idade  uma coisa absurda. 
Considero mesmo que  humilhante.
     - No se encontrar o homem certo - disse ele com simpatia, mas Sasha abanou a 
cabea.
     -J encontrei. Ele morreu. Para mim no existe outro homem.
     - Isso  um grande disparate! - ripostou Liam, mostrando-se indignado. - Ainda  
muito nova para desistir assim, sem mais nem menos, e bonita de mais. Que idade tem? 
Calculava que, no mximo, ela teria uns quarenta e cinco anos, e isto por saber a idade 
de Xavier. Talvez tivesse mesmo menos dois anos, caso tivesse casado aos dezoito.
     - Tenho quarenta e oito anos, uma idade suficiente para desistir. Tive vinte e cinco 
anos magnficos.
     - E ainda poderia vir a ter mais cinquenta. Tenciona pass-los sozinha? - perguntou 
ele, mostrando-se horrorizado perante tal probabilidade. No, Sasha no queria, mas h 
muito que se resignara ao que acreditava ser a sua solido inevitvel.
     - No, eu queria ter podido passar o resto da minha vida junto do meu marido, o que 
teria feito caso ele no tivesse falecido. Agora no disponho de escolha. Alm do mais, as 
outras opes no me seduzem, nem me parece que alguma vez venham a agradar-me. 
Acho mais digno desistir dessa parte da vida do que andar para a desenfreada  procura 
de algum.
     - Ele deve ter sido um homem fantstico, para voc o ter amado tanto - retorquiu 
Liam, que se sentia ainda mais impressionado depois de ter conversado com ela durante 
o jantar. Era uma mulher espantosa, cuja maneira de ser lhe agradava, alm de lhe 
merecer um respeito genuno.
     - Ele era maravilhoso - confirmou Sasha com tristeza.
     - Estvamos profundamente apaixonados. O facto de ter falecido foi um golpe 
terrvel.
     -  o que parece. Mas a verdade  que ele morreu, Sasha, e voc continua viva. Se 
tivesse sido o contrrio, provavelmente ele j teria encontrado outra pessoa. Todos 
precisamos de algum que amemos. A vida  muito difcil para que a vivamos sozinhos. - 
Os ltimos seis meses sem Beth e as crianas tinham sido um autntico inferno para ele.
     - No estou bem certa de que as coisas sejam muito melhores, caso acabemos com 
a pessoa errada. Como a Becky. Acertei  primeira. No me parece que pudesse voltar a 
ter a mesma sorte. Porqu arriscar? - perguntou ela, com uma expresso de nostalgia.
     - Porque  possvel que volte a ter sorte. A Sasha  boa pessoa, merece que isso 
acontea. Claro que no seria a mesma coisa. Seria diferente. Mas o que  diferente nem 
sempre  mau.
     - No sou capaz de me imaginar a voltar a sair com outros homens - retorquiu Sasha 
com sinceridade quando o empregado colocava na mesa trs pequenas taas com 
guloseimas e um prato com biscoitos. - O pouco que tenho visto parece-me aterrador.Sim, 
tambm sinto a mesma coisa - corroborou Liam, rindo-se perante o absurdo da situao. - 
Eu fao o mesmo que voc: embrenho-me no meu trabalho. Desde que a Beth me deixou 
no tenho parado de pintar.
     - Comigo resulta - disse Sasha, sorrindo; enquanto existissem artistas talentosos 
como Liam, a actividade a que ela se dedicava continuaria a dar resultados positivos. 
Agora que os meus filhos saram de casa, as coisas so mais difceis. Pelo menos em 
Paris estou mais perto do Xavier, e tambm vou a Nova Iorque com frequncia, mas   
noite que as coisas so mais complicadas para mim - confessou. Liam acenou, num gesto 
de compreenso.
     - Tambm   noite que me sinto mais s, e tenho umas saudades de morrer dos 
meus filhos. Enfim, imagino que estejam melhor longe de mim, alm de poderem contar 
com o futuro marido de Beth. Ela diz que  um sujeito extraordinrio, alm de ser um bom 
pai. Provavelmente, melhor do que eu. Os meus filhos esto muito melhor com a me do 
que comigo. Ele  um homem mais respeitvel do que eu e tambm mais convencional, e 
a Beth diz que isso  bom para as crianas. Ele no tem nada de louco. - Adivinhava-se 
no timbre de voz de Liam que se sentia humilhado e derrotado. No s perdera a mulher, 
como tambm os filhos.
     - Mas voc ser sempre o pai deles, Liam. No deve abandon-los. V visit-los 
logo que possa.
     - Sim... - concordou ele vagamente. -  o que farei - acrescentou, embora no 
parecesse muito convencido, o que perturbou Sasha.
     Telefonara para o restaurante antes de chegarem, a fim de pedir que no levassem 
a conta para a mesa. No queria constranger Liam. Depois de terem comido os doces e 
tomado o caf, saram, encaminhando-se para o automvel, que ficara  espera. 
     Sasha deu instrues ao motorista para que a deixasse no hotel, aps o que levaria 
Liam a casa, mas quando chegaram ao hotel ele disse-lhe que podia apanhar um txi a 
partir dali. Perguntou-lhe se queria tomar uma bebida, mas Sasha disse-lhe sinceramente 
que no lhe apetecia. Achava que j tinham bebido champanhe e vinho que chegasse. 
Era muito raro que tomasse bebidas alcolicas.
     - Vou acompanh-la ao quarto e depois vou-me embora - disse Liam, mostrando-se 
confiante. Sasha havia desfrutado da sua companhia durante o jantar, e era agradvel ter 
algum que a acompanhasse at ao hotel. 
     Sentia a solido, que lhe era to familiar, comear a apoderar-se de si sub-
repticiamente; Liam sentia o mesmo. As noites eram uma agonia para as pessoas que 
viviam sozinhas, o que era o caso de ambos. Mas de sbito Sasha sorriu ao olhar para os 
sapatos dele enquanto subiam os degraus da entrada, voltando a reparar na ausncia de 
meias. No conseguiu resistir a brincar com ele por causa daquilo, agora que j o 
conhecia um pouco
     melhor. - No encontrei nenhumas... - justificou-se Liam, mostrando-se embaraado. 
- Alm do mais, sou um artista. No sou obrigado a calar meias! - disse isto com uma 
expresso de desafio que fez com que ela se risse.
     - Quem  que estabeleceu essa regra? - perguntou-lhe.
     - Fui eu - replicou ele, muito senhor de si. - Sou um pintor louco. Posso fazer o que 
me der na veneta! - Ao dizer isto, Liam parecia ter cinco anos, e ela viu toda uma vida de 
travessuras na expresso dos seus olhos. Era alrgico a qualquer forma de controlo e 
autoridade, tal como os entendia.
     - No, no pode fazer tudo o que lhe der na veneta. Todos temos de viver em 
conformidade com determinadas regras. - Sasha sentia-se como se fosse uma professora 
que repreende uma criana, e ele riu-se dela.
     - E existe alguma regra sobre meias?
     - Com certeza. - Enquanto lhe respondia, Sasha estava a pensar em enviar-lhe uma 
caixa com meias e camisas. Era evidente que ele precisava dessas peas de vesturio e 
tambm, talvez, de alguns atacadores. Perguntou-se se ele usaria o que lhe enviasse. 
Provavelmente, no. Era bvio que adorava viver de maneira pouco ortodoxa, 
estabelecendo as suas prprias regras. Em seguida, Sasha perguntou a si mesma se ele 
tambm no usaria roupa interior, corando ao pensar nisso.
     - Em que  que est a pensar? - perguntou Liam, que notou a expresso do seu 
rosto.
     - Em nada - respondeu, mostrando-se embaraada.
     - Com certeza que estava a pensar em alguma coisa. Perguntava a si mesma se eu 
uso roupa interior, no  verdade? - insistiu Liam, pondo-se a adivinhar e fazendo com 
que ela voltasse a corar.
     - No, no estava a pensar em nada disso - contradisse ela, rindo-se  socapa 
enquanto mentia. Sim, estava. Pois bem, uso. Pelo menos nesta altura tenho roupa 
interior. Consegui encontrar um par de cuecas.
     - Mas que alvio!... - retrucou ela, fingindo-se muito mais tranquila e fazendo com 
que ele voltasse a rir-se de si.
     - Isso consta do contrato que acabei de assinar? Que sou obrigado a usar roupa 
interior e meias? Porque se for esse o caso, ento vou ter de o rasgar. No permito que 
ningum me diga o que vestir ou o que tenho autorizao para fazer.
     - Aquilo era uma manifestao de rebelio tpica de um adolescente. Liam Allison 
tinha grandes problemas no respeitante a questes de controlo ou, pelo menos, era o que 
parecia. Durante toda a vida lutara contra a corrente, fazendo frente s convenes e 
infringindo as regras.
     - Para lhe dizer a verdade, agora que falou no assunto, acho que sim, que consta do 
contrato. - Sasha estava a brincar com ele, retribuindo-lhe na mesma moeda, o que lhe 
estava a agradar sobremaneira. Nessa altura chegaram  porta do quarto dela.
     - No, no consta - contradisse ele, mostrando-se obstinado e petulante, como uma 
criana indisciplinada.
     - Ah, isso  que consta! - afirmou ela com firmeza. Estipula que a partir da data em 
que assinou o contrato  obrigado a usar roupa interior e meias em todas as ocasies.
     - No pode obrigar-me a isso! - ripostou Liam em voz alta.
     - Posso, - retorquiu ela, afectada, mas firme. Liam olhou para ela, desatando a rir, e, 
para grande surpresa de Sasha, baixou a cabea e beijou-a, silenciando-a. 
     Ela tinha a chave na mo, e deixou-a cair juntamente com a bolsa, de to perplexa 
que ficou. Depois fitou-o por instantes. - Porque fez isso, Liam? - perguntou em voz baixa, 
atnita ao aperceber-se de que havia gostado de o beijar. De facto, gostara muito. 
Demasiado. Incomensuravelmente. Liam apanhou a chave e a bolsa do cho e, 
lentamente, abriu a porta do quarto, ficando a olh-la; sem proferir uma palavra, Sasha 
entrou e ele seguiu-a. Tinham dado meia dzia de passos quando no interior do quarto 
ele voltou a beij-la, fechando a porta com o p. Sasha sentia-se avassalada pela 
diversidade de emoes em conflito que experimentava nesse momento.
     Queria impedi-lo de continuar. Era esse o seu propsito.
     Tinha a inteno de o obrigar a parar, mas no foi capaz. O pior era o facto de no 
querer pr fim  situao, o que tambm era o caso dele. Liam continuou a beij-la at a 
ter tomado nos braos e deitado delicadamente na cama. Havia uma luz ligada no quarto 
que apagou. No disse nada. Continuou a beij-la enquanto a despia, e momentos depois 
os dois estavam deitados nus e a fazer amor, antes que ela tivesse tempo de se 
aperceber como  que aquilo acontecera. 
     Queria conseguir par-lo, mas no foi capaz; no queria que ele parasse. De facto, 
queria fazer precisamente aquilo, do mesmo modo que ele o desejava. Eram como duas 
pessoas famintas que se haviam encontrado e no eram capazes de se apartar. A 
atraco entre os dois era demasiado forte para poderem resistir-lhe. Embora tivessem 
estilos de vida e maneiras de ser diferentes, ambos tinham a sensao de serem almas 
gmeas, de que existiam muitas afinidades entre os dois. 
     Precisavam um do outro para preencherem a solido que sentiam, estreitando-se 
at ficarem nos braos um do outro, exaustos e com a respirao ofegante. Sasha ficou 
deitada a olhar para ele na escurido, atordoada pelo que tinha acabado de fazer, 
enquanto Liam lhe sorria com a ternura de um homem enamorado.
     - Parece-me que estou apaixonado por ti... - confessou em voz baixa, e Sasha sentiu 
o ardor das lgrimas que lhe assomaram aos olhos ao ouvi-lo dizer aquilo. Tinha pensado 
que jamais voltaria a ouvir tais palavras, mas ali estava ele a proferi-las, quando nem 
sequer se conheciam a fundo. Todavia, no seu corao, sentia que o conhecia. 
Apercebia-se da solido que ele sentira na infncia e da sua vulnerabilidade como 
homem.
     - Isso  impossvel. Tu nem sequer me conheces... disse ela numa voz suave, 
enquanto as lgrimas lhe corriam lentamente pelo rosto. Eram lgrimas por Arthur e por 
Liam e, finalmente, por si prpria.
     -  possvel e eu conheo-te. E quero vir a conhecer-te melhor. - Liam tinha-lhe 
falado muito a respeito de si prprio nessa noite, e queria saber mais sobre Sasha.
     - Isto  uma loucura, Liam - retorquiu ela, soerguendo-se sobre um cotovelo e 
fitando-o. Com suavidade, Liam comeou a limpar-lhe as lgrimas do rosto. O luar invadia 
o quarto, e tudo o que ele fazia era imbudo de uma grande ternura, amor e generosidade.
     - Talvez seja uma loucura - admitiu -, mas parece-me que  do que ambos estamos 
a precisar. Quanto a mim, sei que preciso, e estou em crer que tu tambm. De qu, de 
sexo? - perguntou ela, dando a impresso de se sentir insultada.
      Recusava-se a ser uma mulher com quem ele fora para a cama uma noite que no 
se repetiria, tal como acontecera com Becky. Alm do mais, aquela situao era ridcula. 
Ela era a pessoa que iria passar a negociar os seus trabalhos de arte e no a sua 
namorada. At a nunca se tinham visto e continuavam a no se conhecer. O que  que 
lhe estava a acontecer? Sasha sentia-se completamente  deriva num mar que no lhe 
era familiar, como se tivesse sido arrastada em direco a ele por uma corrente mais forte 
do que ela e a que no conseguira resistir.
     - Isto no tem nada a ver com sexo, Sasha, do que tu ests bem ciente. Ou, melhor 
dizendo, no se limita ao sexo, se bem que tenha de admitir que foi muito bom. 
     - De facto, fora fabuloso. Tinha sido espantoso, levando em considerao que, 
praticamente, no se conheciam. Havia sido inacreditvel para ambos.
     - No pode ter a ver com amor. Nem sequer nos conhecemos bem...
     - Espero que venhamos a conhecer-nos melhor - retorquiu Liam numa voz 
afectuosa. Acima de tudo, parecia ser uma boa pessoa, um homem extremamente 
atraente. Atraente de mais para o seu prprio bem, assim como para o bem dela. Sasha 
sentia-se profundamente atrada por ele, e nesse momento apercebeu-se de que isso 
sucedera desde o primeiro instante em que o vira. Havia tentado ignorar essa atraco, 
mas no foi capaz.
     - Isto  impossvel! - repetiu Sasha. - Eu sou a pessoa que negoceia os teus 
trabalhos, alm de ser nove anos mais velha do que tu.
     - E o que  que isso tem de mais? Tambm tens regras com respeito a isso? - 
perguntou Liam, que no parecia incomodado com a diferena de idades entre os dois, 
dando a impresso de que isso lhe era completamente indiferente.
     - Sim, de facto tenho regras quanto a isso. No costumo dormir com os artistas que 
represento. Nunca o fiz e no  agora que tenciono comear a faz-lo! - ripostou com 
determinao, como se estivesse a dizer aquilo mais para si prpria do que para ele.
     - Estou em crer que acabaste de fazer isso mesmo. Alm do mais, antigamente eras 
casada. Agora as regras so diferentes.
     - Portanto, isso quer dizer que vou comear a ir para a cama com os artistas que 
represento? No me parece, Liam! De sbito sentia-se furiosa consigo mesma, mas antes 
que pudesse dizer mais alguma coisa ele voltou a beij-la, ao mesmo tempo que, 
suavemente, acariciava o seu corpo. Sasha sentiu como que um formigueiro na pele 
quando Liam lhe tocou; tinha a impresso de que estava a enlouquecer por ele. Desta 
vez, nem sequer fez meno de querer que ele parasse. 
     Desejava-o ainda mais do que da primeira vez, e depois ficou deitada nos seus 
braos e chorou. Desta feita, foram lgrimas de alvio. Ele puxou-a mais para si, 
abraando-a e mantendo-a aconchegada at que ela parou de chorar. Sasha sentia-se 
como se dentro de si houvesse uma represa que tivesse acabado de rebentar, inundando-
a de emoes.
     - Amo-te, Sasha. Nem sequer te conheo bem, mas sei que te amo. E tambm sei 
que te amarei cada vez mais com a passagem do tempo. S preciso que me ds essa 
oportunidade - suplicou-lhe Liam. Desejava-a mais do que alguma vez desejara algum, 
at mesmo Beth.
     - Isto no poder repetir-se... - disse Sasha, as palavras abafadas no peito dele, o 
que trouxe um sorriso aos lbios de Liam.
     - Prometo que calo meias na prxima vez - acrescentou sem a soltar.
     - Estou a falar a srio, Liam... - retorquiu ela numa voz indolente, adormecendo nos 
seus braos. Sei que sim, Sasha... Sei que sim... Seja como for, estou apaixonado por ti. - 
Sorria enquanto lhe beijava os cabelos espalhados pela almofada, continuando abraado 
a ela quando adormeceu. Era a primeira boa noite de sono tanto para um como para o 
outro em muitos meses. 
     
                                         CAPTULO 6
     
     A luz do dia entrava no quarto de Sasha do Claridge, despertando-a, e a Liam, s 
nove horas do dia seguinte. Ele foi o primeiro a acordar, deixando-se ficar deitado com ela 
nos braos. Ento, como se pressentisse que algum a observava, Sasha mexeu-se. 
Sentia os braos dele que a enlaavam, mantendo-se chegado s suas costas, e por 
breves momentos no soube bem quem ele era, mas quase de imediato recordou-se. 
Fechou os olhos e gemeu.
     - Bom dia, Bela Adormecida - disse ele com ternura, puxando-a mais para si. Sasha 
virou-se lentamente e olhou para ele. O seu rosto quase tocava o dele, e Liam pareceu-
lhe to belo  luz da manh como na noite anterior. Sentiu que o corao lhe caa aos ps 
quando o olhar dos dois se cruzou. No podia acreditar no que tinha feito! S de o ver ali, 
nu em toda a sua beleza, com os cabelos compridos e louros a rasarem-lhe pelos 
ombros, o corpo chegado ao seu, sabia que tinha perdido o juzo.
     - Isto no aconteceu! - disse Sasha numa voz firme. Mas no era capaz de se forar 
a levantar-se nem a afastar-se; tudo nele fazia com que o desejasse ainda mais.
     - Sim, aconteceu - contraps Liam, rindo-se e mostrando-se extremamente satisfeito 
consigo prprio, levando Sasha a pensar que nunca havia visto um homem to 
maravilhoso como ele.
     - No podemos fazer isto, Liam.  impossvel. - E nunca viria a ser diferente. Ele 
seria sempre nove anos mais novo do que ela, o que a incomodava, por muito pouco que 
ele se importasse com isso; alm do mais, era um artista que ela representava. E ainda 
que Sasha se recusasse a represent-lo, ele continuaria a ser demasiado jovem, na sua 
opinio. A diferena de idade era uma questo que tinha mais a ver com o grau de 
maturidade psicolgica dele e a sua maneira de ser juvenil do que com a idade que 
constava dos passaportes dos dois. Alm disso, no podia recusar-se a represent-lo s 
porque
     ela prpria agira como uma louca. De facto, uma louca velha. Era o que achava 
nesse momento. Tinha-se sentido faminta de amor, de companhia, de afecto e at mesmo 
de sexo. Porm, isso no servia de desculpa para o que fizera. Estava furiosa consigo 
prpria e at mesmo vagamente com ele. Mas so o suficiente para se levantar da cama. 
Agora ou na noite anterior.
     - No  impossvel, a menos que queiras que seja. Foi o que disseste ontem  noite 
antes de termos feito amor pela segunda vez.
     - Estava doida! Alego insanidade temporria - retorquiu, deitando-se de costas e 
pondo-se a olhar para o tecto para evitar fit-lo. Era to bom estar ali, deitada ao lado de 
Liam, sentindo-se de novo mulher... Contudo, aquele era um fruto proibido que no podia 
permitir-se voltar a comer.
     - Fazes ideia at que ponto isto no tem ps nem cabea?
     - perguntou, voltando a cara para o olhar. Liam tinha uns olhos verdes enormes, um 
rosto de feies quase perfeitas, apenas com um ligeiro toque que lhe dava uma 
aparncia verdadeiramente mscula. Parecia um actor num filme sensual. Precisava de 
uma jovem estrela ao seu lado e no de uma mulher da idade dela. Estava ciente disso, 
ainda que ele no concordasse. Ela sabia-o por ambos.
     - No  uma loucura, Sasha. s uma mulher e eu sou um homem. Gostamos um do 
outro, ambos nos sentimos muito sozinhos. Partilhamos os mesmos interesses e vivemos 
para a arte. O que  que h assim de to errado nisso?
     - Tudo. Pareo, e sinto-me, com idade suficiente para ser tua me. s um amigo do 
meu filho, sou eu quem te representa. Que tal para comear? E, alm do mais, continuas 
apaixonado pela tua mulher - do que no duvidara por um minuto que fosse na noite 
anterior, quando ele lhe contara a histria de Beth e da sua irm gmea.
     - No pareces ter idade suficiente para seres minha me. s uma mulher 
deslumbrante e apenas nove anos mais velha do que eu, portanto, qual  a porra do teu 
problema? Alm do mais, j no estou apaixonado pela minha mulher. Estamos a tratar 
do divrcio. Tu e eu somos livres, no mantemos uma relao amorosa com ningum, 
sentimo-nos muito sozinhos e temos mais de vinte e um anos. Qual  o teu problema? - 
concluiu, mostrando-se um pouco irritado.
     - Continuo apaixonada pelo meu marido - afirmou ela com uma expresso de 
tristeza, mas desta vez no chorou. Liam esperou uns momentos antes de continuar, 
acariciando-lhe suavemente a face quando o fez.
     - Sasha, ele faleceu. Tu ests viva e ele no. - O que ela provara sobejamente, sem 
margem para dvidas, na noite anterior. - Tens todo o direito de ser feliz com algum. 
Comigo ou com qualquer outra pessoa. No podes continuar a esconder-te de todos. No 
est certo.
     - Sim, posso - retorquiu Sasha, virando-se e ficando de costas para ele, embora 
continuasse deitada. Liam no podia ver que ela estava a chorar, mas, fosse como fosse, 
enlaou-a, puxando-a mais para si.
     - Sasha, sei que isto parece disparatado. Eu mal te conheo, mas acho que te amo. 
Sinto-me como se tivesse estado  espera de ti durante toda a minha vida. Isso  uma 
loucura... - resmungou, continuando de costas voltadas para ele. Mas havia qualquer 
coisa no que Liam dissera que soava a verdade, apesar de no fazer sentido.
     - Ns bebemos de mais. No foi amor, foi o vinho. - Sasha tentava desvalorizar o 
que sucedera entre os dois, mas no o convenceu, nem to-pouco a si prpria.
     - Pois bem, seja o que for, quero mais. Por que razo no podes deixar que as 
coisas aconteam e ver at onde chegam? - perguntou Liam com ar de splica.
     - E depois, o que  que acontece? - retorquiu ela, voltando a olh-lo de frente. 
Mostrava-se verdadeiramente atormentada pelo modo como ambos haviam procedido. - 
At onde  que isto poderia ir? Precisas de algum da tua idade. Sou mais velha do que 
tu, alm de ser a tua negociante de arte. Sou uma pessoa conservadora, ao contrrio de 
ti. Seramos alvo da chacota de todos em Paris. 
     - Especialmente se ele comparecesse a uma das reunies sociais a que ela 
costumava ir sem meias e com uma camisa pintada. Era uma pessoa respeitvel, com 
uma vida social que levava muito a srio, o que no era o caso de Liam. Ele era 
precisamente o que dissera ser, um pintor louco, alm de ser amigo de Xavier. Os filhos 
ficariam extremamente perturbados caso tivessem conhecimento do que se estava a 
passar, tal como ela prpria se sentia nesse momento.
     - Mas eu no quero ningum da minha idade, Sasha, quero-te a ti! - Interrompeu-se, 
ficando a pensar por momentos, e voltou a fit-la. - Eu causo-te embarao?
     -  possvel que sim - respondeu ela com franqueza -, mas no tenciono dar-te 
oportunidade de o fazeres. Havia de parecer uma velha tonta faminta por sexo se sasse 
contigo, Liam. Esta relao jamais resultaria.
     - Sim, resultaria. E, pelo menos, tens razo em metade do que dizes. Ests 
sexualmente carente, mas no s nenhuma doida, jovem ou velha.
     - Sou, sim - contraps ela, mostrando uma expresso de grande tristeza. Liam 
beijou-a, tanto para a calar como para a animar. Mas apesar de nada conseguir anim-la, 
no estava insensvel ao toque dele, longe disso. No obstante a sua determinao para 
que aquilo no acontecesse, ou continuasse, respondeu imediatamente ao toque das 
mos dele. Era mais poderoso do que a sua vontade. 
     Sasha nunca sentira nada assim em toda a sua vida, nem sequer com Arthur, o 
homem que amara verdadeiramente ao longo de mais de metade da sua vida. Porm, tal 
como Liam fizera notar, ele j no se encontrava entre os vivos. Mas Liam sim. Segundos 
depois os dois corpos enlaavam-se. Sasha gemia de prazer quando ele comeou a fazer 
amor com ela uma vez mais. No relgio da mesa-de-cabeceira faltava um quarto para as 
dez quando, com a respirao ofegante, exaustos, nos braos um do outro.
     - Oh, meu Deus!. - exclamou Sasha quando viu as horas. - O Xavier est a chegar a 
qualquer momento. Fiquei de tomar o pequeno-almoo com ele. - Liam riu-se.
     - Sendo assim, o melhor  pr-me na alheta.  Desenlaou as pernas e os braos 
esguios do corpo dela, levantou-se da cama e ficou a olhar para Sasha. - Nunca desejei 
tanto uma mulher na minha vida. Quando  que posso voltar?
     - Nunca! - respondeu ela, inflexvel. - Depois do pequeno-almoo vou logo para o 
aeroporto. Liam, estou a falar a srio. Temos de pr fim a isto! - Mas a quem tinha de 
dizer isso era a si prpria.
      Nunca se sentira to confusa e com to pouco domnio sobre a sua vida. Era como 
se estivesse a andar numa montanha-russa infernal. S conseguia imaginar que 
acontecesse o pior, o que no podia permitir. Tinha de recuperar o controlo da sua 
existncia. - No vou deixar que isto volte a suceder.
     - Nesse caso, s uma idiota - retrucou Liam com tristeza. - O que no acredito que 
sejas. Telefono-te esta noite.
     - Liam, no faas isso. Eu quero representar-te. s um pintor fantstico e podes vir a 
ter um futuro brilhante. Vamos cingir-nos a isso. No prejudiques a tua vida. Ests a dizer-
me que no me representars se formos amantes? Porque, se  esse o caso, quero que 
a galeria se lixe, assim como o contrato! Tu representas mais para mim do que tudo isso. 
- Eram palavras fortes e Liam estava a falar com toda a sinceridade.
     - Ests louco!... - disse ela, sentando-se na cama e olhando-o fixamente.
     -  possvel que sim. A minha famlia  dessa opinio
     - retorquiu ele, enquanto vestia as calas de ganga e a T-shirt. No tinha tempo para 
tomar duche; sabia que precisava de sair antes que Xavier chegasse, ou ela jamais lhe 
perdoaria. - s tu quem decide, Sasha - acrescentou, olhando para ela e vendo-a junto da 
cama onde haviam feito amor trs vezes. As trs melhores vezes da sua vida. Mas no 
podia tomar tal deciso com base na actividade sexual entre os dois. Sentia-se realmente 
como se tivesse perdido o juzo, e sabia que tinha de recuper-lo, e depressa.
     - No me telefones - disse ela, tentando imprimir  voz um tom de quem falava a 
srio, sabendo que era isso que tinha de fazer. O que quer que aquilo tivesse sido, tinha 
de acabar antes mesmo de ter comeado. - Mais tarde entro em contacto contigo por 
causa do trabalho.
     - Podemos fazer as duas coisas - insistiu ele de modo cordato, ao que Sasha 
respondeu com um abanar de cabea, enquanto ele a puxava para si para um ltimo 
beijo. Sasha encontrava-se diante dele nua, chocada ao perceber at que ponto se sentia 
 vontade na sua presena. Depois de terem conversado durante o jantar e de ter feito 
amor com ele, sentia-se como se o tivesse conhecido toda a vida. Junto dele, no sentia o 
mnimo constrangimento.
     - No, no podemos fazer as duas coisas - disse ela, dando a impresso de estar 
desesperada. - Recuso-me a ser a tua negociante de arte e a tua amante. - Tambm no 
queria ser a mulher mais velha na vida dele. Nunca concordara nem fizera isso, e no era 
agora que queria comear.
     Liam beijou-a, saindo do quarto sem dizer mais nada. Sasha ficou a olhar para a 
porta durante muito tempo, receando o que poderia acontecer, determinada a erguer 
barreiras entre os dois. A partir desse momento, disse para si mesma, seria a pessoa que 
comercializaria os trabalhos dele e nada mais. Apressou-se a ir para o chuveiro e quando 
saiu ouviu o telefone a tocar. Teve receio que fosse Liam, mas no, era Xavier. Estava a 
sair de casa nesse momento, assegurando que chegaria ao hotel dentro de cinco 
minutos.
     - Est bem, meu querido - disse Sasha com voz calma, embora as mos lhe 
tremessem. - Eu tambm estou um pouco atrasada. Encontramo-nos no trio dentro de 
quinze minutos.J fez todos os seus telefonemas? - perguntou Xavier, que parecia muito 
bem-disposto. Com certeza que se tinha divertido na noite anterior. Sasha estremeceu ao 
pensar no que o filho pensaria dela caso soubesse o que tinha feito. Sentiu-se como se 
fosse uma libertina.
     - Que telefonemas? - perguntou, parecendo distrada.
     - Oh!, sim... essas chamadas... Claro que fiz, s estou um pouco atrasada. At j. - 
Desligou, sentando-se na beira da cama, a tremer. O que acabara de fazer era uma 
loucura. Mas aquela insanidade tinha de parar. Era uma pessoa sensata e Liam no 
passava de um rapaz estouvado num corpo de adulto que fizera da determinao de no 
crescer o lema da sua vida. 
     Sasha recordou-se, o que a atemorizou ainda mais, de que ele cometera adultrio 
com a irm gmea da mulher. No se podia dizer que isso fosse muito abonatrio da sua 
moralidade e capacidade de discernimento. E por muito bem-parecido que fosse, a 
verdade  que se portava como uma criana irresponsvel, sentindo-se muito orgulhoso 
por isso. Recriminou-se, dizendo a si prpria que no se comportara muito melhor. Tinha 
de ser ela o adulto naquela situao. Liam era incapaz de assumir esse papel.
     Meteu o que trouxera para Londres num saco de viagem, vestiu-se rapidamente, 
escovou o cabelo e maquilhou-se. Quinze minutos depois j se encontrava no trio do 
hotel; o filho chegou logo a seguir, um jovem com uma bela aparncia. A sua postura 
confiante e a maneira de vestir fizeram que se recordasse imediatamente de Liam. Eram 
semelhantes no estilo de vida, atitude e comportamento. Dois jovens irreverentes e 
fogosos.
     - A me parece muito satisfeita - disse Xavier, mostrando-se contente. - Nunca a 
tinha visto com o cabelo cado. contrariada, de que se tinha esquecido de apanhar o 
cabelo. Arranjara-se to  pressa que nem sequer reparara nesse pormenor quando se 
viu ao espelho. Aquilo era um sinal claro, para ela e para Xavier, de que havia algo de 
diferente. Soltara o cabelo em circunstncias muito especiais, e estava na altura de voltar 
a prend-lo, mantendo-o desse modo.
     - Oh, obrigada pelo elogio! Estava com pressa.
     - Devia fazer esse penteado mais vezes. Que tal foi o jantar com o Liam?
     - ptimo... divertido... No, para dizer a verdade, no foi... Ele  um tanto ou quanto 
ridculo, no achas? Apareceu no restaurante sem meias nem atacadores nos sapatos e 
com uma camisa que ele prprio pintara. - Talvez se o ridicularizasse aos olhos de Xavier 
ela prpria conseguisse ver o
     ridculo da situao, mas sentiu-se uma traidora ao dizer aquilo.
     - Ele  boa pessoa. Que diabo, me, alguns dos seus outros artistas tm um aspecto 
muito pior! - retorquiu Xavier com um encolher de ombros, enquanto Sasha dizia para 
consigo que nunca havia ido para a cama com nenhum deles. Mas Liam era diferente. 
Nenhum dos outros a fizera sentir-se como ele fez, para o que bastara olhar para ele no 
outro extremo do estdio. 
     Sentira de imediato a atraco entre os dois quando se conheceram, embora 
quisesse convencer-se de que era s imaginao sua. Tentara neg-lo, mas no 
conseguiu. Como veio a revelar-se, era muito mais do que imaginao. Pior ainda, sentia 
que era genuno.
     Sasha e o filho tomaram o pequeno-almoo no trio do hotel. Ela bebeu ch, 
olhando para os scones no seu prato. No conseguia com-los. No tinha fome. Xavier 
tratou de comer os seus vorazmente - e os da me. O rapaz estava esfomeado!
     Durante cerca de uma hora conversaram sobre trivialidades, e ele fez-lhe um aceno 
de despedida quando ela saiu, seguindo para o aeroporto. Sasha perguntava-se se o filho 
se encontraria com Liam nesse dia e o que  que este poderia dizer-lhe. Estava capaz de 
o matar se desse alguma coisa a entender ao filho. 
     Mas confiava em que no o fizesse. No era mau nem rancoroso, apenas 
irresponsvel e demasiado juvenil para a sua idade. Parecia mais ter a idade de Xavier do 
que a idade dela, ou mesmo a que tinha de facto. Forou-se a no pensar nele durante o 
percurso at ao aeroporto, tirando alguns papis da pasta.
     Porm, no conseguia concentrar-se numa s palavra do que estava a ler. Ficou a 
olhar para o contrato com a assinatura dele, a qual fora rabiscada apressadamente no 
Harrys Bar, e durante breves instantes pensou em rasg-lo. Mas no podia fazer-lhe uma 
coisa dessas. Liam devolvera-lhe as duas vias, e disse para si mesma que no podia 
esquecer-se de lhe enviar a cpia que lhe pertencia quando chegasse a Paris.
      Liam dera-lhe o nmero do telemvel, mas nada no mundo a teria induzido a ligar-
lhe. 
     No lhe dera o seu nmero, tal como no lhe dera o nmero do telefone de casa. 
Tudo o que ele tinha era o nmero da galeria em Paris, e rezou para que no ligasse para 
l a fim de falar consigo. Caso o fizesse, tencionava encaminh-lo para outra pessoa. 
Outra pessoa qualquer, desde que no fosse ela. No queria voltar a ouvir a sua voz, pelo 
menos durante muito tempo. Ele possua uma voz rouca muito sensual, de que tambm 
transparecia uma ternura que mexia com ela. 
     Desde o incio que havia reparado nisso. Agora adorava a voz dele e quase tudo o 
que lhe dizia respeito, com excepo da maneira como se comportava. A ltima coisa de 
que precisava na sua idade era envolver-se com um artista que se afirmava como louco e 
que agia como um jovem irreverente. O que lhe dissera nessa manh era verdade: caso 
se envolvesse abertamente numa relao amorosa com ele, seria alvo da chacota da 
sociedade de Paris e at mesmo de Nova Iorque. 
     Tinha obrigao de velar pela sua reputao, o que no era o caso com Liam. Para 
ele, a sua reputao ou a dela eram-lhe totalmente indiferentes. No tinha nada a perder 
se se envolvesse com Sasha, mas ela sim, tinha muito a perder, que mais no fosse o 
respeito dos filhos, colegas e amigos. Tinha uma percepo muito clara quanto a isso 
quando entrou no avio em Heathrow. Havia sido um episdio chocante, mas no se 
repetiria, uma experincia irracional, como se ela fosse outra pessoa no seu corpo, e no 
podia permitir que se repetisse. Nunca! Quando o avio descolou rumo a Paris, Sasha 
prometeu a si mesma que recuperaria a sanidade mental e que a manteria.
     Eram dezasseis horas quando entrou no seu escritrio em Paris. Apesar de o dia 
estar soalheiro em Londres, em Paris chovia quando chegou. Teve dificuldade em 
apanhar um txi no aeroporto, e quando chegou ao escritrio estava encharcada. Mas a 
chuva serviu para lhe esfriar as ideias depois de uma experincia to capitosa como a 
que tivera em Londres, tendo servido para que recuperasse a sua capacidade de 
raciocnio.
     - Meu Deus, ests com um aspecto horrvel!  disse Bernard, o gerente da galeria. - 
Ou, pelo menos, muito molhada. Devias ir para casa e mudar de roupa antes que 
adoeas, Sasha.
     - Vou daqui a um minuto. Primeiro tenho de fazer alguns telefonemas. E a 
propsito... - interrompeu-se, sorrindo a Bernard, e ele reparou que, apesar de ter o 
cabelo todo molhado e a roupa ensopada, estava com melhor aspecto do que tivera em 
muitos meses. Pela primeira vez em mais de um ano, parecia relaxada e feliz. 
Obviamente, a visita ao filho havia corrido bem. - Temos um novo artista. Um amigo do 
Xavier que tambm vive em Londres. J assinou o contrato e temos de lhe enviar a cpia. 
 um jovem norte-americano. Os seus trabalhos so fantsticos.
     - Esplndido. Fico ansioso por ver esses trabalhos. Sasha gostava mais de arte 
moderna do que ele. Como Simon, Bernard era mais tradicional, mas isso no o impedia 
de ter um grande respeito pelo golpe de vista de Sasha em relao a artistas em princpio 
de carreira. Possua um instinto que nunca falhava para o que se venderia bem.Eu disse-
lhe que o lanaramos com uma exposio em Nova Iorque. 
     - Ele respondeu-lhe com um acenar de cabea, e cada um foi para o seu gabinete. 
Quando chegou ao seu, Sasha ficou surpreendida: deparou com um grande ramo de 
rosas vermelhas em cima da mesa de trabalho, sentindo um enorme alvio ao constatar 
que a secretria no abrira o carto. O facto de as rosas serem vermelhas devia ter-lhe 
parecido algo muito pessoal, pelo que no abrira o pequeno sobrescrito, para grande 
alvio de Sasha quando viu quem lhe havia enviado as flores. No queria que no escritrio 
pensassem que tinha um amante secreto. Cometera um erro, mas j o corrigira e era 
assim que as coisas se manteriam.
     O carto dizia:  possvel. Amo-te. Liam. Rasgou-o em pedacinhos que atirou para 
o cesto do lixo, sentindo-se embaraada. 
     Aquelas rosas deviam ter-lhe custado uma fortuna, e sabia que ele no tinha 
dinheiro para tais extravagncias. Sentiu-se tocada e tentada a ligar-lhe, mas forou-se a
     no ceder  vontade. Fizera um voto de silncio e tencionava mant-lo, por muito 
que lhe custasse.
     Em vez de lhe telefonar para agradecer as flores, escreveu-lhe uma mensagem 
corts que poderia ter sido redigida pela av dele ou por qualquer negociante de arte. No 
tinha nada de pessoal. Entregou-a  secretria juntamente com a cpia do contrato, 
nmero de telefone e morada, e disse-lhe que abrisse um ficheiro em nome de Liam 
Allison, pois passara a ser um dos novos pintores da galeria.
     - As flores so lindas - afirmou Eugnie. O que Sasha lhe dissera explicava o ramo 
de rosas. Tinham sido enviadas por um novo artista, um gesto bonito por parte de um 
pintor que estaria a morrer de fome. Bem, talvez aquele no estivesse propriamente a 
morrer de fome; as rosas em Janeiro eram flores caras. Por instantes, Eugnie 
perguntara-se se Sasha teria algum namorado, mas no, era apenas um novo pintor em 
princpio de carreira. 
     Mas, pelo menos, Sasha parecia feliz como no a via h muito tempo. Desde a 
morte de Arthur que se mostrava morbidamente deprimida. Agora at mesmo o seu andar 
parecia ter adquirido uma nova ligeireza. Vinha com um aspecto descontrado depois da 
viagem a Londres.
     s dezoito horas dirigiu-se para a parte do edifcio onde ficava a sua residncia, 
aliviada por Liam no ter tentado falar-lhe. Preparou uma chvena de ch e aqueceu um 
pouco de sopa. Tomou um banho quente de imerso, tentando no pensar nele, o que 
no era nada fcil. Na noite anterior, aquela mesma hora, estavam a jantar no Harrys 
Bar. Esforou-se ainda mais para no pensar no que acontecera mais tarde, quando 
foram para o hotel.
     Foi despertada dos seus devaneios quando o telefone comeou a tocar,  meia-
noite. Era Tatiana. Nessa manh tinha arranjado emprego. Ia comear a trabalhar no 
departamento de arte de uma revista de moda como coordenadora de fotografia, alm de 
se incumbir do que quer que lhe dessem para fazer. Estava feliz e cheia de entusiasmo, e 
depois de ter dado a notcia  me, finalmente, focou a sua ateno nesta.
     - E Londres, como  que estava?
     - Foi divertido - respondeu Sasha, tentando desviar o pensamento da recordao de 
Liam. - Estive com o Xavier e falei com uma srie de artistas.
     - E o amigo do Xavier?
     - Que amigo? - Sasha dava a impresso de estar em pnico quando respondeu  
filha. Pensei que ele queria que a me conhecesse um dos amigos, para ver os trabalhos 
dele. Ah, esse amigo!... - retrucou Sasha, parecendo ter ficado aliviada. - Estava ptimo. 
Assinmos um contrato.
     - Deve ser muito bom! A sorte que ele teve...
     -  realmente muito bom. Vamos organizar uma exposio em Nova Iorque no 
prximo ano com os trabalhos dele - acrescentou Sasha, esforando-se por falar de uma 
maneira sria e profissional.
     - Aposto que ficou todo satisfeito... - Os artistas passavam a vida a implorar-lhe que 
os apresentasse  me, o que a deixava bastante irritada. No queria ser usada como 
meio de chegar a Sasha. Xavier encarava a situao de um modo muito mais 
descontrado. - Quando  que a me est a pensar em vir a Nova Iorque? No durante as 
prximas semanas. Tenho muito trabalho aqui. Mas se quiseres, nada te impede de vir 
passar um fim-de-semana a Paris. - Sasha adorava ver os filhos e passar algum tempo 
com eles.
     - Detesto estar a quando chove. Estive a falar com uma amiga que chegou hoje. 
Disse-me que o tempo estava um horror.
     - No est grande coisa - admitiu Sasha -, mas em Londres estava sol.
     - Dizem que amanh vai nevar aqui. Acho que talvez v esquiar este fim-de-semana.
     - Tem cuidado na estrada. Quando  que comeas a trabalhar no novo emprego? - 
perguntou Sasha, bocejando; j era tarde para si, embora em Nova Iorque ainda s 
fossem dezoito horas.
     - Amanh - respondeu Tatiana num timbre de voz de quem parecia estar em xtase; 
por breves instantes, Sasha invejou-a. A filha tinha a vida toda pela frente e Sasha sentia-
se como se a sua estivesse prestes a chegar ao fim. Os seus melhores anos haviam 
ficado para trs. Os filhos estavam crescidos. Arthur falecera. 
     No tinha uma razo especial por que viver, com excepo do seu trabalho e um dia 
os netos que decerto teria, o que no a entusiasmava particularmente. Depois de se ter 
despedido da filha e deitado, sentiu-se como uma mulher j com muitos anos. No 
conseguiu impedir-se de pensar em Liam. Tinha sido muito gentil da sua parte enviar-lhe 
as rosas. E disparatado.  possvel, escrevera ele no carto que ela rasgou. Mas Sasha 
sabia que no.
     Nessa noite o seu sono foi bastante agitado, sempre a pensar nele, e s nove da 
manh j estava sentada  secretria. Eram apenas oito horas em Londres. Perguntou a 
si mesma o que  que Liam estaria a fazer e se tentaria telefonar-lhe. Era sbado, pelo 
que no precisava de ir trabalhar, mas no tinha mais nada para fazer. Recusara vrios 
convites para jantares de festa e almoos para esse fim-de-semana, mas o tempo estava 
horrvel e era demasiado deprimente ficar sozinha em casa. Preferia estar a trabalhar. Ele 
telefonou-lhe s quatro da tarde, mas Sasha no atendeu. 
     Pediu  jovem que trabalhava na galeria que lhe dissesse que estava fora e que 
voltasse a ligar na segunda-feira para falar com Bernard. Este, muito sensatamente, no 
trabalhava aos sbados. Tinha mulher e trs filhos, com quem passava os fins-de-semana 
numa casa que a famlia tinha na Normandia. Quando Arthur era vivo, ela tambm no 
costumava trabalhar aos fins-de-semana, mas agora o trabalho era tudo o que lhe restava 
para preencher os seus dias e se distrair. Desde a morte de Arthur os fins-de-semana 
eram um tormento.
     Fecharam a galeria s dezoito horas e Sasha voltou para casa s dezanove. Levava 
uma pilha de revistas de arte consigo. Ligou as luzes. Apesar de ser hora de jantar, no 
estava com fome. Voltou a lembrar a si mesma, enquanto fazia um ch, que no lhe 
servia de nada estar a pensar em Liam. No levava a lado nenhum, apenas fazia que se 
sentisse enlouquecer e tristssima.
      Quando deitava o ch na chvena, ouviu a campainha da porta. Continuou a tocar, 
o que significava que o porteiro sara. A correr, atravessou o ptio interior at ao enorme 
porto de bronze, sem fazer a mais pequena ideia de quem pudesse ser. No era 
costume que lhe batessem  porta  noite.
     Espreitou pelo ralo, mas no conseguiu ver ningum. Premiu o boto que abria um 
dos lados dos portes de bronze. Talvez fosse algum que tivesse deixado qualquer coisa 
do lado de fora. Quando puxou a porta para a abrir deparou com Liam, ensopado devido  
chuva que caa intensamente. Trazia um pequeno saco de viagem e vestia umas calas 
de ganga e uma camisola. 
     Calava umas botas velhas de vaqueiro. O cabelo louro e comprido escorria devido 
 chuva. Sasha ficou a olhar para ele sem dizer palavra, enquanto ele a fitava; por fim, 
afastou-se para o lado para que ele pudesse entrar, quanto mais no fosse para o ptio, 
abrigando-se da chuva.
     - Disseste-me que no te telefonasse de Londres - alegou ele, sorrindo -, portanto, 
no te liguei. Telefonei-te de Paris. S quando cheguei c  que liguei. Calculei que a esta 
hora j estarias em casa.
     - O que ests a fazer aqui, Liam? - perguntou ela, mostrando-se mais perturbada do 
que zangada. E, algures dentro de si, sentia-se assustada. Com muito pouco esforo da 
parte tanto de um como do outro, a situao podia sair dos eixos.
     - Vim para te ver. - Mais do que nunca, tinha o aspecto de uma criana grande. - 
Desde ontem que no tenho sido capaz de pensar seno em ti, portanto, deduzi que o 
melhor era vir ver-te. Senti muito a tua falta... - Sasha tambm sentira a falta dele, mas 
Liam era um risco que no podia correr.
     - As rosas eram lindssimas - disse ela cortesmente.
     - Eram?! Deitaste-as fora? - perguntou ele, mostrando-se decepcionado.
     - Claro que no. Esto no meu gabinete.  Ambos continuavam no alpendre 
abrigado do ptio. - Disse  minha secretria que foram enviadas por um novo artista.
     - E por que razo lhe deves explicaes? s uma mulher livre.
     - Ningum  livre, Liam. Ou, pelo menos, eu no sou. Tenho um negcio, filhos, 
empregados, clientes, responsabilidades, obrigaes e uma reputao a manter. No 
posso andar por a como uma colegial em busca de amor - disse Sasha mais para si 
prpria do que para ele.
     - E porque no? Para variar, talvez te fizesse bem se te visses livre de tantos 
preconceitos. - Aquilo era o mesmo que o filho lhe dissera, literalmente, quando a viu com 
o cabelo solto, em Londres. Mas, embora no soubesse explicar porqu, Liam fazia com 
que se sentisse relaxada, e no era isso que ela queria. No tencionava deitar tudo a 
perder, fazendo uma figura ridcula ao apaixonar-se por um rapaz num corpo de homem. - 
Permites que te leve a jantar a um stio qualquer?
      - Quando ele lhe fez o convite, Sasha pensou subitamente no jantar, que tanto a 
enfurecera, com Gonzague de Saint Mallory no Alain Ducasse, no ms anterior, quando o 
conde esperara que fosse para a cama com ele apenas para conseguir vender-lhe um 
quadro. Tinha sido deveras insultuoso, o que no era o caso nesse momento. 
Disparatado, talvez, mas sincero e nada ultrajante. Gonzague era muito menos homem, 
mesmo cavalheiro, do que aquele pintor que se autoproclamava orgulhosamente um 
artista louco.
     - E que tal se entrasses e eu preparasse qualquer coisa para o jantar? O tempo est 
horrvel para se sair - dizendo isto, Sasha seguiu  frente, indicando o caminho at sua 
casa, cuja porta deixara aberta. - Onde  que vais ficar? - perguntou com algum 
nervosismo. Se ele tivesse respondido que ficaria com ela, no teria permitido que 
transpusesse a porta da frente.
     - Numa residencial para artistas na Marais, prximo da Place ds Vosges. Fiquei l 
no Vero passado. - Ela fez um gesto de assentimento, indicando o caminho at  sala de 
estar. A manso era do sculo xvIII, tal como o mobilirio, mas as peas de arte eram 
todas modernas e contemporneas. De facto, era uma mistura de peas que poucos 
teriam conseguido reunir de maneira harmoniosa; o resultado final era elegante, alegre e 
acolhedor. Na sala sobressaa uma lareira enorme, que Sasha remodelara com mrmore 
branco. S havia uma luz em casa, a qual vinha de uma torchre alta em prata que ela 
comprara havia vrios anos em Veneza. 
     Viam-se castiais altos com velas por toda a sala, mas Sasha nunca se dava ao 
trabalho de as acender; era maada de mais. Atravessaram a sala, passando pela casa 
de jantar e seguindo para a cozinha, um espao amplo e acolhedor, com mobilirio rstico 
francs, uma mesa enorme em mrmore e quadros da autoria de artistas em princpio de 
carreira espalhados pelas paredes. As cores predominantes eram o amarelo e os tons de 
laranja, o que criava uma iluso de luz solar. 
     Por cima da mesa via-se um candelabro veneziano branco enorme; accionando um 
interruptor, Sasha ligou-o. A cozinha estava bem aquecida e era acolhedora. Quando 
Arthur era vivo, costumavam ficar ali sentados horas a fio. Serviam-se mais da cozinha do 
que da sala de estar. As cadeiras eram estofadas em pele de um castanho suave. - 
Sasha... esta cozinha  magnfica. Quem  que a decorou?
     - Eu - respondeu ela, sorrindo. -  um pouco eclctica. O resto da casa  mais 
formal. - Tal como a galeria e a ala em que o pai vivera.
      As antiguidades e os quadros a leo que ele coleccionara eram de grande requinte. 
No entanto, Sasha preferia a sua parte da casa. Tambm Liam adorou a decorao, 
sentindo-se como se estivesse em sua casa.
     Sasha ps a sopa a aquecer, oferecendo-se para lhe fazer uma omeleta, que ele 
aceitou, agradecido, admitindo que estava esfomeado. Desde o almoo que no comera 
nada.
     - Posso fazer massa, se quiseres - ofereceu-se Liam. Ela hesitou, mas acabou por 
concordar, com um acenar de cabea. No queria que ele ficasse durante muito tempo. 
Tencionava dar-lhe de comer, admoest-lo por lhe ter aparecido  porta sem avisar e em 
seguida recambi-lo para a residencial dos artistas, na Marais. O que fizesse depois s a 
ele diria respeito.
     No tencionava preocupar-se com isso, nem agora, nem nunca.
     Ambos se atarefaram a cozinhar, e meia hora depois estavam sentados ao lado um 
do outro  mesa da cozinha, a conversar, discutindo a obra de dois dos artistas que 
Sasha representava. Liam era de opinio que um deles era excelente e promissor, 
merecedor de todas as oportunidades que ela lhe desse, mas afirmou que o outro no 
tinha mrito nem talento, e acabaria por ser um embarao para ela. Segundo dizia, o seu 
estilo era imitativo, superficial, falso e pretensioso.
     - No o suporto!  um idiota chapado! - declarou, peremptrio; tinha opinies 
convictas sobre a maior parte dos assuntos.
     - Sim, de facto  - admitiu Sasha. Tambm no gostava do homem. - Mas a verdade 
 que os trabalhos dele se vendem que nem pezinhos quentes e os museus adoram-no.
     - S lhe lambem as botas porque a mulher tem dinheiro. - Mas ento olhou para ela 
com um ar envergonhado, rindo-se  socapa. - Imagino que as pessoas poderiam dizer a 
mesma coisa a meu respeito um dia, se juntssemos os trapinhos. - A maneira como ele 
disse isto f-la estremecer.
     - No te preocupes, porque no acabaremos juntos. Nunca virs a ter de lidar com 
esse problema - retorquiu Sasha com uma expresso de tristeza. - Alm disso, existe 
outra boa razo para no juntarmos os trapinhos, como tu dizes.
     - Quero mostrar-te uma coisa - continuou Liam, enquanto erguia uma perna 
ensopada na ganga das calas e descalava a bota de vaqueiro com algum esforo. 
Sasha no via nada digno de nota. Ele calava meias brancas de desporto em algodo, e 
apontou para a que ela olhava fixamente. Ests a ver isto? Meias! Calcei-as por ti. 
Comprei-as no aeroporto. - Com as botas caladas, no se podiam ver as meias, mas, 
como se fosse uma criana que tivesse feito algo para agradar  me, ele queria que 
Sasha soubesse que o fizera por ela, para a comprazer, e queria ser reconhecido por 
isso.
     - s um bom rapaz, Liam - disse Sasha, brincando com ele, apesar de se sentir 
tocada pela sua atitude. Era evidente que queria agradar-lhe, esforando-se por merecer 
a sua aprovao, mas precisava de muito mais do que umas meias para ser um homem 
adulto e com maturidade. 
     Tudo nele deixava transparecer a jovialidade de um artista louco. Como lhe dissera 
antes com tanto orgulho, no havia ningum que pudesse vir a control-lo. O pai tinha 
tentado, assim como os irmos, mas Liam fizera-lhes frente. Sasha nem sequer queria 
tentar. Desejava que fosse ele a aprender a controlar-se e que agisse como uma pessoa 
adulta. Apesar de a sua vinda a Paris ter sido um gesto encantador, a verdade  que se 
devia a um impulso irreflectido, alm de no respeitar o que ela lhe pedira - que se 
mantivesse afastado de si e esquecesse o momento de loucura que haviam vivido em 
Londres.
     - O que  que tencionavas fazer esta noite antes de eu chegar? - perguntou com ar 
interessado quando acabaram de jantar. Com o contributo dos dois haviam preparado 
uma refeio deliciosa. Ambos eram bons cozinheiros.
     - Nada. Ler e ir para a cama. No costumo sair muito.
     - E porque no? - insistiu Liam, olhando-a e franzindo o sobrolho.
     - Por razes bvias. Tristeza. Solido. Sinto-me acabrunhada quando vou a festas 
sozinha.  como se fosse uma espcie rara, sem parceiro, ou estivesse ali a mais! Os 
meus amigos lamentam a minha sorte, o que  demasiado deprimente. S saio quando  
absolutamente necessrio, e com clientes.
     - Tens de sair mais vezes - disse ele com objectividade, como se ela o tivesse 
contratado para consultor da sua vida social. - Precisas de algum divertimento na tua vida. 
No podes ficar aqui, sentada numa casa vazia, a ler e a ouvir a chuva que cai l fora. 
Meu Deus, se eu fizesse isso, estaria  beira do suicdio! 
     - Sasha no lhe disse que era precisamente o que por vezes sentia, que j tinha 
pensado nisso em mais de uma ocasio desde a morte de Arthur, e que a nica coisa que 
a impedira era ter noo do desgosto que daria aos filhos. No fosse essa razo, j o teria 
feito. Instintivamente, Liam pressentiu o que lhe ia na mente. Dada a maneira como vivia 
e a solido que impusera a si prpria, no a censurava. 
     Actualmente, tudo o que tinha na vida era a galeria e as visitas ocasionais em que 
estava com os filhos. - Amanh vou levar-te ao cinema. H alguma sala em Paris que 
passe filmes de samurais? - perguntou Liam, entusiasmado, enquanto a ajudava a 
levantar a mesa. Sasha riu-se da pergunta dele.
     - No fao a mnima ideia. Nunca vi nenhum filme de samurais... - Quanto mais no 
fosse, ele punha-a bem-disposta. Por vezes fazia-a rir como no se ria h muitos anos, ou 
talvez mesmo nunca.
     - Tens de ver, so espectaculares. E muito bons para a alma... Nem sequer  
preciso ler as legendas, s temos de ouvir a banda sonora. Eles esquartejam-se, ao 
mesmo tempo que emitem sons e gritos de guerra fantsticos.  uma experincia 
profundamente psicolgica. O Xavier adora estes filmes.
     - Nunca me falou disso.. - redarguiu ela, sorrindo.
     - Provavelmente sente-se embaraado. Considera-se um intelectual muito srio. Mas 
acontece que no h nada de intelectual nos filmes de samurais. Eu detesto os filmes que 
ele costuma ver, fazem-me sempre dormir.
     - A mim tambm - admitiu ela, rindo-se abertamente.
     - Ele adora filmes polacos e checos, que so horrveis e parecem nunca mais chegar 
ao fim. Eu recuso-me a ir com ele.
     - ptimo, sendo assim podes vir comigo. At te levo a um cinema chique! H quanto 
tempo  que no vais ver um filme? - Sasha ficou a pensar por momentos, chegando  
concluso de que a resposta era a mesma que em relao a tudo o mais que fazia parte 
da sua existncia.
     - No vou ao cinema desde que o Arthur morreu. Liam acenou sem fazer qualquer 
comentrio, olhando para o congelador. Ela tinha um frigorfico vertical de marca norte-
americana dos mais modernos, em que parte era congelador, modelos raros em Paris. 
Quando haviam remodelado a casa,
     Arthur insistira em que comprassem um desses frigorficos. Tambm tinham casas 
de banho espaosas e muito bonitas, ao estilo norte-americano, um luxo em Frana.
     - Tens sorvete? Sou viciado. - Sasha pensou que havia vcios muito piores. Como 
estar viciada nele, por exemplo... Liam nem sequer bebera vinho a acompanhar a 
refeio, apesar de ela lho ter oferecido.
     - Na verdade... - comeou Sasha a dizer, abrindo a porta do congelador e olhando 
para o interior. Alm de gelo, no havia mais nada. Ela nunca comia sorvete nem outras 
sobremesas. Tudo o que o frigorfico continha era o que a empregada lhe deixava para o 
jantar: uma salada, legumes, sopa caseira e, de vez em quando, umas carnes frias, queijo 
ou frango. No costumava comer muito. Liam, porm, comia como o homem jovem e 
saudvel que era. Um pouco embaraada, voltou-se para ele. - Nada de sorvete. 
     Lamento muito. - Nem sequer se recordava da ltima vez em que havia comido ou 
comprado sorvete. Isso  um grande problema... - retorquiu ele, mostrando-se 
extremamente preocupado.
     - Mas j sei para a prxima vez - disse ela, como se houvesse uma prxima vez, o 
que estava determinada a impossibilitar, mas ento ocorreu-lhe uma ideia. Havia muitos 
anos que no ia l, pelo menos desde que os filhos eram pequenos, mas agora passara a 
ter uma nova criana na sua vida. Tinha Liam. - Veste o casaco. Vamos sair. - 
acrescentou, com a expresso de quem tivera uma inspirao sbita, detendo-se a olhar 
para ele.
     - Onde  que vamos? - perguntou Liam ao v-la vestir a gabardina e pegar na mala. 
Ainda no despira o fato de cala e casaco preto e de corte austero que usara para ir 
trabalhar. Momentos depois j estavam na rua. Sasha dirigiu-se para a garagem, 
sentando-se ao volante do seu pequeno Renault. 
     Liam parecia um contorcionista; era difcil sentar-se ao lado dela. Tinha as pernas 
compridas de mais para um automvel to pequeno, mas para Sasha era 
perfeito.Conduziu at  lie Saint-Louis, onde encontrou lugar para estacionar o carro. Deu 
o brao a Liam quando comearam a caminhar protegidos por um guarda-chuva. Por fim 
pararam defronte de um estabelecimento antigo e num tom acastanhado no piso trreo de 
nome Berthillon, e Sasha, toda ufana, olhou para ele.
     -  aqui que se come o melhor sorvete em toda a cidade de Paris! - e comeou a 
explicar-lhe o sistema do nmero de bolas em cada cone, ou copo, e toda a variedade 
de sabores. Ele escolheu sorvete de pra, damasco e limo num cone de acar, alm de 
terem comprado trs embalagens de chocolate, baunilha e caf. Sasha pediu apenas uma 
bola de gelado de coco. 
     Durante o caminho at ao carro conversaram animadamente. Ela deu uma breve 
volta turstica para Liam apreciar a paisagem nocturna durante o percurso de volta a casa, 
embora ele tivesse dito que conhecia Paris, mas no as reas com as quais ela estava 
familiarizada; num impulso repentino, pararam para tomar caf no Caf de Flore. Era um 
dos estabelecimentos mais antigos de Paris. De regresso ao carro passaram pelo Deux 
Magots e quando voltaram a entrar em casa j eram vinte e duas horas. Liam decidiu 
experimentar as outras variedades de sorvete que tinham comprado. 
     Desta vez sentaram-se na sala de estar e Sasha acendeu as velas. No fim de contas 
acabara por ser um sero deveras agradvel. O gnero de sero que no era possvel ter 
quando se vivia s. Se tivesse ido  Berthillon sozinha ter-se-ia sentido deprimida e no 
teria justificao para andar a dar voltas de automvel por Paris. Tomar caf sozinha no 
Caf de Flore ter-lhe-ia parecido igualmente pattico. Mas com Liam tudo isso resultara e 
ambos haviam passado uns bons momentos.
     Foi a conversa e a troca de pontos de vista sobre poltica que fizeram com que 
resultasse, as discusses sobre arte, a troca de opinies, o riso ao ouvir as histrias e 
piadas que ele contou, a sua exuberncia irreprimvel e o entusiasmo que mostrava pela 
vida que tornaram essas horas divertidas para os dois.  possvel que ele se tivesse 
comportado de maneira juvenil, mas era inegavelmente inteligente, pelo que era divertido 
estar na sua companhia. Sasha comeara a perguntar-se
     se poderiam vir a ser amigos. J era uma da madrugada quando pararam de 
conversar e ela comeou a bocejar.
     Liam perguntou-lhe se podia telefonar; queria ligar para a residencial. Tivera 
inteno de ligar do aeroporto, mas acabara por no o fazer. Voltou  sala alguns minutos 
depois com uma expresso de acanhamento.
     - Foi uma estupidez - disse ele, embaraado. Nem sequer a tinha beijado nessa 
noite, e ela estava-lhe grata por isso. Se tivesse tentado, Sasha ter-lhe-ia dito que se 
fosse embora. Prometera-o a si mesma, antes que as coisas voltassem a sair dos eixos.
     - O que  que aconteceu? - perguntou, continuando a apagar as velas. Ele ir-se-ia 
embora dentro em pouco. A noite passara-se bem, sem qualquer problema. S teria de 
pr para trs das costas a atraco irresistvel que sentia por ele, e tudo seria perfeito.
     - Devia ter telefonado mais cedo. J esto cheios. Talvez consiga arranjar quarto 
num hotel qualquer - disse ele, fitando-a com uma expresso cheia de interrogaes que 
no verbalizava e, subitamente, mostrou-se preocupado.
     - Ests a perguntar-me se podes ficar aqui? - indagou ela sem rodeios, perguntando 
a si prpria se aquilo teria sido um estratagema ou se a residencial dos artistas na Marais 
estaria efectivamente cheia. Mas a verdade  que ele parecia genuinamente 
constrangido. Liam nunca fora organizado. Tinha-lhe contado em Londres que Beth  que 
costumava tratar de tudo para ele desde os seus dezanove anos e at ter sado de casa. 
Inicialmente tivera grandes dificuldades sem ela, mas estava a aprender aos poucos.
     - No tencionava faz-lo - respondeu Liam com sinceridade. - No queria deixar-te 
numa situao embaraosa. Posso dormir no aeroporto, se for preciso, ou na gare dos 
caminhos-de-ferro. No  nada que j no tenha feito, no tem nada de especial.
     - Isso  um disparate! - retorquiu Sasha, mostrando-se prtica, e respirou fundo. - 
Podes ficar no quarto do Xavier. Mas, Liam, quero que entendas que no vou dormir 
contigo. No quero transformar a minha vida numa grande trapalhada, nem to-pouco a 
tua. Se continuarmos a agir como ontem, as coisas ficaro cada vez mais confusas. - 
Liam no se lembrava de na noite anterior algum deles ter estado confuso, mas no disse 
nada, limitando-se a um acenar em sinal de aquiescncia.
     - Porto-me bem, prometo. - Sabia que aquilo tambm devia ser difcil para ela. Tinha 
vivido naquela casa com o marido e os filhos. A casa estava associada a demasiadas 
recordaes, ao contrrio do quarto de hotel em Londres. No queria perturb-la, ou 
assust-la, sabendo que seria isso que aconteceria caso tentasse ter algum contacto 
amoroso com ela ali.
     Respeitosamente, seguiu-a enquanto ela se dirigia ao quarto de Xavier, que se 
situava no andar superior. O quarto do filho era mesmo por cima do seu, um quarto 
acolhedor e prprio de um jovem, com uma decorao simples em tons de azul-marinho e 
um quadro que ela lhe oferecera como prenda de Natal havia alguns anos; reproduzia 
uma mulher com um garoto. Na altura, ele adorara o quadro, que continuava pendurado 
na parede para a recordar da infncia do filho. 
     O quarto tinha janelas ovais que davam para o jardim. Liam sentia-se deleitado por 
saber que estava to perto dela quando Sasha lhe deu um beijo de boas-noites nas faces, 
mas conseguiu resistir. No tinha pressa. O que sentia por ela podia esperar, se tal fosse 
impossvel de evitar. Nessa noite ficou deitado na cama a pensar nela, tal como ela 
pensava nele. Sentia uma vontade enorme de descer as escadas e ir ter com ela, mas 
no o fez. S voltou a v-la quando se encontraram na cozinha na manh seguinte.
     Sasha preparou-lhe um pequeno-almoo de ovos e toucinho fumado, e enquanto 
comiam discutiram o que iriam fazer. Dado que ele acatara de bom grado dormir no 
quarto de Xavier sem levantar objeces e sem ter pisado o risco, Sasha deixara de se 
sentir ansiosa para que partisse. O tempo estava pardacento, mas melhor do que no dia 
anterior, o que os levou a decidir dar um passeio ao longo do Sena.
      Ficaram a ver os bateaux-mouches a deslizar no rio e ela mostrou-lhe certos pontos 
da cidade que para ele eram novidade. Liam adquiriu um livro de arte que ofereceu a 
Sasha. Compraram crepes a um vendedor ambulante e passaram pelas lojas que 
vendiam animais de estimao, rindo-se ao verem as galinhas. 
     Liam queria entrar, comeando a falar de um co que tivera em garoto e que 
adorara. Tinha morrido no mesmo ano em que a me falecera. Durante o resto do tempo, 
f-la rir com as suas piadas e histrias engraadas. Ela fez-lhe perguntas sobre os filhos e 
tambm falou dos seus.
      Foi uma dessas tardes perfeitas em que nada era forado, com a partilha de 
amizade e confidncias, de amor que no exprimiam, mas que era profundamente sentido 
por ambos, por muito que Sasha lhe resistisse. Ele dera-lhe aquilo de que ela carecera ao 
longo dos ltimos quinze meses: camaradagem e algum com quem falar que no tivesse 
de partilhar com outras pessoas. Liam preenchia a sua solido.
     Encontravam-se defronte da ltima loja de animais do cais quando ele reparou num 
cocker spaniel. O lojista disse-lhes que era o mais pequeno da ninhada e Sasha observou 
que o cachorrinho tinha os olhos mais tristes que alguma vez vira. Devias arranjar um co 
- afirmou Liam, confiante no que dizia. - Fazia-te companhia. - Ele prprio pensara fazer o 
mesmo, mas era complicado, por viver em Inglaterra.
     - Viajo muito. Teria de o deixar aqui, ou ento seria forada a lev-lo comigo sempre 
que viajo de avio, o que no me parece muito confortvel para um animal.
     - Mas tu fazes isso. Por que motivo um co no poderia faz-lo?
     - No tenho um co desde que os meus filhos eram pequenos. Um animal de 
estimao d muito trabalho - replicou, mostrando-se prtica. - Faria chichi por toda a 
galeria e o Bernard matar-me-ia, tal como a Karen em Nova Iorque.
     - No podes permitir que sejam os outros a ditar as tuas decises. - Mas era o que 
acontecia. Sasha estava a fazer a mesma coisa em relao a ele. Receava em demasia o 
que os outros pudessem pensar caso se envolvessem. Alm do mais, ele era demasiado 
irreverente, nem sempre se comportando do modo mais apropriado.
     Tiraram o animal da jaula, uma cachorrinha que adquiriu imediatamente nova vida 
quando Liam comeou a brincar com ela. Sasha mantinha-se silenciosa a observar 
enquanto a cadelinha lhe lambia a cara, o que ele no tentava impedir. Tinha uma 
pelagem branca e preta, um focinho bonito, pernas negras e patas brancas. Liam disse-
lhe que o co que tivera em garoto tambm era um cocker spaniel.
     - Talvez devesses compr-la e lev-la para casa contigo
     - sugeriu Sasha, enamorado da cadelinha, mostrando-se entristecido quando voltou 
a met-la dentro da jaula. Quando saram da loja, a cachorrinha comeou a ladrar e a 
ganir. Liam olhou para trs, soprou-lhe um beijo e acenou-lhe.
     - No poderia lev-la para Inglaterra - explicou a Sasha.
     - Os britnicos so demasiado complicados. Abrandaram um pouco as leis relativas 
ao perodo de quarentena, mas  preciso tanta papelada que a cadela passaria a ter os 
requisitos necessrios para poder fazer uma viagem espacial. Alm do mais... - 
interrompeu-se, esboando um sorriso rasgado e com uma expresso jovial - no sou 
suficientemente responsvel para ter um co. Quando estou a pintar esqueo-me de tudo. 
Precisaria de voltar a casar para poder ter outro co.
     - A est uma admisso e pras! - Aquilo confirmava o que Sasha receava quanto  
maneira de ser dele, mas desta feita isso no lhe pareceu assustador. Era apenas o 
reconhecimento de uma realidade. Liam tinha bem noo de quem era e da sua maneira 
de ser. Tal como ela. Era um rapaz encantador e irresponsvel.
     Voltaram  Berthillon, e nessa noite Sasha levou-o ao aeroporto. Ficaram sentados, 
e ele fitou-a demoradamente antes de sair do automvel demasiado pequeno para o seu 
tamanho.
     - Passei um fim-de-semana maravilhoso na tua companhia - disse Liam em voz 
baixa. No tinham feito amor; no haviam feito nada de irracional. Tinham-se limitado a 
sair juntos, comeram sorvete, conversaram, deram longos passeios, compraram um livro 
de arte, beberam caf em antigos estabelecimentos e brincaram com um co. Era tudo 
aquilo de que ela sentira falta, ainda que fosse diferente do que possura. Sasha e Arthur 
haviam tido uma existncia em comum inteiramente adulta, uma parceria de vida 
responsvel, em que se ocupavam de coisas srias e em que ambos eram iguais. Quanto 
a Liam, havia qualquer coisa de maravilhoso, divertido e jovial na sua personalidade.
      Era meio homem, meio rapaz, candidato a amante, caso ela lho permitisse, e, sob 
certos aspectos, devido  sua personalidade irreverente, era quase como um filho. Eu 
tambm passei momentos muito agradveis - reconheceu Sasha, sorrindo. - Obrigada por 
me teres feito uma surpresa. Se me tivesses perguntado, nunca teria permitido que 
viesses.
     - Foi precisamente por isso que no perguntei - retorquiu, inclinando-se para ela e 
beijando-a. Sasha sentia-se grata por ele ter respeitado os seus desejos at esse 
momento. Quando Liam a beijou, sentiu de novo tudo o que sentira por ele em Londres e 
a que conseguira resistir durante todo o fim-de-semana. Ter-lhe-ia sido impossvel agir 
desse modo se ele a tivesse beijado antes. E impossvel tambm para ele. Beijaram-se 
durante muito tempo e depois ficaram sentados a olhar um para o outro. Era impossvel 
que houvesse mais alguma coisa entre os dois. Sasha desejou que a situao fosse 
diferente, embora soubesse que tal no era exequvel. 
     Desta feita no lhe deu a conhecer o que pensava. No era necessrio. Ele sabia o 
que lhe ia no pensamento. - Quero voltar para poder ver-te - disse Liam antes de sair do 
carro. Permites que eu venha, Sasha?
     - No sei, veremos. Vou ter de pensar no assunto.  possvel que estejamos a tentar 
o destino, se repetirmos esta experincia, ou talvez estejamos a enganar-nos a ns 
prprios, acreditando que nos poderamos limitar a uma relao de amizade. s uma 
pessoa a quem  extremamente difcil resistir. Liam beijou-a de novo, provando o que ela 
acabara de dizer. Sasha mal conseguia respirar quando ele parou de a beijar, 
apercebendo-se de que o desejava ardentemente. 
     S queria poder lev-lo para casa consigo. Mas no cedeu  tentao. Sabia que 
no o podia fazer. Saiu do automvel, rindo-se ao ver a dificuldade com que ele estendia 
as pernas para poder sair.
     - Tu s a minha representante, por amor de Deus! Com o dinheiro que vais ganhar  
minha custa, no podes comprar um carro minimamente decente? Talvez eu devesse dar-
te um adiantamento... - Sasha riu-se dele, acompanhando-o at ao interior do aeroporto. 
Liam calava as suas botas de vaqueiro e vestia calas de ganga, uma camisola de l 
grossa, daquelas que os pescadores usavam habitualmente, que comprara na Irlanda, e 
um bon de basebol que Xavier lhe enviara dos Estados Unidos. Era um homem alto, 
jovem e com uma aparncia mscula. Tudo nele era atractivo, at mesmo
     - e muito em especial - a faceta de juvenilidade que tanto receio inspirava a Sasha.
     Seguiram em silncio at  porta de embarque. Liam foi o ltimo passageiro a entrar 
a bordo. Parte dela desejava que ele no partisse, que ficasse consigo, mas outra parte 
queria que ele se fosse embora e nunca mais voltasse a Paris para a ver. As duas partes 
estavam em conflito permanente.
     - Vou ter saudades tuas - disse ele em voz baixa.
     - Tambm vou sentir a tua falta - confessou Sasha com toda a sinceridade. Falava-
lhe sempre com a maior das franquezas. Tinha chegado  concluso de que podia dizer-
lhe tudo o que lhe viesse ao pensamento.
     Ele beijou-a, um beijo intenso e demorado, quando j se preparavam para fechar a 
porta do avio.
     - Vai... se no perdes o voo... - disse ela num murmrio. Liam comeou a correr, e, 
virando-se uma ltima vez para trs, esboou um sorriso rasgado e acenou-lhe com a 
mo; s depois  que entrou no avio. Sasha no fazia ideia de quando voltaria a v-lo.
     Enquanto se sentava no seu lugar, Liam pensava nela e na extraordinria mescla de 
facetas contraditrias que formavam a sua maneira de ser.
      Dura e terna, vulnervel e forte. Por vezes ficava triste e sria, quando falava dos 
pais ou do falecido marido, mas depois, subitamente, mostrava-se feliz e divertida, e at 
mesmo jovial, quando falava dos seus artistas, dos filhos e das suas perspectivas de vida, 
alm de ser uma pessoa nada pretensiosa. 
     Complicada nas suas ideias rgidas sobre o modo como sentia que tinha de se 
comportar em sociedade e como queria ser vista pelos outros; uma grande dama e 
penosamente senhoril num minuto, para logo a seguir se mostrar caprichosa e maliciosa. 
Liam sabia atravs de Xavier que ela era uma me maravilhosa, e ele prprio tinha a 
sensao de que Sasha seria uma amiga sem igual. 
     Responsvel, consciente, capaz e brilhante na sua actividade profissional, mas, 
simultaneamente, tambm uma mulher frgil e solitria, que precisava de um homem que 
a protegesse e amasse. E por muito preparada que estivesse para resistir s investidas 
dele, Liam queria ser esse homem. Ainda que para o conseguir fosse preciso muito 
tempo. 
     
                                        CAPTULO 7
     
     Sasha estava pensativa e em paz de esprito no seu gabinete no dia seguinte. Ficou 
sentada  secretria durante muito tempo, a olhar fixamente para uma folha de papel sem 
a ver. Pensava em Liam, como se haviam divertido juntos durante o fim-de-semana e na 
estupidez da sua parte por se ter permitido estar com ele. Caso continuasse a agir dessa 
forma, algum acabaria por sair magoado da situao, do que no tinha a menor dvida. 
E, provavelmente, essa pessoa seria ela prpria. Ou talvez ele. No entanto, era ela quem 
tinha mais a perder.Olhava pela janela, a meditar em tudo aquilo, quando Eugnie entrou 
no seu gabinete.
     - Sasha... - disse com alguma hesitao -, chegou uma encomenda para si. No sei 
onde quer que a ponha. Sasha presumiu que seriam quadros enviados por algum dos 
seus pintores. Os que residiam na Europa enviavam os trabalhos para a galeria de Paris, 
e era esta que os reencaminhava para Nova Iorque, se estivessem destinados a 
exposies nessa cidade.
     - Ponha-a junto dos outros quadros que chegaram a semana passada - replicou 
Sasha, mostrando uma expresso alheada. - Vamos despach-los todos para Nova 
Iorque no dia um de Fevereiro. Tenha cuidado ao conferir a guia de remessa, para se 
certificar de que no enviamos nenhum dos quadros que sejam para expor aqui.
     - No me parece que v querer despachar isto... - retorquiu Eugnie, mostrando-se 
acanhada. De vez em quando, Sasha atemorizava-a, sobretudo ultimamente. Assim, no 
estava bem segura de como ela reagiria quando visse aquela encomenda. Por amor de 
Deus, Eugnie, pare com esse mistrio todo! Que encomenda  essa?
     - Quer que a traga?
     - No se for preciso desencaixot-la. No quero lixo no meu gabinete. Trate disso no 
armazm. Mais tarde vou l ver o que . - Eugnie no se mexeu, mostrando uma 
expresso confusa, enquanto Sasha se irritava cada vez mais com ela. - Muito bem, traga 
a encomenda para aqui. Podemos limpar o lixo mais tarde. - Era bvio que Eugnie 
considerava que tinha de levar a encomenda a Sasha pessoalmente, a qual j comeara 
a desconfiar de que estava prestes a ver-se a braos com um problema bicudo.
     A secretria apressou-se a desaparecer, voltando momentos depois trazendo 
qualquer coisa nos braos; ento virou-se para Sasha, que a fitava com uma expresso 
de espanto: era a cachorrinha cocker spaniel com que ela e Liam tinham brincado na loja 
de animais de estimao do cais no dia anterior. A cadelita parecia aterrorizada, e 
Eugnie aparentava um ar de pnico to grande como o animal. No fazia a mnima ideia 
sobre qual seria a reaco de Sasha. Mas, para seu grande alvio, esta limitou-se a ficar 
imvel e muito espantada, e, a pouco e pouco, o esboo de um sorriso comeou a 
desenhar-se no seu rosto.
     - Oh, meu Deus!... O que  que eu vou fazer com isso?
     - Sasha parecia ter ficado avassalada.
     - O homem da loja de animais disse que a Sasha haveria de saber quem  que lho 
enviou - adiantou Eugnie com alguma hesitao.
     - Sim, sei. Foi o Liam AUison, o nosso artista mais recente. - No valia a pena tentar 
ocultar aquilo de Eugnie. Mais cedo ou mais tarde, pelo menos isso viria a lume. Porm, 
com um pouco de sorte, o motivo por que ele lhe oferecera tal presente continuaria em 
segredo. Eugnie aproximou-se dela, lamber a face de Sasha com tanta energia como 
lambera a de Liam no dia anterior. - Oh, meu Deus!... No consigo acreditar nisto!
      - Pegou na cachorrinha por instantes e depois pousou-a delicadamente. Estava no 
cho ainda no havia um minuto quando se agachou junto de Sasha, urinando em cima 
da carpete. No entanto o estrago foi pequeno. - Ele  doido! - exclamou Sasha, sorrindo 
ainda mais. Eugnie sentiu-se aliviada ao ver que ela no parecia muito incomodada por 
causa da carpete.
     -  to amorosa... - disse Eugnie, rindo-se quando a cachorrinha comeou a farejar 
a moblia, correndo de um lado para o outro. De tantos em tantos segundos voltava para 
junto de Sasha. Ainda corria por todo o lado quando esta se concentrou nas quatro 
pernas pretas e nas patas brancas. Como  que lhe vai chamar? - perguntou Eugnie.
     Sasha hesitou por momentos, mas depois esboou um sorriso de orelha a orelha.
     - Acho que me lembrei de um nome apropriado. Vou chamar-lhe Pegas. - Com as 
suas quatro patas brancas, parecia que usava pegas, o que lhe lembrava uma certa 
questo relacionada com Liam. - No lhe trouxeram comida? No fazia a mais pequena 
ideia sobre o que dar de comer a um co.
     - O homem disse que trouxe tudo o que era preciso, incluindo um saco de viagem 
para quando a levar para Nova Iorque. At tem uma capa cor-de-rosa, uma trela e uma 
coleira condizer! - Liam pensara em tudo. Sasha sabia at que ponto ele tinha 
dificuldades de dinheiro, mas, na esperana do que viria a ganhar atravs da Suvery, 
havia esbanjado  grande. A cadelinha no devia ter sido nada barata, e os acessrios, 
alm da comida, tambm deviam ter custado bom dinheiro. 
     Adorava a generosidade e simpatia dele. Enviar-lhe a cachorrinha era um gesto 
adorvel, e Sasha sabia que ele o fizera com a melhor das intenes. Apesar da sua 
irresponsabilidade, era uma pessoa de bom corao. Assim que Eugnie saiu do 
gabinete, Sasha ligou-lhe para o estdio atravs do telemvel.
     - No consigo acreditar que tenhas feito isto. s completamente doido! Alm do 
mais, gastaste uma fortuna, Liam. O que  que eu vou fazer com um co?
     - Precisas de quem te faa companhia. Pelo menos enquanto eu estou em 
Londres... Ela est bem? - perguntou, ignorando o comentrio sobre quanto gastara. Era 
um assunto que no lhe dizia respeito. Queria estrag-la com mimos. Na sua perspectiva, 
ela merecia aquilo e muito mais.
     - Ela  maravilhosa... Liam,  a coisa mais terna que algum fez por mim.
     - Fico satisfeito - retrucou ele, mostrando-se agradado. Sentira-se um pouco 
apreensivo ao pensar que ela talvez ficasse irritada, pelo que se sentiu verdadeiramente 
aliviado ao verificar que no era esse o caso. Sasha continuava em estado de choque. - 
Que nome lhe vais pr?
     - Pegas - respondeu ela, deleitada. Liam riu-se s gargalhadas.
     -  um nome perfeito. Agora j no vou precisar de calar as minhas. Ela pode usar 
as dela. - Recordou-se das quatro patas iguais de um branco de neve.
     - s uma pessoa completamente disparatada. E isto  a coisa mais louca que 
algum fez por mim em toda a minha vida.
     - ptimo. Necessitas de um pouco de confuso na tua vida. Ests a precisar de 
algumas surpresas agradveis e de um pouco menos de controlo. - Enquanto Liam dizia 
isto, Pegas ergueu o focinho para a sua nova dona, como se estivesse interessada na 
conversa, agachou-se e voltou a fazer chichi na carpete. 
     Mas, para Sasha, era bvio que deixara de ter qualquer controlo: nem sobre ele, 
sobre si prpria e, de certeza absoluta, sobre o co. A cachorrinha tinha apenas oito 
semanas e s da a alguns meses estaria ensinada. Sasha ia ter de enrolar as carpetes 
em sua casa.
     - Foi uma surpresa maravilhosa, Liam. Ainda estou um pouco atordoada. - A 
verdade  que no sabia bem como reagir, tal como no sabia qual a razo que o levara a 
fazer aquilo. No obstante, dava muito apreo ao gesto dele.
     - Estava a pensar que talvez pudesse ir a para a ver no prximo fim-de-semana. 
No comeces a ficar enervada. No vou para te ver, s vou para ver a cadelinha.
     Sasha hesitou e do seu lado da linha fez-se um longo silncio. Liam no enviara a 
cachorrinha para exercer presso sobre ela, tinha sido uma manifestao de amor. Agora 
que havia ido a Paris para a visitar, tivera oportunidade de se aperceber de como Sasha 
levava uma vida realmente solitria. O silncio e a solido que reinavam em sua casa 
fizeram-no sentir-se triste por ela. Pensou que a cadelita poderia fazer-lhe companhia. E 
se ela permitisse, ele tambm queria ajud-la.
     - No sei - replicou Sasha com sinceridade. - Liam, estou assustada. Se nos 
envolvermos, ser uma loucura. Estou certa de que ambos acabaramos por lamentar o 
sucedido. Sobretudo ela, se Liam viesse a encontrar outra mulher com uma idade mais 
aproximada da sua, depois de ela se ter apaixonado perdidamente por ele. No lhe era 
difcil imagin-lo com uma mulher de vinte e cinco ou trinta anos, em vez de uma da sua 
idade. Uma relao entre os dois, do ponto de vista de Sasha, s poderia ter um final 
desastroso.
     - As coisas no precisam de ser assim, Sasha, pra de ser to obsessiva em relao 
 minha idade!
     - No  s isso,  tudo o mais. Eu represento-te profissionalmente. Se as coisas 
derem para o torto, a nossa relao profissional poder ficar irremediavelmente 
prejudicada. Alm disso, tu no s divorciado. Nada te impede de voltares para a Beth em 
qualquer altura. E, depois, sou nove anos mais velha do que tu; deves arranjar uma 
mulher com metade da minha idade. s um artista louco, enquanto a minha vida  to 
convencional e aborrecida que daria contigo em doido. - Nos ltimos tempos, at ela 
prpria se sentia entediada com a sua existncia. No entanto, no poderia lev-lo a certos 
lugares e eventos sem sentir que estava a ser ridcula, e no fazia a mnima ideia de 
como ele se comportaria, mas no partilhou estes pensamentos com ele. - No h 
absolutamente nada nesta situao que faa sentido.
     - Mas achas que o amor tem de ter sempre uma razo de ser? - contraps Liam, 
parecendo desiludido. Sasha apresentara a sua lista de preocupaes como se fossem 
alneas num contrato que se recusasse a assinar. Mas era assim que ela conduzia a sua 
existncia e o modo como a via.
     - Devia fazer sentido. As relaes j so difceis sem que se pegue em duas 
pessoas diametralmente opostas como ns, tentando fazer que a relao resulte. 
     No me parece que isso seja possvel no nosso caso. Alm do mais, isto no  
amor,  atraco fsica. Trata-se de uma espcie de qumica insana que faz com que eu 
perca o juzo sempre que tu ests por perto.
     - Sim, mas no perdeste o juzo durante o ltimo fim-de-semana - recordou-lhe Liam. 
- Quem me dera que tivesses perdido... muito bem - acrescentou, persuasivo.
     - E durante quanto tempo  que te parece que essa situao duraria?
     - No muito, espero eu - retorquiu, rindo-se, um riso que ela adorou ouvir. Sasha 
sorria enquanto escutava o que ele dizia e observava a cachorrinha. - Quando voltei para 
Londres tive de tomar duches frios durante toda a noite.
     -  precisamente a que quero chegar. Se continuarmos a andar juntos, um de ns 
vai perder a cabea e fazer qualquer coisa de que, mais tarde, ambos nos 
arrependeremos. 
     A atraco que sentia por ele era como chegar a chama de um fsforo a dinamite. 
Ambos o haviam demonstrado na sexta-feira anterior, depois do jantar no Harrys Bar.
     - Sendo assim, o que  que fazemos agora? - perguntou Liam numa voz de 
desnimo. No estava a conseguir convenc-la; Sasha era to teimosa quanto ele 
prprio. Passei a ser a tua muito respeitvel negociante de arte. E tu comeas a portar-te 
como um menino bonito.
     - Detesto que as pessoas me digam o que fazer! No sou nenhuma criana! - 
ripostou Liam, dando a impresso de que estava irritado.
     - H ocasies em que as pessoas no tm outra alternativa que no seja fazer o que 
est certo - acrescentou Sasha sensatamente. - Claro que  muito mais divertido fazer o 
que nos apetece, mas quando procedemos desse modo, em geral acabamos por nos 
magoar. - Sasha teve a delicadeza de no lhe recordar a escorregadela com a cunhada, 
que lhe custara o seu casamento.
     - Quero ver-te, Sasha - disse ele num tom insistente.
     - Quero ir a Paris no prximo fim-de-semana. - Depois, como se a ideia tivesse 
acabado de lhe ocorrer, acrescentou:
     Acho que devia ver a cadela. Ao fim e ao cabo, sou o pai dela.
     - No, no s - ripostou Sasha obstinadamente. - Ela  como uma criana rf, e vai 
ter de crescer desse modo, quer goste, quer no. Se quiseres, podes ser o padrinho. Est 
bem, est bem, ela passa a ser a minha afilhada canina. Mas este fim-de-semana vou a 
Paris para vos ver, as duas.
     - No vou deixar que entres em minha casa! - retorquiu Sasha com determinao.
     - E porque no? Que mais  que tens para fazer, alm de ficares sozinha numa casa 
sombria e matares-te a trabalhar? Por amor de Deus, Sasha, ao menos uma vez na vida, 
permite a ti prpria viver! Mereces isso. Tal como eu.
     - No, no mereces, assim como eu tambm no mereo, se a nossa inteno for 
fazer figuras ridculas, pelo menos no que me diz respeito. Tu ests a querer satisfazer os 
teus desejos, mas no permitirei que o faas  minha custa. - Sasha falava muito a srio. 
Para ela, os riscos eram demasiado elevados; Liam no tinha nada a perder, com 
excepo do seu corao.
     - Isso no  justo - contraps ele, parecendo ter ficado magoado.
     - , sim.  agir com honestidade. Eu sou quase dez anos mais velha do que tu e tu 
queres portar-te como muito bem te apetecer. No pretendes ser respeitvel e 
conservador, no tens a mnima inteno de te adaptares ao meu modo de vida. 
Tencionas fazer disto uma brincadeira, divertires-te um bocado e agir como um pintor 
louco. Se fizesses isso na minha vida, Liam, porias o meu mundo de pernas para o ar, e 
no estou disposta a permiti-lo.
     - Comportei-me na perfeio quando fomos ao Harrys Bar - contraps ele, 
mostrando-se mal-humorado e acrescentando de m vontade: - Excepto em relao  
camisa e s meias. Se eu soubesse que isso era assim to importante para ti, teria 
comprado uma camisa nova e um par de pegas,
     j que isso te incomoda tanto; por amor de Deus! - Liam j tinha comeado a gritar.
     - Isto no tem nada a ver com a camisa nem com as meias, mas contigo e com a 
maneira como queres viver. No te cansas de me dizer que ningum te controla, que 
ningum pode dizer-te o que fazer. Pretendes ser um esprito livre, Liam, coisa a que, 
alis, tens todo o direito, s que no podes fazer isso comigo, no se enquadra no meu 
estilo de vida. Tanto tu como eu sabemos que, quando s motivado pelo teu estado de 
esprito, fazes o que te passa pela cabea. Pensas que  divertido. 
     Pois bem, eu no. E quer queiras quer no, sou velha de mais para ti. Por amor de 
Deus, tu s o melhor amigo do meu filho! Ele tem vinte e cinco anos, eu tenho quarenta e 
oito. 
     - O comportamento dele e as regras que estabelecera para si mesmo eram muito 
mais prprios do mundo do filho do que do seu, alm de que Liam gostava que as coisas 
fossem assim. Em nome da arte e da independncia, resistira a tornar-se numa pessoa 
adulta e madura durante toda a vida.
     - Tenho trinta e nove anos - retrucou Liam num tom de splica -, estou mais prximo 
da tua idade do que da dele.
     - Mas recusas-te a portar-te de acordo com a tua idade, e  a que est o problema. 
Queres fingir que tens vinte anos. Se eu quisesse outro filho, trataria de adoptar uma 
criana. No  esse o tipo de relao que quero manter contigo. Em resposta ao que ele 
fizera, Sasha tambm elevara o seu timbre de voz. Que espcie de relao queres ter 
comigo? Eu pensava que na sexta-feira as coisas tinham resultado muito bem entre ns 
dois. E durante este fim-de-semana tambm no nos samos nada mal. Gosto muito de 
falar contigo, para alm de tudo o resto.
     - Tambm eu de falar contigo, mas tu ests-me interdito, no me posso dar ao luxo 
de te ter.Tu s de certeza absoluta, e sem a mais pequena dvida, a mulher mais teimosa 
que conheo. Quer te agrade quer no, estarei a na sexta-feira. Podemos discutir o 
assunto durante o fim-de-semana.
     - No quero ver-te!... - ripostou Sasha, em pnico. Os sentimentos que ele lhe 
despertava deixavam-na sem domnio sobre as suas prprias emoes.
     - Mas eu quero ver-te. Pelo menos uma ltima vez, para debater este assunto 
contigo cara a cara. No sou capaz de discutir este tipo de questes pelo telefone.
     - No h nada a discutir. Esta situao  impossvel, Liam. Temos de aceitar a 
realidade, no nos resta outra alternativa.
     - Quem est a fazer com que seja impossvel s tu. S ser impossvel se tu 
quiseres - retorquiu ele num tom de voz que o termo frustrao no era suficiente para 
descrever.
     - Muito bem, digamos que quero que seja impossvel.
     -  a coisa mais idiota que j ouvi!
     - Por vezes, fazer o que est certo parece isso mesmo. Mas, neste caso,  
precisamente o que vai acontecer. - No acrescentou que se ele tivesse agido de maneira 
correcta com Becky continuaria a ter a mulher e os filhos junto de si. Em vez disso, optara 
por satisfazer os seus desejos. Era uma atitude que tentava repetir com ela.
     - Telefono-te amanh - disse Liam, dando a impresso de estar bastante deprimido. 
Se possvel, ela assumira uma atitude ainda mais firme na resoluo de no se envolver 
com ele, a despeito da cadelinha, um presente encantador, mas que, apesar disso, no 
serviu para a convencer de que ele era o homem certo para si.
     - No me telefones, a menos que seja para falar de questes relacionadas com a 
galeria. No quero voltar a discutir este assunto contigo. S estamos a andar s voltas, a 
enlouquecermo-nos um do outro. - Mas a verdade  que ele a enlouquecia ainda mais 
quando estava junto de si. Nunca se sentira fisicamente to atrada por nenhum outro 
homem em toda a sua vida. Era-lhe difcil compreender a situao, e ainda mais difcil 
resistir-lhe.
     - Telefono-te esta semana - insistiu ele, embora no o tivesse feito, o que para 
Sasha foi um alvio. Custava-lhe agir daquela maneira, mas acreditava que, finalmente, 
conseguira persuadi-lo a deixar que o assunto ficasse por ali. Por muito que desejasse 
voltar a estar com ele, sabia bem que no podia faz-lo.
     A sua nica consolao durante essa semana foi a alegria que a cachorrinha que 
Liam lhe oferecera lhe proporcionava. A Pegas era adorvel e, a despeito dos acidentes 
frequentes nas carpetes, Sasha andava encantada com ela. Fora o melhor presente que 
ele poderia ter-lhe oferecido. A melhor prenda a seguir a essa era deix-la em paz, o que 
Liam fez.
     Nesse fim-de-semana, o tempo voltou a estar horrvel em Paris, com uns dias 
cinzentos e ventosos que ameaavam eternizar-se. As manhs estavam nubladas e as 
noites chuvosas, enquanto as tardes eram deprimentes, com ventos agrestes que 
enregelavam uma pessoa at aos ossos. Na sexta-feira, Sasha trabalhou at tarde; 
cansada, deitou-se cedo, mas na manh seguinte, s nove horas, j estava sentada  sua 
secretria na galeria, acompanhada da cadelita. Toda a gente andava apaixonada pela 
Pegas, at mesmo Bernard.
     Sasha ficou a trabalhar na galeria durante todo o dia de sbado e passou a noite 
sozinha em casa, apenas com a Pegas. Desde segunda-feira que Liam no lhe 
telefonava e, at certo ponto, sentia-se aliviada, mas, por outro lado, tambm se sentia 
triste. Era doida por ele, contudo, sob vrios aspectos, ele era o fruto proibido. Um fruto 
em que estava determinada a no tocar, por muito que isso lhe custasse. Liam era um 
sacrifcio que era forada a fazer.
     No sbado, s vinte e uma horas, Sasha ouviu a campainha da porta. No era a 
campainha do porto, mas sim da porta da frente de sua casa. Assumiu que seria a 
porteira, uma vez que no ouvira a campainha do porto tocar. Vestia apenas a camisa 
de noite e levava a cadelinha ao colo quando abriu a porta. Estava  espera de deparar 
com o rosto envelhecido de madame Barboutier, mas, em vez disso, deu consigo a olhar 
para Liam. Afinal, sempre se decidira a aparecer.
     - O que  que ests a fazer aqui? - perguntou, desagradada por o ver  sua porta. 
Sentia o corao a bater com fora e os joelhos fraquejarem. No entanto, a sua fisionomia 
no revelava o que lhe ia no ntimo nem lhe deu umas boas-vindas calorosas; tinha-lhe 
dito expressamente que no fosse a sua casa.
     - Vim ver a minha afilhada canina. - Sasha tinha a cadela nos braos e ele olhou 
para Pegas, sorrindo. - Est com bom aspecto. - Tal como ele, ao contrrio de Sasha, 
que tinha uma expresso de cansao e preocupao, o que correspondia ao que sentia. 
Durante toda a semana, sofrera por causa dele. No lhe havia sido nada fcil manter a 
resoluo que tomara em relao a Liam. E agora ali estava ele, na soleira da porta, mais 
bonito do que nunca. Liam era tudo o que ela desejava, mas no podia permitir-se ter. 
Chamou a si toda a resistncia que conseguiu reunir.
     - Pedi-te que no viesses c... - disse-lhe com frieza, mas  beira das lgrimas.
     - Quero falar contigo, Sasha - retorquiu Liam, mostrando uma fisionomia 
circunspecta. Via nos olhos dele que tambm se sentia triste. - Porque  que no 
podemos deixar que isto decorra naturalmente por uns tempos, para vermos o que 
acontece? Talvez, ao fim e ao cabo, no seja nada de to calamitoso como tu pensas.
     - E se for? Depois o que  que fazemos? Os meus filhos ficaro completamente fora 
de si, os meus artistas vo pensar que estou doida varrida, e passaremos a ser o tema 
das conversas em Paris e Nova Iorque. - Sasha no estava a pintar um quadro muito 
bonito, mas o que acabara de ilustrar podia acontecer com toda a facilidade e 
corresponderia  verdade, facto de que tambm ele estava ciente.
     - Alguma vez pensas em qualquer coisa que no seja um desastre ou a opinio dos 
outros? - perguntou, mantendo-se a porta com o saco de viagem na mo. - E se as coisas 
vierem a correr da melhor maneira possvel? E se as pessoas se estiverem 
absolutamente nas tintas para o que ns dois possamos fazer? E se os teus artistas se 
estiverem a borrifar para o que faas e os teus filhos s quiserem que sejas feliz, ainda 
que isso signifique que tenhas uma relao com um homem mais novo do que tu?  bem 
possvel que esta situao no venha a ter nada de extraordinrio.
     - At encontrares uma rapariga da tua idade, ou mais nova, e te apaixonares por ela. 
Tambm no quero ter de passar por uma situao dessas.
     - E se eu morresse, ou tu? E se uma noite destas formos atingidos por um raio 
quando estivermos a fazer amor? E quanto  clera, difteria e sarampo? E se todos 
morrermos numa guerra atmica?
     - Prefiro morrer devido a uma bomba atmica do que fazer figuras ridculas por tua 
causa. Liam, no quero ir por a. Prefiro continuar sozinha.
     - No sejas pateta... Estive apaixonado duas vezes em toda a minha vida, a primeira 
por Beth, um amor que durou vinte anos, e agora por ti. Foram as nicas mulheres a 
quem disse que amava.
     - Tu s me desejas porque no podes ter-me - contraps Sasha, mostrando-se 
profundamente infeliz. Tremia ao frio, tal como a cadela.
     - Posso ao menos entrar por um minuto? H muitas horas que venho a guiar. 
Cancelaram o meu voo, pelo que tive de atravessar o tnel da Mancha. - Sasha afastou-
se para o lado; desejava ter coragem suficiente para lhe recusar a entrada, mas no 
conseguiu. Como tinha vindo a acontecer desde que o conhecia, no possua a fora de 
vontade necessria para lhe resistir, disse para consigo enquanto ele se encaminhava 
lentamente para a sala de estar. 
     As luzes estavam todas apagadas e na sala fazia frio. Sasha estava prestes a ir para 
a cama antes de ele chegar. - Muito bem, desisto. Deixa-me passar a noite em tua casa. 
No te tocarei. Partirei amanh antes de te levantares. Estou demasiado cansado para 
fazer a viagem de regresso a Londres esta noite. - Sasha ficou a olhar demoradamente 
para ele, aps o que acenou em sinal de assentimento. Podia voltar a dormir no quarto de 
Xavier. 
     Tencionava trancar a porta do seu quarto, o que faria mais para resistir a manter-se 
a si prpria dentro do quarto do que por desconfiar dele.
     - Queres comer alguma coisa? - perguntou cortesmente, pousando a cadela no 
cho.
     - Tens sorvete?
     - Acho que sim. A semana passada comprmos uma grande quantidade e ainda no 
comi nenhum. Mas devias comer, far-te-ia bem. - Liam achava que ela estava magra de 
mais, e parecia que havia perdido peso nessa semana; esperava que tal se devesse  
agonia das saudades que sentira dele.
     Seguiu-a at  cozinha, com a Pegas a saltitar logo atrs dos dois. A cachorrinha 
tratou de urinar no cho da cozinha, o que Liam se apressou a limpar, enquanto Sasha 
lhe servia sorvete de chocolate e de caf numa taa enorme.
     - Queres comer mais alguma coisa? - Liam respondeu-lhe com um abanar de 
cabea, sentando-se  mesa da cozinha sem dizer nada. Na verdade, havia muito pouco 
que qualquer dos dois pudesse dizer; j tinham dito tudo! Sasha nunca passara por uma 
situao to perturbadora, com excepo da morte do marido, havia dezasseis meses. 
Deixou-se ficar sentada em silncio enquanto ele comia. Quando Liam acabou, ela 
levantou-se da mesa. - Vou para a cama. Podes ficar na sala de estar, se quiseres. Sabes 
onde  o quarto do Xavier.
     - Obrigado, mas tambm estou cansado. Vou j para cima. - Seguiu atrs dela, que 
o deixou no patamar. Sasha ouviu-o subir o lano de escadas at ao ltimo andar, aps o 
que fechou a porta do quarto de Xavier.
     Sasha, com a cachorrinha junto de si, ps a gua a correr na banheira. No se deu 
ao trabalho de trancar a porta. Sabia que no precisava de tomar tal precauo. 
Finalmente, Liam compreendera, e na manh seguinte j teria partido. Todo aquele triste 
episdio de tentao, satisfao de desejos e tortura psicolgica teria acabado. Mal 
conseguia esperar que ele se fosse embora. Estava na casa de banho a lavar os dentes, 
com a camisa de noite vestida, quando ergueu os olhos e viu Liam reflectido no espelho. 
No o tinha ouvido entrar. A cadelinha ficou empolgada quando o viu, mas Sasha mostrou 
uma expresso desolada.
     - Compreendo, Sasha, mas s quero passar a noite contigo. Uma ltima vez. S 
quero poder abraar-te. Prometo que no farei nada que tu no queiras. - Mas o problema 
era que ela queria. Desde o princpio fora esse o grande problema. 
     Comeou a abanar a cabea, enquanto o seu olhar se cruzava com o dele no 
espelho. Tambm havia lgrimas nos olhos dele. Sem dizer nada, Sasha deixou cair a 
escova dos dentes, virando-se para ele e estendendo-lhe os braos. Tambm desejava 
passar uma ltima noite com ele. S queria poder abra-lo, senti-lo junto de si, antes de 
se separarem para sempre. Aquele momento jamais se repetiria, o que ambos sabiam. 
Em silncio, Sasha fez um acenar de cabea, com as lgrimas a correrem-lhe pelas 
faces. - Est tudo bem, minha querida... est tudo bem... tudo acabar por se resolver, 
prometo-te... - murmurou-lhe Liam.
     - No, no est bem. - Ambos sabiam que o que ela dizia era verdade, mas sentia-
se deliciada s por poder estar ali com ele. Momentos depois, aninhavam-se na cama 
enorme no quarto gelado. A cachorrinha dormia na sua prpria cama na casa de banho 
de Sasha. Liam desligou a luz e abraaram-se sem dizerem mais nada. Ela vestia a 
camisa de noite e Liam usava boxer shorts, uma T-shirt e meias. Comprara outro par s 
para estar com ela.
     - Amo-te - segredou-lhe Liam, abraando-a.
     - Eu tambm te amo - retorquiu Sasha com tristeza.
     - Quem me dera que as coisas fossem diferentes. - Desejou ser mais nova e 
tambm ser outra pessoa, de modo a poder sentir-se mais  vontade com algum como 
ele. No o amava da maneira como amara Arthur, mas sentia uma grande atraco e j 
se apegara a ele. Era uma emoo diferente de qualquer outra que sentira at ento. 
Talvez, mais do que amor, fosse paixo. Porm, o que quer que fosse, dava-lhe a 
sensao de ser perigoso, mas resistir-lhe era uma verdadeira agonia.
     - Isto  tudo de que precisamos para j - sussurrou-lhe, sentindo-se grato por poder 
abra-la e estar na cama com ela. Era mais do que ousara esperar quando fizera a 
viagem de automvel de Londres a Paris. Tinha receado que ela no lhe abrisse a porta, 
sentindo-se grato por isso no ter acontecido. 
     - Como  que eu vou viver sem ti, Sasha? Ela no lhe deu resposta, mas estava a 
pensar a mesma coisa. Tinham conseguido at a; teriam de voltar a consegui-lo. Tudo o 
que lhes restava era aquela noite. Ele morria de desejo por fazer amor com ela, mas 
Sasha no queria fazer nada que estragasse aquele momento. Liam manteve-a nos 
braos at ela adormecer.
     Na manh seguinte Sasha sentiu-o mexer-se, acordando imediatamente. Sabia que 
ele se iria embora assim que se levantasse. Deixou-se ficar deitada ao seu lado,  espera 
que ele se levantasse da cama. Liam no se mexeu durante muito tempo, at que os 
primeiros raios de sol, de um cinzento-prola, invadiram o quarto.
     - Ests acordada? - perguntou num sussurro, e ela respondeu-lhe com um acenar 
de cabea afirmativo. - Queres que me v embora agora? - Desejava com todo o seu ser 
que ele ficasse, mas tinha de deixar que se fosse embora.
     - Daqui a um minuto - disse ela num murmrio. Chegou-se mais a ele, abraando-o 
com fora. Mal conseguia respirar, de to inebriada que se sentia junto dele. Enquanto o 
abraava, sentiu que ele comeava a ter uma ereco. Os seus corpos estavam colados 
e, subitamente, comearam a beijar-se; o resto aconteceu sem que nenhum dos dois o 
premeditasse. Liam sentia-se aterrorizado quando pararam.
      Sabia que desta feita ela no lhe perdoaria e que nunca mais voltaria a v-la. 
Quebrara a promessa que lhe tinha feito, mas no conseguia impedir-se de a desejar com 
uma vontade incomensurvel. - Amo-te - confessou ela numa voz cheia de ternura. E 
depois afastou-se apenas o suficiente para poder olhar para ele. Os seus rostos estavam 
lado a lado na almofada. Liam concluiu que nunca vira uma mulher to bela em toda a 
sua vida, independentemente da idade. - O que  que vamos fazer?
     - Diz-me tu - retorquiu ele, falando tambm em voz baixa e sustendo a respirao.
     - No sei dizer... No quero perder-te... j perdi de mais. - Muito simplesmente, 
Sasha no era capaz de se forar a permitir que ele partisse.
      Pelo menos, para j. Posso ficar mais um pouco? - Ela respondeu-lhe com um 
acenar afirmativo e ele voltou a abra-la; depois fizeram amor outra vez. A certa altura, 
ele teve de ir buscar comida para a cadelinha, aproveitando para levar tambm duas 
taas de sorvete.
     - Terei endoidecido? - perguntou-lhe ela enquanto comia o sorvete de chocolate 
sentada na cama, ao seu lado. Aquilo era tudo o que queria: estar ali junto dele, com o 
gelado a escorrer-lhe pelo queixo. Gentilmente, ele limpou-lho.
     - Nunca me senti to lcido em toda a minha vida, mas no posso falar por ti.
     - Isto parece-me um sonho... - retorquiu Sasha.
     - Se for,  um sonho muito bom. - Liam sorriu-lhe antes de a beijar.
     Ficaram na cama durante todo o dia de domingo. Tomaram banho juntos e 
desceram ao piso trreo apenas durante o tempo necessrio para jantarem, aps o que 
se apressaram a voltar para a cama, como crianas que fugissem dos progenitores. Mas 
no havia ningum de quem tivessem de fugir nem lugar onde pudessem esconder-se. A 
dada altura, durante o fim-de-semana, Sasha pisara o risco, entregando-se nos braos 
dele. No tinha ideia quanto ao que ambos fariam a seguir. 
     Tudo o que sabia era que queria estar junto dele durante o tempo que a relao 
entre os dois durasse.
     Cozinharam juntos e jantaram, rindo-se e conversando com todo o -vontade. 
Brincaram com a cadela, lavaram a loua e depois apressaram-se a voltar para a cama, 
fazendo amor outra vez.
     - Estou velha de mais para isto - disse ela, mal conseguindo recuperar a respirao.
     - Tambm eu - retorquiu Liam, rindo-se. - Ests a desgastar-me. - Mas ento ela 
olhou-o com uma expresso preocupada.
     - Quando  que vais voltar?
     - E que tal se nunca? - Liam estava a brincar com ela, mas a ideia agradou a ambos. 
- O que  que te parece se eu passasse a semana aqui? - Seria uma boa experincia 
para verem como  que as coisas corriam no dia-a-dia. Sasha no esperava que ele 
sugerisse aquilo, mas a ideia agradou-lhe.
     - Eu podia dizer a todos na galeria que vieste c para os conhecer e que te convidei 
a ficares hospedado em minha casa. - Liam apercebia-se de que ela sentia que tinha de 
dar uma explicao, mas, qualquer que fosse a maneira como resolvesse o assunto, para 
ele estaria bem.
     - Por mim, concordo. Ou tambm podias dizer apenas que sou o teu namorado e 
que vamos passar a semana toda na cama... - Sasha mostrou uma expresso de 
nervosismo quando ele disse isto, beijando-a. - No te preocupes, no tenciono fazer 
nada que possa embaraar-te.
     -  melhor que no faas... - retorquiu ela num tom de advertncia.
     - Prometo que no.Ficaram deitados na cama e nessa noite dormiram abraados. 
Sasha sentia-se excitada perante a perspectiva de poderem passar toda a semana juntos. 
No dia anterior prometera a si mesma que iria desistir dele, mas no decurso do fim-de-
semana decidira arriscar a existncia ao seu lado. Agora no lhe restava outra alternativa, 
quer fosse possvel quer no. No tardariam a descobrir.
      
     
     
     
     
     
     
     
     
     
                                             CAPTULO 8
     
     Sasha tinha uma aparncia ainda mais respeitvel do que o habitual quando, 
acompanhada de Liam, atravessou o ptio interior em direco ao escritrio na segunda-
feira de manh. A galeria fechava s segundas-feiras, se bem que o escritrio se 
mantivesse aberto, uma boa oportunidade para porem em dia o expediente atrasado. 
Sasha vestia umas calas pretas e uma camisola da mesma cor. Quanto a Liam... 
parecia-se com Liam. Calava botas de vaqueiro, vestia um casaco de cabedal, uma 
camisola branca, calas de ganga e tinha um bon de pala. 
     Planeavam sair nessa tarde para comprar mais T-shirts e algumas peas de roupa 
interior. Ele no tinha trazido roupa suficiente para uma semana, uma vez que s pensara 
ficar em Paris durante o fim-de-semana.
     Sasha apresentou-o aos funcionrios da galeria. Liam era agradvel e de trato fcil, 
pelo que todos pareceram simpatizar com ele. Na semana anterior enviara diapositivos 
dos seus trabalhos, e Bernard disse que estavam ansiosos por poder apresent-los ao 
pblico. Falaram da exposio individual na galeria de Nova Iorque no fim do ano; 
entretanto, as duas galerias exporiam os trabalhos dele, tanto em Paris como em Nova 
Iorque. Para Liam era uma oportunidade inacreditvel. 
     Eugnie quase desmaiou quando o viu. Mais tarde disse a Sasha que nunca, em 
toda a sua vida, tinha visto um homem to bonito como ele. To-pouco Sasha, e isso era 
parte da questo que estava a causar-lhe tantos problemas.Nessa noite conversaram 
sobre a galeria; Liam estava estirado em cima da cama depois de terem feito amor, qual 
jovem leo.
     - Ento, o que  que te pareceu? - perguntou-lhe ela. Estava interessada em ouvir a 
sua opinio, conhecer o ponto de vista de um artista. Nele, Sasha tinha uma oportunidade 
nica para se inteirar da opinio dos pintores em relao  galeria. Para um negociante 
de arte, era uma perspectiva interessante, alm de que respeitava a opinio dele, embora 
tambm confiasse na sua. Os seus instintos sempre se haviam revelado excelentes no 
tocante  galeria e aos profissionais de artes plsticas com quem trabalhava.
     - O que  que me pareceu? - perguntou Liam com uma fisionomia de alheamento. 
Ainda estava a recuperar o flego depois de terem feito amor, surpreendido por ela estar 
a pensar no trabalho. - Ora bem, vejamos... melhor do que ontem  noite... no to bom 
como esta manh... talvez eu estivesse cansado... Pareceu-me que a melhor de todas foi 
no domingo  tarde, na banheira... - Liam prosseguiu, classificando e comparando as 
incurses sexuais dos dois, enquanto Sasha se ria  socapa.
     - Liam, pra com isso! Eu estava a referir-me  galeria e aos funcionrios.
     - Oh, isso!... Muito agradvel. Gostei de toda a gente.
     - Mas estava mais interessado em fazer amor com ela do que em conversar sobre 
trabalho.
     - Vamos falar a srio por momentos - ralhou ela. Adorava falar dos assuntos de 
trabalho com ele. Tambm fora assim com Arthur.
     - A srio? Se fizermos amor mais vezes vou cair prostrado nos teus braos e vais ter 
de me reanimar. Sou mais velho do que aparento.
     - Tambm eu - retorquiu Sasha com uma expresso de pesar.
     - Nunca tinha feito isto com tanta frequncia em toda a minha vida. Estou a comear 
a sentir-me como um brinquedo sexual - continuou Liam, tentando mostrar-se 
preocupado. - Pensando bem, talvez seja. -  isso que sou para ti? - Durante uns 
momentos, ficou com uma expresso muito sria.
     - No sejas parvo!... - retorquiu Sasha, descansando a cabea na almofada. No 
entanto, era forada a admitir que estava a passar uns momentos muito agradveis com 
ele. Mesmo muito.
     - Sinto-me como se fosse o escravo sexual de Faubourg Saint-Honor. Talvez 
devesse ligar para o SAMU, para que venham salvar-me... - O SAMU era o Servio de 
Emergncia Mdica, o equivalente francs do 112.
     - Acho que ests a tornar-te um vcio - admitiu Sasha, mas a verdade  que estava a 
divertir-se de mais para se preocupar com isso. Decidira pr os seus receios em banho-
maria durante uma semana, limitando-se a desfrutar da presena dele todos os dias.
     - Talvez devssemos ir a uma reunio de um desses grupos das doze medidas. Os 
Escravos do Amor Annimos. Mas que diabo, porqu estragar o nosso divertimento? 
perguntou Liam, mostrando-se divertido.
     - Exactamente - concordou Sasha, inclinando-se para o beijar. Nenhum deles queria 
acreditar, mas a verdade  que fizeram amor outra vez antes de adormecerem e uma vez 
mais antes de ela ter sado para trabalhar na manh seguinte. Quando entrou no 
escritrio sentia-se como uma rapariguinha tonta, esforando-se por ocult-lo.
     Liam chegou pouco depois, e gostou de visitar a galeria aps ter aberto ao pblico. 
Sasha ficou satisfeita quando soube que Bernard o tinha convidado para almoar. Todos 
pareciam simpatizar com ele, o que j era alguma coisa. Andara preocupada a pensar 
como  que se enquadraria entre os que trabalhavam na galeria, mas at ao momento 
tudo estava a correr pelo melhor.
     Liam passou o resto da semana a vaguear por Paris, visitando outros artistas seus 
amigos na Marais, enquanto Sasha fazia o que estava ao seu alcance para aliviar a sua 
carga de trabalho, a fim de poder passar tanto tempo com ele quanto possvel, se bem 
que por vezes tivesse de se encontrar com clientes que esperavam v-la quando 
compravam obras de grande valor. Liam chegou durante uma dessas ocasies, que teve 
lugar j no final da semana. 
     Vestia uma T-shirt, um bluso de cabedal de motociclista, bon de basebol, calas 
de ganga e botas de vaqueiro. E at calara meias e vestira roupa interior. Estava 
determinado a portar-se adequada e civilizadamente durante essa semana. Sasha 
apresentou-o aos clientes com quem estava reunida quando ele entrou  sua procura.
     Liam no tivera o mnimo pejo em interromp-la, o qUe a deixou incomodada. 
Assim, mostrou uma expresso um tanto austera e irritada quando ele se inclinou, 
beijando-a na boca. Sasha ficou furiosa. Os clientes eram pessoas na faixa etria dos 
setenta; a senhora era uma princesa italiana e o marido o presidente de um banco francs 
dos mais importantes. No tinha clientes mais conservadores do que aquele casal. Sasha 
vestira um fato de saia e casaco Chanel para essa reunio e pusera um colar de prolas. 
Tinha um ar to respeitvel quanto os clientes. 
     Liam, pelo contrrio, parecia um James Dean com cabelos louros compridos, o que, 
decididamente, no era o estilo do casal. Sasha apresentou-o como sendo um dos 
pintores que expunham na galeria, tendo ficado um tanto ou quanto enervada quando ele 
se sentou, sem ter sido convidado, para tomar ch com eles; depois mudou de ideias, 
servindo-se de uma bebida. Portou-se como se estivesse em sua casa, o que tambm 
no passou despercebido aos clientes. A princesa parecia chocada, enquanto o 
banqueiro se mostrava manifestamente irritado. 
     A sua nica esperana era que conclussem que Liam era um artista excntrico, 
embora o beijo que ele lhe dera tivesse sido bastante revelador para o casal, o que 
tornaria difcil explic-lo. Mais ainda, eles queriam toda a ateno de Sasha; tinham 
acabado de comprar dois quadros, cada um no valor de quinhentos mil dlares. No 
entanto Liam parecia pouco impressionado com as pinturas, que se encontravam em dois 
cavaletes, tendo comentado que eram muito bonitas, embora pouco inspiradoras. Sasha 
estava capaz de o matar. Assim que o casal saiu, virou-se para ele, furiosa.
     - Em que diabo estavas a pensar quando disseste uma coisa daquelas?  assim que 
eu ganho a vida! 
     Aqueles clientes acabaram de comprar duas pinturas no valor de um milho de 
dlares, em dinheiro vivo, e no estou minimamente interessada na tua opinio sobre os 
quadros, se so inspiradores ou no, tal como eles no esto interessados no que possas 
pensar. Pelo menos, podias ter fingido que gostavas deles! - disse ela, encolerizada. - E 
como  que te atreves a interromper uma reunio? Isto  o meu trabalho e no o meu 
quarto! Perdeste o juzo? 
     - Liam acabara de fazer precisamente aquilo que ela receara: tinha-a embaraado 
diante de clientes importantes, e no se mostrava nem um pouco arrependido. Era a 
maldita questo do controlo! No permitiria que ningum lhe dissesse o que fazer ou 
como comportar-se. Os limites e as regras, para ele, eram letra-morta.
     - Eu nunca minto sobre arte - retorquiu com uma expresso de perplexidade, 
estendendo-se no sof do gabinete.
     - Tenho demasiada integridade para o fazer. Alm do mais, estava a ser corts. 
Disse-lhes que os quadros no eram inspiradores, mas a verdade  que, na minha 
opinio, so uma merda. So de um perodo conturbado na vida do pintor, que fez 
trabalhos muito melhores antes dessa fase.
     - Estou bem consciente disso, Liam, mas aquelas duas pinturas eram o que eles 
queriam, portanto, tratei de as localizar. Precisei de oito meses para as adquirir a um 
negociante na Holanda, e foi por muito pouco que tu no arruinaste a transaco. Alm do 
mais, no podes entrar aqui quando bem te apetece, servindo-te de uma bebida quando 
estou a falar com clientes. Vais ter de mostrar algum respeito.
     - Tambm tu! - ripostou ele, sem ocultar a irritao que sentia. - Pensas que diriges o 
mundo por aqui. Sou to bom como eles! No podes limitar-te a varrer-me para debaixo 
do tapete s porque algum com um livro de cheques chorudos entra porta adentro!
     - Isso  que posso! Eles so o meu ganha-po, assim como o dos meus filhos. E se 
quiseres continuar por aqui, quando eu danar ao som da batuta deles, tu fars 
precisamente a mesma coisa.
     - Uma porra  que fao! Eu no sou teu lacaio, Sasha, no trabalho aqui. Se sou o 
homem da tua vida, vais ter de me tratar com respeito.
     - Nesse caso, no abuses da sorte e no te exibas dessa maneira. Parecias um 
motociclista dos HelTs Angels, a entrar aqui com toda a descontraco para te servires de 
uma bebida, enquanto eles estavam a tomar ch.
     - Esse argumento no tem ps nem cabea, do que ests bem ciente. S tens de 
lhes dizer que sou um dos teus artistas, no precisam de saber mais nada. No estou 
disposto a vestir um fato de trs peas e a tomar ch s porque ests a vender duas 
pinturas que so uma porcaria e que, j agora, nem sequer devias estar a vender. Se era 
isso que eles queriam, ento tinhas obrigao de os esclarecer, arranjar-lhes trabalhos de 
melhor qualidade e exigir-lhes mais dinheiro por eles. 
     Mas aqueles dois quadros so uma merda, o que tu sabes muito bem. Quanto ao 
meu aspecto, calcei meias e vesti roupa interior, o que devia ser suficiente para ti. No 
tenciono andar por a como um macaco mascarado pela trela s porque tu queres!
     - Ningum te est a pedir que faas isso. S te peo que sejas bem-educado com os 
meus clientes, que tenhas uma aparncia decente e que sejas discreto. Podes esperar 
que as pessoas saiam para tomares uma bebida. Alm do mais, no tens o direito de 
interromper as minhas reunies. A tua independncia, muito ou pouca, no me interessa; 
no estou disposta a tolerar esse comportamento da tua parte!
     - Quem  que pensas que s? - perguntou Liam, aos gritos. - No s minha me. 
Posso fazer o que me apetecer. No te admito que me digas o que devo fazer ou no. 
Amo-te, mas isso no te d o direito de me controlares, Sasha. No sou um dos teus 
empregados nem teu filho. De facto, nem sequer tenho a certeza do que sou para ti! - 
Liam estava a ficar cada vez mais furioso, enquanto ela falava com toda a calma. No 
tinha inteno de discutir irracionalmente com ele. 
     Se o fizesse, sabia que ningum sairia a ganhar. Mas isso no significava que lhe 
permitisse que se comportasse como bem lhe apetecia. O pintor louco estava todo 
lanado.
     - Tu beijaste-me, Liam. Na boca! - continuou Sasha, enquanto ele a olhava, furioso, 
do outro extremo da sala. Em frente de clientes.  uma atitude completamente 
inapropriada, do que decerto te apercebers.
     - No me digas o que  apropriado ou no! - gritou-lhe Liam. - Eu amo-te. No enfiei 
a lngua pela tua garganta abaixo, por amor de Deus! Dei-te um beijo ao de leve nos 
lbios. O que  que eu sou, afinal! Um rapaz que no passa de um brinquedo com que te 
andas a divertir e que queres manter fechado no armrio? - perguntou, mostrando-se 
ofendido. Magoara os seus sentimentos ao critic-lo, e apercebia-se disso, mas ele tinha 
de aprender a portar-se como devia ser.
      No seria tarefa fcil, tal como receara. Adorava estar com ele na privacidade da 
sua casa, mas quando andava pela galeria, a dizer e a fazer o que lhe vinha  cabea, 
sentia-se bastante enervada. Havia ocasies em que ele no pensava. E era evidente que 
era alrgico a qualquer espcie de regras.
     - s velho de mais para seres um rapaz que serve de brinquedo - retorquiu Sasha 
com uma expresso reservada. Liam comeou a dizer-lhe qualquer coisa, muito 
acalorado, mas de sbito desatou a rir s gargalhadas.
     - Tens razo, calculo que seja, mas por vezes  realmente assim que me sinto. 
Mostras-te to formal quando ests com clientes e to enfadonha... Porque  que no 
relaxas? At  possvel que eles gostassem se fosses mais descontrada.
     - No so essa espcie de clientes. As pessoas que compram trabalhos de artistas 
em comeo de carreira so diferentes, Liam. O meu gnero de clientes espera sobriedade 
e formalismo da nossa parte. Se eu no agisse assim, fariam negcio com outros que 
correspondem a este perfil. Acredita em mim. H vinte e trs anos que estou neste 
negcio, e desde criana que observei o meu pai a lidar com os clientes. Existem 
determinadas regras que  preciso observar.
     - Tu e as tuas regras... - resmungou ele, mas no tardou a pr o assunto para trs 
das costas. Mais depressa do que ela. Sasha ficara extremamente perturbada por ele a 
ter interrompido quando estava com clientes. No que lhe dizia respeito, era uma atitude 
que no augurava nada de bom para o futuro. Tinha-a deixado bastante enervada. Apesar 
disso, nessa noite levou-o a jantar ao L Voltaire. Tornara-se tambm o restaurante 
preferido dele. Para jantar l, no precisava de se vestir formalmente. 
     Podia ir de calas de ganga, casaco de cabedal e botas de vaqueiro, muito embora 
algumas das pessoas mais sofisticadas e elegantes de Paris frequentassem o 
restaurante. Depois de uma garrafa de vinho, ele estava com uma disposio muito 
melhor. No entanto Sasha continuava a sentir algum mal-estar depois da discusso breve, 
mas acalorada, dessa tarde. Liam sentira-se desrespeitado e ela ficara extremamente 
chocada perante a sua atitude de descontraco enquanto ela falava com clientes. Liam 
teria de aprender certas regras bsicas, e depressa. 
     Algum teria de ceder, e esse algum era ele. Se no fosse assim, a relao entre 
ambos no tardaria a cair por terra. Sasha precisou do resto da noite para serenar, mas 
no dia seguinte j estava calma.
     Durante o resto da semana tudo correu sem incidentes de maior entre os dois. 
Bernard comentou com Sasha que Liam parecia estar a prolongar a estada em Paris, mas 
ela concluiu que ele no desconfiaria de qual a razo para isso. Disse-lhe que Liam no 
tinha dinheiro para poder alojar-se num hotel, pelo que estava a dormir no quarto de 
Xavier, o que fazia sentido, na ptica de Bernard. Mas se ele ficasse frequentemente em 
casa dela, e durante tempo prolongado, sabia que, mais cedo ou mais tarde, o segredo 
seria descoberto.
     Passaram um fim-de-semana agradvel e divertido. Foram ao cinema, almoaram 
na Brasserie Lipp, no domingo, e depois foram beber caf ao Deux Magots. Sasha tentou 
lev-lo ao bar do Hotel Ritz para tomarem uma bebida, mas no o deixaram entrar por ir 
de calas de ganga, a menos que estivesse hospedado no hotel, o que Liam considerou 
uma idiotice. De facto era, mas eles tambm tinham regras, ao contrrio de Liam, que 
tinha muito poucas. As suas prendiam-se com ser decente, simptico e afectuoso, no 
com comportar-se de maneira apropriada. 
     Porm, procedia sempre com muita ternura para com ela. Sasha no tinha a mnima 
dvida de que o amava, o que no impedia que vivesse no receio constante de ele vir a 
fazer alguma coisa que revelasse a relao que existia entre os dois, e ainda no estava 
preparada para que isso acontecesse. Permitir que ele ficasse consigo em Paris durante 
uma semana e que andasse pelo escritrio j era uma grande cedncia da sua parte, 
portanto, no tencionava ir mais longe do que isso. Agora ou talvez nunca.
     Estavam na cama na noite de domingo quando Liam lhe perguntou casualmente 
quais eram os seus planos para o dia seguinte. Era a primeira pista que lhe indicava que 
ele no estava a pensar em partir na data estabelecida. No se importava, uma vez que 
adorava estar com ele, mas tambm tinha conscincia de que a continuao da sua 
presena se tornaria cada vez mais difcil de justificar na galeria. Eram os nicos que 
sabiam que ele estava em casa dela. Liam sugeriu que na noite seguinte jantassem com 
alguns dos seus amigos da Marais.
     - Isso significa que gostarias de ficar por mais tempo?
     - Sim, se estiveres de acordo - respondeu Liam, esboando um sorriso acanhado e 
com um aceno de cabea.
     Sasha hesitou por breves segundos, sopesando os riscos, mas depois sorriu-lhe; 
adorava que ele estivesse perto de si. Trataria de arranjar uma explicao qualquer.
     - Sim, por mim podes ficar. - No entanto estava relutante em jantar com os artistas 
seus amigos, uma vez que alguns deles talvez a conhecessem, mas ento recordou-se 
de que j tinha um compromisso. Liam mostrou imediatamente quanto ficara 
decepcionado e at um pouco magoado. 
     Sasha beijou-o, explicando-lhe que tinha de ir a um jantar que exigia traje a rigor e 
que era dado por uns clientes importantes. Tinham-lhe comprado um Monet nesse Vero 
e, alm disso, ela aceitara o convite havia vrias semanas. Lev-lo consigo a um jantar 
formal em casa de um cliente era uma experincia que ainda no estava preparada a 
arriscar, o que ele disse compreender, mas que no o impediu de se mostrar irritado. Para 
no o magoar, Sasha afirmou que, de qualquer modo, o convite no lhe permitia levar 
acompanhante.
     - Sendo assim, diz-lhes que no podes ir - declarou Liam, peremptrio, com uma 
expresso de petulncia que ela ignorou propositadamente.
     - No posso fazer isso, Liam. So os clientes mais importantes que tenho - replicou 
Sasha, falando-lhe com toda a sinceridade.
     - E o que  que eu sou?
     - O homem que eu amo. Mas no faas deste assunto um confronto entre ns. Ests 
a falar do meu trabalho.
     - Terias levado o Arthur a esse jantar? - perguntou Liam frontalmente. Ambos 
sabiam que o teria feito, mas tudo na presente situao era diferente. Arthur podia ter-se 
apresentado em qualquer lugar. No era o caso com Liam; ele no queria conformar-se 
com as regras. Alm do mais, Arthur comportara-se sempre como um adulto, o que Liam 
tambm no fazia.
     - Isso no  justo - retorquiu Sasha, mostrando-se magoada. - Ns ramos casados, 
e ele era to conservador e formal como os meus clientes. Por amor de Deus, o Arthur 
era banqueiro!
     - E eu sou um jovem desmiolado! - Nesta altura j Liam tinha acrescido clera  
petulncia.
     - No - contraps ela, muito calma -, s um pintor louco, ou j te esqueceste? Foi o 
que me disseste. E no queres ser controlado. Se estiveres disposto a usar casaco e 
gravata, a ter um comportamento apropriado e a agir como um banqueiro, stio que 
queiras. - Aquilo era uma concesso enorme que ela lhe fazia. Mas ele no queria 
concesses; queria ter a liberdade de se comportar como muito bem lhe apetecesse, 
onde quer que fosse, com ou sem ela.
     - As pessoas deviam aceitar-me como sou. Tal como tu devias aceitar-me! - ripostou 
com irritao.
     - E aceito, mas no  esse o caso em relao aos outros. Se queres ir comigo a 
lugares como aquele onde vou jantar, ters de te conformar com as respectivas regras. 
Tal como eu prpria. So essas as regras da sociedade em que vivemos. Desta vez no 
vou poder levar-te comigo, porque falta muito pouco tempo para o dia do jantar, mas se 
encarares o assunto com seriedade, vamos comprar-te um smoking, e j poders 
acompanhar-me da prxima vez que for convidada para outra coisa qualquer do mesmo 
gnero. Isto , se estiveres disposto a cingir-te s regras. O contrato  este.
     - Que se fodam! - vociferou Liam, subitamente irado.
     - Quem diabo  que pensam que so? Sou duas vezes mais homem do que eles! 
Ouvi as mesmas merdas da boca do meu pai quando era mido e j depois de crescido. 
Recuso-me a entrar nesse jogo seja por quem for, Sasha, nem mesmo por ti.
     - E no tens de o fazer - retrucou Sasha calmamente.
     - No precisas de ir a nenhuma das reunies formais a que costumo comparecer. 
Mas se quiseres ir, ters de seguir as regras.  assim que as coisas so.
     - E quem  que estabelece essas regras? Um cara-de-cu qualquer pomposo de 
smoking? Por que razo eu haveria de comportar-me e vestir-me como ele? Por que 
motivo no posso ser quem sou?
     - Porque esses caras-de-cu velhos e pomposos possuem o dinheiro e o poder e so 
eles que estabelecem as regras. Aquele que  detentor do ouro governa, l diz o ditado. 
E se quiseres movimentar-te nesse mundo, ters de ser civilizado e agir em conformidade 
com as regras.
     - Se tivesses orgulho em mim e me amasses de verdade, aceitar-me-ias tal como 
sou. - Liam era como uma criana revoltada, e Sasha sentiu que o corao lhe caa aos 
ps. Tinha receado que as coisas chegassem quele ponto, e no fora preciso muito 
tempo para que os seus receios se concretizassem. Em menos de uma semana, aquela 
era a segunda discusso acesa entre os dois, o que confirmava os seus piores receios, 
levando-a a concluir que a relao entre os dois no resultaria. 
     Havia um grande nmero de coisas que adorava nele, a sua generosidade, o calor 
humano, o afecto que lhe dedicava e que no ocultava de ningum, o seu sentido de 
humor, a sua inteligncia, o seu talento e tambm o quanto era fabuloso na cama. Mas as 
suas birras de imaturidade no constavam, definitivamente, dessa lista.
     - Tenho orgulho em ti e amo-te, mas no tenciono introduzir-te nesse meio para me 
pores a ridculo ou fazeres figuras disparatadas. Se quiseres comportar-te como te der na 
veneta, s conseguirs que ambos sejamos alvo de chacota.
     - O que  mais importante para ti, Sasha? Eles ou eu?
     - Ambos. Amo-te, mas  nesse mundo que eu vivo. Faz parte do meu ser. Eu disse-
te isso quando nos conhecemos. Este  um problema com o qual teremos de nos 
confrontar para sempre, a menos que estejas disposto a abdicar de seres um pintor louco, 
entrando no meu mundo como um homem de verdade. Mas se pretendes continuar a 
desempenhar o papel de artista louco ou de jovem destrambelhado que no aceita 
qualquer tipo de controlo, ento no te podes opor a que eu viva nesse mundo sem a tua 
companhia.  to simples quanto isso. A escolha  inteiramente tua.
     - Eu sou o que sou, e no tenho inteno de mudar a minha maneira de ser nem de 
lamber as botas de ningum, quer por ti quer por eles!
     - Tens todo o direito de tomar essa deciso, mas no te assiste o direito de obrigar 
os outros a aceitarem-te se continuares a recusar viver de acordo com as regras deles ou 
as minhas.
     - Bem no fundo, tudo isto tem a ver contigo, no  verdade? No tem nada a ver 
com os outros. Tu queres que eu faa de conta que sou o Arthur. Pois bem, no sou. Sou 
eu, Liam Allison.
     - Isto no tem nada a ver com o Arthur! - retorquiu Sasha entre dentes, indignada. - 
Olha uma coisa, que tal se amanh jantasses com os teus amigos? Vou ao meu jantar 
enfadonho, venho-me embora cedo e depois vou ter contigo ao lugar onde estiveres na 
Marais.
     - O qu, tencionas fazer uma visita aos bairros-de-lata? Lady Mos-Largas deixa a 
sua manso para se encontrar com o namorado campnio no pardieiro? Se no tenho 
categoria suficiente para te acompanhar, ento amanh volto para Londres. - De qualquer 
modo, inicialmente Liam planeara partir nessa altura. A deciso de prolongar a estada 
havia sido uma surpresa para ela. Isso depende de ti - retorquiu Sasha numa voz serena. 
- Estou a fazer o melhor que posso, Liam. Em determinadas ocasies, a nossa situao 
exigir que ambos faamos cedncias. Desde o princpio que temos noo disso.
     - Sim,  verdade. A diferena  que ainda no me tinha apercebido de que eu seria o 
nico a ter de fazer cedncias. At que ponto esperas que me deixe humilhar? Dizes-me 
como devo comportar-me na tua galeria, o que devo fazer para no ofender os teus 
clientes, tenho de andar em bicos de ps, no posso beijar-te em pblico e no tenho 
autorizao para me servir de uma bebida. 
     E se quiser ir contigo a algum lugar mais importante, sou forado a vestir-me como o 
Pequeno Lorde Fauntleroy e a portar-me como Malcolm Forbes. Pois bem, sou um artista, 
Sasha. No sou nenhum macaco amestrado ou um banqueiro e no vou permitir que me 
cortes os tomates!
     - No estou a tentar cortar-te os tomates. A verdade  que vivemos em mundos 
diferentes. Era inevitvel que isto acontecesse. Vamos precisar de muita compreenso e 
flexibilidade para que a nossa relao possa resultar. - Ainda nenhum dos dois sabia se 
tal seria possvel e, ao que tudo indicava, isso no aconteceria, principalmente se ele 
persistisse em comportar-se como um artista louco quando a acompanhasse a qualquer 
lado. As duas coisas eram antagnicas. Ela j tivera o cuidado de o advertir quanto a isso, 
e agora encontravam-se num beco sem sada.
     - Eu j te disse, no vou permitir que me cortes os tomates. Amanh regresso a 
Londres. Logo que tu estabeleas racionalmente as tuas prioridades, d-me uma 
apitadela. Ao ouvir o que ele dizia, Sasha s lhe apetecia desatar a gritar.
     - Isto no tem nada a ver com prioridades, Liam - disse ela, dando a impresso de 
estar desesperada por no perder a calma com ele. Mas tentar fazer Liam ver a razo era 
frustrante, agia como uma criana com birras. - Tem a ver com agirmos segundo as 
regras estabelecidas e viver em mundos diferentes.  como passar a ser membro de um 
clube. Caso se queira frequentar esse clube,  necessrio que cumpramos as regras.
     -Jamais me conformarei com isso, Sasha. Nunca! Se quisesse viver dessa maneira, 
continuaria na Califrnia com o meu pai, a ter de aceitar as merdas todas dele. Mas 
acontece que no estou disposto a aceitar merdas de ningum, muito em especial de ti. 
Se quiseres que eu faa parte da tua vida, ento aceita-me como sou, no me venhas 
dizer como  que devo portar-me e falar-me de regras, quaisquer que elas sejam. No 
existem regras, ou no deviam existir, se me amares de facto.
     - Existem sempre regras - retrucou Sasha com tristeza.
     - E eu sou obrigada a viver em conformidade com elas. No posso fazer o que me 
der na real gana. 
     No posso aparecer amanh de calas de ganga, ou com botas de vaqueiro e um 
bon de basebol. Tenho de ir como os outros, com o cabelo bem penteado e vestido de 
noite. Tenho de me apresentar to apropriadamente quanto os demais, o que fao porque 
acredito nas regras que esto estabelecidas. Mantm as coisas de modo civilizado.
     - Mas eu no quero ser civilizado, raios partam isto! S quero ser eu mesmo! Quero 
ser respeitado e que me aceitem pelo que sou, independentemente do modo como me 
comporte, e no pelo que possa fingir ser ou por estar disposto a lamber-lhes as botas. 
Nunca farei isso! 
     - Era evidente que a discusso estava a trazer  superfcie episdios da juventude, 
uma vez que at Sasha se apercebia de que a clera que ele mostrava para com ela era 
completamente desproporcionada. Enquanto continuava com toda a sua retrica, era 
manifesto que Liam estava fora de si. Nada do que ela dizia tinha a mnima razo de ser 
para ele, tal como nada o induzia a acalmar-se, pelo contrrio, parecia que s servia para 
lhe exacerbar os nimos. enquanto o ouvia. Nesse momento ele encontrava-se algures na 
estratosfera, sozinho.
     - No te estou a pedir que lambas as botas seja de quem for, Liam, muito menos as 
minhas. Podes portar-te como bem te apetecer. Mas se  isso que queres, ento ters de 
viver no teu lado do muro, permanecendo no teu prprio mundo ou no nosso mundo 
privado, sobre o que no tenho nada a objectar. Mas caso queiras passar para o outro 
lado do muro e ficar l comigo, ento ters de viver de acordo com as regras.
     - As regras deles que se fodam! E j que estamos a falar nisso, Sasha, vai-te foder! 
Se no tens orgulho em mim, se te sentes constrangida por eu ser mais novo do que tu, 
se no me respeitas pelo que sou, ento no quero estar contigo. E tambm no tenciono 
continuar aqui. Amanh volto para casa. Quando te decidires, podes telefonar-me.
     - Sobre o qu? O que  que eu tenho de decidir? O que  que queres de mim? - 
Sasha sentira-se aturdida. Parte do que ele dizia era to irracional que no fazia qualquer 
sentido. Nada daquilo era novidade. Ele sempre soubera quem ela era e qual a sua 
atitude perante a vida, desde o princpio. Essas tinham sido as preocupaes principais 
que tivera em relao a ele, para alm do factor idade. 
     Mas agora a idade dele era a ltima das suas preocupaes. A falta de limites e o 
comportamento imaturo eram aspectos muito mais graves. Liam estava a portar-se como 
uma criana de cinco anos.
     - Ou tu te decides a levar-me para o mundo em que vives tal como eu sou, sem 
tentares deixar-me aqui, como se eu fosse um prostituto cujos servios tivesses 
contratado por uma noite, ou saio de tua casa para sempre. Recuso-me a ser deixado em 
casa, como se fosse lixo. E tambm no permito que ningum me diga como devo 
comportar-me! - vociferou Liam, enquanto ela fazia um esforo tremendo para conter as 
lgrimas. Sasha queria que ele fosse diferente do que se estava a revelar. Queria que a 
relao entre os dois resultasse, mas, por aquele andar, isso jamais viria a acontecer.
     - Sendo assim, s tu quem tem de decidir o que queres fazer! - ripostou, 
subitamente to irritada quanto ele. - Pra de te portares como uma criana que est a 
fazer uma birra, a dizer que no toma banho ou que no quer vestir o fato e que pode 
atirar a comida para o cho quando muito bem lhe apetecer. Se queres descer para jantar 
com os crescidos, ento comporta-te como um adulto. Por amor de Deus,  s isso que  
preciso! Podes fazer de artista louco para sempre, uma vez que desejas conduzir-te como 
as crianas que se
     portam mal. Se  isso que queres, ento no estejas para a a lamuriar-te porque 
no posso levar-te. Meu Deus, era o que gostaria de poder fazer! Gostaria muito, mas no 
estou disposta a colocar-me numa situao constrangedora enquanto tu te exibes, 
tentando provar at que ponto consegues ser ultrajante. Se me amas tanto como afirmas, 
Liam, ento comea a crescer e aprende a ter um comportamento como deve ser. No 
tenciono levar uma criana mimada a sair comigo. 
     Sugiro que penses sobre isso e que sejas tu a decidir o que pretendes fazer. Eu j 
tomei a minha deciso. Estou aqui contigo. Agora s tens de cumprir a tua parte, caso 
contrrio, vai em paz e nunca mais me incomodes.  preciso mais do que amor e ser bom 
na cama para se viver em sociedade. Em determinada altura, quer nos agrade, quer no, 
todos temos de crescer. Talvez tenha chegado essa altura para ti, mas quem tem de 
descobrir isso s tu. Volta para Londres, se  isso que queres, e quando te decidires a 
crescer d-me uma apitadela.
     Nessa noite no disseram mais nada um ao outro. Pela primeira vez desde que ele 
tinha chegado a sua casa, cada um ficou no seu lado da cama, mantendo a distncia 
entre os dois. Liam sentia-se profundamente magoado pelo que considerava ser 
deslealdade da parte dela e por tudo o que ela dissera, enquanto Sasha estava furiosa 
por causa da birra dele. Liam agira como uma criana mimada. Na manh seguinte, 
ambos se levantaram em silncio.
      Ele tomou duche, fez a barba e vestiu-se. Antes que Sasha sasse para o escritrio, 
fez a mala e ficou a olhar para ela no vestbulo da frente.
     - Amo-te, Sasha, mas no vou permitir que me controles nem que me digas o que 
devo fazer. Tenho demasiado respeito por mim prprio para deixar que isso acontea.
     - Eu tambm te amo e respeito. A srio que sim - retorquiu ela, falando com 
sinceridade -, quer como artista quer como homem. Embora no estivesse muito segura 
quanto ao respeito de que ele seria merecedor como pai, ainda no o conhecia 
suficientemente bem para poder ajuizar esse aspecto, alm de nunca o ter visto com os 
filhos, mas eram tantas as coisas de que gostava em Liam que cada vez se sentia mais 
apaixonada por ele. Contudo, no o suficiente para abdicar de toda a sua maneira de 
viver por ele. J era velha para isso. 
     Alm do mais, gostava da sua existncia tal como era. - Isto no tem nada a ver com 
controlo. Tem a ver, isso sim, com respeito mtuo. Se me respeitares, vem para o meu 
mundo, comea a viver conforme as regras e porta-te como um cavalheiro. Caso no 
queiras agir dessa forma, um direito que te assiste, ento no te queixes se eu conviver 
sozinha com as pessoas que fazem parte desse mundo. No podes ter as duas coisas. 
No podes impor o Farei o que me der na veneta num mundo de gente civilizada, Liam. 
J no tens idade para isso. Nem sequer s crianas se permite que se comportem 
assim.
     - Nunca abdicarei da minha maneira de ser. E se me amas, ters de aceitar isso e 
estar disposta a levar-me a toda a parte tal como sou.
     - No posso. No posso fazer uma coisa dessas a mim mesma, nem aos meus 
filhos, do mesmo modo que no posso arriscar a reputao que cimentei ao longo de 
todos estes anos. No posso permitir que me obrigues a fazer figuras ridculas em 
pblico, Liam. - E sabia de antemo que era isso que ele faria. Tinha ouvido Xavier falar 
de muitas das faanhas dele, embora nunca tivesse presenciado nenhuma. Porm, o 
episdio em que a interrompera durante uma reunio na galeria era suficiente para ela. 
Ao que acrescia a birra da vspera. 
     Sasha sentia-se deveras preocupada. -J  bastante mau que eu seja quase dez 
anos mais velha do que tu. Sei que no  muito, mas a mim parece-me uma diferena 
enorme, principalmente devido ao teu comportamento e ideias, o que, por si s, j far 
com que muitas pessoas fiquem chocadas, portanto, no me peas que te leve aos 
lugares mais requintados para depois te arrogares o direito de agir como um artista louco, 
nica e exclusivamente para marcares uma posio. Na minha opinio, isso no 
demonstra amor nem respeito
     por mim nem pela minha maneira de ser. Sabias quem eu era e como vivia. Disseste 
que podias lidar bem com a situao, e acreditei em ti. Mas agora no ests disposto a 
cumprir o que disseste, s queres fazer o que te der na cabea no mundo em que vivo, 
mas no podes. Tal como eu no posso. Ningum pode! 
     Todos temos de saber como nos comportar e andar na linha. Espero que acabes por 
reconhecer que no ests a proceder bem, porque eu amo-te e quero ficar contigo. O que 
ests a fazer no  justo para comigo. O facto de estarem a ter aquela conversa, ou 
discusso, era algo que lhe inspirava receio. Quem era realmente aquele homem? E por 
que razo a liberdade plena era to vital para ele, ainda que  custa dela?
     - Eu  que estou a ser lixado em toda esta situao, alm de desrespeitado - 
contraps ele, quase a fazer beicinho. - Tu queres ser a nica a dar ordens!
     - A nica ordem que quero dar  pedir-te que cresas, que procedas de maneira 
civilizada, ou ento que me deixes cumprir as minhas obrigaes, enquanto tu te divertes 
com os teus amigos. Podes ser to revoltante quanto quiseres, mas, se for esse o caso, 
ento no estejas  espera de poder acompanhar-me e que eu te exiba perante as 
pessoas que conheo. Se tencionas continuar a proceder de modo ultrajante ters de ficar 
em casa comigo e agir assim em privado, nunca em pblico.
     - Recuso-me a ser o teu segredo escabroso, Sasha. Se  isso que pretendes, ento 
procura outro homem. Ou te decides a levar-me contigo e apresentares-me aos outros, tal 
como eu sou, ou est tudo acabado entre ns.
     - Sendo assim, deduzo que seja esse o caso, pelo menos para j. Pensa no 
assunto, Liam. S espero que acabes por ver a razo quando voltares para Londres. Se o 
que eu te disse comear a fazer sentido para ti, podes telefonar-me. - Ele olhou para ela, 
fez um acenar de cabea e, sem sequer se deter para a beijar, pegou no saco de viagem, 
passou por ela e saiu, batendo com a porta.
     Depois de ele ter partido, Sasha sentou-se, reflectindo sobre tudo o que se passara. 
Amava-o, mas no ao ponto de virar a sua vida de pernas para o ar por causa dele, 
abdicando da sua personalidade. J era tarde de mais para mudar a sua maneira de ser 
fosse por quem fosse. Nem sequer por Liam. Tinha noo de que estava apaixonada por 
ele, mas no o suficiente para uma mudana to radical. 
     
                                                       CAPTULO 9
     
     A princpio, os dias que se seguiram  partida de Liam pareciam que se arrastavam. 
Durante a sua curta estada em Paris, Sasha acostumara-se a estar com ele, a falar com 
ele, a comer com ele, a fazer amor com ele. At mesmo Bernard comentou quando ele 
deixou de aparecer, perguntando se ainda estava na cidade. Sasha respondeu-lhe que j 
tinha voltado para Londres.
     -  um rapaz muito simptico, mas deve ter sido difcil para ti t-lo em tua casa 
durante tanto tempo.
     Liam ficara com ela dez dias e Sasha havia adorado cada momento at aos ltimos 
dias, altura em que tinham comeado a discutir. Tambm se admirou por Bernard se 
referir a ele utilizando o termo rapaz. Essa era a essncia do problema por que estava a 
passar com Liam: ele era um rapaz e no um homem, comportando-se como um garoto. 
Em certas ocasies agia em consonncia com a sua idade, enquanto noutras procedia 
como um adolescente insubordinado.
      Sasha esperava mais dele, uma vez que tinha quase quarenta anos. Na verdade, 
Liam era uma espcie de Peter Pan. Inicialmente, pensou que Bernard estava a ser 
sarcstico com os seus comentrios, sentindo-se curioso quanto  natureza da relao 
que existiria entre os dois, mas depois concluiu que ele estava a ser sincero quanto ao 
que dissera sobre o seu convidado: pensava que Sasha tinha muito bom feitio por o ter 
deixado ficar em sua casa durante tanto tempo.
      Aparentemente, o seu segredo continuava em segurana. Jamais teria passado 
pela cabea de Bernard que Sasha andasse com Liam. Mas, de qualquer modo, ao que 
tudo indicava, a relao chegara ao fim. Sentou-se  espera que o telefone tocasse  
noite depois da partida de Liam para Londres. Mas no tocou. 
     Ele no lhe telefonou, exemplo que ela seguiu. Tinham chegado a um impasse por 
causa das exigncias ridculas e do comportamento infantil dele. Sasha no esperara que 
a relao entre os dois durasse para sempre, mas pensara que durasse mais algum 
tempo. No valia a pena telefonar-lhe, uma vez que ele deixara bem claro quais as suas 
condies: ou Sasha o apresentava s pessoas com quem convivia em sociedade, fosse 
apropriado ou no e no obstante o procedimento dele, ou a relao estava acabada.
     As condies que impusera eram-lhe impossveis de aceitar, quer estivesse 
apaixonada por ele quer no. No estava disposta a assumir qualquer compromisso para 
alm do que lhe dissera antes de ele abandonar Paris. No final do ms, Sasha deixou de 
esperar que o telefone tocasse. Sabia que ele desaparecera da sua vida. E enquanto 
Liam, em Londres, esperava que ela entrasse em contacto consigo, pensava 
precisamente a mesma coisa. 
     No espao de escassas semanas, ao invs de anos, cada um fora para seu lado. 
Sasha estivera certa desde o dia em que se haviam conhecido: era uma relao 
impossvel. Disse para consigo que era melhor assim, lidar com a situao logo de 
princpio do que mais tarde, todavia, enquanto aguardava o telefonema que nunca 
chegou, no conseguia impedir-se de se sentir triste. Por muito infantil que ele por vezes 
fosse, possua uma faceta assaz atraente que fazia com que sentisse profundamente a 
sua falta.
     Sasha precisou de dois meses para conseguir ter alguma paz de esprito, mas, 
apesar disso, continuou a sentir-se triste por ele ter desaparecido da sua vida, e no havia 
ningum com quem pudesse partilhar o seu pesar. Ningum chegara a ter conhecimento 
da relao entre os dois, logo, no podia procurar conselho ou conforto junto de quem 
quer que fosse. No podia deixar transparecer quanto sentia a sua falta, sendo-lhe 
impossvel falar com algum a respeito dele. 
     Era forada a limitar-se a aceitar o facto de que ele sara da sua vida. Tinha bem 
noo de que a relao entre os dois jamais teria resultado. Liam era demasiado imaturo, 
tinha um feitio difcil e era excessivamente irracional, determinado a no crescer. Provara 
bem isso quando se haviam zangado, antes de partir para Londres.
     Entretanto Sasha viajou para Nova Iorque em Fevereiro e Maro; em ambas as 
ocasies deparou com um nevo batido pelo vento. Tatiana adorava o seu novo emprego. 
Quanto s duas galerias, iam de vento em popa. Estava a planear ir a Londres em Abril 
para fazer uma visita a Xavier, tendo comeado a preparar-se, porque sabia que Liam 
andaria por perto. S esperava no se cruzar com ele quando estivesse com o filho, mas 
no podia dizer a Xavier que o evitassem, uma vez que correria o risco de revelar o seu 
segredo.
     Pouco antes de partir para Londres, em Abril, Eugnie informou-a de que haviam 
recebido uma mensagem de Liam por correio electrnico. Havia acabado vrios quadros 
e achava que Sasha devia ir v-los. Tinha-se oferecido para enviar diapositivos, mas 
queria que a sua negociante de arte os visse pessoalmente. Tambm dizia nessa 
mensagem que eram os seus melhores trabalhos.
     - Oh... - recordou-se Eugnie quando falava com Sasha sobre o assunto, j no fim 
de um dia estafante -, ele tambm lhe enviou os seus melhores cumprimentos e espera 
que esteja bem. - De facto, Sasha estava bem. Ao fim de mais de dois meses de silncio 
da parte dele, sentia-se muito melhor do que em Fevereiro, embora continuasse irritada 
com ele. Parecia-lhe estpido que lhe enviasse os seus melhores cumprimentos.
      Os seus melhores qu? Ela j tivera oportunidade de ver o melhor e o pior dele! 
Embora tivesse acreditado que estava apaixonada por ele, Liam conseguira desiludi-la 
profundamente com o seu procedimento. Portara-se de maneira inacreditvel, demasiado 
infantil, com ela, e Sasha estava farta de artistas mimados, os quais no eram assim to 
novos, mas fingiam ser, e continuavam a comportar-se como adolescentes, apesar de j 
terem entrado na meia-idade. 
     Com trinta e nove anos, na sua opinio, Liam j no tinha idade para proceder 
daquele modo. Apesar de tudo, continuava a sentir-se magoada por ele nunca mais ter 
dado notcias, mas era demasiado orgulhosa para lhe telefonar.
     Comunicou a Eugnie que nessa noite ia a um jantar de festa. Enquanto se vestia, o 
compromisso f-la recordar o deSaguisado que tivera com Liam. Partiria para Londres no 
dia Seguinte para visitar Xavier, mas ainda no decidira o que fazer em relao a Liam e 
aos seus novos trabalhos, que precisava de ver. Era certo que o representava, mas no 
estava com pressa nenhuma de voltar a encontrar-se com ele. Liam dera origem a uma 
situao bastante constrangedora para ela, na realidade, para ambos. Sentia-se satisfeita 
por no o ter apresentado nos crculos sociais que frequentava. Nesta altura, a sua 
ausncia teria sido difcil de justificar.
     O jantar de festa a que ia nessa noite era oferecido pelo embaixador norte-
americano em Paris. Este convidara vrios negociantes de arte e artistas importantes, um 
escritor norte-americano que estava de passagem por Paris, e houve algum que lhe 
disse que um actor famoso tambm devia comparecer. Parecia-lhe que os convivas eram 
muito diversos e no estava com disposio para confraternizar com um grupo to 
heterogneo. Por razes que eram apenas do seu conhecimento e de Liam, nos ltimos 
dois meses Sasha havia andado muito irritadia e com falta de pacincia para com todos, 
se bem que ultimamente o seu estado de esprito tivesse melhorado um pouco.
     Optou por um vestido de renda preta para o jantar de festa na residncia do 
embaixador e, como sempre, penteou o cabelo de modo a prend-lo num carrapito. 
Calou uns sapatos de salto alto novos muito elegantes, embora se perguntasse, durante 
grande parte do tempo, por que razo se dava a tal incmodo. No sara com nenhum 
homem, mas tambm no queria, desde que tivera aquela relao apaixonada, fatdica e 
breve com Liam. 
     Sempre soubera que tal relao estava condenada, e sentia que fora uma estupidez 
da sua parte ter permitido que ele a convencesse a tentar. Porm, nos momentos em que 
estava a ss com os seus pensamentos, admitia que ela prpria quisera que isso 
acontecesse, tanto quanto ele dissera querer, e, bem no ntimo, albergara a esperana de 
que a relao resultasse. Era uma pena que tal no tivesse acontecido. Ele era um pintor 
talentoso, mas um homem imaturo. Agora, para Sasha, no era surpresa que Beth o 
tivesse deixado e levado os filhos consigo. Ter estado casada com ele devia ter sido um 
autntico pesadelo.
     Sasha obrigou-se a expuls-lo dos seus pensamentos, tal como vinha a fazer havia 
dois meses, quando nessa noite entrou na residncia do embaixador. Com excepo de 
uma estrela de msica rock e dois actores, conhecia todos os presentes. Muito  sua 
maneira, Paris era como uma aldeia, o que, alis, acontecia em relao ao resto do 
mundo hoje em dia.
      mesa do jantar, ficou ao lado de um dos actores, o qual estava to embrenhado 
em si prprio que mal lhe dirigiu a palavra; mostrava-se muito mais interessado na mulher 
sentada  sua direita, que era casada com um produtor de Hollywood. Estava demasiado 
ocupado a tentar agradar-lhe, o que fazia havia mais de uma hora, quando a ateno de 
Sasha recaiu no indivduo sentado  sua esquerda. Sabia que j o tinha visto algures, e 
ento recordou-se de quem ele era. Em tempos fora considerado o homem prodgio de 
Wall Street, mas entretanto j se aposentara. Tinha sido Arthur quem lho apresentara por 
ocasio de uma festa nos Hamptons e, para sua grande surpresa, recordava-se dela.
     - Deve ter sido h j uns dez anos - disse Sasha, mostrando-se admirada. Ele era 
mais ou menos da idade de Arthur, que, se fosse vivo, teria cinquenta e nove anos. 
Falecera havia ano e meio.
     
     
     - Fiquei muito impressionado quando a conheci, e j estive vrias vezes na sua 
galeria - disse ele, sorrindo, e Sasha reparou que, apesar da idade, era um homem muito 
bem-parecido. J no se recordava se era vivo ou divorciado, e nesta altura era possvel 
que tivesse voltado a casar, ou talvez no...
     - Est a referir-se  galeria de Nova Iorque? - perguntou Sasha, para dar 
continuidade ao dilogo. No que estivesse particularmente interessada no ex-prodgio de 
Wall Street, mas era fcil conversar com ele, muito mais fcil do que com o actor  sua 
direita, o qual a ignorara completamente, uma vez que no havia nada que ela pudesse 
fazer pela carreira dele.
     - No, estava a falar da galeria de c - explicou o seu companheiro de jantar. - 
Actualmente vivo em Paris. Chamava-se Phillip Henshaw e Sasha sentia uma curiosidade 
enorme por saber o que o teria levado a mudar-se para Paris. Aposentara-se ainda 
bastante novo, tal como Arthur esperara poder fazer. - As minhas duas filhas casaram 
com franceses e mudaram-se para c. Quando a minha mulher faleceu, decidi que estava 
a precisar de me ausentar de Nova Iorque durante algum tempo. 
     J vivo em Paris h cinco anos, e estou a adorar. - Sasha reparou que falava com o 
sotaque arrastado e suave caracterstico do Sul dos Estados Unidos da Amrica; pouco 
depois ficou a saber que nascera no estado de Louisiana. Ele e o embaixador haviam sido 
colegas na Universidade da Virgnia; a mulher do embaixador era oriunda da Gergia. 
Phillip acrescentou que possua uma vivenda na Provena e um apartamento em 
Londres. Conseguia ir a cada um deles uma vez por ms.
     - Amanh parto para Londres para visitar o meu filho e falar com alguns pintores - 
adiantou Sasha, sorrindo afavelmente.
     - Tambm eu, quero dizer, amanh tambm vou para Londres - retorquiu ele, 
retribuindo o sorriso. Depois comentou que lamentara muito a morte de Arthur. - No  
nada fcil ficarmos sozinhos na nossa idade, quando se teve um casamento feliz. - 
Tocou-lhe bem fundo no corao ao dizer isto.
     - Foi por esse motivo que decidi mudar-me para Paris. Depois de o Arthur ter 
falecido, para mim era demasiado deprimente continuar a viver em Nova Iorque - 
confessou Sasha.
     - Ainda tem a casa nos Hamptons? - perguntou ele. Era evidente que tambm se 
recordava desse pormenor.
     - Nunca mais l fui... - respondeu Sasha com um suspiro e um acenar de cabea. - 
Todos aqueles lugares familiares de que tanto gostvamos agora causam-me muita 
tristeza. - Conversaram sobre Nova Iorque durante algum tempo, muitos amigos comuns. 
O mais agradvel em conversar com ele sobre a sua vida anterior era conseguir manter 
Liam afastado do pensamento. Havia dois meses que ele lhe perturbava o esprito 
constantemente. Sentia-se irada e decepcionada devido ao desfecho da situao e 
frustrada pela maneira como a relao havia terminado, em silncio. 
     Pior ainda; agora tinha de pr o assunto para trs das costas, agindo de modo 
imparcial, na qualidade de negociante dos seus trabalhos. Ter-se envolvido com ele havia 
sido um erro maior do que receara. Contudo no estava devastada, como ficara aquando 
da morte de Arthur; sentia-se apenas triste e decepcionada e, finalmente, conseguira 
adoptar uma atitude filosfica em relao ao assunto.
     Ficou surpreendida, quando j saa da residncia do embaixador, por Phillip 
Henshaw lhe ter perguntado se gostaria de jantar com ele no dia seguinte em Londres. 
Sasha pensou para consigo prpria que talvez conseguisse vender-lhe algumas peas de 
arte para as suas casas.
     - Com todo o prazer - anuiu Sasha. Ele sugeriu o Marks Club, um restaurante de 
que ela e Arthur sempre haviam gostado; outro estabelecimento propriedade do mesmo 
homem que abrira o Annabels e o Harrys Bar. Phillip ofereceu-se para a levar a casa, o 
que ela agradeceu, mas disse-lhe que tinha vindo num automvel com motorista. 
     No gostava de conduzir  noite quando se vestia a rigor para ir a festas. Ele 
acompanhou-a at ao carro, dizendo-lhe que iria busc-la ao Claridges no dia seguinte, 
s dezanove horas. A caminho de casa, Sasha foi a pensar nele. No havia nada de 
empolgante em Phillip, mas, pelo menos, era inteligente, corts e de trato fcil. Alm do 
mais, talvez fosse agradvel jantar com um amigo em Londres. No sabia quais eram os 
planos de Xavier, mas estava a pensar em passar a tarde com o filho e, se ele no tivesse 
nenhum compromisso, jantar com ele na noite seguinte. 
     Ainda tinha de decidir o que faria quanto  questo de poder cruzar-se 
acidentalmente com Liam. Talvez nada... Era possvel que pedisse a Bernard que 
apanhasse o avio para Londres, a fim de se encontrar com ele, se bem que o gerente da 
galeria decerto estranharia que no tivesse sido Sasha a falar com ele, particularmente 
depois de Liam ter ficado hospedado em casa dela durante a sua estada em Paris. Iria ser 
algo difcil de explicar. Graas a Liam, tudo na situao dos dois era estranho.
     s nove horas da manh seguinte, Sasha apanhou o avio no L Bourget e, devido 
 diferena horria de uma hora e ao voo de curta distncia, chegou a Londres 
precisamente  mesma hora a que partiu de Paris, nove horas. s dez e meia j estava 
instalada na sute do Claridges em que ficava habitualmente. Ligou a Xavier, tendo 
combinado ir ter com o filho para almoarem, aps o que saiu para se encontrar com dois 
dos seus artistas.
     Chegou pontualmente s treze horas para almoar com Xavier no restaurante que 
ele sugerira, mas quando se dirigiu para o jardim, onde ele j se encontrava  sua espera, 
ficou chocada ao ver que estava acompanhado de Liam. No lhe serviu de grande 
consolao ver que ele ficou to constrangido quanto ela. Aparentemente, veio a saber 
mais tarde, Liam passara a manh no estdio de Xavier, pelo que o filho no conseguiu 
arranjar uma desculpa aceitvel para no o levar, uma vez que Sasha era quem 
negociava os trabalhos dele. Xavier gostava de Liam, embora lamentasse no ter podido 
passar algum tempo sozinho com a me. Adorava conversar com ela!
     - Ol, Liam - saudou cautelosamente quando ele se ps de p para a cumprimentar. 
Para Sasha, ser obrigada a almoar com ele parecia um pesadelo. Era a primeira vez que 
o via desde que sara, furioso, de sua casa, em Paris. Como de costume, vestia uma das 
suas indumentrias excntricas, ainda que sensuais: camisola de algodo, casaco de 
cabedal, bon de pala e umas calas muito em voga com manchas de tinta; calava uns 
tnis vermelhos de cano alto. 
     A despeito de continuar extremamente irritada com ele, era forada a admitir que, 
como sempre, tinha uma aparncia irresistvel. E o rabo-de-cavalo louro crescera mais, o 
correspondente a dois meses.
     - Como est, Sasha? - perguntou, virando-se finalmente para ela, mostrando algum 
mal-estar. At ao momento, havia sido Xavier quem tentara fazer conversa, sentindo-se 
surpreendido ao constatar que existia alguma tenso entre os dois. Anteriormente, tinha 
ficado com a impresso de que existia uma relao de grande cordialidade entre ambos. 
No entanto, de sbito deu-se conta de que Liam, nos ltimos tempos, no mencionara o 
nome de Sasha.
     - Por acaso vocs dois tiveram alguma diferena de opinio artstica? - perguntou 
Xavier por fim com uma expresso divertida. Conhecia os dois muito bem, sabendo que 
ambos tinham convices bastante fortes. A tenso entre eles era evidente e o ambiente 
estava de cortar  faca.
     - Sim - confirmou Liam com uma expresso de tristeza e irritao.
     - De maneira nenhuma - adiantou Sasha com amabilidade precisamente no mesmo 
momento. Em que  que ficamos, sim ou no? - insistiu Xavier. Ria-se, enquanto Liam se 
agitava na cadeira e a me mostrava frieza.
     
     - Ela no quis levar-me a uma festa em Paris quando estive l em casa. Achei que 
era muito indelicado da parte da tua me, uma vez que eu era seu convidado, - Era uma 
maneira de explicar a situao, concluiu Sasha. A ltima coisa que desejava era que 
Xavier fosse apanhado no meio daquilo, muito em especial porque sabia apenas metade 
da histria, e ela no tencionava p-lo ao corrente do resto. Ficou satisfeita ao constatar 
que Liam no partilhara com o amigo o caso da curta relao entre os dois, uma vez que 
Xavier parecia no saber absolutamente nada sobre o sucedido. Desconhecia o assunto 
por completo.
     - O que  que tinhas vestido quando ela se recusou a levar-te a essa festa? - 
perguntou Xavier casualmente, enquanto negociante e artista, h bem pouco tempo 
amantes, trocavam olhares de ressentimento. Era evidente que Liam continuava furioso 
com ela.
     - No sei bem... o costume... Que diferena  que isso faz? - perguntou Liam com 
cara de poucos amigos, enquanto Sasha observava os dois, mantendo-se em silncio.
     - Faz uma grande diferena, tendo em conta o gnero de festas a que ela costuma 
ir. Se queres saber o que penso, acho que foi por essa razo que no te levou. - Xavier 
falava como se a me no estivesse presente. Sasha continuava sem dizer nada. - Ela 
tambm no me leva. As pessoas que conhece so insuportavelmente formais e 
enfadonhas. Desculpe, me. - Xavier olhou para a me de relance com uma expresso 
contrita, e ela acenou com a cabea. Desde o princpio ela prpria dissera a mesma coisa 
a Liam.
     - Foi isso mesmo que eu lhe disse - interps Sasha. Expliquei-lhe que no podia 
fazer a cena do pintor louco com aquele tipo de pessoas, mas ele respondeu-me que eu 
no podia control-lo...
     - E provavelmente no pode - retorquiu Xavier com sensatez; depois olhou para 
Liam. - Que cena  essa do pintor louco? Se gostas de proceder desse modo, por que 
razo havias de querer ir a festas dessas? Eu at pagava  minha me para no me 
levar... Odeio esse tipo de coisas!
     - Tambm eu. S que no quero ser deixado em casa como se fosse um garoto de 
quatro anos, nem que me digam como me devo comportar.
     - Que diferena faria ela levar-te a essa festa ou no? Tu s um dos artistas com 
quem trabalha, Liam, no s o marido dela. O meu pai tambm no gostava de ir a esse 
gnero de festas; costumava dizer que a maior parte dos clientes importantes o 
aborreciam de morte. Sempre que podia, furtava-se a ir s festas. - Sasha sorriu ao ouvir 
o comentrio do filho, enquanto Liam mostrava uma expresso pensativa.
     - At pareces um apaixonado ciumento... - acrescentou Xavier em tom de censura, 
continuando sem compreender o que se passara entre os dois, pelo que Sasha se sentia 
profundamente agradecida.
     - Ou um mido mimado e birrento - adiantou Sasha.
     - Eu disse-lhe que no nos podamos comportar de forma grosseira quando amos a 
festas desse gnero. Ele ripostou que se portaria como muito bem lhe apetecesse. Fim da 
histria. - E fim do romance. 
     Mas graas a Deus Xavier no estava a par disso. Tendo em conta o que Liam dizia, 
Sasha estava espantada por o filho ainda no ter desconfiado de nada.  claro que nunca 
lhe passara pela cabea que o amigo pudesse ir para a cama com a me... Sasha 
interrompeu os seus pensamentos, voltando-se para Liam e lembrando-lhe o que lhe 
dissera havia dois meses: - Sempre que queira vestir-se e agir como uma pessoa adulta, 
pode acompanhar-me onde quer que eu v, mas entretanto... - A sua voz sumiu-se ao ver 
Liam revirar os olhos.
     - At parece o meu pai a falar! - retrucou, voltando a encolerizar-se com ela, o que 
deixou Xavier surpreendido.
      A me tinha razo; Liam estava a proceder de uma maneira infantil, como uma 
criana embirrante, e embora nem sempre desse razo  me, desta vez sentia que tinha 
de o fazer.
     - Sim, mas nessa altura eras apenas um mido - recordou-lhe Xavier -, agora s um 
homem feito, acabaste de fazer quarenta anos. Porra, isso  ser muito velho!... - 
interrompeu-se, olhando de fugida para Sasha. - Peo desculpa, me.
     - No tem importncia. No  ser velho, mas  idade suficiente para no se ter birras 
por causa de uma festa.
     - O meu pai e os meus irmos nunca me levavam a lugar nenhum. O meu pai dizia 
que eu era uma aberrao e os meus irmos que eu era excntrico. Sempre me senti 
como um proscrito. Foi por isso que sa de So Francisco. Fartei-me daquela vida. Nunca 
mais permitirei que algum me volte a tratar daquela maneira!
     - Provavelmente eras excntrico - disse Xavier, que parecia divertido. Porm, ao 
olhar para Liam e vendo a expresso nos olhos dele, Sasha, subitamente, condoeu-se. 
Era evidente que tocara em feridas profundas que lhe haviam ficado da infncia. Com a 
agravante de no ter tido uma me que o defendesse e protegesse da insensibilidade e 
crueldade do pai e dos irmos. 
     Sentiu um impulso quase irresistvel de o abraar, mas no podia faz-lo. - Por 
vezes, ainda s bastante excntrico - continuou Xavier. Liam sorriu. - Mas que raio, o que 
 que seria de esperar? Ao fim e ao cabo s um artista!... Eu tambm sou excntrico.  
um sinal de grandeza e talento. Gosto de ser excntrico, tal como tu. E ainda que me 
pagassem, ningum seria capaz de me convencer a ir a uma dessas festas!
     - Calculo que me tenha sentido posto  margem, mais nada. Foi como se tivesse 
voltado aos tempos de antigamente, quando era mido. Imagino que me tenha tocado 
num ponto sensvel. Estavam a dizer-me que no podia ir a um determinado lugar, a 
menos que me portasse como se fosse algum que no era. Talvez fossem recordaes 
antigas na minha cabea que me tenham deixado como louco, e no a tua me - explicou 
Liam, olhando para Sasha com ansiedade, desejando pedir-lhe desculpa, mas isso era 
impossvel. O olhar dos dois cruzou-se e manteve-se por longos momentos. E, 
miraculosamente, esse olhar passou despercebido a Xavier.
     - Merda, homem! Ao fim e ao cabo, eras apenas um convidado da casa. De qualquer 
maneira, o mais certo era ela no poder levar-te a essa festa!
     - No, no podia - confirmou Sasha. - A discusso foi mais sobre teoria e liberdade 
de comportamento.
     - E controlo - acrescentou Liam. - Quando as pessoas me falam dessa maneira, fico 
como louco. Quando era criana, fui sempre posto de lado, como se no fizesse parte da 
famlia, ou coisa assim, como se no fosse suficientemente bom para os acompanhar. 
Estavam sempre a tentar controlar-me para que me portasse como queriam, mas eu no 
conseguia. - Sasha apercebeu-se de que as coisas tinham ido mais longe do que isso. 
     O problema residia no facto de ter perdido o amor incondicional e a proteco da 
me quando tinha apenas sete anos. Era com essa pessoa que ela tratara naquela noite, 
um garoto de sete anos que perdera a me. Subitamente, aquilo explicou muitas coisas, 
entre as quais o comportamento imaturo que havia presenciado em Paris. Enquanto o 
ouvia falar, Sasha sentia uma grande ternura por Liam.
     - Muito bem; j estamos todos na mesma pgina? perguntou Xavier, concentrando-
se em Liam. -  bvio que tiveste um colapso psictico qualquer, um dj vul, ou algo 
desse gnero. A minha me vai a festas que so dadas pelas pessoas mais enfadonhas  
face do planeta e a que ningum no seu perfeito juzo deseja ir.
      E tu s um artista louco, portanto, no devias querer ir a esse tipo de eventos a que 
vo as pessoas com quem ela se d. A minha me  porreira, mas os enfatuados das 
relaes dela no so. As pessoas como ns tm de conviver umas com as outras e no 
com as que ela conhece ou com quem tem negcios, gente que asfixia o nosso talento. 
Continua a sair comigo e esquece as merdas muito refinadas dela. Acredita em mim, ias 
detestar! E agora, podemos relaxar e almoar? Vou  casa de banho. Vocs dois vejam 
se fazem as pazes, para que ela possa vender os teus quadros e no fique chateada 
contigo. Quando eu voltar, vamos passar uns momentos agradveis, como aconteceu a 
ltima vez que estivemos juntos; de acordo, crianas? - Ambos sorriram a Xavier; ele 
conseguira encontrar uma sada para aquele impasse que eles no haviam sido capazes 
de resolver em dois meses, apesar de no estar ao corrente de toda a histria. 
     - Muito obrigado. - Levantou-se da mesa, deixando-os a ss e dirigindo-se para a 
casa de banho. Liam olhava para ela. Continuava a am-la e, graas a Xavier, j no 
estava zangado. Agora que pensava melhor no assunto, compreendia que a questo no 
tivera nada a ver com ela. Tinham sido guas passadas, que se relacionavam mais com o 
pai e os irmos do que com Sasha. Ela tocara num ponto sensvel, o que dera origem a 
toda uma catarse de emoes que o deixara incapaz de ouvir a voz da razo, at Xavier 
ter traduzido a situao para ambos, dois meses mais tarde.
     - Peo desculpa, Sasha - disse Liam em voz baixa. Tenho sentido tanto a tua falta... 
s a mulher mais obstinada a face do planeta. No me telefonaste uma nica vez.
     - Tu tambm no me telefonaste, e tambm tive saudades tuas. Lamento tanto o 
que aconteceu... Nunca cheguei a entender o significado que a questo tinha para ti, nem 
porqu,
     Em francs no original; literalmente, j visto. (N. da T.)
     mas agora compreendo. No foi minha inteno magoar-te - retorquiu Sasha, 
estendendo a mo e tocando na dele.
     - No magoaste. eles que me magoaram. Eu confundi-te com eles durante uns 
instantes. - De facto, uns instantes muito longos; haviam decorrido mais de dois meses 
desde que ele partira de Paris. - Temos de nos encontrar para tomar um copo antes de 
deixares Londres - sugeriu Liam. Sasha concordou com um acenar de cabea quando 
Xavier j voltava para a mesa.
     - Estamos todos felizes outra vez?
     - Muito - respondeu Sasha com uma expresso radiante. - s um mediador 
excelente. Eu devia utilizar os teus servios com mais frequncia. - Viu que Liam lhe 
sorria quando se virou, olhando para ele.
     Pediram o almoo e os dois homens comearam a falar do seu trabalho, enquanto 
Sasha os ouvia. Nunca se sentia to feliz como quando conversava com artistas, 
especialmente aqueles dois. Depois do almoo, dirigiram-se para o estdio de Liam, a fim 
de verem as suas pinturas mais recentes. Eram ainda melhores do que os seus ltimos 
trabalhos. Quando os viu, Sasha brindou-o com um sorriso rasgado.
     - Meu Deus, Liam, so fantsticos! - Apercebia-se de que ele perscrutara bem no 
fundo da sua alma para poder produzir os trabalhos que via nas telas.
     - Fazes excelentes trabalhos quando ests chateado - comentou Xavier, divertido.
     - s vezes... - disse Liam, entristecido, o que Sasha notou. Quando passou por ele, 
apertou-lhe a mo furtivamente. - S estava chateado ao princpio, depois passei a sentir-
me infelicssimo. Verdade seja dita,  nessas ocasies que fao os meus melhores 
trabalhos. Odeio que seja assim, mas  o que acontece sempre - acrescentou, parecendo 
exausto enquanto olhava para as telas. Sem ela, passara dois meses de profunda 
solido.
     - Isso tambm se passa comigo - admitiu Xavier.
     - Quem me dera poder dizer que fui igualmente produtiva...
     - afirmou Sasha. Os dois ltimos meses haviam sido bastante penosos para ela, 
devido  ausncia de Liam. Agora s desejava poder estar sozinha com ele, mas ainda 
precisava de falar com outro artista. No entanto, sentia-se satisfeita por ter visto os 
trabalhos de Liam. Talvez, por enquanto, fosse prefervel para ambos que ela se limitasse 
a ser a pessoa que negociava os seus quadros.
      Era evidente que a sua breve relao resultara num desastre, mas, graas a Xavier, 
a guerra entre os dois, pelo menos, havia terminado.
     - O que  que tencionam fazer esta noite? - perguntou Liam quando Sasha se 
preparava para sair. Era bvio que estava com pressa.
     - Eu j tenho um compromisso - apressou-se ela a dizer, e Xavier declarou que j 
tinha planos. Uma das suas festas enfadonhas? - perguntou Liam a Sasha com uma 
expresso trocista.
     - No, um jantar muito calmo com um possvel cliente
     - replicou ela, apesar de no ser obrigada a dar-lhe explicaes. A guerra acabara, 
tal como o romance entre os dois. Com alguma sorte, a partir de agora seriam amigos.
     - E quanto a amanh? - insistiu Liam, que queria v-la de novo antes que ela 
partisse para Paris; face s circunstncias, era mais fcil para ambos encontrarem-se na 
presena de Xavier.
     - Eu estou livre - informou Xavier.
     - Eu tambm - secundou Sasha, apesar de ter desejado passar algum tempo a ss 
com o filho. Seria diferente se Liam se lhes juntasse.
     Este sugeriu que jantassem no seu pub preferido, e Xavier concordou 
imediatamente, enquanto Sasha mostrou alguma relutncia, mas, ao fim e ao cabo, 
depois de tudo o que ele dissera ao almoo, no queria ferir os seus sentimentos. Podia 
tomar o pequeno-almoo a ss com Xavier na manh seguinte, antes de voltar para Paris.
     Sasha ficou de os ir buscar na noite seguinte no seu automvel com motorista, 
embora no lhe agradasse muito passar a noite num pub barulhento. Fazia-o pelos dois, 
talvez um pouco mais por Liam. Quando saiu do estdio, sentia ternura por ele e vontade 
de o proteger.
     Esteve ocupada durante o resto da tarde, tendo tratado de alguns assuntos na New 
Bond Street antes de voltar para o hotel, apenas para mudar de roupa antes de Phillip a ir 
buscar para jantarem. Estava a escovar o cabelo, prendendo-o num carrapito, o seu 
penteado de sempre, quando Liam lhe telefonou.
     - Estou muito contente por nos termos encontrado hoje - disse ele num tom de 
tristeza. - O Xavier fez-nos um grande favor. Ou, pelo menos, a mim. Estou arrependido 
por me ter comportado daquele modo em Paris.
     - No tem importncia - replicou Sasha, segurando o cabelo ao alto com uma das 
mos e com o telefone na outra -, so coisas que acontecem. Quando hoje explicaste o 
que te sucedeu na infncia, senti-me francamente mal. Liam j lhe tinha falado do pai, 
mas, no sabia porqu, no estabelecera a relao entre uma coisa e outra. Aquilo de 
que Liam realmente necessitava era de uma me, mas a verdade  que ela no desejava 
ser uma figura maternal para ele. J tinha os seus prprios filhos. Talvez ele precisasse 
mais de carinho materno do que de um romance. 
     Porm, a diferena de idade entre os dois fazia que Sasha se sentisse ainda mais 
velha. Era possvel que na qualidade de negociante dos quadros dele, e no de amante, 
estivesse em posio de lhe dar aquilo de que ele precisava da parte dela.
     A maioria dos seus artistas precisava de uma me, esperando que ela 
representasse a figura materna. Parte do relacionamento que mantinha com eles era 
acalentar-lhes o ego. No a incomodava faz-lo, pelo menos em relao a Liam. Talvez 
isso o ajudasse. No que tivesse alguma coisa a lucrar com a situao, para alm da 
comisso que receberia pela venda dos quadros que ele pintasse. 
     A sua atraco inicial por ele no tinha desaparecido, e quando o via era como se 
fosse abalada por um choque elctrico, contudo, o que agora sentia era diferente. Os 
sentimentos que nutrira por ele haviam passado para outro plano, que, sob certos 
aspectos, parecia mais profundo. Sasha amava-o, mas agora era capaz de olhar para ele 
sem o desejo de lhe rasgar as roupas para o despir. 
     Ao longo dos ltimos dois meses, sublimara os seus sentimentos, e agora o que 
sentia por ele era mais compaixo do que qualquer outra coisa. Para si era melhor e mais 
saudvel do que o sentimento obsessivo que tivera em relao a ele no princpio desse 
Inverno, quando se haviam conhecido, apesar de sentir falta do que ambos haviam 
partilhado. Era como se os sentimentos que nutria por ele tivessem amadurecido, 
adquirindo um outro aspecto desde a ltima vez em que o vira. Sentia-se satisfeita por ser 
a negociante dos seus trabalhos e sua amiga, nada mais alm disso.
     - Ests feliz? - perguntou-lhe ele, fazendo-a sorrir perante tal questo.
     - Se ests a perguntar-me se existe outra pessoa, posso assegurar-te que no. 
Precisei de algum tempo para conseguir ultrapassar o que aconteceu. Fiquei bastante 
desiludida quando deixaste Paris. - Para ela havia sido particularmente difcil perd-lo, 
depois da morte de Arthur. - Mas consegui pr isso para trs das costas. So coisas que 
acontecem. Na verdade, nunca acreditei que a relao pudesse resultar entre ns, mas 
fiquei muito pesarosa ao constatar que tinha razo, que de facto no deu resultado.
     - Mas podia ter dado, se eu no tivesse perdido a cabea
     - retrucou Liam num tom de voz em que transparecia um grande constrangimento.
     - No perdeste a cabea, talvez tivesses razo. Foi bastante grosseiro da minha 
parte deixar-te para trs, tratando-te como se fosses um segredo que no queria que se 
soubesse. Simplesmente, no encontrei outra maneira de lidar com a situao.
     - To-pouco eu. Agora o assunto no parece ter a importncia que lhe demos, mas 
na altura tinha. Tambm foi o que aconteceu comigo. Estou satisfeita por o Xavier ter 
desbloqueado a situao.
     - Ele  um rapaz fantstico, Sasha.
     - Sei que sim, e sinto-me muito afortunada por isso. -
     Mas ento viu as horas. Phillip chegaria dentro de dez minutos e ainda tinha de 
acabar de se pentear e de se maquilhar.
     - Detesto ter de fazer isto, mas preciso de me despachar. Vm-me buscar daqui a 
dez minutos.Porque ser que penso que tens um encontro e no um jantar com um 
cliente? - De facto a situao era uma combinao das duas coisas, mas era assunto que 
deixara de dizer respeito a Liam e que jamais voltaria a ser da sua conta. Talvez estejas a 
ser paranico - retorquiu Sasha na brincadeira. - Vai pintar qualquer coisa. Encontramo-
nos amanh.
     - Desejo-te uma noite bem passada - disse ele, e, por breves momentos, Sasha 
sentiu alguma da excitao de antes, mas agora era capaz de lhe resistir. Desde ento j 
passara tempo suficiente, alm de ter comeado a pensar mais racionalmente.
     - Obrigada, Liam.
     Depois de ter desligado, andou numa grande actividade pelo quarto, esforando-se 
por no pensar nele. Quando Phillip lhe ligou do trio do hotel, j estava pronta. Para sua 
grande surpresa, a sada dos dois foi perfeita. Ele comportou-se como devia ser num 
primeiro encontro: foi educado, corts, interessante, inteligente e divertido. Era um 
homem extremamente simptico e uma excelente companhia. Tivera uma carreira muito 
interessante, adorava viajar e tinha amigos em vrios lugares. 
     Alm disso jogava tnis e golfe, lia vorazmente, tinha um interesse srio por arte e 
era, obviamente, muito apegado s filhas e aos netos. Sasha no sentia grande atraco 
por ele, apesar de tantos predicados, mas tal no impediu que tivesse passado umas 
horas deveras agradveis. Porm, constatou com alvio no sentir nada do que sentira 
por Liam. O que a presena de Phillip lhe proporcionou foi bem-estar e paz de esprito. 
Nem sequer estava interessada em vender-lhe um quadro ou no.
     Jantaram no Marks Club e mais tarde ele levou-a ao Annabels. Pouco depois da 
meia-noite j se encontrava no hotel e tudo estava em ordem. Ele dissera-lhe que no dia 
seguinte partiria para a Holanda, a fim de ver um barco  vela que encomendara, 
acrescentando que lhe telefonaria assim que regressasse a Paris. 
     Sasha sentia-se deleitada por poder estar com algum inteligente e de trato 
agradvel. Era muito diferente da excitao e tortura por que passara com Liam. Dormiu 
placidamente toda a noite e no dia seguinte falou com um dos seus pintores, visitou duas 
galerias e depois foi s compras. Voltou para o hotel a tempo de mudar de roupa, 
vestindo umas calas de ganga para se encontrar com Xavier e Liam. Sentia-se como se 
estivesse a sair com os seus dois filhos. O pub que Liam escolhera era to barulhento e 
estava to  cunha quanto ela receara; mal conseguiam ouvir-se uns aos outros enquanto 
conversavam, aos gritos, sentados  mesa do jantar.
      Em seguida foram para o bar, onde Xavier namoriscou vrias mulheres, enquanto 
Liam tentava entabular uma conversa inteligente com Sasha. Esta estava desejosa que a 
noite chegasse ao fim, mas, em vez disso, parecia eternizar-se. Para ela era estranho 
estar ali com Liam. As mulheres que se encontravam no bar, e que no ocultavam a 
luxria que ele lhes inspirava, tinham vinte e poucos anos. Olhando para elas e para ele, 
Sasha sentia-se deslocada, no queria estar ali. 
     Dez minutos depois, disse aos dois que estava com uma dor de cabea atroz e 
deixou-os no bar a beber, todos satisfeitos. Nenhum dos dois estava embriagado quando 
saiu, mas desconfiava que, mais cedo ou mais tarde, haveriam de se embebedar. Foi 
uma noite muito diferente da anterior, em que sara com Phillip. Em contraste com a 
civilidade e cortesia dele, aquela noite pontuara-se pela confuso, barulho e caos. 
Enquanto seguia sozinha no automvel a caminho do hotel, apercebeu-se de que a noite, 
e a maneira como a haviam passado, a entristecera e a fizera sentir-se envelhecida. No 
sabia dizer porqu, mas ver Liam deixara-a deprimida. 
     Era o preo que teria de pagar pela sua loucura quando decidira envolver-se com 
ele. Agora, quando o via, no conseguia evitar recordar-se do que acontecera e da razo 
por que a relao acabara. Liam no era uma opo para ela. Nunca teria resultado.
     Sentiu-se aliviada por poder voltar para o hotel e mudar de roupa. Vestiu a camisa 
de noite e deitou-se na cama, desfrutando o silncio enquanto pensava nele. Agora, ao 
pensar que Liam em tempos lhe pertencera, causava-lhe estranheza; ele passara a estar 
disponvel para todas aquelas mulheres, jovens, excitantes e atraentes. Sasha acreditava, 
como sempre havia dito, que ele devia andar com mulheres que tivessem mais ou menos 
a sua idade, logo, mais novas do que ela. A nica coisa que no sabia, e talvez nunca 
viesse a saber, era a quem  que ela prpria pertenceria. Talvez a ningum. Actualmente 
sentia-se desenquadrada e muito s onde quer que estivesse, no mundo de Liam ou no 
seu.
     s vinte e trs horas desligou as luzes; estava a dormir profundamente quando o 
telefone tocou. Durante uns momentos no teve conscincia do lugar em que se 
encontrava, mas ento lembrou-se. A voz que lhe falava do outro lado da linha era 
profunda e familiar.
     - Estou c em baixo, no trio - foi o que ele comeou por dizer.
     - Quem fala?
     - Liam.
     - Eu j estava a dormir...
     - Como  que ests da dor de cabea?
     - Acho que estou melhor - respondeu Sasha, que no lhe queria dizer que no tinha 
tido dor de cabea nenhuma.
     - Preciso de falar contigo - continuou ele, parecendo ansioso.
     - Telefono-te amanh. - Sasha no queria v-lo; isso s serviria para a entristecer 
ainda mais. Nessa noite deixara-o no mundo a que ele pertencia, no pub, na companhia 
de todas aquelas mulheres extremamente jovens.
     - No quero esperar at amanh. Por favor, Sasha... deixa-me subir para te ver.
     - No me parece que seja boa ideia - retorquiu ela, ja completamente acordada. - As 
coisas esto como deve ser. Voltmos a ser amigos. 
     No devemos estragar tudo a discutir o que correu mal e porqu. Tu ests feliz, eu 
tambm. No precisamos de reviver o que j l vai.
     - Eu no quero voltar a abordar o assunto, s quero ver-te.
     - Estou com o mesmo aspecto que tinha h duas horas, com a diferena de que 
estou de camisa de noite em vez de calas de ganga.
     - Por favor... sei que amanh de manh te vais embora - acrescentou ele numa voz 
que deixava adivinhar tristeza.
     - Telefono-te quando chegar a Paris - retorquiu Sasha com firmeza.
     - No quero falar contigo quando estiveres em Paris. Ests aqui, agora. Quero ver-
te!
     - Ests bbedo? - perguntou ela, preocupada.
     - No, mas ficarei se te recusares a encontrares-te comigo - respondeu ele, rindo-
se.Sasha suspirou, ficando a pensar naquilo. No havia uma s razo que justificasse 
concordar em v-lo, e vrias que aconselhavam o contrrio. Continuava a sentir-se 
atrada por ele e no queria que acontecesse uma loucura.
     - Merda!... Est bem, podes subir, mas aviso-te que, se fizeres alguma estupidez, 
chamo a segurana do hotel para que te expulsem!
     - No farei nada de estpido. Prometo.
     Sasha levantou-se, vestiu o roupo e encaminhou-se para a sala de estar da sute. 
Liam chegou antes que tivesse tido tempo de apertar o cinto do roupo de banho. Bateu 
uma vez. Sasha abriu a porta e olhou para ele. Ali estava, alto, magro e msculo, e as 
emoes adormecidas manifestaram-se nas suas entranhas, mas procurou ignor-las. 
Recuou, afastando-se da porta, e com uma expresso sonolenta acenou-lhe para que 
entrasse.
     - Peo desculpa... No sei porqu, Sasha... mas tinha de te ver.
     - Pois bem, agora j me viste - retorquiu ela, sorrindo-lhe e sentando-se numa 
poltrona. Liam abeirou-se dela, ajoelhou-se e enlaou-a.
     - Peo desculpa por me ter comportado com tanta estupidez. 
     Pensei que estavas a amesquinhar-me, o que deu comigo em doido. Eu queria sair 
contigo naquela noite e que tivesses orgulho em mim, s no sabia como dizer-to.
     - Eu tambm no lidei muito bem com o assunto. So coisas que por vezes 
acontecem. Quanto mais irracional tu te mostravas, mais determinada eu me sentia em 
levar a minha avante. Eu tinha-te dito que era impossvel. Uma relao entre ns dois no 
tinha a mnima hiptese de resultar.
     - Mas ainda  possvel, caso tu queiras. Tenho reflectido muito sobre a nossa 
situao. No comeces com isso outra vez! No quero voltar a discutir contigo e no 
tenciono fazer nada de que venha a arrepender-me. - Sasha cruzou os braos ao dizer 
aquilo, para o que teve de fazer um esforo tremendo. O que desejava realmente era pr 
os braos  volta dele, contudo, no permitiria que tal acontecesse. Continuava a sentir 
alguma coisa por ele e Liam estivera a beber, uma combinao letal, como ficara provado 
em diversas ocasies.
     - Como  que correu o teu encontro ontem  noite?
     - Ele  encantador, inteligente, respeitvel e inacreditavelmente enfadonho - replicou 
Sasha sem pensar no que dizia, e depois ficou a olhar fixamente para ele. - No posso 
acreditar que tenha dito isto... Passei umas horas bastante agradveis na companhia de 
uma pessoa decente. No sei o que me levou a dizer uma coisa destas... - Estava de 
facto perturbada; tinha falado sem pensar no que dizia.
     - Provavelmente por ser verdade. Sasha, amo-te - confessou Liam com uma 
expresso de desespero -, e estou-me nas tintas se mantivermos a nossa relao em 
segredo. Agora compreendo que no existe alternativa; seria uma grande confuso se 
no mantivssemos segredo. No quero saber se nunca formos a festas juntos. 
     S quero poder estar contigo, partilhar aquilo que tivemos antes de eu ter criado 
todo aquele problema de merda em Paris.
     - No foste o nico causador - redarguiu ela generosamente -, ambos fomos 
responsveis pelo que aconteceu. No estava destinado que a relao entre ns 
resultasse, o que eu j te tinha dito, Liam.  impossvel. At que ponto
     ambos vamos agir de maneira idiota? Tivemos sorte. Magomo-nos um ao outro, 
mas, apesar disso, no fizemos estragos irreparveis. No entanto, se houvesse uma 
prxima vez,  possvel que isso viesse a acontecer, e as coisas poderiam acabar muito 
mal. Vamos desistir enquanto  tempo. 
     Limitar-me-ei a ser a negociante de arte e tu o pintor. - Enquanto ela falava, Liam 
ps-se de p defronte dela, baixou a cabea e beijou-a. Odiando-se por o fazer, Sasha 
correspondeu ao beijo dele. - Muito bem, admito que te amo, mas isso no muda nada. 
Recuso-me a fazer isto.  impossvel. Impossvel. Quantas vezes e de quantas maneiras 
tenho de te dizer a mesma coisa? - Mas Liam voltou a beij-la, e desta vez, quando ele 
parou, Sasha estava quase sem respirao. Liam... no... por favor... no podemos 
cometer a mesma loucura... - Ele no conseguia parar de a beijar e ela no era capaz de 
deixar de o beijar.
     -J estou a dar em doido... - disse ele, mostrando-se muito infeliz. - Tenho andado 
como louco desde que fui suficientemente estpido para te ter deixado em Paris!
     - No foste estpido... e eu no quero que sejas o meu segredo. Tinhas razo. s 
merecedor de melhor. Mas eu no posso dar-te melhor; no estou preparada para dizer 
ao mundo que tenho um namorado, um amante, ou o que quer que sejas, dez anos mais 
novo do que eu. Se procedesse desse modo, sentir-me-ia uma velha repulsiva.
     - Nove - corrigiu ele entre beijos.
     - Nove o qu? - Ele estava a confundi-la com o que lhe fazia. Sasha sentia a cabea 
 roda.
     - Nove anos, e no dez. No exageres...
     - Seja, nove anos, e no dez. Apesar disso, no estou preparada para enfrentar as 
pessoas, e tu mereces mais do que ser um segredo na minha vida.
     - Prefiro ser o teu segredo do que no te ser nada. - Sou a pessoa que negoceia os 
teus quadros.
     - Mas eu quero que sejas a minha mulher! - E enquanto ele continuava a beij-la, 
tudo o que Sasha desejava era ser a mulher dele. Porm, assim que isso voltasse a 
acontecer, a situao descambaria uma vez mais em confuso e loucura, tal como havia 
sucedido em Paris. - Quero ser o pintor louco exclusivamente teu - acrescentou, fazendo 
que Sasha se risse do que dizia.
     - Em qualquer dos casos,  isso que s, ainda que eu seja apenas a tua negociante 
de arte. Sasha, tens de nos dar outra oportunidade... por favor, para bem de ns dois. Eu 
amo-te de verdade.
     - Eu tambm te amo, s no quero que cheguemos ao ponto de darmos em doidos, 
o que acabaria por acontecer. Sabes bem que sim. Mais cedo ou mais tarde eu faria 
alguma coisa que te enraivecesse, insultar-te-ia, embora no o fizesse intencionalmente. 
E tu eras muito bem capaz de interromper uma reunio de direco vestido apenas com 
uma tanga reduzida e de tnis.
     - Uma tanga?! - Liam recuou uns passos, ficando a olhar para ela. - Uma tanga? 
Nem sequer tenho uma tanga...
     - Nesse caso, tens de comprar uma - retorquiu Sasha, sorrindo. - Todos os artistas 
loucos deviam ter uma tanga. Podes us-la nas festas a que eu te levar. E que tal uma 
toga? Podia aparecer numa reunio de direco ou num jantar de traje a rigor vestido com 
os lenis da cama - adiantou ele, com um sorriso de orelha a orelha.
     - Isso  fcil de mais - disse ela, entre beijos. Nessa altura j se encontrava nos 
braos dele, que a levava ao colo para o quarto. Deitou-a na cama em que tinham feito 
amor pela primeira vez e deteve-se a olhar para ela; Sasha retribuiu-lhe o olhar.
     - No quero obrigar-te a fazer isto se no quiseres disse Liam numa voz carinhosa. 
Espero bem que no - retorquiu ela com uma expresso trocista. - Oh!, meu Deus, Liam... 
o que  que estamos a fazer? - Apesar de o amar, sentia-se receosa.
     - Estamos a recomear no ponto em que ficmos, s que desta vez vai ser melhor - 
replicou ele, mostrando-se convicto do que dizia.
     - Como  que podes saber que ser melhor? Talvez seja pior...
     - Sei porque te amo mais do que amava h dois meses. Sei porque quero que 
resulte. Quero poder provar-te que  possvel e que estavas enganada quando disseste 
que era impossvel. Quero que estejas enganada.
     - Tambm eu - murmurou ela estendendo-lhe os braos. Liam desapertou-lhe o cinto 
do roupo e ela comeou a despi-lo. Sasha queria acreditar que seria possvel. Queria 
que a relao com ele resultasse, que fosse tudo como ele desejava, do mesmo modo 
que ela desejava que ele personificasse os seus sonhos. Enquanto faziam amor, ambos 
reencontraram o que lhes havia faltado e por que haviam ansiado durante os dois ltimos 
meses.
     Mais tarde, ela fitou-o, sorrindo, e acabou por se comear a rir.
     - No consigo acreditar que estejamos a fazer isto de novo. Somos dois lunticos, 
Liam. - A despeito do que prometera a si prpria, Sasha tinha uma aparncia de 
satisfao.Tu s uma luntica - retrucou ele com ar sorridente. - Eu sou apenas um pintor 
louco - acrescentou, muito satisfeito consigo prprio e sentindo-se como se tivesse 
regressado a casa. 
     
     
                                     CAPTULO 10
     
     Na manh seguinte fizeram amor outra vez antes de ele ter sado. Tomaram duche 
juntos, rindo-se pelo que estavam novamente a fazer. Agora a relao entre os dois 
revestia-se de algum sentido de humor, uma espcie de assombro, um certo bem-estar e 
um sentimento de boa vontade que no haviam experimentado antes de a relao ter 
terminado, em Paris. Mais do que qualquer outra coisa, Sasha desejava acreditar que 
seria possvel, mas, devido  diferena de idade e estilos de vida, continuava a recear que 
isso no viesse a acontecer. 
     Tudo dependia do grau de tolerncia que teriam um para com o outro. Na opinio de 
Sasha, era a que residia a chave do sucesso: a capacidade de um permitir que o outro 
fosse ele prprio. No fazia a mnima ideia se algum deles o conseguiria. Desta feita seria 
necessrio diplomacia, sorte e magia para que a relao resultasse.
     Liam beijou-a antes de se dirigir para a porta. Detendo-se na ombreira, vestida 
apenas com o roupo, Sasha ficou a v-lo percorrer o corredor num passo vagaroso. 
Sentia-se assustada perante a hiptese de a relao entre ambos ser impossvel, mas era 
incapaz de lhe resistir. Liam voltou-se para trs, sorrindo-lhe, e quando o olhar dos dois 
se cruzou, toda ela estremeceu. Amava-o mais do que nunca, e desta vez pelo que ele 
era.
     Sasha tinha um sorriso rasgado quando se encontrou com Xavier no trio do hotel, 
trinta minutos depois, para tomarem o pequeno-almoo. Liam prometera-lhe que iria ter 
consigo a Paris, no fim-de-semana, e ela tambm teve outra ideia. Havia andado a pensar 
em fazer uma viagem a Itlia em Maio, a fim de contactar novos artistas, e queria que ele 
a acompanhasse, o que tencionava comunicar-lhe nesse fim-de-semana.
     - At parece o gato que engoliu o canrio, como  costume dizer-se... - comentou 
Xavier com uma careta sorridente. - O que se passa, me? 
     - Interrogava-se sobre o encontro que ela tivera na noite em que chegara a Londres, 
perguntando-lhe directamente: - Algum em especial?
     - No. Foi agradvel, mas enfadonho. - Sasha gostava de Phillip Henshaw, mas 
entre eles no havia qumica alguma, e agora que Liam voltara a entrar na sua vida, 
Phillip sara do seu pensamento. Sasha tinha noo de que o que estava a fazer com 
Liam no era muito racional, mas a verdade  que se sentia compelida a tentar de novo. 
Disse para si prpria que repetir a mesma coisa vezes sem conta,  espera de conseguir 
um resultado diferente, era, por definio, uma atitude insana. 
     Contudo, era completamente impossvel conseguir resistir, e tambm no queria 
faz-lo. Sentia-se to feliz por Liam ter voltado a fazer parte da sua vida... Mal conseguia 
esperar pelo fim-de-semana seguinte! Haviam falado sobre a possibilidade de ela ir a 
Londres para estar com ele alguns fins-de-semana, mas receava cruzar-se 
acidentalmente com Xavier, e ainda no se sentia preparada para contar aos filhos o que 
estava a acontecer. Primeiro, ambos queriam ver se a relao resultava. Ela apostava 
que sim, tal como Liam.
     O motorista levou-a ao aeroporto, e quando chegou a Paris toda ela era sorrisos. 
Bernard e Eugnie repararam nessa mudana assim que ela entrou na galeria.J vi que 
ests muito bem-disposta... - comentou Bernard com secura. Quando voltou para casa, 
nessa noite, ficou radiante ao deparar com a Pegas. Agora que Liam regressara, sentia-
se feliz por tudo e por nada. Havia qualquer coisa diferente e muito melhor, agora que ele 
voltara a fazer parte da sua vida.
     Teve uma semana muito ocupada na galeria, mas quando Liam chegou, na sexta-
feira  noite, Sasha estava  espera dele. Preparou um cassoulet, que ele havia dito 
adorar, e um prato de massa, e mimou-o com uns bolinhos muito requintados que 
comprou no Fauchon especialmente para ele. Comeram na casa de jantar ao som de 
msica suave e ela acendeu as velas dos candelabros. Para os dois, aquilo tinha o 
ambiente de uma lua-de-mel. No sbado, Sasha convidou-o a acompanh-la a Itlia para 
uma estada de trs semanas, em Maio. Ele ficou em xtase: estava tudo a correr melhor 
do que nunca para ambos!
     Durante o resto do ms de Abril, Liam voltou a Paris todos os fins-de-semana, 
fazendo a viagem de automvel. Numa dessas ocasies foram a Deauville. Alojaram-se 
num hotel antigo, muito pitoresco, passearam pela praia e jogaram. Miraculosamente, 
ningum do crculo de Sasha parecia ter conhecimento do que se estava a passar. Liam 
chegava tarde nas noites de sexta-feira, no sbado mantinham-se sossegadamente em 
casa e ao domingo davam passeios a p pela cidade ou iam at ao campo.
      Assistiram  missa na Sacr-Coeur, visitaram Notre Dame e passearam pelos 
Jardins do Luxemburgo. Nunca se cruzaram com ningum que ela conhecesse e 
declinava todos os convites que coincidissem com os fins-de-semana, no porque 
estivesse a tentar escond-lo, mas sim por querer saborear todos os momentos que 
pudessem passar juntos. Numa ou duas ocasies jantaram com os amigos dele, tambm 
artistas, na Marais, os quais quase desfaleceram quando souberam quem ela era. No 
entanto, disseram-lhes que eram apenas amigos. 
     A maior parte tinha metade da idade de Sasha, o que lhe causava algum 
constrangimento, mas sabia que estar com eles era algo que teria de tolerar por causa de 
Liam. Sasha sabia que ele precisava de estar com os amigos. Ela tambm se encontrava 
com as pessoas suas amigas, assim como com os clientes, o que fazia durante os dias de 
semana, enquanto Liam estava a trabalhar em Londres. Ambos sabiam que seria 
complicado se ele passasse vrias semanas em Paris, o que os impediria de guardar o 
segredo que partilhavam, uma vez que a galeria era no mesmo prdio em que Sasha 
vivia. Desta feita tinham concordado em manter segredo quanto  relao, at que se 
sentissem mais seguros quanto aos sentimentos que nutriam um pelo outro.
     No primeiro dia de Maio partiram para Itlia. Iniciaram a viagem em Veneza, apenas 
por capricho, por acharem divertido, tendo passado quatro dias gloriosos, como se fosse 
uma lua-de-mel, no Danieli. Liam chegara de avio, tendo partido de Londres, enquanto 
ela viera de Paris, encontrando-se em Veneza. Fizeram o mesmo que todos os turistas, 
passearam, andaram de gndola, passando por baixo da Ponte dos Suspiros, o que o 
gondoleiro lhes assegurou que os uniria para sempre, deliciaram-se com lautos jantares, 
foram s compras, visitaram igrejas e museus e sentaram-se nas esplanadas dos cafs. 
Foram os dias mais felizes que haviam partilhado at ento.
     Em Veneza alugaram um carro e partiram rumo a Florena, cidade em que ela ficara 
de se encontrar com quatro pintores e escultores. Em Florena fizeram o mesmo que em 
Veneza e nos intervalos almoavam e jantavam com artistas de artes plsticas. Sasha 
gostava muito de dois em especial, acreditando que os seus trabalhos eram adequados 
para a galeria. No tinha tanta certeza quanto ao terceiro, tendo declarado que precisava 
de pensar no assunto. 
     As suas esculturas eram invulgares e provavelmente demasiado volumosas para o 
espao de que dispunha. Quanto ao quarto era encantador, mas o trabalho dele 
desagradou-lhe assim que o viu. Amavelmente, disse que no estava  altura de lhe fazer 
justia, acrescentando que a sua galeria no era merecedora da sua obra.
      No gostava de criticar abertamente o trabalho dos outros; no aproveitava a 
ningum magoar os sentimentos alheios ou humilh-los com uma atitude de pura rejeio. 
Enquanto observava e ouvia, Liam conclua que gostava da maneira como ela fazia as 
coisas. Sasha era boa pessoa, uma mulher simptica, e ele adorava participar no que ela 
fazia.
     Tambm foram a Bolonha e a Arezzo e ficaram uma semana na Umbria, conduzindo 
pelo campo e pernoitando em pequenas estalagens. Passaram alguns dias em Roma. 
Visitaram um artista na Costa Adritica, prximo de Bari, e passaram os ltimos dias da 
viagem em Npoles, aproveitando para visitar uma pintora que Sasha o advertiu ser 
completamente louca, mas que, ao mesmo tempo, era encantadora, a qual tinha seis 
filhos, e que lhes preparou um jantar delicioso. Sasha adorava os trabalhos dela, e Liam 
partilhou a sua 
     opinio. Pintava quadros de grandes dimenses em cores vibrantes, telas que eram 
um pesadelo para transportar. Mas quando Liam e Sasha se despediram, todos estavam 
encantados uns com os outros, incluindo o amante chins da pintora, uma relao de 
vinte anos, que era o pai das seis crianas, todas elas lindssimas. Para Sasha e Liam foi 
uma viagem fabulosa.
     Passaram o ltimo fim-de-semana em Capri, num pequeno hotel muito romntico. 
Ambos se sentiam tristes perante a perspectiva de terem de voltar  sua vida normal, 
cada um no seu prprio mundo. Sasha adorava despertar pela manh ao lado dele e 
adormecer nos seus braos todas as noites, descobrirem coisas juntos, conhecerem 
outras pessoas ou, por vezes, caminharem apenas sem destino certo, enquanto 
partilhavam partes do passado de cada um. 
     Ambos tinham tido infncias difceis e solitrias. Ele porque havia sido uma pessoa 
inadaptada, com talento artstico no seio de uma famlia extremamente conservadora e 
sem qualquer resqucio de imaginao. E ela porque o pai fora uma pessoa autoritria 
durante grande parte da sua vida, muito embora a amasse do fundo do corao.
     S depois de Sasha ter atingido a idade adulta  que ele comeou a respeit-la, 
assim como as suas opinies. O que nunca acontecera no caso da famlia de Liam, pelo 
que continuava a pagar um preo muito elevado pelo ridculo e rejeio que sofrera s 
mos dos familiares. Ambos haviam sido defraudados por no terem podido contar com a 
presena das mes quando estavam a crescer. Liam recordava-se da sua como tendo 
sido uma pessoa carinhosa, uma mulher maravilhosa, que o adorara e a cujos olhos ele 
no fazia nada de mal. 
     Continuava  procura do amor incondicional que ela lhe dedicara e que mais 
ningum lhe dera e, por vezes, Sasha tinha a sensao de que estava  espera que ela 
passasse a assumir a figura materna. Mas esse tipo de amor incondicional era impossvel; 
era pedir muito a quem quer que fosse que tivesse entrado na sua vida numa fase 
posterior. O amor entre adultos e amantes era sempre, em certa medida, condicionado 
amide e ficava bastante aqum das expectativas, particularmente
     quando as carncias emocionais no eram satisfeitas reciprocamente por inteiro. 
Sasha guardava recordaes similares sobre a me e, por vezes, perguntava-se se as 
pessoas acreditariam sempre que aqueles que haviam falecido tinham amado 
incondicionalmente. Talvez no fosse esse o caso ou, possivelmente, no o teriam feito 
numa fase posterior. Todavia, as recordaes que guardava da me eram to ternas e 
doces como as que Liam guardava da me dele.
      Havia ocasies em que Sasha se perguntava como  que a sua vida seria caso a 
me ainda fosse viva, muito embora, a ser esse o caso, j fosse bastante idosa, teria 
oitenta e oito anos. Sasha fizera quarenta e nove durante a viagem a Itlia. Na manh do 
dia do seu aniversrio, Liam despertara-a cantando-lhe Parabns a Voc, uma 
recordao que a fazia enternecer, e oferecera-lhe uma pulseira muito simples em ouro 
que havia comprado em Florena. Depois de a ter posto no brao, nunca mais a tirou, e 
sabia que jamais o faria.
     Por vezes a diferena de idade entre os dois continuava a causar-lhe um certo 
constrangimento; era algo que no conseguia evitar. Parecia-lhe que tinham mais em 
comum do que pensara, a perda das mes, a paixo que ambos sentiam pela arte, as 
coisas que gostavam de fazer juntos quando estavam descontrados e dispunham de 
tempo... Galerias de arte, museus, igrejas, lojas. Longe da tenso do dia-a-dia, ambos 
eram de trato fcil, adoravam viajar juntos e eram curiosos em relao  vida. No entanto, 
sentiam-se atrados por pessoas bastante diversas. 
     Ela gravitava num crculo respeitvel de pessoas mais velhas, talvez devido ao facto 
de o pai ter sido um homem austero e s pessoas com quem convivera por causa dele 
durante toda a vida. Sentia-se impressionada pela reputao e a educao, assim como 
por pessoas talentosas. Quanto a Liam, sentia-se automaticamente atrado por tudo o que 
fosse diferente, invulgar, novo e jovem. Ela gostava de inovao e excentricidade na arte, 
mas no nas pessoas. Quando iam a um caf, Sasha observava os mais velhos; Liam 
gravitava sempre na rbita da juventude, e passado pouco tempo j conhecia a maioria 
dos jovens que se encontravam
     no estabelecimento. Sentia-se mais  vontade com pessoas de vinte e de trinta e tal 
anos, enquanto ela preferia pessoas da sua idade ou mais velhas, o que dava origem a 
uma diferena de dcadas entre as pessoas que queriam conhecer e com quem 
desejavam conviver. Era uma divergncia entre os dois que ambos teriam de aprender a 
respeitar e a tolerar, o que nem sempre era fcil de pr em prtica. Sasha ficava 
aborrecida por ter de se dar com estudantes em viagem e mesmo com artistas jovens. 
Sentia que no tinha nada para lhes dizer, alm de no estar interessada nas suas ideias 
juvenis. 
     Liam, pelo contrrio, era de opinio que podia aprender muita coisa com os jovens, 
identificando-se com eles de uma forma invulgar para um homem da sua idade. Quando o 
observava na companhia de gente mais jovem, Sasha tinha a impresso de que Liam era 
um deles. Por sua vez, Liam afirmava que conversar com as pessoas que a interessavam 
lhe fazia sono. Indubitavelmente, aquilo era um obstculo que se interpunha entre os dois. 
No entanto, viajando sozinhos, afastados das suas existncias rotineiras, ambos se 
mostravam mais receptivos  descoberta e explorao de novos mundos.
     - O que  que andas a fazer com uma pessoa to velha como eu? - perguntou-lhe 
Sasha um dia quando saam de uma maravilhosa igreja do sculo xIv, parando para 
comprar gelados na rua. 
     Liam parecia uma criana crescida a comer o gelado, deixando-o pingar por todos 
os lados, enquanto ela envolvera o pauzinho do seu num leno de renda que comprara na 
Hermes. Sentia-se como se fosse a me dele ou, pior ainda, a av, o que parecia ser o 
caso de vez em quando. Um dia destes vais acabar por te fartares de andar com uma 
mulher mais velha.
     Era um dos seus piores receios, e nunca lhe passava despercebido quando ele 
observava mulheres mais novas. Mas at ao momento, tanto quanto sabia, nunca fizera 
mais do que isso. Gostava de olhar, mais nada. Sasha mantinha-se sempre de olho nele, 
sentindo-se mais ciumenta do que queria admitir. Por muito que fosse atraente e 
estivesse em boa forma fsica, era inegvel que os corpos jovens eram muito mais 
sedutores do que o dela.
     - s vezes gosto de olhar para as mulheres jovens, de facto, para mulheres de todas 
as idades - admitia ele sem o mnimo embarao -, mas adoro falar contigo e estar junto de 
ti. Tu excitas-me mais do que qualquer outra mulher. Estou-me nas tintas para a tua 
idade!
     Sasha sorriu-lhe, deitando fora o que restava do gelado. Liam ainda estava a lamber 
o pauzinho do seu, aps o que limpou as mos s calas de ganga, que j estavam 
bastante sujas. Ela olhava-o com um sorriso de pesar. Era a infantilidade na maneira de 
ser dele que em determinadas ocasies a fazia sentir-se mais velha do que era na 
realidade.
     - Amo-te, Sasha. s uma mulher maravilhosa. E, sim,  verdade, no tens vinte e 
dois anos, mas o que  que isso importa? As mulheres de vinte e dois anos no tm 
maturidade, no me interessam e no me compreendem. Mas tu sim, interessas-me e 
compreendes-me. - Sasha no lhe confessou que, por vezes, no tinha a certeza de ser 
esse o caso, mas compreendia o que ele queria dizer e o que esperava dela: tolerncia, 
carinho e compreenso, acima de tudo. 
     s vezes mostrava grandes carncias emocionais e egocentrismo, como uma 
criana, e gostava da maneira como ela o acalentava. Em certas ocasies, quando ela o 
tratava como se fosse uma criana, as coisas resultavam melhor; noutras alturas, queria 
ser tratado com respeito, fazendo todo o sentido quando expressava o que lhe ia na 
mente. 
     Por vezes pareciam iguais, o que no acontecia sempre. Verdade fosse dita, no 
eram iguais. Sasha era mais velha, profissionalmente mais bem-sucedida, tinha mais 
poder no mundo da arte do que ele, era respeitada e detinha uma posio importante, 
alm de ter mais dinheiro. Apesar disso, ele era to inteligente e talentoso quanto ela. 
Liam era capaz de se impor, at mesmo no mundo dela, caso Sasha lhe permitisse. At 
ao momento, ainda no se haviam aventurado juntos nesse mundo. 
     Se o fizessem, ele continuaria a ser visto como um jovem pintor, enquanto ela era 
uma negociante de arte das mais respeitadas em todo o mundo. Isto constitua uma 
diferena abissal entre os dois. As pessoas prestavam-lhe mais ateno do que a ele, o 
que Sasha sabia que o irritava. Liam gostava de ser o centro das atenes, o que 
acontecia sempre que se encontrava entre jovens. 
     Porm, as pessoas da idade dela esperavam mais dele alm de quadros magnficos, 
umas feies bonitas e cabelos louros; esperavam que se comportasse como uma 
pessoa sria, o que por vezes no acontecia. Mas com ele, Sasha tambm nem sempre 
era uma pessoa austera, o que lhe agradava sobremaneira em relao ao tempo que 
passavam juntos. Adorava estar na brincadeira com ele. Havia ocasies em que se riam a 
bandeiras despregadas com as histrias que cada um contava, ou com as suas prprias 
histrias, ao ponto de as lgrimas lhes correrem pelas faces. Ningum a fizera rir como 
Liam. To-pouco houvera outro homem que fizesse amor com ela como ele.
     Existiam muitos benefcios na combinao entre os dois, a par de alguns riscos.
     Quando estiveram em Roma, foram visitar um negociante de arte de que ela gostava 
e com quem j tivera negcios, um homem de sessenta e muitos anos, cujas ideias 
Sasha respeitava. Infelizmente, foram num dia em que Liam no estava no seu melhor. 
Comportou-se como um colegial enfadado enquanto estiveram no gabinete do homem. 
Passou o tempo todo com uma expresso amuada, agitando-se constantemente e 
batendo com o p na secretria, at que Sasha se virou para ele, dizendo-lhe em voz 
baixa que estivesse sossegado. 
     Liam ficou to furioso por ela o ter repreendido que, num repente, saiu porta fora. O 
confrade de Sasha arqueou o sobrolho, mas no fez qualquer comentrio. O resultado foi 
ela ter sido forada a declinar o convite para almoar.
     Mais tarde tiveram uma discusso acesa por causa desse episdio, e Sasha disse-
lhe sem rodeios o que pensava sobre o comportamento reprovvel dele. Foi a nica 
ocasio desagradvel durante a viagem. Liam acabou por lhe pedir desculpa pelo 
incidente, depois de terem feito amor, nessa mesma noite. Disse que se sentira 
aborrecido e cansado, alm de lhe ter desagradado bastante a maneira como o homem 
olhara para Sasha, o que lhe provocara cimes. 
     Sasha sentiu-se comovida com a confisso dele, mas era tarde de mais para 
convencer o negociante de arte de Roma de que o homem que a acompanhara era uma 
pessoa inteligente e civilizada. Aquele episdio, uma vez mais, no augurava nada de 
bom para o futuro. A vida profissional de Sasha era pontuada por inmeras ocasies 
como aquela, e nem sempre Liam se comportava  altura. De facto, era muito raro que o 
fizesse. Quando estava entediado ou se sentia posto  margem, como no sendo 
importante, era quase inevitvel que reagisse como uma criana mimada.
     Havia ocasies em que era difcil acreditar que j tinha quarenta anos. s vezes 
parecia ter metade da idade, o que ficava bem patente, mas fazia parte dos seus 
atractivos, embora tambm fosse a sua faceta mais negativa na relao com Sasha. 
Ainda tinham de limar muitas arestas, mas, de uma maneira geral, a viagem a Itlia 
correra s mil maravilhas.
     Sasha telefonou vrias vezes aos filhos enquanto andava a viajar com Liam. Ambos 
estavam a par do itinerrio da me, como acontecia sempre que ela viajava, no entanto, 
era muito raro que lhe ligassem. Era quase sempre Sasha que lhes telefonava, at porque 
era mais difcil encontr-la e era frequente que desligasse o telemvel. Ela e Liam 
registavam-se nos hotis sob os nomes de Liam Allison e Sasha Boardman, o que ele 
disse, jocoso, parecer-se com a designao de um escritrio de advogados, Allison e 
Boardman, ou uma firma de contabilidade. 
     De vez em quando, os recepcionistas dos hotis enganavam-se, registando-os como 
uma nica pessoa, Allison Boardman, com o que no se incomodavam. Tatiana ficou 
muito divertida quando telefonou  me para Florena, rindo-se ao contar-lhe que pedira 
para falar com Sasha Boardman, mas que lhe haviam dito que s tinham registo de uma 
pessoa de nome Allison Boardman, que era obviamente a pessoa certa, mas com o 
primeiro nome errado. 
     De resto, aquilo no teve qualquer significado para ela. Mas se o incidente se 
tivesse passado com Xavier, era bem possvel que o caso mudasse de figura. Contudo, 
Tatiana no estabeleceu qualquer associao entre a me e Liam, com excepo de 
saber que Sasha o representava, por isso no lhe ocorreu que ele estivesse com a me. 
Sasha riu-se com a filha da distraco dos recepcionistas de alguns hotis, at mesmo os 
melhores, que se enganavam quando registavam o seu nome.
     Na altura, ainda no tinha conhecimento disso, mas a mesma coisa acontecera a 
Bernard quando lhe telefonou da galeria de Paris. Tinha corrigido o erro do primeiro 
nome, mas o recepcionista do hotel insistira, tendo alterado o registo para Sr. Allison e 
Sr.a Boardman, o que deixara Bernard perplexo, embora no tivesse mencionado o 
assunto a Sasha at esta ter regressado a Paris.
     Era o primeiro dia desde que voltara e estava a ler e a analisar uma montanha de 
correspondncia, pastas e diapositivos enviados por aspirantes a artistas de artes 
plsticas que se haviam acumulado na sua mesa de trabalho durante a sua ausncia de 
trs semanas. Era arrasador, mas era o preo que teria de pagar pela viagem a Itlia.
     Bernard entrou no seu gabinete por uns momentos, sentando-se na cadeira defronte 
dela, olhando-a cautelosamente e perguntando-se se aquela seria a altura mais 
apropriada para abordar o assunto, questionando-se mesmo se deveria abord-lo. Mas a 
verdade  que sempre se preocupara com Sasha, como se fosse um irmo mais velho. 
Havia aprendido tudo o que sabia sobre aquele ramo de actividade com o pai dela, tal 
como a prpria Sasha, alm de trabalhar na galeria havia mais de vinte anos. 
     Alis, comeara a trabalhar l antes de ela se ter mudado para Nova Iorque, tendo 
aberto a galeria nessa cidade. Bernard era dez anos mais velho do que ela, mas, de certa 
forma, sempre se sentira como se tivessem crescido juntos, o que havia sido o caso com 
respeito ao mundo da arte.
     Ficou sentado a olhar demoradamente para Sasha no lado oposto da secretria, 
enquanto ela passava uma vista de olhos por alguns diapositivos. Sasha j lhe tinha 
falado dos artistas que visitara, principalmente daquela de que gostara em especial e com 
quem se encontrara em Npoles. Sasha ficara enamorada do trabalho dessa pintora, 
assim como da pessoa em si.
     - Estarei certo se deduzir que foste acompanhada de um consultor de arte? - 
perguntou cautelosamente, apressando-se a acrescentar: - No s obrigada a responder-
me, se no quiseres, Sasha.  um assunto que no me diz respeito. Sasha interrompeu o 
que estava a fazer, fitando-o, pensativa, antes de acenar afirmativamente.
     - Como  que soubeste?
     - No hotel, em Roma, estavas registada como Allison Boardman, e quando eu os 
corrigi, explicaram-me que o registo correspondia ao senhor Allison e  senhora 
Boardman. Aconteceu mais ou menos a mesma coisa quando a Tatiana me telefonou 
para Florena. Felizmente, eles no lhe disseram a ltima parte, com respeito ao senhor 
e senhora.
     - Est tudo bem? - perguntou ele, mostrando uma certa inquietao. Bernard sempre 
se preocupara com ela. Desde a morte de Arthur que no havia ningum que cuidasse 
dela. Sasha ocupava-se de toda a gente, at mesmo dele. Era uma empregadora e uma 
amiga extraordinrias, tal como o pai havia sido antes dela. Bernard era extremamente 
leal aos dois, no confiando tanto em mais ningum, a no ser na sua prpria mulher.
     - Acho que tudo corre pelo melhor - respondeu Sasha calmamente, sorrindo-lhe. - 
No se pode dizer que seja o que eu esperava fazer em relao  minha vida, alm de 
ser um tudo-nada invulgar, no mnimo. - Continuava a sentir-se embaraada devido  
diferena de idade entre os dois, perguntando a si mesma se esse constrangimento 
persistiria para sempre.
     - Interroguei-me quando ele ficou em tua casa durante dez dias.  hospitalidade a 
mais para se oferecer a algum, at mesmo a um bom pintor. Foi nessa altura que a 
relao teve incio? - Bernard sentia-se simultaneamente curioso e preocupado.
     - No, mas foi por essa razo que ele veio a Paris. Comeou em Janeiro, quando 
estive em Londres para ver os trabalhos dele, por indicao do Xavier. Na verdade, foi 
nesse mesmo dia. Desde ento a relao j acabou e recomeou vrias vezes. Para ser 
sincera, devo dizer que no sei bem o que fazer. Somos pessoas muito diferentes, alm 
de ele ser nove anos mais novo do que eu, o que  constrangedor. E... o que  que posso 
dizer? Ele  um artista... sabes bem o que isso significa. - Ambos sabiam. Bernard riu-se 
quando ela disse aquilo.
     - Picasso tambm era um artista - contraps, sorrindo-lhe -, e as pessoas aturavam-
lhe as madurezas. O Liam  bom rapaz. - Gostava dele e respeitava o seu trabalho, muito 
embora preferisse pintores mais convencionais.
     -  a que est o problema - retorquiu Sasha com sinceridade, sentindo-se aliviada 
por ter algum com quem podia falar sobre o assunto. Bernard era um homem sensato, 
alm de ser um bom amigo. - Ele  muito imaturo para a sua idade. s vezes comporta-se 
como um garoto, enquanto noutras ocasies age como um homem adulto. - Sasha 
parecia aceitar a situao filosoficamente. No entanto, ambos sabiam que, com uma vida 
to complicada como a dela, precisava de um homem, e no de um garoto, para 
companheiro.
     - Por vezes, todos nos portamos como crianas. A minha mulher continua a tratar-
me como se eu tivesse doze anos, apesar dos meus cinquenta e nove. Na verdade, para 
te ser sincero, tenho de admitir que at gosto. Proporciona-me uma sensao de bem-
estar e segurana, o que adoro - reconheceu com sinceridade, enquanto Sasha o 
observava com um olhar pensativo.
     - Estou em crer que o Liam sente a mesma coisa. A me morreu quando ele tinha 
sete anos. Gosto de cuidar dos homens da minha vida, de facto, gosto de olhar pelo bem-
estar de todos, mas isso no significa que queira ser uma me para ele em todos os 
momentos, embora talvez tenha de o ser. Tambm no quero parecer me dele, e receio 
que s vezes seja isso mesmo que parea.
     - No, de modo algum. Nove anos de diferena no so nada por a alm, Sasha. 
Bernard no se opunha  relao, embora a verdade  que era assunto em que no tinha 
de se imiscuir. A sua nica preocupao era o bem-estar de Sasha, queria que fosse feliz. 
Sabia quanto se sentira sozinha desde a morte de Arthur, tentando ajud-la a suportar 
essa perda, mas ningum podia fazer nada para aliviar a sua solido. Talvez Liam fosse a 
soluo.
     - Isso  verdade, mas quando estou com o Liam tenho a impresso de que  uma 
diferena enorme. Ele anda com amigos que tm vinte ou trinta e poucos anos, o que faz 
que me sinta como se tivesse cem anos sempre que estou com eles.
     - De facto, isso  complicado - admitiu Bernard, suspirando. - No entanto, no s 
obrigada a tomar uma deciso definitiva. Pelo menos, espero que no. - Bernard no 
queria que ela, impulsivamente, decidisse fugir para se casar com Liam, embora 
soubesse que Sasha jamais faria uma coisa dessas. Era uma mulher muito cautelosa, 
sensata e ponderada, se bem que a relao amorosa com Liam fosse algo nada em 
consonncia com a sua maneira de ser, revelando uma faceta da sua personalidade que 
ele nunca desconfiara que existisse.
     - No te preocupes, no tenciono tomar qualquer deciso precipitada. No estou a 
planear fazer seja o que for, vou limitar-me a desfrutar do tempo que passamos juntos 
enquanto a relao durar. - Sasha continuava a acreditar que esta no duraria muito, 
portanto, no albergava grandes esperanas para o futuro. Bernard ficou aliviado ao ouvir 
o que ela dizia. Achava que no havia problema nenhum num caso amoroso entre ela e 
Liam; uma relao para o resto da vida era algo totalmente diferente.
     - Os teus filhos esto a par do assunto?
     - No, ainda no sabem. Provavelmente, a Tatiana matar-me-ia, e no sei muito 
bem como  que o Xavier reagiria. Ele e Liam so bons amigos,  difcil prever. No tenho 
pressa em dizer-lhes, e no o farei a menos que me veja forada a isso. Quem sabe qual 
ser o desfecho desta situao? O tempo que passmos juntos tem sido bastante 
atribulado. De Fevereiro a Abril deixmos de nos ver. Retommos a relao pouco antes 
desta viagem, que correu s mil maravilhas. Vamos ver o que acontecer a seguir. - 
Sasha parecia extremamente filosfica em relao ao assunto, no manifestando tenso 
alguma.
     - Mantm-me informado - pediu Bernard, levantando-se da cadeira. Sentia-se 
satisfeito por ter abordado o assunto com ela. Na sua opinio, Sasha estava a agir de 
uma maneira sensata e discreta.
     Era tudo o que ele queria saber. Alm do mais, Sasha parecia feliz com Liam.
     - Se houver alguma coisa em que possa ajudar, no hesites em falar comigo - 
acrescentou Bernard. Para j, no que lhe dizia respeito, aquilo era suficiente.
     -J ajudaste. S te peo que guardes segredo. No tenciono contar a ningum, pelo 
menos at ver como  que as coisas correm durante mais algum tempo - retorquiu Sasha, 
e Bernard concordou com ela. Sentia-se melhor por ter falado com ele. Tinha andado 
preocupada, pensando que as pessoas que faziam parte da sua vida ficariam 
horrorizadas e em estado de choque, reprovando a sua relao com Liam, quando 
soubessem, mas Bernard parecera no achar nada de extraordinrio no caso, o que fez 
que Sasha se sentisse mais tranquila. 
     De momento no tinha inteno de pr Eugnie ao corrente do assunto, nem 
qualquer outra pessoa da galeria, ou quem quer que fosse, apesar de ser Eugnie quem 
atendia as chamadas quando Liam telefonava para a galeria, o que era bastante raro; a 
maior parte das vezes ligava-lhe para o telemvel. S da a muito tempo  que Sasha 
tencionava pr os filhos ao corrente da situao. 
     Ela e Liam haviam concordado quanto a isso, pensando que era a deciso mais 
acertada. Pr os filhos a par da relao que mantinham s serviria para complicar as 
coisas, e eles j tinham bastante com que se preocupar para conseguirem entender-se e 
lidar com a situao. At ao momento estava tudo a correr pelo melhor. Desta vez.
     Liam passou os dois fins-de-semana seguintes em Paris. O tempo estava 
esplndido e desfrutaram uns dias juntos verdadeiramente maravilhosos, sentindo-se 
muito animados. Enquanto ele esteve em Paris, passaram cada momento juntos, no 
tendo estado com nenhuma das pessoas com as quais mantinham relaes de amizade. 
Havia muita coisa que queriam fazer juntos e o tempo de que dispunham era pouco. No 
desejavam partilh-lo com ningum, quer fossem os amigos dela quer os dele. 
     Durante a semana, Liam trabalhava afincadamente, preparando-se para a exposio 
em Nova Iorque, que teria lugar em Dezembro. Sasha estava ansiosa para que o mundo 
visse os trabalhos dele. Mal conseguia esperar, embora o trabalho de Liam no seu 
estdio, em Londres, seguisse a bom ritmo.
     Davam um passeio pelo Bosque de Bolonha com a Pegas quando ela lhe 
perguntou pelos filhos, que continuavam em Vermont, o que era frequente fazer. Sasha 
incentivava-o sempre a falar dos filhos. Sabia que Liam sentia muito a falta deles, e j 
passara um ano desde a ltima vez que os vira. O divrcio seguia os seus trmites, 
esperando-se que estivesse tudo resolvido por altura do Natal, e Beth informara-o de que 
tencionava casar-se assim que estivesse divorciada. 
     Liam disse que se encontrava em paz consigo mesmo com respeito quele assunto, 
e Sasha estava convencida de que ele falava verdade. Os dois tinham seguido novos 
rumos de vida, mas as crianas continuavam a precisar do pai, na sua opinio, do mesmo 
modo que ele precisava delas, talvez mais do que pensava ou estava disposto a admitir. 
Na opinio de Sasha, ele parecia-lhe muito submisso, permitindo que Beth tomasse todas 
as decises em relao aos filhos, no se opondo a nada que ela decidisse.Porque  que 
no vais visit-los este Vero, Liam? 
     encorajou-o, quando ele atirava um pau para que a Pegas o fosse buscar, o que a 
cadela fez. Tinha-lhe ensinado uns quantos truques, e o animal veio a revelar-se um belo 
canino. Sasha adorava a cadelinha, para o que muito contribua o facto de lhe ter sido 
oferecida por Liam. - Eu tambm tenho de passar algum tempo com os meus filhos em 
Agosto.
     Era a poca do ano em que todos tinham frias e Sasha adorava passar todo o 
tempo possvel com eles, principalmente quando podiam viajar e passar frias em 
qualquer lugar no estrangeiro, o que era cada vez mais raro,  medida que eles ficavam 
mais velhos e com as vidas preenchidas pelos seus prprios interesses. Sasha tinha 
noo de que um dia passariam a ter pessoas importantes nas suas vidas, pessoas que 
teriam muito significado, pelo que as frias com eles deixariam de ser possveis. 
     Aquelas eram as derradeiras oportunidades que tinha para o fazer, e cada ano lhe 
parecia ser o ltimo.
     - Este Vero, depois de termos gozado frias com os nossos filhos, talvez 
pudssemos ir a qualquer lado, s ns dois. Sasha passava a vida a organiz-lo, o que 
por vezes o irritava, mas noutras ocasies tambm o divertia. Sabia que aquilo se devia  
maneira de ser dela; fazia o mesmo em relao a toda a gente. Era a tradicional me-
galinha, uma faceta que adorava nela, especialmente quando o alvo das atenes 
maternais era ele prprio.
     - Nem sequer sei se eles querem voltar a ver-me... retorquiu Liam, falando com 
franqueza. Dizia muitas vezes que os filhos estavam zangados consigo por se ter mantido 
afastado deles durante tanto tempo, o que confirmava os receios de Sasha. Liam 
telefonava-lhes muito esporadicamente, e quando o fazia as conversas eram difceis, pois 
os filhos culpavam-no pelo fracasso do casamento. Beth dissera-lhes o suficiente para os 
deixar perturbados, apesar de lhes ter ocultado os pormenores mais escabrosos, mas 
nenhum deles havia perdoado o pai. 
     O resultado era que os telefonemas fossem bastante constrangedores, ao que 
acrescia o facto de a distncia tambm ter tido os seus custos. Sasha receava que, se ele 
esperasse ainda mais tempo para os ir visitar, os danos fossem irreversveis ou, no 
mnimo, levassem vrios anos para ficar sanados, e tivera o cuidado de o advertir quanto 
a isso. Por enquanto, decorrido somente um ano, ainda havia tempo para reparar o mal 
feito. Os filhos ainda eram jovens. O mais velho tinha dezoito anos, e em Setembro sairia 
de casa para entrar na universidade, o do meio tambm era um rapaz, agora com doze 
anos, e por fim havia a filha, que acabara de fazer seis anos. 
     Ainda eram os trs suficientemente novos para Liam poder restabelecer a relao 
paternal com eles, mas apenas se estivesse disposto a fazer esse esforo. Sasha sabia 
que ele amava os filhos; muitas vezes ficava com os olhos marejados de lgrimas quando 
falava deles, afirmando que tinha imensas saudades de os ver. No entanto, comeava a 
sentir que agora eram os filhos de Beth e no dele. Beth estava com eles todos os dias, 
ao contrrio de Liam.
     - Porque  que no lhes perguntas? - sugeriu Sasha. Achas que a Beth deixaria que 
os levasses a qualquer lado? Estava a pensar em oferecer a casa que tinha na praia, em 
Southampton, mas no queria interferir, alm de que no sabia se Tatiana tencionava 
utiliz-la no Vero. Desconfiava que sim. Tanto a filha como o filho adoravam a casa 
pelas recordaes que guardavam dos dias da infncia que l haviam passado. Ela 
prpria tambm tinha recordaes dessa casa que lhe eram muito queridas. Deles e de 
Arthur.
     - No sei como  que reagiria se eu sugerisse ir para qualquer lado com as crianas. 
No se pode dizer que nos ltimos tempos eu tenha sido pessoa muito do seu agrado. 
Sasha sabia, pelo que ele lhe dissera, que a penso de alimentos que enviara durante o 
ltimo ano havia sido bastante parca. Beth estava a ser ajudada financeiramente pelo 
futuro marido, o que embaraava Liam e complicava a situao ainda mais. Sasha j lhe 
tinha dado um adiantamento, mas Liam precisava de dinheiro para as despesas do dia-a-
dia, para comprar tintas e telas.
      No possua meios para enviar grande coisa a Beth. Ambos esperavam que a 
situao melhorasse depois da exposio, mas, at l, a situao financeira dele 
continuaria a ser precria, o que se reflectia na situao de Beth. Havia vinte anos que ela 
se via perante o mesmo problema, e a verdade  que estava farta. Liam no a censurava. 
A sua vida melhoraria substancialmente com o seu novo marido, e sentia-se feliz por ela. 
Tambm se sentia feliz com Sasha. A nica coisa que lhe faltava na vida eram os filhos.
     - E que tal se telefonasses  Beth e aos teus filhos? perguntou Sasha, a apalpar o 
terreno; ele prometeu-lhe que  ligaria dentro de uma semana. 
     Depois de ter telefonado, ligou a Sasha para lhe relatar a conversa que tivera com 
Beth. Dava a impresso de estar satisfeito, agradecendo-lhe por o ter incentivado a ligar.
     - Ela no quer que eu os leve para longe. De qualquer modo, no tenho dinheiro 
para os levar de frias... Mas disse que fosse visit-los e que podia ficar com eles durante 
alguns dias, se quisesse. Os pais tm um chal  beira de um lago prximo do local onde 
ela mora e disse-me que podia ficar l. 
     Os garotos adoram o local. Os rapazes gostam de pescar no lago. - Parecia a 
soluo perfeita. Beth queria que ele fosse nesse mesmo ms. J tinha feito planos para 
o resto do Vero, tendo combinado com o namorado visitar os futuros sogros, que viviam 
na Califrnia, aps o que fariam uma viagem at ao Grand Canyon.
     - Parece-me uma excelente soluo - disse ela, dando a impresso de estar 
radiante. -J tinha decidido falar contigo a esse respeito. L para finais de Junho tenho de 
estar em Nova Iorque e estava a pensar em ficar l durante algumas semanas. perguntar-
te se querias vir comigo. Desde que nos comportemos de maneira relativamente discreta, 
podemos ficar os dois no meu apartamento. 
     - Tatiana andava to ocupada que mal via a me quando esta ia  cidade, e nunca 
aparecia no apartamento sem avisar antecipadamente; alm do mais, desde que tinha a 
sua prpria casa, na Tribeca, nunca ficava em casa da me, portanto, no seria difcil 
ocultar a presena de Liam.
     - Provavelmente, eu no devia tirar frias neste momento, tendo em vista a 
exposio, mas, meu Deus, Sasha, adorava ir contigo! - Ambos acharam que era uma 
ideia excelente. Depois da viagem a Itlia, em Maio, haviam sentido a falta um do outro 
mais do que nunca. Sasha tinha saudades de viajar com ele. Alm disso, havia muita 
coisa em Nova Iorque que ambos podiam fazer. - Quando  que tencionas partir?
     - Dentro de mais ou menos dez dias. Estava a pensar perguntar-te este fim-de-
semana.
     - Est resolvido. Vou contigo - retorquiu Liam cheio de entusiasmo.
     - Se tiveres tempo, podemos passar parte do ms l sugeriu Sasha. Ambos 
adoravam tal perspectiva. A viagem a Itlia correra da melhor maneira possvel e, com um 
pouco de sorte, esta haveria de correr de igual modo, se bem que em moldes um tanto 
diferentes, porque Sasha teria de trabalhar. - Podamos passar o feriado do Quatro de 
Julho em Nova Iorque antes de voltarmos para a Europa.
     Sasha estava a planear trabalhar na galeria de Paris durante o ms de Julho, aps o 
que iria de frias com os filhos, em Agosto. Escolhera Saint-Tropez, que os filhos 
adoravam, e j tratara de alugar um barco. Ambos planeavam levar amigos, ao que no 
se opunha. A nica coisa que no lhe agradava era o facto de ter de deixar Liam durante 
trs semanas. Todavia, tinha concebido um plano, ainda que vago, sobre como poderia 
convid-lo a passar um fim-de-semana no barco, na qualidade de visita, mas no estava 
bem certa quanto  possibilidade de o pr em prtica. 
     Tatiana tinha um instinto muito apurado e Xavier conhecia-o bem. Da maneira mais 
ardilosa, estava a pensar em pedir a Xavier que o convidasse, mas no queria tentar a 
sorte. Existia a possibilidade, e era mais do que plausvel, de no poder estar com Liam 
durante trs semanas, mas,  guisa de consolao, teriam o resto do ms de Junho em 
Nova Iorque.
     Ambos estavam entusiasmados quando discutiram estes planos, durante o fim-de-
semana. Liam tinha muitos amigos, artistas como ele, em Nova Iorque, os quais viviam 
em Chelsea, Tribeca e Soho. Tambm havia diversos lugares e eventos a que Sasha 
queria lev-lo.
     
     
     
      Desde que haviam retomado a relao que ela no vira o mnimo vestgio da sua 
faceta de pintor louco, com comportamentos excntricos, o que a levava a sentir-se 
confiante quanto  perspectiva de sair com ele em pblico, particularmente em Nova 
Iorque, uma cidade em que a sua vida era muito menos formal e enfadonha do que em 
Paris. Ele enquadrar-se-ia perfeitamente em Nova Iorque. Assim, ambos estavam 
ansiosos por ir para l.
     - Talvez - comeou Sasha a dizer, esperanada, quando estavam na cama, no 
domingo de manh - pudssemos passar uns dias na casa dos Hamptons.  um lugar 
maravilhoso e eu costumava adorar ir at l. - Durante os ltimos vinte meses, desde a 
morte de Arthur, fora-lhe demasiado doloroso ir  casa da praia. Talvez agora fosse 
diferente.
     - Gosto dos Hamptons - disse Liam distraidamente, aps o que retomou o assunto 
de que estivera a falar, passar uns dias no lago com os filhos. Por vezes, no prestava 
ateno ao que ela dizia. Havia ocasies em que se comportava como um garoto que 
precisava que tudo girasse  sua volta, que tudo se centrasse exclusivamente em si. 
Sasha sabia que no era nada de pessoal, nem to-pouco um indcio de que no a 
amava. Agora compreendia isso. Simplesmente, era a maneira de ser dele. Quando era 
garoto, ningum lhe havia prestado ateno. Mas agora tinha Sasha, sempre suspensa 
das suas palavras. Adorava isso nela. 
     - Quem me dera que pudesses ir a Vermont comigo... - disse Liam, virando-se na 
cama e olhando-a, com o rosto quase encostado ao dela. Haviam feito amor e tinha sido 
to doce como sempre. Dava a impresso de que, com o passar do tempo, cada vez era 
melhor, apesar de Sasha ter dificuldade em concordar, uma vez que era fabuloso desde o 
princpio.
     - Precisas de estar sozinho com os teus filhos, para renovares a relao que tens 
com eles - disse Sasha sensatamente. Liam sabia que ela tinha toda a razo, mas sentia-
se um pouco receoso perante a perspectiva de voltar a estar com os filhos. Sabia que os 
dois rapazes estavam zangados consigo por se ter mantido afastado deles durante tanto 
tempo. Com seis anos apenas, Charlotte estava entusiasmada por saber que ia ver o pai. 
Alguns dias antes, falara com os trs pelo telefone; durante vrios meses nem sequer 
lhes telefonara. 
     Por vezes pensava em ligar-lhes, mas depois passava-lhe de ideia. Beth tratara 
sempre de arranjar desculpas que justificassem o silncio dele, ocultando as suas lacunas 
paternais, contudo, no estava disposta a continuar a proceder dessa maneira. Alm 
disso, Liam deixava muito a desejar quando
     comparado com o noivo, o qual estava sempre presente e atento s necessidades 
dela e dos filhos. Como resultado, Liam ficara muito malvisto devido  sua longa 
ausncia. Agora tinha de se esforar, e muito, para tentar reparar os danos que causara, 
facto de que tinha noo. Estava ansioso por poder comear a tentar remediar as coisas, 
e tambm se sentia deveras entusiasmado por ir passar o resto do ms de Junho com 
Sasha em Nova Iorque.
     - Vais comigo a um jogo dos Yankees, Sasha? - perguntou, deitado de costas e com 
um sorriso rasgado, a olhar para o tecto. Parecia uma criana que mal conseguia esperar 
pelo momento em que partiria para o campo de frias.
     - Desde que seja razovel, farei tudo o que quiseres, mas tambm preciso de 
trabalhar. No entanto, estou em crer que conseguiremos conciliar as duas coisas, 
podemos trabalhar e divertir-nos. E tambm quero mostrar-te o espao destinado  
exposio dos teus trabalhos.
     - Hummm... - fez ele, sorrindo-lhe e aninhando-se mais junto dela. Havia ocasies 
em que Liam a fazia sentir-se uma rainha. Outras vezes fazia-a sentir-se a rainha-me. 
     
     
     
     
                                             CAPTULO 11
     
     Liam foi de avio para Paris numa sexta-feira  noite, e da ambos embarcaram no 
mesmo voo, que partiu na manh de domingo. Sasha oferecera-lhe a passagem area, e 
os dois instalaram-se em lugares na primeira classe, lado a lado. Liam parecia uma 
criana numa festa de aniversrio, aceitando tudo o que lhe era oferecido. Deliciou-se 
com caviar e champanhe, tendo comido o seu almoo e parte do dela, aps o que 
reclinou o assento na posio de cama, cobriu-se com uma manta e dormiu a sesta. 
     At se despiu e vestiu um pijama e, por momentos, colocando um saco de plstico 
na cabea, como se fosse um chapu, mostrou sinais de ter voltado ao seu 
comportamento irreverente de antigamente. Viu dois filmes, comeu um lanche, serviu-se 
de todos os artigos do estojo de higiene, cortesia da companhia area, e por fim convidou 
Sasha a juntar-se ao clube dos que faziam amor nos lavabos.
     - Est-me a parecer que vamos ter de te sedar aquando do prximo voo. - Sasha fez 
uma careta sorridente, depois de ter declinado o seu convite. - Houve uma ocasio em 
que tivemos de fazer isso com o Xavier, porque ele ficava sempre agoniado quando era 
mido, mas teve uma reaco adversa ao medicamento e o resultado foi parecer que 
tinha levantado voo, como um motor a jacto fora de controlo.
      Nunca vi uma criana to hiperactiva! Depois disso, decidimos que o melhor era ele 
vomitar durante as viagens de avio, at que acabou por lhe passar. - No entanto, Sasha 
nunca vira ningum to radiante como Liam por fazer uma viagem de avio, manifestando 
verbalmente quanto se sentia deleitado. No se cansou de lhe agradecer, desde a 
descolagem at  aterragem.
     - Sempre pensei que era normal sentar-me com os joelhos junto s orelhas e os 
cotovelos dos meus companheiros de viagem no peito. Isto  muito melhor! - disse ele 
com uma expresso de xtase, enquanto voltava a reclinar o assento para trs, 
estendendo as pernas a todo o comprimento.
     Liam continuava num estado de esprito extremamente animado quando passaram 
pela alfndega no Aeroporto de Nova Iorque, dizendo piadas a todos em seu redor. Como 
de costume, travou amizade com as hospedeiras, a maior parte das quais Sasha 
conhecia de viagens anteriores, e tratou o inspector da alfndega pelo nome de baptismo, 
tendo mantido uma conversa animada com o bagageiro sobre basebol enquanto ela 
procurava o seu motorista, que fora avisado para a ir buscar. 
     Exuberante no chegava, nem de perto nem de longe, para descrever o estado de 
esprito de Liam, mas, acima de tudo, sentia-se feliz, grato e entusiasmado por se 
encontrar ali, e, apesar de se comportar como um pio a girar, descontrolado, Sasha 
adorava estar com ele.
     Finalmente acalmou-se, quando chegaram ao apartamento de Sasha, sentindo-se 
impressionado ao ver como a decorao era requintada. Apreciou a qualidade das 
antiguidades e ficou assombrado ao ver os quadros a leo. Havia um Monet, dois Degas 
e um Renoir, alm de uma srie de desenhos de Da Vinci de valor incalculvel e inmeras 
peas de arte que s mais tarde teria azo de admirar. 
     Na verdade, o apartamento de Nova Iorque era bastante mais formal do que a ala do 
casaro em Paris, a qual Sasha decorara de maneira mais simples e moderna quando a 
renovara. A residncia de Nova Iorque era a prova de toda uma vida a coleccionar obras 
de artistas importantes, a maior parte das quais havia sido adquirida pelo pai, que lhas 
oferecera de presente.
     - Ena, Sasha!... Tudo isto so coisas da pesada... Liam estava estupefacto diante de 
um El Greco em tons sombrios de que ela nunca gostara, tendo-o pendurado num 
corredor. Finalmente, conseguiu arrast-lo o tempo suficiente para lhe mostrar o quarto. 
Teve um momento de hesitao, porque nunca o partilhara com nenhum outro homem 
alm de Arthur, mas chegara a altura de o fazer. Estava pronta para franquear as suas 
portas e a sua vida a Liam.No entanto, pediu-lhe que pusesse as suas coisas no quarto 
de hspedes, no fosse dar-se o caso de algum dos filhos aparecer inesperadamente, 
alm de tambm no querer chocar a senhora que vinha fazer a limpeza todos os dias, a 
mesma que trabalhara para ela durante grande parte do seu casamento.
      Liam no pareceu ficar contrariado com isso; largou o saco de viagem no quarto ao 
fundo do corredor, aps o que foi para o quarto dela, levando uma taa de sorvete. 
Comportava-se como se estivesse em sua casa, esparramado na poltrona preferida de 
Arthur; ligou o televisor e apanhou a transmisso de um jogo de basebol. Depois olhou 
para Sasha com uma careta sorridente e juvenil, que lhe fez sentir os joelhos tremerem, e 
desatou a rir-se.
     - Isto  porreiro, Sasha! Sinto-me como se tivesse morrido e ido para o Paraso. - Ele 
tambm provinha de uma famlia distinta e com dinheiro, se bem que talvez no tanto 
como se respirava ali, embora fosse proeminente e slida. A nica diferena residia no 
facto de o terem tratado sempre como um inadaptado e um proscrito por possuir um 
temperamento artstico e ser diferente dos demais membros da famlia. No apartamento 
de Sasha, pelo contrrio, sentia um grande bem-estar, sabendo que a sua presena era 
incondicionalmente desejada na vida dela.
      Para Liam, isso fazia toda a diferena, o que tambm acontecia com Sasha. Ambos 
estavam num estado de esprito animadssimo, desfrutando plenamente a relao que 
partilhavam.
     Ela sugeriu que nessa noite fossem a um restaurante nas proximidades. Antes de 
sarem de casa, telefonou a Tatiana; tal como imaginara, a filha estava muito ocupada 
com os amigos e tinha uma srie de planos para essa semana, dizendo  me que 
passaria pela galeria para a ver logo que tivesse uns momentos livres, o que seria mais 
provvel  hora de almoo. Assim, Sasha sentiu-se totalmente segura quando nessa noite 
se deitou na cama com Liam. 
     A mulher-a-dias s chegaria ao meio-dia, hora a que j teriam sado de casa, ela 
para a galeria e ele para visitar os amigos que viviam no Soho. Quanto a esse aspecto, o 
segredo dos dois estava seguro, e, no que respeitava
     a qualquer outra pessoa, se fosse descoberto, Liam seria apresentado como um 
simples convidado da casa.
     Liam conquistou definitivamente o seu corao quando, nessa noite, j na cama, ps 
um brao  volta dela, chegando-a mais para junto de si. A despeito do empolgamento 
que sentia por se encontrar ali, no deixara de reparar na expresso do rosto dela 
algumas horas antes, quando entraram no quarto. Ficou com a impresso de que para ela 
era difcil estar ali com ele, num quarto que lhe trazia recordaes do passado.
     - Ests bem? - perguntou-lhe num murmrio, chegando-se a ela. Sasha soube de 
imediato que ele compreendera; acenou-lhe afirmativamente.
     - Sim, meu querido, estou bem... Obrigada por teres perguntado.
     - No quero fazer nada aqui que possa perturbar-te. Se quiseres, posso dormir no 
outro quarto. - Sasha olhou para ele, sorrindo.
     - Sentiria demasiado a tua falta. Ests muito bem aqui
     - retorquiu, beijando-o. Foi um beijo terno e no um beijo que sugerisse que queria 
mais alguma coisa dele, alm da compreenso que acabara de lhe demonstrar. Liam 
beijou-a com a mesma ternura, mantendo-a chegada a si, e nessa noite limitaram-se a 
dormir aninhados um no outro.
     No dia seguinte, Sasha levou-o  galeria. Liam ficou impressionado ao ver o espao 
de que dispunham e a forma como o haviam utilizado. Gostou dos quadros do pintor cujos 
trabalhos estavam expostos na altura, semicerrando os olhos ao pensar nos seus prprios 
quadros expostos naquele lugar. 
     Era perfeito, e agora passara a ter uma ideia mais exacta quanto ao nmero de 
trabalhos de que iria precisar, quantos quadros na horizontal e quantos na vertical. Para 
Liam, o facto de estar ali, por si s, era inspirador. Sasha apresentou-o a todos os 
funcionrios. Mareie, a sua assistente, quase desfaleceu quando ele entrou num passo 
langoroso, revirando os olhos de assombro a Sasha nas costas dele.
     - Oh, meu Deus, parece uma estrela de cinema!... -
     comentou com a respirao ofegante, provocando o riso de Sasha. Detestava 
admiti-lo, mas s vezes era precisamente isso que ele parecia. Preferia v-lo como 
quando passavam o dia em casa, ambos com roupas velhas, cabelos soltos e com uma 
aparncia desalinhada. Havia ocasies em que se sentia intimidada ao seu lado quando 
saam, o que fazia com que tivesse noo da sua idade.
     -  uma pessoa simptica e um bom artista - disse Sasha com naturalidade. - Estou 
satisfeita por nos encontrarmos em Nova Iorque ao mesmo tempo, o que aconteceu por 
mero acaso. Parece-me que est a caminho de Vermont para visitar os filhos. - Mareie fez 
um acenar de cabea, impressionada com Liam. No s era um belo pedao de homem, 
alm de ser talentoso, como tambm era um bom pai. 
     J havia comeado a idealiz-lo, apesar de o ter conhecido havia apenas cinco 
minutos. Sasha conhecia-o muito melhor, pelo que se sentia muito menos deslumbrada 
do que Mareie. Limitava-se a am-lo, apesar dos ps de barro e tudo o resto. E,  
semelhana dos demais, ele tinha-os, e ela tambm no era excepo.
     Liam passou a manh na galeria com ela, familiarizando-se com os funcionrios e 
observando tudo  sua volta. Examinou as prateleiras e subiu ao andar de cima para ver 
os trabalhos clssicos, aps o que saiu, encaminhando-se para o Soho, a fim de ir ter 
com os amigos. Segredou a Sasha que se encontrariam mais tarde no apartamento, ao 
que ela acenou afirmativamente.
     Por sorte, Tatiana chegou cinco minutos depois de ele ter sado. Ia buscar qualquer 
coisa a um fotgrafo e, como ficava em caminho, aproveitou para ver a me. Parecia 
contente e estava bonita como sempre e, concluiu Sasha, observando a filha com outros 
olhos, com um ar extremamente jovem. Tatiana tinha a mesma idade das mulheres com 
quem Liam gostava de entabular conversa e que admirava. 
     A filha havia feito vinte e quatro anos h pouco e, ao olhar para ela sob uma nova 
perspectiva, Sasha sentiu-se muito envelhecida. Sabia que tinha de ultrapassar aquele 
complexo, caso contrrio a sua relao com Liam jamais resultaria. Antes de o conhecer 
nunca se preocupara com a idade, mas agora vivia obcecada com isso. Sentia-se velha.
     - Ol, me! Durante quanto tempo vai ficar em Nova Iorque? - perguntou Tatiana, 
tirando um chocolate de um pires e dando um beijo  me.
     - Acho que vou ficar um ms. - Como sempre, Sasha estava contentssima por ver a 
filha.  uma data de tempo... - retorquiu Tatiana, surpreendida ao ouvir aquilo. Nos 
ltimos meses a me nunca ficava muito tempo em Nova Iorque. Sentia-se deprimida no 
apartamento em que vivera com Arthur, dizendo que era ali que a ausncia dele se fazia 
sentir com mais intensidade.
     - Vamos inaugurar uma exposio ainda este ms e preciso de tratar dos 
preparativos, por isso achei melhor ficar por aqui durante mais algum tempo. Como  que 
vo as coisas contigo?
     - s mil maravilhas! Fui aumentada h pouco tempo, a minha editora odeia-me e eu 
quero o lugar dela - replicou Tatiana, que parecia sentir-se no pico do mundo. Sorria, 
olhando para a me, feliz por a ver.
     - Tudo isso parece bastante normal - retorquiu Sasha, rindo-se.
     - At um dia destes; agora tenho de me ir embora. J estou atrasada. S queria 
dizer-te Ol. - Tatiana deixara um txi  sua espera, saindo com a mesma pressa com 
que entrara, levando consigo uma mo-cheia de chocolates, o seu almoo. Sasha deu-lhe 
um beijo apressado antes de ela desaparecer porta fora.
     Sasha teve um dia muito ocupado na galeria, a preparar as coisas para a nova 
exposio. Era ela prpria quem tratava de tudo sempre que inauguravam exposies, o 
que, alis, adorava fazer. Foi com alguma dificuldade que saiu s dezoito horas para ir ter 
com Liam, que j deveria estar no apartamento. Quando entrou na cozinha, deparou com 
ele a comer sorvete e piza; ele beijou-a na boca.
     - Hummm... delicioso. O que ? Rocky Road?
     - Fudge Broumie - corrigiu Liam. - Esqueo-me sempre de como os gelados so 
deliciosos nos Estados Unidos. Em Inglaterra sabem a merda.
     -  pior em Frana - retorquiu Sasha, sorrindo. Ogelato  bom... - Sentou-se  mesa 
da cozinha a olhar para ele, concluindo que era bom v-lo ali ao fim de um dia exaustivo 
de trabalho. Liam parecia estar em sua casa.
     - O gelato  para os mariquinhas - contraps ele. - Isto  que  um gelado a srio. 
Come uma fatia de piza; vou levar-te a sair. - Sasha no queria dizer-lhe que estava 
cansada depois de um longo dia de trabalho, alm de sentir a fadiga da diferena horria. 
Ele apresentava um aspecto vibrante e cheio de vida. Tinha passado um dia esplndido 
com os amigos.
     - Onde  que ests a pensar levar-me? Preciso de mudar de roupa? - perguntou, 
mas tudo o que lhe apetecia era tomar um banho quente de imerso para relaxar antes de 
ir para a cama. Sentia-se exausta depois de ter andado todo o dia a pegar em quadros, 
levando-os de um lado para o outro para preparar a exposio.
     - Precisas. Veste umas calas de ganga - retorquiu ele, enquanto passava a tigela 
por gua antes de a pr na mquina de lavar loua. Quando estava com ela, Liam 
costumava fazer aquele gnero de coisas; todavia, a sua casa era uma confuso total. 
Desde que Beth e os filhos o haviam deixado passara a viver no estdio, dormindo num 
saco-cama em cima de um div. Aquilo, para ele, era um luxo. 
     - Tenho bilhetes para o jogo dos Yankees - anunciou, triunfante. - Comprei-os a um 
amigo. - Viu as horas no relgio de pulso. - Temos de sair dentro de dez minutos. O jogo 
comea s sete e meia, e o mais certo  o trnsito estar engarrafado. - Havia muito 
tempo, Liam vivera em Nova Iorque durante cerca de um ano, esquecendo-se de quanto 
adorava a cidade at regressar, de vez em quando. Gostava da atmosfera electrizante e 
da agitao, mas, mais do que tudo, gostava dos Yankees.
     Sasha esforou-se por mostrar entusiasmo, indo mudar de roupa. s vezes 
perguntava a si mesma o que  que andava a fazer com um homem da idade dele que se 
comportava como se tivesse metade da idade que efectivamente tinha. Liam precisava de 
algum como Tatiana, mas, em vez disso, estava com ela. 
     No lhe apeteceu comer piza, e foi lavar o rosto e pentear-se, vestindo umas calas 
de ganga e uma T-shirt branca e calando umas sandlias. Tirou um xaile de uma 
prateleira e dez minutos depois j se encontrava de novo na cozinha. Liam estava pronto 
para sair, com um bon dos Yankees que trouxera consigo de Londres.
     - Ests pronta? - perguntou, sorrindo-lhe e fitando-a com um olhar de xtase. 
Quando desceram no elevador, meteu conversa com o ascensorista, dizendo-lhe que iam 
ver o jogo. Os Yankees iam enfrentar os Red Sox, de Boston. Com certeza seria um jogo 
magnfico. Os Yankees andavam em mar de sorte, disse ele, acrescentando que iam dar 
uma cabazada aos outros.
     Quando chegaram ao estdio dos Yankees, Sasha j se sentia melhor; parecia-lhe 
que parte dos efeitos da diferena de fusos horrios havia desaparecido. Liam comprou-
lhe um cachorro-quente e uma cerveja, falando-lhe sobre as duas equipas e os melhores 
jogadores. Era um fantico por basebol, o que Sasha considerava engraado. De facto, 
era um ambiente muito diferente dos jantares formais e enfadonhos a que se recusara a 
lev-lo em Paris. Verdade fosse dita, preferia aquilo. Para ela, tudo ali era novidade. Em 
toda a sua vida nunca assistira a um jogo de basebol.
     Enquanto esperavam que o jogo comeasse, disse-lhe que tinha visto Tatiana, como 
sempre uma visita muito curta, e Liam respondeu-lhe que estava ansioso por a conhecer. 
Sasha no conseguia impedir-se de se perguntar como  que os dois se dariam; esperava 
que se entendessem. Compreendia que, se os filhos o aceitassem, isso faria grande 
diferena na relao entre os dois. 
     Sabia de antemo que Xavier no se oporia, uma vez que eram amigos, muito 
embora no fizesse ideia de quais seriam os sentimentos do filho quando soubesse que 
Liam mantinha uma relao amorosa com a sua me. Mas a sua grande preocupao 
prendia-se com a reaco da filha. Tatiana era imprevisvel quanto s pessoas de que 
gostava ou no. Nunca se sabia como iria reagir, alm de que tinha opinies muito mais 
firmes e crticas do que o irmo, uma pessoa de trato fcil.
     Liam ia-lhe explicando o que se passava ao longo do jogo, que os Yankees 
ganharam, seis a zero. Ele no cabia em si de contente, conversando animadamente com 
ela durante o caminho at ao txi. Assim que chegaram a casa foram para a cama; uma 
vez mais, no fizeram amor, e Sasha dormiu que nem uma pedra. Liam foi para Vermont 
na manh seguinte para ver os filhos, prometendo que voltaria da a quatro dias e que lhe 
telefonaria de Vermont. 
     Sasha deixou-o na Grand Central Station, aps o que se dirigiu para a galeria. Sabia 
que estava a ser tola, mas a verdade  que comeou a sentir a falta dele assim que o 
deixou. Liam prometera que estaria de volta no fim-de-semana, e Sasha estava a pensar 
em lev-lo  casa nos Hamptons, dependendo do seu estado de esprito na altura. Tivera 
de fazer algum esforo psicolgico para se habituar a t-lo na cama que partilhara com 
Arthur, no apartamento em que vivera com o marido, mas Liam mostrara-se 
compreensivo face a isso. 
     Tinha a certeza de que agiria da mesma maneira na casa de Southampton, s no 
podia prever como  que ela prpria reagiria emocionalmente. Tinha sido no quarto da 
casa da praia que vira Arthur pela ltima vez. Para ela era um lugar sagrado, ao qual no 
estava bem certa se Liam pertenceria. Por enquanto. Ou talvez nunca viesse a pertencer. 
Precisava de apalpar o terreno, por assim dizer, em relao a esse assunto, e no estava 
com muita pressa de se decidir.
     Durante a semana andou mais atarefada do que esperara, comparecendo a vrias 
recepes, alm de ter almoado com Alana, que estava muito feliz com o seu 
casamento, gastando cada cntimo do dinheiro do seu novo marido, e de ter jantado com 
Tatiana. Entretanto, Liam telefonava-lhe regularmente para a pr ao corrente de como as 
coisas estavam a correr com os filhos. 
     Ao princpio, teve alguma dificuldade com o mais velho. Tom culpava-o inteiramente 
pelo divrcio, pois Beth pusera-o a par dos pormenores mais srdidos do incidente com 
Becky; Liam ficou lvido quando soube disso, o que contou a Sasha. Ela disse-lhe que se 
acalmasse e tentasse resolver a situao com o filho. No final da semana, as coisas j 
estavam a correr melhor. 
     Haviam passado uma noite a falar sobre o sucedido, por entre lgrimas de pesar e 
arrependimento, e pela manh tanto o pai como o filho se sentiam melhor. George, o filho 
de doze anos, tinha ficado feliz por ver o pai, mas durante o ltimo ano adquirira um tique 
nervoso que o obrigava a tomar medicamentos, os quais Liam era de opinio que ele no 
precisava, tendo-se recusado a dar-lhos. Porm, o garoto telefonara a Beth a contar-lhe e 
ela ameaara ir buscar os filhos ao chal caso Liam no desse os medicamentos a 
George, o que ele acabou por fazer. 
     Quanto a Charlotte, era uma garota adorvel e era fcil lidar com ela, no cabendo 
em si de contente por ver o pai. O nico problema foi ter cado ao andar de bicicleta, 
tendo torcido o pulso, mas, para alm disso, tudo correra bem. Um fim-de-semana tpico 
com os filhos, especialmente os filhos que ele no via h tanto tempo. 
     Nada do que lhe contou surpreendeu Sasha, embora ele se tivesse sentido chocado 
com parte do que se passou. Liam vivera em estado de negao quanto s 
consequncias da sua ausncia durante todo aquele tempo. Ver os filhos de novo f-lo 
despertar para a realidade.
     - Decorrido um ano  complicado voltar a entrar na vida deles, retomando a relao 
no ponto em que ficou - disse a Sasha numa noite em que a hora j ia avanada quando 
lhe telefonou. - Est tudo mudado, os trs esto muito diferentes - acrescentou, em tom 
de queixa. No entanto, continuavam a ser os seus filhos, e ela dava-lhe todos os 
conselhos ao seu alcance sempre que ele ligava. 
     Liam estava-lhe grato pelo apoio, mostrando uma expresso de cansao, mas 
tambm de satisfao, quando voltou ao apartamento de Nova Iorque, na sexta-feira, j 
noite adentro. 
     Tinha acabado de chegar de comboio, e era evidente que se sentia deleitado por a 
ver. Trazia o bon de basebol com a pala para a nuca, as calas de ganga rasgadas nos 
joelhos e havia uma semana que no se barbeava. Se no fosse a barba crescida, dir-se-
ia um garoto que regressasse a casa depois de uma estada num campo de frias.
     Sasha ps a gua a correr para o banho, preparou-lhe qualquer coisa de comer, 
deu-lhe uma taa cheia de sorvete e, por fim, Liam ficou deitado na cama a olhar para ela 
como se fosse um anjo que tivesse acabado de descer do Paraso.
     - Foi difcil, Sasha... - admitiu, enquanto comia o sorvete.
     - Eu sabia que haveria de ser - afirmou ela calmamente, feliz por ele ter voltado. Mas 
eu no sabia. Acho que no fundo quis convencer-me que quando os visse tudo seria 
como antigamente. Enganei-me. Foi diferente. Eles mudaram. Ao princpio, foi como se 
no nos conhecssemos. Estavam todos francamente chateados comigo. 
     - A nica coisa surpreendente era o facto de ele no ter contado com isso. Havia 
andado em estado de negao, como se esperasse que o tempo tivesse parado. Todavia, 
com base no que dissera, depois de quatro dias com os filhos, abrira a porta que poderia 
sanar a relao com eles, possibilitando que esta melhorasse. Tinha sido uma viagem 
maravilhosa e os filhos eram uns garotos fantsticos.
     - Tens de voltar para estares mais vezes com eles. No est certo se no o fizeres. - 
Se fosse necessrio, ela prpria compraria a passagem area. Sabia quanto isso era 
importante, ainda que ele no se apercebesse, mas acreditava que agora, depois de os 
ter visto, compreendia melhor a situao. Os filhos amavam-no e precisavam dele nas 
suas vidas. Ele era o pai deles. Muito embora o futuro padrasto suprisse melhor as suas 
necessidades, os filhos amavam e precisavam de Liam, o que ele constatara 
pessoalmente. Decorridos os quatro dias da visita, foi com grande dificuldade que se 
despediu deles.
     Sasha massajou-lhe as costas quando se deitou e depois fizeram amor. Era a 
primeira vez que ela fazia amor com ele naquela cama. Mas deixara de ser a cama dela e 
de Arthur. Agora passara a ser a cama dela e de Liam. Ele adormeceu quase no mesmo 
momento em que pararam de fazer amor; parecia um rapaz grande e muito belo deitado 
na sua cama, pensou Sasha ao lado dele, afagando-lhe o cabelo e beijando-o ao luar que 
banhava o quarto.
      
                                                  
     
     
     
     
     
     
     
     
     
                                          CAPTULO 12
     
     Quando Liam acordou na manh de sbado, depois de ter chegado de Vermont, 
Sasha sugeriu-lhe que fossem passar o fim-de-semana a Southampton. Andara a pensar 
naquilo durante toda a semana, embora no lhe tivesse falado no assunto, por querer ter 
a certeza de que se sentia pronta para partilhar a casa dos Hamptons com ele. Porm, 
enquanto lhe preparava o pequeno-almoo, concluiu que era boa ideia, e Liam ficou muito 
entusiasmado. O dia estava soalheiro e quente e no havia nada que lhe pudesse dar 
mais prazer do que ir  praia.
     Deixaram o apartamento de Nova Iorque pouco depois das onze horas e por volta 
das treze e trinta j haviam chegado ao seu destino. Durante o percurso Sasha manteve-
se bastante calada. Foi Liam quem conduziu, e parecia relaxado enquanto trocavam 
algumas palavras de vez em quando, em geral acerca dos filhos e do tempo que passara 
com eles em Vermont. Liam continuava preocupado com o filho mais velho, Tom, por ter 
verificado que, desde a ltima vez que o vira, havia um ano, se tinha tornado um jovem 
muito ressentido. 
     No Outono iria para a Universidade da Pensilvnia, graas a uma bolsa de estudo e 
com a ajuda do futuro padrasto, que pagaria as despesas de alojamento. Tom censurara 
Liam em vrias ocasies, dizendo que o namorado da me fizera mais por ele durante os 
ltimos seis meses do que Liam em toda a sua vida. Explicara a Tom que era um artista 
que passava fome, mas o filho retorquiu que se estava nas tintas para isso, dizendo que 
Liam era um fracassado e um pai asqueroso. Alm disso tambm o confrontara com o 
facto de ter ido para a cama com a irm gmea da me, e Liam continuava furioso com 
Beth por ter contado o que acontecera ao filho.
     - Isso no  justo - disse Sasha com uma expresso de reprovao. - A tua ex-
mulher no lhe devia ter contado. 
     Aquele episdio dava uma imagem terrvel de Liam aos olhos dos filhos, o que 
Sasha lamentava por ele, apesar de reconhecer que Liam agira de maneira muito 
estpida e irresponsvel. Mas as pessoas cometiam erros de que posteriormente vinham 
a arrepender-se; era bvio que fora o que acontecera com Liam. Sasha considerava que 
a infidelidade dele era um assunto que devia ter ficado exclusivamente entre ele e Beth.
     - Ela no deixou muito por dizer. - Beth contara a Tom tudo a respeito do pai, a 
ocasio em que cometera adultrio e a sua irresponsabilidade financeira ao longo de vinte 
anos. Como  que ela estava quando a viste? - perguntou Sasha, curiosa por saber mais 
acerca de Beth.
     - No cheguei a v-la. Quando fui buscar os garotos tinha sado. A av  que me 
recebeu, e nem sequer me dirigiu a palavra. A Becky estava l em casa com o namorado 
da Beth quando trouxe os garotos de volta. S espero que no faa a mesma proeza com 
ele... Mas o mais provvel  ele ser mais esperto do que eu fui. - Suspirou, olhando para 
ela. D a impresso de ser um bom tipo, e os garotos gostam verdadeiramente dele. - 
Sasha podia adivinhar, ao ouvi-lo, que Liam se sentira posto de lado. 
     Mas, do mal o menos, fora visitar os filhos, voltando a restabelecer contacto com 
eles, ainda que, a princpio, tivesse sido difcil lidar com Tom. Liam dissera-lhe na noite 
anterior que este, finalmente, conseguira acalmar-se, tendo comeado a mostrar-se mais 
caloroso para com o pai, mas primeiro quisera dar largas  sua clera, sendo evidente 
que o tinha conseguido. 
     Sasha continuava a pensar que Beth no havia procedido bem por lhes ter falado 
sobre o erro do pai. Independentemente das consequncias, o incidente, em si, devia ter 
continuado a ser apenas do conhecimento dos adultos. 
     Na sua opinio, as crianas no tinham necessidade de se inteirar dos pecados dos 
pais, ponto de vista que partilhou com Liam.
     - Acho que ela ainda guarda muito rancor por causa do que eu lhe fiz, o que no 
tenta ocultar. A Beth e a Becky sempre tiveram cimes uma da outra. - Liam no dissera 
uma nica palavra  ex-cunhada quando trouxe os filhos de
     volta. Limitou-se a um acenar de cabea antes de sair. Becky tambm no lhe 
dissera nada.
     Entretanto chegaram  casa de Southampton. Era uma moradia vitoriana de 
construo irregular, pintada de branco, que lhes lembrara a Nova Inglaterra quando ela e 
Arthur a tinham comprado, havia vinte anos. Parecia o tipo de casas que haviam visto em 
Marthas Vineyard e Nantucket. Tinha um alpendre coberto muito amplo em toda a volta. 
Ela e Arthur gostavam de se sentar a nas noites quentes e, s vezes, at mesmo durante 
o Inverno, bem agasalhados e tomando um chocolate quente. Sasha tentou expulsar tais 
recordaes da sua mente quando abriu a porta a Liam. Habitualmente, costumava entrar 
pela porta da cozinha, nas traseiras, mas desta feita decidiu entrar pela porta da frente, 
agindo de maneira diferente do que era seu costume.
     -  uma casa antiga maravilhosa, Sasha - disse Liam, olhando  sua volta. Tinham 
mantido uma decorao simples e rstica, mas o ambiente era acolhedor e convidativo. 
Naquela casa no existia nada de pretensioso. No parecia ter peas de arte valiosas, 
somente objectos bonitos, grandes sofs em pele muito confortveis e duas poltronas 
forradas a lona. Foi ento que Liam reparou numa pintura de Andrew Wyeth, pendurada 
por cima da lareira. 
     Era um quadro perfeito e maravilhoso que inspirava uma certa melancolia, uma das 
obras mais famosas deste pintor. Parecia a praia l fora num dia de Inverno. Era uma 
paisagem com pequenos montculos de neve no solo, e ficava-se com a sensao de que 
da tela soprava uma brisa glida que enevoava o ar. Era, sem dvida alguma, o trabalho 
de um grande mestre.
     - Uau! - exclamou Liam, olhando, assombrado, para o quadro. Sempre admirara as 
pinturas de Wyeth. - Eu daria tudo e mais alguma coisa para possuir um Wyeth - 
acrescentou com um assobio de admirao, enquanto Sasha se ria.
     - Foi a prenda de casamento que o meu pai nos ofereceu. - Havia muitas peas 
como aquele quadro l em casa, recordaes, tesouros, coisas que as crianas tinham 
feito, mobilirio antigo norte-americano que ela e Arthur haviam
     comprado aquando das viagens que tinham feito pela Nova Inglaterra nos primeiros 
tempos do casamento, ou quando Tatiana andava na faculdade e a iam visitar. Na casa 
de jantar sobressaa uma mesa antiga lindssima, embora com muito uso, que em tempos 
pertencera ao refeitrio de um convento e que Sasha comprara em Frana. Para onde 
quer que olhasse, Liam via coisas que, instintivamente, sabia que para ela tinham um 
valor incalculvel. 
     Aquela casa tinha muito significado para Sasha, pelo que no lhe foi difcil 
compreender que, para ela, o facto de o ter levado ali era bastante expressivo. Mais ainda 
do que o apartamento de Nova Iorque. Muito mais! Aquela casa era, de longe, muito mais 
pessoal e importante para ela.
     - Acho que, se tivesse uma casa como esta, no hesitaria em mudar-me para c - 
disse Liam, sem ocultar a admirao que sentia, quando se estendeu no sof, tirando o 
bon de basebol e olhando  sua volta.
     - Quando os meus filhos eram pequenos, costumvamos passar os Veres aqui. 
Ainda hoje continuam a adorar a casa, se bem que nenhum deles venha c com muita 
frequncia. Estou em crer que nos entristece a todos. Era o grande amor de Arthur, e em 
tempos tambm foi o meu.
     - E agora? - perguntou Liam, olhando-a cheio de ternura. Aquela era mais uma 
faceta dela que estava satisfeito
     por conhecer. Sasha possua tantas facetas como um diamante, cintilando com o 
mesmo brilho, embora pudesse ver que nos seus olhos se espelhava uma expresso de 
tristeza. - Desde que ele morreu s vim aqui uma vez. Mas no piquei. No fui capaz. 
Porm, esta manh senti que queria vir c contigo. - Liam ficou comovido e lisonjeado; 
levantou-se e, aproximando-se dela, ps-lhe um brao sobre os ombros. 
     Sasha estava a permitir que ele entrasse no seu mundo pessoal, o que ele sabia ser 
o que de mais precioso tinha para lhe dar. - Provavelmente, devia mudar algumas coisas 
e renovar a decorao. Est tudo com um aspecto um tanto estafado - disse ela, olhando 
em redor. O interior estava com pior aspecto do que se recordava, o que constatou 
subitamente ao ver atravs dos olhos de Liam.
     - Gosto da decorao tal como est. Tem um ambiente que faz com que nos 
apetea sentar e ficar para sempre. Sasha sorriu-lhe. Era isso precisamente que sempre 
sentira em relao quela casa e, em certa medida, continuava a sentir. A nica coisa que 
faltava era a presena de Arthur, mas agora tinha Liam ali, consigo.
     - Tens fome? - perguntou Sasha, abrindo os cortinados e subindo as persianas. O 
sol entrou a jorros na sala e do stio onde estavam podiam ver a praia e o oceano, ao 
longe. Ela trouxera um saco cheio de provises da cidade para fazer o almoo e o 
pequeno-almoo para ele. Quanto ao jantar, pensou que seria agradvel lev-lo a um dos 
restaurantes da localidade.
     - No tenho muita fome, mas podia preparar qualquer coisa para tu comeres - 
dizendo isto, levou o saco para a cozinha, onde o pousou. Era uma cozinha muito 
espaosa e antiga, ao estilo rural, com uma mesa enorme com um tampo em madeira 
macia e cantos desgastados pelo tempo. A casa tinha o aspecto de ter abrigado uma 
vida intensa e de ser muito amada, o que correspondia  verdade.Liam preparou sandes 
de peru para ambos e abriu duas latas de gasosa; bebeu a sua directamente da lata, 
enquanto Sasha bebia de um copo. 
     Assim que acabaram de comer, sugeriu que dessem um passeio pelo areal. Ainda 
no haviam subido at ao quarto, e tinha o pressentimento de que esse momento seria 
bastante difcil para ela. Aquela casa estava cheia de recordaes, a par de um fantasma 
muito amado, o seu marido. Liam tencionava lidar cuidadosamente com a situao, e 
acreditava que um passeio ao ar livre faria bem a Sasha.
     Passearam pela praia durante quase uma hora, grande parte do tempo de mos 
dadas, mantendo-se num silncio feito de bem-estar. De vez em quando Liam detinha-se 
para apanhar conchas, e quando chegaram  extremidade do areal ambos se sentaram, 
estendendo-se na areia a olhar para o firmamento. Estava de um azul cintilante e o Sol 
brilhava em todo o seu esplendor. Sentiam a areia quente sob o corpo.
     - De todas as tuas casas, esta  a minha preferida - disse Liam, deitado ao lado dela 
e enlaando-a com um brao.
     - Adoro este lugar! - Sasha via que ele falava verdade. Quem me dera que os meus 
filhos pudessem vir c um dia... Eles adoram a praia. - Tal como ele prprio, alis.
     - Talvez possam vir... - retorquiu ela em voz baixa, sentando-se e baixando o olhar 
at ele, sorrindo-lhe com ternura. Aos seus olhos, Liam parecia sempre to belo, 
sobretudo ali, na praia, com os cabelos louros soltos e suavemente agitados pela brisa... 
Ela fizera uma trana, penteado por que optava com frequncia quando estava na praia.
     - Costumas nadar aqui? - perguntou ele com uma expresso de interesse.
     - Nesta altura do ano a gua ainda est bastante fria. Habitualmente, s depois do 
Quatro de Julho  que me aventuro a tomar banho, e mesmo nessa altura ainda est 
muito fria. S em Agosto  que fica com uma temperatura mais agradvel. - E nessa 
altura j ela estaria em Saint-Tropez com os filhos. Queria que Liam se juntasse a eles 
para passar, pelo menos, um fim-de-semana, o que j lhe tinha dito, mas ainda no 
haviam planeado nada nesse sentido.
     - Tens algum fato de mergulho c em casa? - perguntou Liam.
     - Acho que o Xavier deixou um na ltima vez em que esteve c.
     - Talvez v experimentar a gua esta tarde. Queres fazer-me companhia? - Sasha 
respondeu-lhe com uma gargalhada.
     - Ainda no estou maluca! na brincadeira, aps o que se encaminharam para casa.
     Liam descobriu o fato de mergulho na garagem, enquanto Sasha desembalava as 
coisas que ambos haviam levado no andar de cima; quando desceu vinha plida. Sempre 
que entrava no quarto, deparando com a enorme cama de dossel, pensava na ltima vez 
em que vira Arthur, quando ele lhe dissera que a amava, na manh em que ela partira 
para Paris.
     E no dia seguinte estava morto. Mas no falou a Liam dos seus sentimentos. Era a 
sua cruz, que ela prpria teria de carregar; alm do mais, no queria estragar-lhe o fim-
de-semana, fazendo que se sentisse constrangido na sua cama. Ele j tinha vestido o fato 
de mergulho quando ela desceu. Parecia uma foca loura e muito alta; prendera a 
cabeleira basta da cor do trigo num rabo-de-cavalo.
     - Vou tomar banho no mar. Queres ficar a ver-me? Uma vez mais, trouxe-lhe  ideia 
memrias de quando Xavier era pequeno, altura em que, fizesse o que fizesse, estava 
sempre a gritar: Olha para mim, me!
     - Est bem - concordou, seguindo-o at  praia; sentou-se e ficou a v-lo dirigir-se 
para o mar. Pelo menos, com o fato de mergulho, era possvel entrar na gua; de outra 
maneira, a temperatura seria insuportavelmente fria. Liam nadou durante alguns minutos 
antes de sair a pingar a gua gelada do Atlntico  sua volta.
     - Merda, at mesmo com o fato de mergulho est um gelo! - disse ele, sorrindo, 
apesar de estar a tremer.
     - Eu avisei-te... - Mas ele parecia ter gostado do mergulho.
     Voltaram para casa e Sasha levou-o ao andar de cima. J tinha desemalado as 
coisas dele, pendurando a roupa no roupeiro ao lado da sua. No ano anterior mandara 
instalar uma fechadura no roupeiro de Arthur. Tudo o que havia sido dele continuava ali 
dentro. Ela ainda no tirara nada, nem sabia quando o faria, se  que alguma vez o 
chegaria a fazer. Aquela tambm era a casa dele, mesmo depois de ter morrido. At certo 
ponto, seria sempre a casa dele. Liam era um convidado. 
     Alis, foi isso precisamente que sentiu ao olhar para tudo o que se encontrava no 
quarto. Na decorao adivinhava-se uma forte influncia masculina. Havia vrios quadros 
a leo de aves e peixes, assim como um outro de grandes dimenses representando um 
veleiro pendurado por cima da cabeceira da cama. Sasha no levara nenhum dos seus 
quadros de arte contempornea para ali; a maior parte deles encontrava-se em Paris. 
Aquela era uma vida inteiramente diferente.
     At mesmo Liam tinha percepo da presena de Arthur, no obstante o facto de 
no o ter conhecido.
     Depois de ter nadado no mar, Liam tomou um duche quente, aps o que 
saborearam um bom vinho sentados no alpendre. Entretanto, Sasha reservara mesa num 
pequeno restaurante cuja especialidade eram pratos de peixe. Seguiram para l de 
automvel s dezanove horas e mandaram vir lagosta, que, como  bvio, 
acompanharam com mais vinho. Enquanto trocavam banalidades durante o jantar, Liam 
via que Sasha comeava a ficar mais descontrada.
     Voltaram a sentar-se no alpendre quando chegaram a casa, falando em voz baixa, 
ao luar;  meia-noite dirigiram-se ao andar de cima. Liam apercebia-se de que aquele era 
outro dos lugares que para ela eram sagrados, e nessa noite no fez amor com Sasha. 
Limitaram-se a ficar deitados, estreitamente abraados. Na manh seguinte, ela no lhe 
disse que sonhara com Arthur. Tinha sido um sonho pacfico. Arthur caminhava pela 
praia, afastando-se dela, que no tentava apanh-lo. E quando ele se virou e lhe sorriu, 
acenando-lhe com a mo, tinha uma expresso de felicidade no rosto; depois 
desapareceu. preparou um lauto pequeno-almoo para Liam: ovos mexidos e waffles.
      Na cozinha havia uma chapa elctrica enorme j com muito uso na preparao de 
waffles. Liam fez o caf. Depois de comerem foram passear pela praia, sentaram-se no 
alpendre e Liam dormiu uma sesta na rede-espreguiadeira. Ao final da tarde, quando o 
Sol j se punha no horizonte, decidiram ficar mais uma noite. O tempo que haviam 
passado na casa da praia tinha sido perfeito, exactamente aquilo de que ambos estavam 
a precisar. 
     Em conjunto, prepararam o jantar, dormiram sossegadamente, aninhados um no 
outro, e na tarde de segunda-feira voltaram para a cidade. Sasha nem sequer se deu ao 
incmodo de ir ao escritrio. Nessa noite jantaram com amigos dele no Soho.
     Encontraram-se num restaurante italiano; eram quatro pintores e dois escultores. 
Falaram de galerias e de exposies, assim como dos trabalhos que tinham em mos. 
Eram mais novos do que Liam, e Sasha calculou que deviam ter entre vinte e trinta e 
poucos anos. Liam apresentou-a apenas pelo nome de Sasha.
      Ela deixou-se ficar a ouvir atentamente quando um deles, durante a sobremesa, 
mencionou a sua galeria. Era uma jovem bonita, que disse tencionar deixar na galeria 
alguns diapositivos no dia seguinte; Sasha olhou para Liam, que lhe sorriu. No revelou 
quem Sasha era, e j no txi, a caminho da rea residencial da cidade, ela perguntou-lhe 
se os trabalhos da rapariga eram bons.
     - Ho-de ser, mas, para j, no est pronta para a tua galeria. - Para Sasha era 
divertido estar anonimamente entre eles. E mais engraado ainda era eles no terem 
conhecimento de quem ela era. Havia algo naquela situao que lhe agradava, embora 
sentisse que, at certo ponto, estava a engan-los, ouvindo-os a falar abertamente de 
galerias rivais e da sua prpria galeria. Durante a conversa, o seu nome fora mencionado 
em mais de uma ocasio como sendo uma figura lendria.
     - O que  que ests a pensar fazer amanh? - perguntou por entre um bocejo, 
deitando-se na cama ao lado dele. Sentia falta da praia.
     - Vou a um jogo dos Yankees - replicou Liam, com uma expresso de deleite.
     Ambos levavam uma vida muito agradvel: praia, amigos, pintores, jogos de basebol 
e trabalho. Parecia magia, uma maravilha para os dois, e Sasha sentia-se grata pela 
presena de Liam. Sem que a sua inteno tivesse sido essa, a verdade  que ele 
mudara a vida dela, acrescendo-lhe qualquer coisa que Sasha nunca tivera: uma faceta 
juvenil da vida que lhe escapara por ter casado muito jovem e ter tido filhos logo a seguir. 
Mas at mesmo antes disso Sasha tinha andado muito ocupada a aprender com o pai e, 
posteriormente, a trabalhar para ele.
      Nunca levara a existncia livre e despojada de convencionalismo de que Liam 
continuava a desfrutar aos quarenta anos de idade. At ao momento, ainda nenhum dos 
seus amigos tinha saboreado o xito, nem to-pouco as responsabilidades e a presso 
que o acompanhavam. Trabalhavam esforadamente, mas no ganhavam quase nada. 
Eram poucos os que eram casados e apenas ela e Liam tinham filhos. Eram pessoas que 
davam a impresso de no ter qualquer tipo de responsabilidades. Liam tinha, mas as 
suas haviam sido delegadas noutrem, na sua ex-mulher e no futuro marido desta. Sasha 
gostava de poder conhecer os filhos dele. T
     alvez isso viesse a acontecer um dia. Mas, entretanto, Liam continuava a parecer-
lhe uma criana.Nessa semana andou muito ocupada na galeria, a tratar dos preparativos 
para a exposio que seria inaugurada na semana seguinte. Era ela prpria quem 
costumava tratar de tudo para as exposies, e s vezes at era ela quem pendurava os 
quadros, trabalhando pela noite fora.
     Na sexta-feira sentia-se exausta e pronta para outro fim-de-semana na praia. Desta 
feita partiram ainda na sexta-feira, como ela e Arthur costumavam fazer. Chegaram por 
volta das vinte e uma horas, sentaram-se no alpendre a descansar e deitaram-se cedo. E 
desta vez, se bem que um pouco a medo, fizeram amor.
      Parecia que estava tudo a correr bem. Sasha comeava a acostumar-se a ter Liam 
no que de mais privado havia no seu mundo. Para ela, era um passo muito importante, 
ainda mais do que para Liam.
     No sbado, quando passeavam pela praia, disse-lhe que fora convidada para uma 
festa, perguntando-lhe se gostaria de a acompanhar. A festa era oferecida por uma actriz 
de Hollywood muito conhecida. A gente do cinema descobrira os Hamptons recentemente 
e Sasha fora-lhe apresentada havia dois anos por uns amigos. Recebera o convite no 
ms anterior e Mareie lembrara-lhe da festa na sexta-feira, antes de sair da galeria. 
     Achou que talvez fosse divertido. Certamente seria uma grande festa na praia, com 
churrasco e msica ao vivo. Quando ela lhe falou no assunto, Liam mostrou-se 
surpreendido. Sasha nunca o tinha convidado para ir a uma festa e Liam sabia que se 
sentia relutante em faz-lo. Queres que eu v contigo? - perguntou, lisonjeado. Sasha 
nunca se oferecera para o levar a qualquer outro evento social. Era a primeira vez.
     - Sim. - Foi tudo o que ela disse, sem qualquer explicao. Ele tambm no lhe fez 
mais perguntas.
     A festa comeou s dezanove horas e eles chegaram s vinte. O convite informava 
tratar-se de um evento informal, todavia, Sasha sabia que algumas das mulheres 
presentes estariam vestidas de maneira requintada. Assim, optou por umas calas 
brancas, um casaco de seda branca e uma fieira de prolas, prendendo o cabelo ao alto, 
mas num penteado solto. 
     Liam usava calas de ganga, uma camisola de algodo de manga curta e um 
casaco desportivo que ela tivera o cuidado de levar, embora sem lhe dizer por que motivo, 
juntamente com um par de sapatos de pala que encontrara no roupeiro dele no quarto de 
hspedes.
     - E no precisas de calar meias - disse ela, trocista. Aqui  moda no usar meias. 
Sendo assim, talvez eu devesse cal-las. No me agradaria nada comear a estar na 
moda. - Durante toda a sua vida, sempre sentira uma enorme satisfao em remar contra 
a mar.
     Liam acabou por no calar meias, e ambos se sentiram imediatamente  vontade 
assim que chegaram  festa. Formavam um casal deslumbrante, e Liam admitiu, 
segredando-lhe ao ouvido, que se sentia impressionado por conhecer a actriz de cinema, 
a anfitri, e os amigos famosos. Havia pelo menos uma dzia de rostos que qualquer 
pessoa, em qualquer parte do mundo, teria reconhecido num primeiro olhar.
     - Quem me dera poder contar a algum!... - continuou, num murmrio. Mas a nica 
pessoa com quem podia falar da festa era com ela.
     - Eu tambm me sinto sempre impressionada quando conheo pessoas como estas 
- confessou Sasha.Ficaram na festa quase at  uma da manh, danando ao som da 
banda, que viera propositadamente de avio de Los Angeles, e ambos pareciam 
satisfeitos, embora cansados, quando voltaram para casa. Liam comportara-se como um 
verdadeiro cavalheiro durante toda a noite, o que fez que ela se sentisse totalmente  
vontade na sua companhia. 
     Vrias dasmulheres que se encontravam na festa estavam acompanhadas de 
homens mais novos, com diferenas de idade muito maiores do que a que existia entre 
ela e Liam. Em Hollywood estava na moda as mulheres j entradas andarem com homens 
mais novos. Sasha comentou isso com ele quando foram para a cama.
     - Eu j te disse que detestava andar na moda - retorquiu ele, mostrando-se pouco 
incomodado. Tinha passado umas horas esplndidas e sentira orgulho em sair com ela. 
Alm do mais, nove anos no  uma diferena por a alm.
     - Talvez no seja para ti - retorquiu ela, rindo-se  socapa e aninhando-se nele. Liam 
desligou o candeeiro. No tenho bem a certeza de que os meus filhos sejam da mesma 
opinio. - E, nos dias maus, ela tambm no era.
     - Quando  que vou poder conhecer a Tatiana? - perguntou ele na escurido.
     - Provavelmente, aquando da inaugurao da exposio, esta semana. Ela nem 
sempre vai, mas disse que desta vez estaria presente.
     - Achas que vai gostar de mim?
     - Talvez.  difcil saber. Alis,  praticamente impossvel prever as reaces da 
Tatiana. Ela tem opinies muito fortes. Adora algumas pessoas, mas detesta outras. Se 
bem que as coisas correro muito melhor se no souber que andas envolvido comigo... - 
Sasha no tinha inteno de pr nenhum dos filhos ao corrente da situao, pelo menos 
para j. 
     Ela e Liam ainda andavam a tentar dar a volta, a limar arestas, por assim dizer, na 
relao que mantinham. Ainda no se tinham decidido a dar o caso como certo. Contudo, 
at agora, no se estavam a sair nada mal. At ela era forada a admiti-lo, apesar de ter 
duvidado que fosse possvel. Por enquanto, tudo corria sobre rodas. 
     
                                                    CAPTULO 13
     
     Liam andava empolgado com a exposio na galeria de Sasha nessa semana, pois 
ia permitir-lhe ficar com uma ideia do que fariam relativamente ao seu trabalho da a seis 
meses. Alm do mais, gostava do pintor cujas obras seriam expostas. Eram um jovem do 
Minnesota que Sasha descobrira na mostra de artes plsticas de Chicago no ano anterior. 
Os seus trabalhos eram poderosos e provocadores.
      Na noite anterior Sasha esteve na galeria at s duas da madrugada, a pendurar os 
quadros, aps o que recuava para os observar; experimentava coloc-los em diversos 
pontos da sala, at encontrar o que lhe parecia melhor. Era uma perfeccionista em tudo o 
que fazia.
     Liam tinha-se mantido pela galeria at  meia-noite a v-la a fazer tudo aquilo, mas 
Sasha estava to embrenhada e concentrada no trabalho que mal falara com ele, pelo 
que, finalmente, decidiu ir-se embora. Quando Sasha chegou a casa j ele dormia a sono 
solto na sua cama.
     No dia seguinte, Sasha nem sequer saiu da galeria. Foi l que tomou duche e 
mudou de roupa, e j estava a receber os convidados quando Liam chegou, s dezoito 
horas, para a recepo. Estava lindssima, com um fato de linho branco que contrastava 
fortemente com o cabelo de um negro-azeviche, os olhos escuros e a pele bronzeada 
pelo sol do Vero. Os seus olhos tinham uma colorao de um castanho quente de marta 
e s vezes pareciam quase negros. 
     Assim que o viu entrar, Sasha sorriu-lhe. Apresentou-o ao pintor e a vrias outras 
pessoas, aps o que o deixou para cumprimentar outros convidados. Liam usava umas 
calas pretas e camisa branca, calava os seus sapatos de pala, sem meias, e nada de 
casaco e gravata. Mas no mundo da gente das artes, o que ele vestia parecia apropriado, 
ao estilo pouco convencional dos artistas, e no destoava dos outros. Os artistas 
adoptavam todo o tipo de vesturio, enquanto os clientes dela usavam fato e gravata. 
     Na recepo estavam presentes vrias modelos das mais famosas e um fotgrafo 
muito conhecido que lhe compravam quadros com frequncia, alm de escritores, 
argumentistas, crticos de arte, pessoas ligadas a museus e outras que haviam ido 
apenas porque era de borla e podiam beber champanhe e comer acepipes, o que era 
normal aquando da inaugurao de exposies em Nova Iorque, e a Galeria Suvery 
encontrava-se entre as melhores.
     Tatiana chegou s vinte horas, e nessa altura j as pessoas tinham comeado a 
sair, mas ainda havia muitas espalhadas pelas diversas salas da exposio. Ia a caminho 
de um jantar algures, tendo passado pela galeria apenas porque ficara de ir l. A 
inaugurao das exposies da me eram coisa rotineira para ela. Usava um vestido de 
seda muito simples num tom turquesa e umas sandlias prateadas de salto alto que lhe 
davam um andar muito sensual; estava deslumbrante quando entrou. 
     Com o seu cabelo de um louro quase branco e uns olhos azuis enormes, no era 
nada parecida com a me. Liam reparou que ela parou para falar com Sasha, 
perguntando-se, cheio de curiosidade, quem seria aquela rapariga, mas ento viu-a dar-
lhe um beijo e as duas trocarem um abrao carinhoso, e deduziu que devia ser a filha de 
Sasha, mas nada na aparncia fsica das duas nem na maneira de vestir teria sugerido 
que eram me e filha. Tatiana tinha formas coleantes e sensuais e dela transparecia uma 
atitude de frieza e distanciamento. Sasha, pelo contrrio, era muito calorosa e animada, 
apresentando as pessoas sempre a sorrir e a conversar.
      Na sua essncia, Sasha era carinhosa e acolhedora. Ela dissera-lhe que Tatiana 
era tmida. A jovem manteve-se afastada de todos por momentos, enquanto percorria a 
sala com o olhar. Liam podia afirmar, sem sombra de dvida, que estava acostumada s 
atenes dos homens. Com vinte e quatro anos, era de uma beleza estonteante, e 
encontrava-se no esplendor mximo da juventude. A me era muito mais despretensiosa 
e, embora tambm fosse uma mulher de grande beleza, parte do seu encanto residia 
precisamente em no ter conscincia dessa beleza. 
     Sasha possua um carisma e um encanto extraordinrios. Observando-a  distncia, 
Liam considerou que Tatiana
     era intimidante. Manteve os olhos presos nela enquanto as pessoas se abeiravam 
para lhe falar, mas ento, como se tivesse tido a percepo de que estava a ser 
observada, a jovem virou a cabea e o seu olhar cruzou-se com o dele. Liam ficou com a 
impresso de que ela no gostou dele, at mesmo do extremo oposto da sala.
     Esperou algum tempo antes de se aproximar para falar com ela, de modo que no 
desconfiasse de nada. No queria dar a impresso de que estava ansioso ou a assedi-
la.Quando passou por ela para se servir de uma bandeja de acepipes que na altura eram 
oferecidos aos convidados, foi por um triz que no chocaram. Estava rodeada por trs 
jovens do sexo masculino, mostrando uma expresso reservada e bebendo pequenos 
goles de champanhe. Liam decidiu juntar-se ao grupo.
     Ol - saudou afavelmente. - Chamo-me Liam Allison. Bela exposio, no acha? - 
Ela fitou-o como se ele tivesse dito alguma grosseria. Tudo na linguagem corporal de 
Tatiana lhe indicava que no entrasse no espao dela. Pelo contrrio, Sasha era muito 
mais acolhedora e afvel para com as pessoas que a abordavam. Era a verdadeira me.
     - Sim,  - retorquiu Tatiana, indiferente  presena dele. - Dedica-se  pintura? - 
Liam tinha a aparncia de algum cuja actividade fossem as artes plsticas,  
semelhana de quase todos os que se encontravam ali, e, ao longo da sua vida, ela tinha 
conhecido um grande nmero de pintores. No era facilmente impressionvel.
     - Sim, pinto. Em Dezembro vou apresentar os meus trabalhos aqui numa exposio 
individual.
     - Que tipo de trabalhos? - Liam explicou-lhe as suas teorias artsticas, desconfiando 
que ela no prestava a mnima ateno s suas palavras, o que correspondia  verdade; 
j tinha ouvido tudo aquilo em ocasies anteriores. Dava a impresso de que lhe faltava a 
candura da me, vitalidade e entusiasmo pela vida. Liam concluiu que gostava muito mais 
da maneira de ser de Sasha. Independentemente da relao que mantinha com a me 
dela, jamais tentaria conquistar aquela rapariga. Alm disso, era velho de mais e com 
uma aparncia demasiado bomia para ela. 
     Os homens com quem saa eram jovens convencionais que vinham de boas famlias 
e a maior parte deles trabalhava em Wall Street. Tatiana considerava que os homens que 
conhecia que se dedicavam s artes plsticas, at mesmo os que estavam associados  
galeria da me, eram indivduos egocntricos e imbecis. Deduzia que ele seria como os 
demais. Aps uma breve troca de palavras, ambos antipatizaram imediatamente um com 
o outro. Num esforo para amenizar um pouco a situao, quanto mais no fosse por 
causa de Sasha, Liam mencionou que conhecia o irmo dela. 
     Com um acenar de cabea, Tatiana deu a impresso de que isso lhe era indiferente, 
mas foi ento que se lembrou de que j ouvira o nome dele; porm, acontecia que todos 
os amigos de Xavier eram destrambelhados, alm de terem um comportamento 
deplorvel, o que no era o caso com Tatiana.Pouco depois, Sasha juntou-se a eles. 
Tinha-os observado a avaliarem-se mutuamente, e ficara apreensiva. Tatiana parecia 
irritada, o que no era bom sinal. 
     Quanto a Liam, mostrava uma expresso de curiosidade com respeito a ela, e 
Sasha receou que ele revelasse de mais caso lhe fizesse muitas perguntas, ou se se 
mostrasse excessivamente caloroso. Mas Tatiana dava a impresso de no desconfiar de 
nada. Muito simplesmente, no estava interessada em conhec-lo, e no havia qualquer 
razo para isso, pelo menos tanto quanto soubesse.
     -J se apresentaram? - perguntou Sasha com naturalidade, pondo um brao  volta 
da filha e mantendo-se afastada de Liam, adoptando perante ele a atitude de uma 
negociante de arte e me, mais nada. E, obviamente, sem mostrar qualquer indcio de ser 
sua amante.
     - Sim, j nos apresentmos - respondeu Liam, esboando um sorriso caloroso para 
Sasha, que lhe retribuiu com o olhar.
     - O Liam  um dos nossos pintores, alm de ser amigo do Xavier; tambm vive em 
Londres. Foi atravs dele que o conheci. O teu irmo  que o descobriu. Em Dezembro 
vamos organizar uma exposio com os trabalhos dele. O que  que tens planeado para 
esta noite? - perguntou Sasha a Tatiana. Inegavelmente, a filha estava lindssima, mas 
Sasha detestava que ela usasse vestidos de um tecido que deixasse transparecer as 
formas do corpo, o que era o caso nesse dia. 
     No entanto, no se diferenciava das outras jovens que se encontravam presentes na 
festa. Actualmente, todas se vestiam da mesma maneira naquela idade, o que no 
impedia que Sasha se sentisse contrariada, embora no tivesse feito qualquer 
comentrio. Tatiana j tinha idade suficiente para se vestir como bem lhe apetecesse e 
fazer o que quisesse.
     - Vou jantar ao Pastis com uns amigos - replicou ela sem acrescentar mais 
pormenores e olhando de fugida para o relgio de pulso. Era pequeno e de diamantes, 
um presente do pai no ltimo Natal que haviam passado juntos.
     - Foi muito gentil da tua parte teres vindo  galeria para este evento, minha querida - 
acrescentou Sasha com um sorriso de ternura. Sabia que Tatiana nunca ia  zona de 
Upper East Side, a menos que se tratasse de questes de trabalho. A exemplo da maior 
parte das pessoas da sua idade, a sua vida social decorria na zona da Baixa.
     - Eu disse que viria... - retorquiu Tatiana, sorrindo  me. Era bem patente que as 
duas mantinham uma relao bastante chegada, ainda que tivessem personalidades 
muito diferentes. Tatiana tinha muito respeito pela me, se bem que no gostasse de 
conviver com as pessoas do mundo das artes plsticas com quem ela trabalhava. 
     Sentia-se impressionada com o que a me fazia e orgulhosa por esta ter conseguido 
expandir o imprio que o av construra. Tatiana ainda se recordava dele. O av sempre a 
amedrontara quando viviam em Paris; Xavier tinha gostado mais dele.
     - Ns vamos jantar ao La Goulue - disse Sasha distraidamente. Era um dos seus 
restaurantes preferidos, pelo que Tatiana no se surpreendeu. Ficava prximo da galeria, 
a comida era boa e tinha muito movimento, sempre cheio de pessoas conhecidas. J l 
levara Liam e ele gostara muito.
     Tatiana saiu alguns minutos depois, altura em que Sasha voltou para junto de Liam, 
comeando a conversar com ele.
     - Ento, simpatizaram um com o outro? - perguntou, apreensiva. Tinham parecido 
dois ces rondando-se mutuamente, atitude que haviam adoptado at Tatiana se ter ido 
embora.
     - Ela  lindssima - retorquiu Liam, falando com sinceridade. Ningum podia negar 
essa realidade. - No entanto, achei-a um pouco intimidante. No me parece que tenha 
gostado de mim.
     - No te sintas desanimado com a atitude dela.  a sua maneira de ser. Os homens 
passam a vida a abord-la, o que a fora a adoptar uma postura de quem est sempre na 
defensiva. - E com as garras de fora, pensou Liam, mas jamais teria dito uma coisa 
dessas  me. Verdade fosse dita, sentira um desagrado visceral pela rapariga. Na sua 
opinio, no passava de um fedelho mimado. Xavier era uma pessoa totalmente diferente. 
Mas nem mesmo o facto de ele ser amigo do irmo a impressionara ou contara a seu 
favor. Liam estava convencido que no havia nada que alterasse a atitude da jovem.
     Pouco depois, saram para jantar. Sasha convidara algumas pessoas com as quais 
acreditava que ele simpatizaria, alm do pintor cujos trabalhos estavam em exposio. 
Eram catorze os comensais que jantavam sentados a uma mesa comprida no La Goulue, 
alm de Sasha; os empregados andavam numa azfama  volta deles. 
     Sasha mantinha todos sob um olhar maternal, certificando-se de que os mnimos 
desejos dos seus convidados eram satisfeitos, para que todos tivessem um jantar 
agradvel. A sua atitude atenta para com as necessidades dos outros era o que definia 
tudo o que Liam amava nela. 
     Era uma pessoa carinhosa e acalentadora, prestando ateno a todos. As raparigas 
como Tatiana preocupavam-se apenas com o seu bem-estar pessoal. Sasha mostrou-se 
francamente empenhada em fazer que Liam sentisse que era importante, bem-vindo, e 
para que estivesse  vontade; ele amou-a profundamente por ter essa atitude. Era o que 
mais precisava da parte dela.
     Nessa noite, nada na postura de Sasha poderia sugerir a quem quer que fosse que 
entre os dois houvesse algum envolvimento amoroso. Ela no dava a mnima indicao, 
um olhar, um toque, uma palavra. Deixou bem claro que ele era importante para si na 
qualidade de pintor ligado  sua galeria e nada mais, portando-se como a negociante de 
arte sempre atenta. Mostrava-se to simptica no trato com os outros como com ele. Liam 
cumprimentou-a por essa atitude quando j voltavam para o apartamento, onde, agora, se 
sentia como se estivesse em sua casa.
      Tatiana teria ficado ao rubro se o tivesse visto todo esparramado a fumar um 
charuto na poltrona preferida do pai, no quarto que este partilhara com a me. Felizmente, 
no estava ali para ver isso. No que dizia respeito a Tatiana, tudo o que havia pertencido 
ao pai era sagrado, incluindo a me, e dizia muitas vezes que se sentia satisfeita por a 
me no ter comeado a sair com outro homem, tendo esperana de que jamais viesse a 
faz-lo. O irmo, mais velho do que ela, era muito mais realista. Tudo o que queria era 
que a me fosse feliz, independentemente do que fizesse e da pessoa com quem esse 
objectivo fosse atingido.
     - Sasha, s espantosa! - elogiou Liam, sorrindo-lhe por entre os anis de fumo. Ela 
at lhe permitia que fumasse no quarto, dizendo que gostava do cheiro do charuto, o que, 
de facto, era verdade. Arthur tambm apreciava bons charutos cubanos. - A inaugurao 
da exposio foi fantstica. Conseguiste fazer com que toda a gente sentisse que era 
importante, at mesmo eu. O Hotchkiss adorou. 
     - Hotchkiss era o pintor cujos trabalhos estavam expostos. - Sentia-se como se 
tivesse morrido e ido para o Paraso. No se cansou de me dizer que eu tinha muita sorte 
por seres tu a representar-me, e nem sequer sabe da missa a metade... - acrescentou 
Liam, rindo-se e fazendo Sasha rir-se tambm.
     - Fico contente por teres gostado - retorquiu ela, mostrando-se muito satisfeita. Era 
uma negociante de arte que gostava de tratar pessoalmente de tudo, em especial em 
relao a ele. No entanto, o empenho com que lidava tanto com os artistas que 
representava como com os clientes fazia parte da sua maneira de ser. Adorava a sua 
actividade, pondo-a em prtica de maneira brilhante.
     - E quem  que no teria gostado? - retrucou Liam, olhando-a com uma expresso 
de admirao enquanto ela vestia a camisa de noite. Sasha sentia-se inteiramente  
vontade na presena dele, tendo a sensao de que viviam juntos havia muitos anos. - A 
Tatiana inspirou-me receio - comessou, quando j acabava de fumar o charuto. Sasha 
deitou-se e ficou a olhar para ele.
     - No sejas tonto, ela  apenas uma mida.  o feitio dela;  uma pessoa fria. Era 
muito apegada ao pai, alm de ser demasiado possessiva em relao a mim. Eu j te 
tinha dito que ela era do estilo preto no branco em relao s coisas. No entanto,  
como diz o ditado, co que ladra no morde. O mais certo  ter pensado que eras mais 
um artista excitado e cheio de luxria por ela. De facto, quem me dera que no usasse 
vestidos como o que tinha hoje. No admira que os homens a assediem 
constantemente!... 
     - A verdade  que ela  linda de morrer - admitiu Liam, apesar de no se sentir to 
entusiasmado em relao a Tatiana como a me. Mas era evidente que Sasha conhecia a 
filha melhor do que ele. - Ela  muito diferente do Xavier. Ele  capaz de falar a um sem-
abrigo, fazendo que se sinta como se fosse um rei. Eu sinto-me como se fosse lixo 
debaixo dos ps dela. -  claro que isto era um exagero, mas no muito, e Sasha ficou 
preocupada ao ouvir o que ele dizia.  - Ela  um pouco mimada de mais, e isso por causa 
da ateno que recebe de toda a gente. Acho que esta noite estava muito bonita.
     - Ela  linda - concordou Liam, se bem que a sua maneira de ser, fria e distante, lhe 
desagradasse profundamente. Sasha era como a chama cintilante de uma vela que 
brilhasse de dentro para fora; Tatiana era como um icebergue, ou, pelo menos, era o que 
parecia aos olhos dele.
     - Ela  muito parecida com o meu pai. Ele tambm inspirava temor, muito embora 
acredite que terias gostado dele.
     - Na verdade, Sasha tinha conscincia de que o pai no teria mostrado o mnimo 
interesse pelos trabalhos de Liam. Os pintores em princpio de carreira nunca o haviam 
impressionado, atitude que se manteve at ao fim da vida, se bem que os lucros que a 
paixo dela lhe havia proporcionado lhe agradassem bastante. No entanto, a arte 
moderna era uma expresso artstica que ele nunca compreendeu e pela qual nunca se 
interessou.
     - O que  que ests a pensar fazer amanh? - perguntou Liam quando se deitou na 
cama ao lado dela. Tinha um brilho muito especial nos olhos e uma expresso de desejo, 
ao que Sasha no se opunha. A sua cama passara a ser dos dois. Pensei que 
poderamos ir at aos Hamptons - replicou Sasha quando Liam a envolveu nos seus 
braos.
     - Parece-me boa ideia - disse ele, beijando-a no escuro.
     - Concordo plenamente - segredou ela, retribuindo-lhe o beijo, aps o que esqueceu 
tudo que no fosse ele.
     Sasha foi para a galeria no dia seguinte, tendo ficado muito satisfeita ao ler as 
crticas relativas  sua exposio. Depois do jantar partiram para Southampton. No 
caminho pararam numa mercearia para comprar alguns gneros alimentares, tendo 
chegado  casa da praia s vinte e duas horas. Sentaram-se no alpendre e ficaram a 
conversar durante algum tempo, enquanto Liam comia sorvete; no falaram sobre nada 
em especial. Deitaram-se cedo, voltaram a fazer amor e na manh seguinte levantaram-
se e foram dar um passeio pela praia. 
     Estavam a entrar numa rotina de vida sem sobressaltos e que lhes proporcionava 
bem-estar. Nessa tarde, sentados na praia, ele falou sobre mudar o seu estdio para 
Paris, o que estava a pensar levar a cabo no Outono. Seria mais fcil do que fazer a 
viagem de Londres para Paris todos os fins-de-semana, o que era cansativo, alm de 
muito dispendioso, ao que acrescia o facto de querer estar perto dela durante toda a 
semana.
     Ambos sabiam que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acabariam por se 
aperceber da relao que mantinham, o que j acontecera com Bernard, mas no se 
podia dizer que Liam tentasse entrar na vida dela  viva fora. Reconhecia que havia 
diferenas no estilo de vida e na maneira de ser de cada um, mas, no que lhe dizia 
respeito, o que haviam partilhado at ao momento s lhe proporcionara bem-estar e 
felicidade. Aquilo era, sem sombra de dvida, possvel. Considerava a relao entre 
ambos magnfica, e Sasha, a pouco e pouco, comeava a ficar convencida. Ao contrrio 
do que receara no incio, de facto, no era impossvel.
     Nessa noite foram ao cinema em Southampton; quando regressaram foram para a 
cama, aconchegando-se um no outro e rindo  socapa enquanto conversavam, quando, 
de sbito, ouviram barulho. Pareceu-lhes que havia algum no andar de baixo e ambos 
pensaram que fosse um ladro.
     - Tens um boto de alerta no sistema de alarme? perguntou Liam num murmrio, e 
Sasha respondeu-lhe com um abanar de cabea.
     - Tenho uma coisa dessas algures, mas no sei onde segredou-lhe ela. Sem dvida 
que conseguiam ouvir o barulho de algum que se encontrava no piso trreo, e depois 
aperceberam-se que essa pessoa comeava a subir as escadas. Liam olhou  sua volta, 
observando o interior do quarto, iluminado apenas pelo luar, e pegou no atiador da 
lareira, aps o que puxou a porta de rompante, abrindo-a na sua direco, ligou o 
interruptor e deixou-se ficar na ombreira da porta, completamente nu e empunhando o 
atiador. Estupefacto, deu consigo a menos de meio metro de Tatiana, que o olhava 
fixamente com uma expresso de assombro.
      Logo atrs dela,  no  patamar,  encontrava-se  um jovem. Quando  viu Liam, Tatiana 
soltou um grito, o que ele tambm fez. Era uma cena inimaginvel! O jovem que a 
acompanhava deu um passo em direco a Liam, enquanto Sasha saltava da cama, 
colocando-se logo atrs de Liam. Tambm estava completamente nua e perplexa ao 
deparar com a filha. Tatiana no lhe dissera que tencionava ir  casa da praia naquele 
fim-de-semana. Na verdade, pensava que a me tinha deixado de l ir. Sasha no 
mencionara as viagens que recentemente fizera at aos Hamptons e no tinha a mnima 
vontade de explicar a presena de Liam na sua vida.
     - Meu Deus, me, o que  que est a fazer aqui? perguntou Tatiana, acometida de 
uma crise repentina de choro. O jovem que a acompanhava, discretamente, comeou a 
descer as escadas para o piso trreo. No tardara a perceber o que se estava a passar, 
pelo que achou melhor afastar-se, o que era uma deciso bastante acertada. - Por acaso 
a me enlouqueceu? 
     - E depois, lavada em lgrimas, focou-se em Liam. - Grande cabro! O que  que 
pensa que est a fazer na cama do meu pai? Aonde  que vocs dois tm a cabea? No 
tem um mnimo de respeito pela memria do pai?
     - gritou  me. - Como  que foi capaz de trazer um homem para esta casa? Como? 
 isto que costuma fazer quando est em Paris? Passa a vida a ir para a cama com os 
seus artistas? - Sem pensar, e pela primeira vez na sua vida, tremendo da cabea aos 
ps, Sasha deu uma bofetada  filha, que lhe pagou na mesma moeda, esbofeteando-a, 
enquanto Liam, desorientado, pousava o atiador.
     Tambm tremia que nem varas verdes, correndo para o interior do quarto, a fim de 
vestir qualquer coisa. Com o aturdimento que a situao lhe causara, s conseguiu 
encontrar os boxer shorts, o que no era uma grande ajuda, mas era melhor do que estar 
ali especado completamente nu. No tinha tido tempo de se vestir quando pensou que 
precisava de proteger Sasha de um gatuno. Na verdade, teria preferido enfrentar um 
homem de arma em punho do que ver-se perante Tatiana.
     - Por favor... vejam se conseguem acalmar-se... - pediu s duas mulheres, lavadas 
em lgrimas, mas os seus esforos foram inteis. Tatiana continuava a gritar com a me, 
num estado que se assemelhava muito  histeria. 
     - Parem com isso! Vamos l para baixo e conversemos como pessoas adultas - 
sugeriu, no tom de voz mais calmo que conseguiu. Mas nenhuma delas lhe deu ouvidos, 
e foi ento que Tatiana voltou a concentrar-se nele.
     - Saia imediatamente da casa dos meus pais, grande canalha! No tem nada a fazer 
aqui! - Liam ficou sem palavras perante a fria que ela mostrava para consigo. Nunca se 
vira numa situao daquelas. Agradecia a Deus por Beth no o ter encontrado na mesma 
figura com Becky, o que poderia ter tido maus resultados, muito embora lhe fosse difcil 
imaginar uma situao pior do que aquela, ser alvo dos improprios da filha de Sasha, 
que no conseguia conter a clera, ao que se juntava a expresso de horror que se 
espelhava nos olhos de Sasha. Aquilo era um autntico pesadelo!
     - No fales com ele nesses termos! - gritava Sasha  filha. - Ele  meu convidado!
     - Ele no  seu convidado, ele  seu amante! E ambos me metem nojo! - Tatiana 
parecia cuspir cada palavra no rosto da me. Dito isto, girou sobre os calcanhares e 
correu pelas escadas abaixo; segundos depois ouviram o estrondo do bater da porta da 
frente, seguido do barulho do motor do automvel em que o casal viera e que arrancava. 
Se Tatiana planeara um fim-de-semana romntico, deparara com algo muito diferente, a 
exemplo do que sucedera com Sasha e Liam. Esta sentou-se nos degraus da escada com 
o rosto escondido nas mos a chorar convulsivamente. Liam envolveu-a nos braos. No 
era daquela maneira que ela
     queria que Tatiana se inteirasse da relao entre os dois. Sentia-se devastada e 
chorou horas a fio.
     - Ela nunca mais voltar a respeitar-me, Liam. Est convencida de que desonrei a 
memria do pai, e suponho que tenha feito isso mesmo... - disse Sasha, mostrando-se 
morbidamente deprimida e abalada. - Ela chamou-me puta e, ordinria... Oh!, meu Deus... 
no consigo acreditar que isto tenha acontecido. - Nenhum deles conseguia, e havia 
muito pouco que Liam pudesse fazer para mitigar a tristeza que se apoderara dela, alm 
de a confortar, tentando faz-la sentir-se melhor. 
     Achava que Tatiana se comportara como um  monstro, por muito chocada ou 
surpreendida que se tivesse sentido. Dissera coisas  me que jamais poderiam ser 
esquecidas ou apagadas, ainda que Sasha decidisse perdoar-lhe, o que, conhecendo-a 
como a conhecia, tinha a certeza de ser o que viria a acontecer.
     - Isto no  um assunto que lhe diga respeito - declarou Liam com firmeza depois de 
ter conseguido convenc-la a voltar para a cama, para o que precisou de vrias horas. 
Nem sequer tinha a certeza se devia estar na cama com ela, mas a verdade  que Sasha 
precisava de si, o que o levou a decidir-se a ficar. - No fizeste nada de condenvel. s 
uma mulher adulta e o teu marido faleceu h quase dois anos. Tens direito a uma nova 
vida sem ele. 
     Estavas na privacidade da tua prpria casa, acompanhada de um homem que te 
ama. No tens qualquer razo para te desculpares - declarou Liam, beijando-a com 
ternura. - Ela  que te deve um pedido de desculpa, Sasha. O que te disse  imperdovel! 
E ainda que fosse essa a inteno de Sasha, ele no estava disposto a desculpar o 
comportamento de Tatiana nem a perdoar-lhe nos tempos mais prximos. Ela chamara-
lhe monte de merda e chulo ordinrio, o que o ofendera profundamente. Alis, teria tido 
um grande prazer em esbofete-la, mas  claro que no cedeu aos seus desejos, se mais 
no fosse, por causa de Sasha. 
     No valia a pena pr mais lenha na fogueira. Ambos estavam a tentar recompor-se 
do ataque verbal de Tatiana e de quanto se mostrara ultrajada ao deparar com a me e 
Liam na cama que esta em tempos partilhara com o pai.
     - Ao fim e ao cabo, esta casa tambm  dela - disse Sasha, tristssima. - Tem todo o 
direito de vir c. Eu s no queria que ela soubesse o que se passa entre ns nos tempos 
mais prximos, e nunca nestas circunstncias. - Sentia-se como uma prostituta que 
tivesse sido apanhada na cama com um cliente. 
     De facto, a filha fizera que se considerasse o ser mais indigno  face da Terra. O Sol 
j comeava a despontar quando finalmente conseguiu conciliar o sono, depois de ter 
falado sobre o assunto durante umas quatro horas, at cansar. Adormeceu nos braos 
dele, a chorar, e ambos despertaram s nove e meia, ao som da campainha do telefone. 
Era Xavier que lhe ligava de Londres. A irm telefonara-lhe na noite anterior, pondo-o ao 
corrente do que se passara. A verso dela era bastante escabrosa. 
     Tatiana disse que Liam andava a pavonear-se pela casa todo nu quando ela entrou, 
sendo evidente que tinha estado a fornicar com a me. Inicialmente Xavier ficou 
espantado, em especial ao imaginar o quadro que a irm lhe descrevia, mas quando se 
acalmou, tendo reflectido sobre o assunto durante algumas horas, chegou  concluso de 
que no se opunha muito quela relao da me.
      De facto, no se opunha absolutamente nada. Gostava de Liam. Lamentava 
apenas, por todos os envolvidos, que se tivessem inteirado da relao daquela maneira. 
Eram catorze horas e trinta minutos em Londres quando Xavier ligou  me. Sasha 
comeou a chorar assim que ouviu a voz do filho; sentia-se profundamente arrependida.
     - Querido, estou to triste... no podia... pensei que... as coisas no so como 
possam ter parecido  Tati... Oh!, meu Deus, o que  que vou fazer? - Tinha a certeza de 
que a relao com a filha ficara destruda para sempre, alm de que nunca se sentira to 
envergonhada em toda a sua vida. Nenhuma relao amorosa valia a desunio da sua 
famlia. Amava Liam, ou acreditava que amava, mas os filhos continuavam a estar em 
primeiro lugar na sua vida. Alm disso, sentia-se aterrada ao pensar que Xavier talvez 
viesse a mostrar-se encolerizado com o seu comportamento.
     - Primeiro, a me precisa de se acalmar - aconselhou Xavier com grande sensatez. 
Dissera a mesma coisa a Tatiana quando ela lhe telefonara s seis da manh, hora de 
Londres, a chorar e a gritar histericamente, apelidando a me de puta. Ele ordenara-lhe 
que se calasse imediatamente, ao que a irm obedecera. Ficaram a falar horas a fio. 
Xavier assegurara-lhe que Liam era um sujeito correcto e decente, um dos seus melhores 
amigos, e que tinha sido ele a apresent-lo  me, embora nunca tivesse esperado que 
aquilo viesse a acontecer. 
     Na verdade, foi coisa que nem sequer lhe ocorrera. No entanto, achava que a me 
tinha todo o direito de ser feliz com quem quisesse. Tal no dependia dos filhos. Era 
evidente que a me agira com toda a discrio, o que fez notar a Tatiana, uma vez que, 
aparentemente, at ento ningum tivera conhecimento da relao. Nem mesmo ele 
desconfiara de nada quando os vira juntos. E sem dvida que a me no era nenhuma 
puta. Era apenas uma mulher muito sozinha que tinha um amante que, por mero acaso, 
era alguns anos mais novo do que ela, um assunto que no dizia respeito a nenhum dos 
filhos.
     - Como  que ela consegue fazer uma coisa destas na cama do pai?  nojento! 
replicara Tatiana, lacrimosa. Adorava o pai e ainda lhe custava a acreditar que ele tivesse 
falecido. E agora, para que se sentisse ainda mais infeliz devido  perda dele, algum 
havia ocupado o seu lugar e deitava-se na sua cama.
     - Tati, a cama tambm  da me. Para onde  que ests  espera que ela v? 
Temos sorte por permitir que usemos a casa da praia, no  obrigada a isso. O pai 
deixou-lhe a casa.
     - Sim, mas podia ir para um hotel.
     - Isso seria srdido! A me tem todo o direito de fazer o que quiser, Tati. Alm do 
mais, posso garantir-te que ele  um tipo decente; conheo-o muito bem.
     - Uma porra  que !  um artista a morrer de fome que s quer o dinheiro dela. O 
nosso dinheiro... - recordara ao irmo, na esperana de conseguir vir-lo contra o amigo. 
No resultou. Xavier sabia que Liam no era como ela o pintava.
     - No me parece - retorquira Xavier, pensativo. - No acredito nisso. Acho que ele 
gosta mesmo dela. - Pelo menos, era o que esperava, e foi para tentar certificar-se disso 
que telefonou  me.
     - Isso  a srio, me? - perguntou-lhe com toda a sinceridade, e Sasha hesitou. No 
sabia o que dizer ao filho, nem to-pouco como classificar a sua relao com Liam. 
Amavam-se, mas ainda no tinham chegado a uma concluso definitiva quanto ao resto. 
Era precisamente o que ambos estavam a tentar descobrir.No sei - replicou ela, falando 
ao filho com igual sinceridade. Tinha por hbito ser franca com os filhos. No lhes mentira 
a respeito de Liam, apenas lhes ocultara a verdade. Era um pecado de omisso, no de 
perpetrao, embora tivesse conscincia de que a diferena entre um e outro era muito 
vaga.
     - H quanto tempo  que isso dura? - insistiu Xavier, na esperana de que no se 
tratasse de uma relao de uma noite, ou de um mero impulso irresistvel, o que faria de 
si um mentiroso aos olhos de Tatiana, uma vez que dissera que a me no fazia nada de 
nimo leve e que aquele assunto, provavelmente, era importante para ela. O que, alis, 
s fez com que a irm chorasse ainda mais. 
     No queria que a me viesse a casar com um pintor ridculo mais novo do que ela. 
Seria demasiado embaraoso e muito difcil de engolir. Queria que a me chorasse a 
morte do pai para todo o sempre, por muito infantil e egosta que a sua atitude pudesse 
ser.
     -  uma relao que j dura h seis meses, desde Janeiro, tendo sido interrompida e 
retomada uma ou duas vezes, - respondeu Sasha, pesarosa. Liam ouvia tudo o que ela 
dizia, deitado ao seu lado na cama, acabando por se decidir a deix-la sozinha a falar 
com o filho. Levantou-se e desceu ao piso trreo para fazer caf.
     - Tenciona casar com ele? - continuou Xavier.
     - Deus me valha!... No sei... Passo a vida a dizer-lhe que a nossa relao  
impossvel. Estou em crer que a Tatiana provou isso ontem  noite. No tenciono fazer 
nada que possa separar-me de vocs dois. Eu e o Liam ainda no chegmos a qualquer 
concluso quanto ao desfecho que esta relao ter. At  possvel que no tenha futuro.
     - No ser isso que a afastar de ns, me. No existe nada que possa separar-nos. 
Ns amamo-la. A Tatiana h-de
     conseguir pr o assunto para trs das costas. Acontece  que ela ficou muito 
surpreendida, foi completamente inesperado. Queremos que a me seja feliz. - Xavier 
falava por si e pela irm, o que Sasha sabia no corresponder  realidade. Pelo menos, 
de momento.
     Sasha gemeu, arrependida, ao recordar-se da cena da noite anterior, com ela e 
Liam completamente nus e todos a gritarem uns com os outros. Tatiana descrevera a 
situao ao irmo com bastante fidelidade.
     - Foi horroroso! Ns pensmos que ela era um gatuno. O Liam saiu para o corredor, 
levando o atiador e sem ter nada vestido.
     - Foi precisamente o que ela me contou - disse Xavier, sem qualquer comentrio. 
Era dois anos mais velho do que a irm, o que explicava a diferena de atitude. Ao que 
acrescia o facto de Liam ser seu amigo, portanto, uma pessoa que conhecia. Inicialmente, 
a relao entre ele e a sua me tambm o deixara surpreendido, mas, do mal o menos, 
sabia que era um homem decente. Tatiana, pelo contrrio, no sabia nada a respeito de 
Liam. - Foi uma sorte ele no ter desferido o atiador, atingindo-a na escurido.
     - Ele ligou as luzes, o que s serviu para piorar as coisas quando a Tati nos viu. - 
Desta vez Xavier, sem conseguir reprimir-se, riu-se.
     - Pois bem, me, foi posta a descoberto. Mas se est feliz,  tudo o que nos 
interessa. Eu trato de falar com a Tatiana mais tarde. Disse-lhe que tomasse um Valium e 
que fosse para a cama.
     - Ela costuma tomar Valium? - perguntou a me, que pareceu ter ficado chocada. 
Tanto quanto lhe era dado saber, os filhos nunca haviam tomado qualquer medicamento 
que pudesse criar habituao.
     - No, mas tenho a certeza de que conhecer algum que o tome. Ontem  noite 
pareceu-me que era disso mesmo que ela estava a precisar. A me devia t-la acalmado 
com uma mangueira de incndios... Quando me telefonou, estava completamente fora de 
si. - E nessa altura j havia tomado uma bebida alcolica pura, tendo parecido ao irmo 
que estava meio embriagada. 
     Tatiana mostrara-se extremamente perturbada, pelo que o irmo lhe dissera que se 
deitasse e que lhe voltasse a ligar mais tarde. - Posso falar com o Liam? - Sasha foi ter 
com ele  cozinha. Ele deu-lhe uma chvena de caf e ela passou-lhe o telefone. Assim 
que ouviu a voz de Liam, Xavier riu-se  socapa. - Ento, agora vou passar a tratar-te por 
pap?
     - O que  muito melhor do que os nomes que a tua irm me chamou. Xavier  
lamento muito, a srio que sim. No foi minha inteno criar esta confuso toda. Nunca 
faria isso  tua me por nada neste mundo, nem to-pouco a ti.
     - No te preocupes. Merdas como essa por vezes acontecem. - Xavier assumiu o 
papel de chefe de famlia, saindo em defesa dos interesses da me. - Tu ama-la de 
verdade?
     - perguntou, circunspecto. Xavier esperava que sim, porque Liam era boa pessoa e 
queria acreditar que o amigo estava a portar-se de maneira honrada e no apenas movido 
por um capricho. No queria que se aproveitassem da me, especialmente um dos seus 
amigos.
     - Sim, amo - confirmou Liam alto e bom som, olhando de relance para Sasha, que se 
sentara  mesa da cozinha com uma postura de desnimo, continuando a mostrar-se 
muito perturbada. Sentia-se profundamente humilhada.
     - Ainda  cedo de mais para te perguntar quais so as tuas intenes?
     - Provavelmente,   sim.   Ambos  continuamos  a tentar chegar a uma concluso 
clara em relao a este assunto.
     Ainda  cedo de mais. Tive de me esforar bastante para conseguir convencer a tua 
me de que isto era boa ideia. No me parece que a cena da noite passada tenha 
ajudado muito. Alm do mais, ainda nem sequer estou divorciado. - Foi ento a vez de 
Liam questionar Xavier. - Se decidssemos seguir em frente com a nossa relao, 
aprovarias?
     Xavier hesitou durante algum tempo, pensando naquilo. A situao tambm era uma 
novidade para si.
     - Calculo que sim, caso acreditem que sero capazes de vir a ser felizes juntos. No 
 o que eu esperava, mas, s vezes, a vida prega-nos partidas engraadas. Talvez a 
vossa relao resulte. Vou deixar que vocs dois cheguem a uma concluso. Entretanto, 
eu trato de falar com a minha irm.
     - Fico-te muito grato - retorquiu Liam com um ligeiro tremor na voz. Aquilo a que 
dava mais apreo era ao facto de o amigo ter abenoado a relao, mais ainda do que 
pudesse fazer para apaziguar a irm, embora isso tambm fosse um grande contributo, 
alm de ter muito significado para Sasha, que continuava extremamente acabrunhada. 
Liam devolveu-lhe o telefone e saiu para o alpendre, ficando a contemplar a praia. O dia 
estava enevoado, o que se coadunava com o seu estado de esprito.
     Xavier tentou serenar a me quando retomou a conversa telefnica com ela. Sasha 
chorava de mansinho e ele sentiu-se extremamente pesaroso por ela. No lhe era difcil 
aperceber-se de quanto aquela situao devia ser penosa para ela.
     - Me, procure acalmar-se. Eu falo com a Tatiana. Tente passar um fim-de-semana 
minimamente agradvel. Ela h-de acabar por pr o assunto para trs das costas, tal 
como a me. Ela tem bom fundo. O Liam diz que a ama.  tudo o que precisa de saber.
     - Eu tambm o amo - confessou Sasha, fungando, lacrimosa -, mas no estou 
disposta a perder os meus filhos por causa dele.
     - E isso no acontecer. Ela vai gritar, berrar e bater o p durante mais algum 
tempo, mas depois passa-lhe. Ela porta-se sempre como uma diva. A Tatiana  assim 
mesmo! A me tem todo o direito de levar a relao avante, se for isso que deseja. Pode 
contar com o meu apoio. E se a me no ceder e a relao resultar, tambm acabar por 
contar com o apoio dela. Se isso no acontecer, encare o assunto como uma experincia, 
e h-de chegar o dia em que todos nos riremos do que aconteceu. 
     - Mas a verdade  que, por enquanto, ningum estava a rir-se. Xavier mostrava-se 
extraordinariamente generoso e maturo, muito mais do que a irm.
     Sasha agradeceu-lhe, emocionada, e continuaram a falar mais alguns minutos antes 
de desligarem. Em seguida foi ter com Liam, que continuava sentado no alpendre. Olhava 
para o mar com uma expresso pensativa, virando-se quando ela se sentou no banco-
balouo ao lado dele.
     - Lamento muito o que aconteceu, Sasha. No foi minha inteno criar esta 
confuso toda que tanto te magoa - disse ele, mostrando-se genuinamente pesaroso pelo 
sucedido.
     - No criaste confuso nenhuma. Tinha de acontecer, mais nada. Era inevitvel que 
eles viessem a descobrir, mais cedo ou mais tarde. - O que tambm aconteceria com 
outras pessoas, mas aquela no era a forma como ela queria que a relao passasse a 
ser do conhecimento geral, para dizer o mnimo. Nenhum dos dois o desejara.
     Passaram o resto do fim-de-semana tranquilamente, tendo voltado para a cidade no 
domingo  noite. Sasha tentara vrias vezes falar com Tatiana atravs do telemvel, mas 
s conseguira chegar  opo de mensagens. Quando ligou para o apartamento, tambm 
ningum respondeu, tendo deixado vrias mensagens cheias de ternura  filha no 
atendedor de chamadas. Liam detestava ouvi-la a falar de modo to submisso, mas sabia 
quanto o amor da filha era importante para ela. 
     Na sua opinio, Tatiana merecia uma boa sova, mas no disse nada a Sasha quanto 
a isso. A partir de agora, ela  que teria de encontrar a melhor forma de lidar com o 
assunto.
     Xavier tambm deixou vrias mensagens  irm, que lhe retribuiu, ligando-lhe para 
Londres. No entanto, mostrou-se intransigente quando ele tentou cham-la  razo, alm 
de ter ficado furiosa quando se apercebeu de que o irmo apoiava Liam.
     - s to destrambelhado como eles! Por amor de Deus, ele  quase vinte anos mais 
novo do que ela! At que ponto  que ela  louca?
     - A me no  louca, Tatiana, est muito sozinha. E ele  apenas uns oito ou nove 
anos mais novo do que ela - replicou Xavier calmamente, esforando-se, em vo, por 
tentar cham-la  razo.
     - Parece um mido...
     - Sob certos aspectos, de facto, . s vezes porta-se como um garoto, mas no  
assim,  um homem decente. Ele diz que a ama. Estou em crer que ela tambm o ama. 
Quer esse amor nos agrade, quer no, a me tem o direito de estar com quem muito bem 
lhe apetecer. E digo-te que prefiro que seja com ele do que com algum idiota pomposo 
que detestaramos ou com um tipo qualquer que s estivesse interessado no dinheiro 
dela.
     - Isto  doentio, Zav, e o mais provvel  ele andar atrs do dinheiro dela.
     - No me parece. Alm da pintura, no tem outro interesse.  um indivduo decente, 
que esteve casado durante vinte anos e tem trs filhos. - Xavier teve o cuidado de no 
dizer  irm que o casamento acabara por ele ter ido para a cama com a irm da mulher. - 
Vais ter de confiar no discernimento da me em relao a esta situao. Quem sabe se a 
paixo no lhes passar... No esto a causar mal a ningum.
     - Sim, mas ela vai fazer uma figura ridcula, tal como ns, caso algum venha a 
descobrir ou se comear a apresentar-se em pblico com ele - insistiu Tatiana, 
recalcitrante. Eu j fiz coisas muito piores, acredita. Tal como tu prpria... - Xavier estava 
a par de todos os segredos da irm, e havia umas quantas relaes amorosas que ela 
tambm no desejaria que fossem do conhecimento geral. 
     Alm disso, era inegvel que Sasha no andava a fazer alarde da sua relao com 
Liam, pelo contrrio, mantinha o assunto em segredo, ocultando-o na casa nos 
Hamptons. Mas, mesmo que as pessoas se inteirassem, no havia nada de censurvel 
que se pudesse atribuir a Liam.
     - Ela  a tua me! - gritou Tatiana, sentindo-se furiosa com o irmo. No estava 
disposta a ceder um milmetro que fosse naquele assunto. E quando Tatiana assumia 
uma posio de firmeza, no havia nada que conseguisse demov-la das suas 
convices. Pelo menos, num futuro prximo.
     -  disso mesmo que estamos a falar! D-lhe uma oportunidade, Tati. Porta-te 
decentemente para com ela. A me precisa de compreenso. Ficou infelicssima quando 
o pai faleceu. Quero que volte a ser feliz!
     - Mas no com ele! - ripostou Tatiana, que, sem sombra de dvida, declarara guerra 
aos dois e estava firmemente disposta a manter essa posio. Queria banir Liam da vida 
da me de uma vez por todas, custasse o que custasse. Estava determinada a salvar a 
me de si prpria, quanto mais no fosse, em memria do pai.Ficaram a discutir sobre o 
assunto durante quase uma hora, sem que Tatiana cedesse um milmetro sequer. Disse a 
Xavier que no descansaria at que Liam desaparecesse da vida
     deles e, pela maneira como se expressou, Xavier acreditou nela. Pensou que era 
uma pena. S lhe restava esperar que Liam procedesse de maneira mais firme e com 
mais tenacidade do que a irm. Tatiana era implacvel quando assestava baterias no que 
quer que fosse. O que acontecera naquele caso. 
     
                                          CAPTULO 14
     
     Sasha parecia morbidamente deprimida quando chegou  galeria, na segunda-feira. 
Karen, a directora, reparou nisso, enquanto Mareie lhe perguntou gentilmente se havia 
algum problema quando lhe entregou mais umas quantas crticas relativas  exposio 
inaugurada na semana anterior.
     - Est a sentir-se bem? - indagou, solcita, quando Sasha ergueu a cabea com 
lgrimas nos olhos. Tatiana no lhe retribura um nico dos seus telefonemas e nessa 
manh, quando ligara para o escritrio da filha, haviam-lhe dito que ela estava fora. No 
queria ter de a seguir de modo furtivo, mas a verdade  que Tatiana se recusava 
terminantemente a atender os seus telefonemas.
     - Durante o fim-de-semana tive um problema com a Tatiana - disse  sua assistente, 
sem adiantar mais pormenores. No seria capaz de descrever a cena, com Liam 
completamente nu na ombreira da porta do quarto, armado com um atiador, enquanto 
Tatiana vociferava, dirigindo aos dois toda a espcie de insultos. Sempre que pensava 
naquilo, toda ela se arrepiava, recomeando a chorar. Tinha sido uma cena demasiado 
escabrosa.
     - Ela est bem? - Apesar de no ter filhos e de nunca se ter casado, Mareie era o 
tipo de me acalentadora, um dos aspectos de que Sasha mais gostava na sua 
personalidade. No s desempenhava as suas funes profissionais na perfeio, como 
tambm era extremamente generosa e cordial na maneira como lidava com Sasha.
     - No sei, ela recusa-se a falar comigo. Tivemos uma discusso horrvel. Pior do que 
se possa imaginar - Mareie sabia que essa situao no era invulgar quando Tatiana era 
mais nova, contudo, nos ltimos anos, me e filha davam a impresso de se entenderem 
muito bem. At agora.
     - Vai ver que isso lhe passa... - redarguiu Mareie, mostrando-se confiante. A questo 
agora era saber se o mesmo aconteceria com Sasha.
     - No sei se as coisas sero assim to fceis - disse Sasha, assoando-se e 
limpando os olhos com um dos seus lenos de renda. Aprendera com a me a guardar 
sempre um leno antes de sair de casa. Era uma das recordaes mais ternas que 
conservava da me no fundo do seu corao; Sasha trazia sempre um leno na mala. - 
Foi horrvel!... - reiterou, enquanto Mareie parecia uma galinha  volta dos pintainhos, 
tendo ido fazer um ch, aps o que foi buscar um copo de gua e um prato de biscoitos. 
Sasha fitou-a e sorriu. Obrigada, Mareie. 
     - Esta pareceu hesitar antes de sair do gabinete, perguntando a Sasha se havia 
alguma coisa que pudesse fazer para ajudar. No queria parecer intrometida. Quem me 
dera que pudesse, mas no  possvel, Mareie respondeu Sasha, recomeando a chorar 
ainda mais do que antes. Perante tal reaco, Mareie no foi capaz de se conter, 
abeirando-se de Sasha e abraando-a, num gesto caloroso.
     - O que quer que esteja a acontecer, garanto-lhe que acabar por passar  
acrescentou Mareie, ela prpria  beira das lgrimas.
     - No, no passa - retorquiu Sasha, voltando a assoar-se, lgrimas continuavam a 
correr-lhe pelo rosto. - Trata-se do Liam - confessou finalmente, para grande confuso de 
Mareie, que ficou a fit-la com uma expresso de perplexidade.
     - O Liam?! - O que  que ele teria a ver com o assunto? Mareie no era capaz de 
adivinhar. - A Tatiana conhece-o? - Como  que ele teria participado na discusso entre 
me e filha? Definitivamente, tudo aquilo era muito confuso.
     - Teve oportunidade de o conhecer melhor do que desejava na noite da exposio. 
Ele estava comigo na minha casa de Southampton. - Apesar daquela explicao 
adicional, Mareie continuava sem entender nada, o que no a impedia de olhar para 
Sasha com uma expresso compreensiva enquanto esta tentava p-la ao corrente da 
situao o melhor que conseguia.
     - E eles discutiram um com o outro?
     - Ela chamou-lhe, assim como a mim, todos os nomes possveis e imaginrios: puta, 
ordinria, chulo, sacana... E isso foi s o princpio...
     - Meu Deus! Mas o que  que aconteceu? - perguntou Mareie, mostrando-se 
deveras chocada.
     Sasha olhou-a atentamente durante uns momentos. Confiava na sua assistente. 
Havia muitos anos que a conhecia e gostava muito dela. No quisera partilhar aquele 
assunto com ningum at ao momento, mas agora precisava de desabafar com algum.
     - Ela apareceu-nos de surpresa na casa de Southampton. Eu no fazia a mnima 
ideia de que ela tencionava ir l. Estvamos na cama. Ela chegou de imprevisto, at 
pensmos que era um ladro. Completamente nu, o Liam saiu do quarto empunhando o 
atiador da lareira, e foi por um triz que no lhe deu com ele na cabea. Depois disso, a 
confuso instalou-se e foi o caos absoluto.
     - O Liam?! Mas o que  que o Liam estava a fazer no seu quarto? - perguntou 
Mareie, que no entendia patavina, fazendo com que Sasha, apesar das lgrimas, se 
risse.
     - Por amor de Deus, Mareie! O que  que lhe parece que ele estava a fazer no meu 
quarto? Acredite em mim, a Tatiana descobriu imediatamente, sobretudo por ele ter ficado 
especado  frente dela todo nu. Alm do mais, ela trazia um namorado, sendo bvio que 
tencionava fazer precisamente a mesma coisa que ns dois estvamos a fazer e que 
temos vindo a fazer de h seis meses a esta parte, mais ou menos. Deixmos de nos ver 
numa ou duas ocasies. Tenho a certeza de que isto no contribuir em nada para o 
sucesso da relao.
     - A Sasha e o Liam? - Mareie dava a impresso de ter sido atingida na cabea com 
o atiador da lareira. - Voc e o Liam?
     - Parece-lhe assim to mal? - perguntou Sasha, voltando a mostrar-se mortificada. 
Os ltimos trs dias haviam sido os mais humilhantes de toda a sua existncia, e agora 
at Mareie se mostrava chocada, o que a levou a arrepender-se de se ter aberto com ela.
     - Mal? Est a brincar? Se eu pudesse deitar a mo a um homem como ele, passaria 
a ser crente para todo o sempre. Ele  lindo de morrer, talentoso e simptico. Que mais  
que uma mulher pode desejar? O que  que ela quer? Talvez esteja com cimes.
     - No, no tem cimes. Ela odeia-o. A Tatiana no gosta das pessoas do mundo das 
artes; ao longo dos anos conheceu tantos artistas destrambelhados que acredita que so 
todos desmiolados, e, diga-se em abono da verdade, na maior parte dos casos, tem toda 
a razo. 
     Por vezes ele tambm se comporta assim, mas acontece que eu estou apaixonada 
pelo Liam e ele diz que tambm est apaixonado por mim. No entanto, agora a Tatiana 
est capaz de o matar, e o mais certo  nunca mais voltar a falar comigo.
     - Claro que h-de falar... Mas como  que eu no fui capaz de perceber o que se 
estava a passar? - perguntou Mareie, sentindo-se um pouco idiota. - At que ponto sou 
burra e cega?
     - Ns temos feito todos os esforos para manter a relao em segredo, pelo menos 
at ns prprios conseguirmos chegar a uma concluso definitiva. Verdade seja dita, as 
coisas tm estado a correr muito bem desde Abril, mas so apenas trs meses.
     - De que  que tem receio? - perguntou Mareie, mostrando-se compreensiva. No 
era a primeira vez que Sasha partilhava com ela assuntos relativos  sua vida pessoal e 
Mareie sempre lhe dera conselhos bastante sensatos.
     - Est a brincar? Ele  como um garoto de doze anos. Eu pareo me dele, e no 
quero ser me de ningum, alm dos meus prprios filhos.
     - Em primeiro lugar, a Sasha no parece me dele, alis, nem sequer parece ter 
idade suficiente para ser me do Xavier ou da Tatiana, e, em segundo lugar, todos os 
homens so um pouco como as crianas e no existe uma mulher no mundo que no 
acabe por desempenhar o papel de me deles. Caso no se proceda dessa maneira, 
acabam por fugir com outra mulher que esteja disposta a faz-lo.
     - Ou que daqui a dez anos seja mais nova... No quero apaixonar-me por um 
homem que possa vir a deixar-me por uma mulher de vinte.  possvel que isso viesse a 
acontecer.
     - Ele  assim? - perguntou Mareie, preocupada.
     - Quem sabe? No acho que seja. Esteve casado durante vinte anos, at ter dado 
cabo do casamento por causa de uma coisa bastante estpida. Alm disso,  
extremamente irreverente... como ele prprio costuma dizer,  um artista louco.
     - Ainda que, ultimamente, essa sua faceta no tivesse estado muito em evidncia. - 
Nunca me passou pela cabea que pudesse vir a apaixonar-me por um homem nove 
anos mais novo do que eu e, para cmulo, um dos meus pintores. Parece uma espcie de 
justia do estilo c se fazem, c se pagam, uma ironia de Deus, uma brincadeira de mau 
gosto ou algo do gnero. 
     Com o Arthur, tinha a vida mais respeitvel do mundo, mas agora apaixonei-me por 
um garoto crescido, e toda a minha existncia ficou de pernas para o ar. E, para cmulo, 
a Tatiana nunca mais voltar a falar comigo.
     - Se no falar, eu prpria me encarregarei de lhe dar uma tareia. Mas isso h-de 
passar-lhe. O mais provvel foi ter ficado demasiado chocada com a situao com que se 
deparou. Na verdade, deve ter sido um choque para todos. Sasha esboou um sorriso de 
tristeza, olhando para a amiga. Aquilo desafiava a imaginao de qualquer pessoa.
     - Ali estvamos os dois, completamente nus, o Liam com o atiador na mo, 
enquanto ela nos insultava, improprio atrs de improprio, e o rapaz que a acompanhava 
parecia querer apenas poder esconder-se em qualquer canto, mas quem  que pode 
censur-lo? Eu dei-lhe uma bofetada e ela pagou-me na mesma moeda. 
     Eu nunca lhe tinha batido e tenciono jamais voltar a faz-lo. Foi como uma cena de 
um filme de muito m qualidade. Ali estava eu, com o meu jovem amante, na cama do pai 
dela, como ela pe a questo, e ambos completamente em plo. Meu Deus, Mareie, a 
situao no poderia ter sido pior! No muito - concordou Mareie, fazendo uma careta 
sorridente. 
     - Mas pense na questo desta maneira: ele podia ser velho, gordo, careca, feio e j 
com os ps para a cova, e idepois imagine qual seria o seu aspecto todo nu e de atiador 
em riste. Se quer saber a minha opinio, teve muita sorte por ter sido o Liam. Oua uma 
coisa, a Sasha esteve solteira durante dez minutos, por assim dizer. Enquanto eu tenho 
sido Solteira toda a minha vida e, provavelmente, assim continuarei, no por adorar esta 
situao, mas sim por no haver homem por a que me esteja destinado. 
     Os homens disponveis ou so divorciados amargurados que so obrigados a pagar 
penses de alimentos e, por isso, sentem rancor por todas as mulheres. Ou so vivos 
mentalmente perturbados que acreditam que as falecidas esposas eram perfeitas, tendo-
se esquecido de quanto as odiavam quando eram vivas. Logo, ningum conseguir estar 
 altura delas; depois seguem-se os que tm fobia quanto a assumir compromissos.
      Os bbedos, os drogados, os violentos, os abusadores, tipos que odeiam as 
mulheres, indivduos que, pela calada, so maricas e outros que so maricas assumidos e 
s querem usar os nossos vestidos, e tambm temos os enfadonhos, com quem nem vale 
a pena travar conversa, e os que cheiram mal, que tm mau aspecto, os que so maus, e 
os velhos, que nem sequer so capazes de ficar de pau feito, mesmo que tomem Viagra. 
Em dez anos, nunca consegui encontrar um homem por quem pudesse vir a enamorar-
me, e h trs anos que no vou para a cama com ningum. 
     H j muito tempo que deIsisti da ideia de vir a apaixonar-me pelos tipos com quem 
fui para a cama, tal como no acredito que eles pudessem apaixonar-se por mim. Porque 
se eu no abdicar dos meus princpios, os quais costumavam ser muito importantes para 
mim, ento, de certeza absoluta, nunca mais me deitarei com homem nenhum, o que, 
seja como for, talvez nunca mais venha a acontecer. 
     Tudo aponta nesse sentido. Portanto, a Sasha est preocupada por causa de uma 
diferena de idade de nove anos entre si e um homem esplendoroso, talentoso e 
simptico por quem est apaixonada e que  louco por si? Diga  Tatiana que ponha uma 
rolha e que se  deixe de parvoces. Se no lhe disser, eu prpria me encarregarei de o 
fazer.
     Foi um discurso e tanto, e Sasha sabia que tinha vindo bem do fundo do corao de 
Mareie. Ela era uma mulher maravilhosa, embora no fosse bonita, mas de aspecto 
atraente, que se vestia razoavelmente, com uns seis quilos a mais de peso, se bem que 
no fosse nada com que qualquer pessoa no pudesse viver. Era inteligente, instruda e 
ganhava bem, alm de ser uma das pessoas mais simpticas que Sasha conhecia. 
Tambm sabia que havia vrios anos que no existia qualquer homem na vida de Mareie. 
No havia nada de estranho com ela, pura e simplesmente no conseguia encontrar um 
homem como devia ser. 
     E nenhum at ao momento tentara conquist-la. Existiam muitas mulheres na 
mesma situao, do que ambas tinham conhecimento, de todos os estratos sociais e de 
todas as idades. Hoje em dia, ficava-se com a impresso de que as pessoas no 
conseguiam conhecer-se, razo por que os encontros combinados atravs do computador 
eram to atractivos. 
     Em vrias ocasies, Sasha incentivara Mareie a recorrer a esse mtodo, mas ela 
sentia-se demasiado receosa, e Sasha no estava inteiramente convencida de que ela 
estivesse errada; conhecer estranhos atravs da Internet parecia-lhe uma prtica 
perigosa. O que ela dizia a Sasha era sensato e esta sabia que Mareie s tinha a melhor 
das intenes. Acreditava que Sasha era a mulher com mais sorte em todo o mundo por 
ter Liam, enquanto ele era o homem mais afortunado por a ter a ela. 
     E se isso no agradava a Tatiana, tanto pior para ela. Mareie ficou ao rubro quando 
se inteirou das coisas que Tatiana dissera  me.
     - No acha sinceramente que  chocante eu ser nove anos mais velha do que ele? - 
perguntou Sasha um pouco a medo e mostrando algum acanhamento. Sentia-se grata por 
saber que Mareie aprovava a relao.
     - Por amor de Deus, no se pode dizer que ele tenha vinte e dois anos!  maior e 
vacinado. At tem filhos! Vocs parecem ter a mesma idade. Alm do mais, nos tempos 
que correm, h muitas pessoas que mantm relaes como a vossa. Depois de uma certa 
idade, parece fazer mais sentido. A Sasha teve um matrimnio respeitvel, teve os seus 
filhos... Naturalmente, nesta altura da sua vida no procura as mesmas coisas de h vinte 
e cinco anos. Agora precisa de algum com quem possa levar uma existncia agradvel, 
que a trate com carinho e com quem tenha algo em comum. 
     E sem dvida que vocs dois tm muito em comum. No  obrigatrio que as 
pessoas estejam juntas a todo o momento nem que vivam juntas, a menos que o 
desejem.  claro que o podem fazer, se quiserem, mas cada um pode ter a sua vida, os 
seus amigos, e tirar o mximo partido daquilo que os dois partilham. Na minha opinio, 
parece-me uma forma de vida perfeita. E oua o que lhe digo, se no o quiser para si, 
terei todo o prazer em ficar com ele.
      O Liam  apenas trs anos mais novo do que eu. Seria com a maior satisfao que 
sofreIria a humilhao de ser vista com ele em pblico. De facto, sentir-me-ia deveras 
empolgada. - Sasha j tinha deixado de chorar, ouvindo o que Mareie lhe dizia. Sorria. 
Mareie fizera com que sentisse que estava a proceder bem e que tudo haveria de correr 
pelo melhor. De facto, levou-a a aperceber-se da sorte que tinha por amar um homem 
como Liam e ser correspondida e que a relao deles, provavelmente, no iria chocar a 
maior parte das pessoas. 
     Tudo o que Mareie dizia tinha razo de ser. Os nove anos de diferena de idade que 
fossem para o inferno! Se ele era um pintor louco, ela podia lidar bem com essa situao. 
Alm do mais, ultimamente Liam comportara-se na perfeio.
     - E o que  que fao em relao  Tatiana? - perguntou Sasha, voltando a mostrar 
uma expresso de desnimo.
     - Nada. Deixe que ela esfrie os nimos.  evidente que sentiu que a Sasha traiu a 
memria do pai. Sabe como ela adorava o pai... Acreditava que ele era capaz de 
caminhar sobre a gua. De facto, era um homem maravilhoso, mas enfrentemos a 
realidade, Sasha, ele faleceu, por muita tristeza que isso nos possa causar, e nunca mais 
voltar. Tenho a certeza de que ele se sentiria aliviado por saber que voc  feliz, caso 
isso seja verdade. Era um dos homens mais compreensivos que conheci. No me parece 
que ele quisesse que ficasse sozinha para o resto da vida. 
     A Tatiana precisa de crescer e aceitar a realidade. Acho que devia deix-la sozinha 
por uns tempos, at ela comear a ver a razo.  impossvel que trave esta batalha para 
sempre. - Mas Sasha sabia que a filha era de uma teimosia irredutvel e a lealdade para 
com a memria do pai podia ser cega, incondicional e feroz. Manifestara-se na 
adolescncia, e agora que ele tinha falecido, amava-o ainda mais. Era a maneira de 
continuar apegada ao pai. No entanto, deix-la sozinha por uns tempos no parecia m 
ideia.
     - Deixei-lhe uma srie de mensagens, mas ela no as retribui nem to-pouco atende 
os meus telefonemas. Nesse caso, deve deix-la em paz.  possvel que se sinta 
envergonhada por tudo o que lhe disse. Devia estar! Como  que o Liam reagiu a essa 
situao to confrangedora?
     - Bastante bem - replicou Sasha. - Mostrou-se deveras compreensivo. A Tatiana 
telefonou ao Xavier, que nos ligou na manh de domingo. Falou connosco de uma 
maneira extremamente gentil. Ele gosta muito do Liam, so amigos, e foi atravs do meu 
filho que o conheci. Desde ento tem tentado acalmar a Tatiana. 
     Estou a referir-me ao Xavier e no ao Liam, claro. Agora o Liam tem pavor dela, o 
que ir complicar a situao ainda mais. A reaco da Tati deve ter sido um choque dos 
diabos para ele.
     - Sim, mas acabar por se recompor.
     Meia hora depois de terem acabado de conversar, Liam chegou ao escritrio, e 
quando passou pela sua secretria, Mareie olhou para ele e sorriu-lhe. Queria que, no 
mnimo, sentisse que era bem-vindo ali. Ao fim e ao cabo, acabara de passar um fim-de-
semana bastante atribulado.
     - Ol, Liam! - saudou Mareie com um aceno cordial. Ele retribuiu-lhe o sorriso, com 
uma expresso de gratido.
     - Ol, Mareie - retorquiu antes de entrar no gabinete de Sasha, aps o que fechou a 
porta com um semblante de apreenso. - Como  que as coisas esto a correr? - 
perguntou-lhe, beijando-a.
     - Bem - replicou Sasha, sem mencionar a conversa que tivera com Mareie. Tinha 
sido uma conversa entre mulheres, que fizera que se sentisse bastante mais confiante.  - 
Soubeste alguma coisa da Tatiana? - Liam andara preocupado por causa da rapariga 
durante todo o dia, apesar de o ter passado na Tribeca com os amigos. - No. Acho que a 
vou deixar em paz por uns tempos, at esfriar os nimos.
     - Boa ideia. - Sentia-se impressionado perante a capacidade de discernimento que 
Sasha demonstrava. Parecia que ela tinha acalmado bastante desde essa manh. - 
Tenho bilhetes para o jogo de basebol desta noite. O que te parece? - Queria fazer 
qualquer coisa que lhe animasse o estado de esprito. 
     Sasha teria preferido ir ver um filme, ou ir jantar a um restaurante sossegado com 
ele, ou mesmo a um local barulhento como o La Goulue, contudo, sabia quanto o baseIbol 
era importante para Liam, pelo que estava disposta a fazer isso por ele. Depois de ter 
falado com Mareie, sentia-se mais grata do que nunca por poder estar com Liam, por o ter 
na sua vida.
     quarenta e nove anos, sabia que no era grande o nmero de homens disponveis 
para as mulheres da sua idade. As opes que Mareie descrevera, ou a falta delas, 
pareciam cmicas, mas correspondiam  verdade. Liam era maravilhoso, sendo a 
proverbial agulha no palheiro, pelo que tencionava ficar junto dele, quer agradasse  filha 
quer no.
      
                                            CAPTULO 15
     
     Liam e Sasha passaram o fim-de-semana do Quatro de Julho em Southampton. Fez 
um calor abrasador durante todo o dia e o Sol nunca deixou de brilhar. Cozinharam, foram 
jantar fora, deitaram-se na praia, nadaram e foram convidados para uma festa na noite do 
dia quatro. Era um churrasco oferecido por pessoas que Sasha conhecia, embora no 
intimamente, mas ambos concordaram que talvez fosse divertido. 
     Sasha decidiu aceitar o convite, e s seis da tarde seguiram para a festa, ambos de 
calas de ganga, T-shirts e sandlias, em conformidade com o que o convite especificava. 
Sasha comprara lenos em tons de vermelho, branco e azul que ambos ataram  volta do 
pescoo. Liam sorriu, olhando para ela quando j saam de casa, e disse-lhe que nunca 
em toda a sua vida se sentira to feliz.
     - Agora parecemos gmeos - comentou, o que era engraado, porque ele era to 
louro quanto ela era morena, era alto enquanto ela era baixa... Sasha j tinha comeado a 
esquecer a diferena de idade entre os dois. Tanto Mareie como Xavier haviam ajudado 
muito, reforando-lhe o nvel de confiana ao darem-lhe o seu apoio e aprovao. Desde 
o encontro fatdico e inesperado em Southampton, no fim-de-semana anterior, que no 
tinha notcias de Tatiana, mas continuava a dar tempo  filha para que esfriasse as ideias.
     Havia cerca de duzentos convidados na festa, que comiam em mesas compridas as 
delcias que haviam sido cozinhadas num churrasco gigantesco, enquanto eram 
entretidos por um grupo de dana em linha; tambm havia uma tenda enorme repleta de 
jogos de feira. Todos estavam divertidos, incluindo eles prprios.Encontravam-se os dois 
sentados num tronco, lado a lado, a comer cachorros-quentes e hambrgueres, quando 
Sasha reparou, pela primeira vez, que Liam estava ligeiramente embriagado, no ao 
ponto de se comportar de modo chocante, mas o suficiente para ficar um tanto ou quanto 
fora decontrolo. 
     A meio do jantar, disse que estava com calor e despiu a camisola de algodo, 
atirando-a para a fogueira e fazendo uma careta risonha a Sasha. 
     O garoto incontrolvel que existia dentro dele comeou a revelar-se, e  medida que 
a noite se foi alongando a sua atitude piorou. Piorou e muito! Sasha esforou-se por 
convenc-lo a voltar para casa, mas ele insistia que estava a divertir-se e que queria ficar. 
J estava demasiado bbedo para se aperceber de que ela estava a ficar irritada.
      Liam tinha comeado por beber ponche com rum, o que depois trocou por cerveja, 
passando para o vinho a acompanhar o jantar. Pouco depois, houve algum que lhe 
sugeriu que provasse um mojito, e Sasha ficou horrorizada ao v-lo emborcar trs de 
seguida, sem sequer fazer uma pausa para respirar. 
     Nessa altura, j estava a cair de bbedo. Mas pior do que isso era o facto de ela 
estar completamente sbria, o que fazia que a sua irritao aumentasse com o passar do 
tempo, no que ele tambm no reparou. Estava a divertir-se de mais para atentar nesses 
pormenores.O grupo de dana em linha voltou a entrar em aco, e Liam apressou-se a 
saltar para o meio da pista, agarrando-se a uma das danarinas, que, como seria de 
esperar, era a mais jovem e bonita, dando incio a uma dana cheia de sensualidade; a 
rapariga no se fez rogada, entrando no esprito da dana e comeando a abrir-lhe o 
fecho das calas de ganga. 
     Depois no fizeram mais nada chocante, mas, para Sasha, aquilo chegou. Via bem 
as expresses de troa e reprovao  sua volta, e quando ele voltou para junto dela, 
depois de ter acabado de danar, fechou a braguilha e deu-lhe um beijo cheio de ardor na 
boca, ao mesmo tempo que com as duas mos lhe agarrava as ndegas, o que no 
deixou nada  imaginao dos presentes quanto ao tipo de relao que existia entre os 
dois. Antes disso, tinha-o apresentado aos demais convidados como sendo um dos 
artistas que representava e que estava de visita, vindo de Londres.
     - O que  que se passa, minha doura? - perguntou-lhe ele; tinha a voz 
entaramelada e os olhos avermelhados. Sasha estava capaz de o matar e s queria sair 
dali para fora. No lhe passara despercebido que a rapariga com quem ele danara 
parecia uma adolescente, provavelmente no teria mais de vinte anos, logo, era mais 
nova do que a sua prpria filha.
     - Vamos voltar para casa, Liam - disse Sasha em voz baixa. No queria perder a 
calma com ele, mas tambm no queria continuar na festa. Ele no sabia o que fazia e a 
cada minuto que passava ia ficando cada vez mais descontrolado. Mandou vir uma vodca 
com sumo de laranja, mas Sasha tirou o copo da mo do empregado que servia as 
bebidas assim que este o levou a Liam.
     - O que  que ests a fazer? - perguntou ele, tentando tirar-lhe o copo da mo. 
Apercebendo-se do que estava a acontecer, o empregado apressou-se a voltar a pousar 
o copo na bandeja, afastando-se rapidamente.
     -J bebeste de mais. Acho que est na altura de irmos para casa.
     - No tens o direito de me dizer o que devo fazer ripostou, desequilibrando-se 
quando se ps de p diante dela. Foi por pouco que no caiu nos braos de Sasha, e 
depois tentou retomar as manifestaes de carinho. Ela lanou-lhe um olhar de 
repreenso, mas estava bem patente que no havia maneira de o levar dali para fora. 
Liam estava a divertir-se  tripa-forra. - No sou teu filho - acrescentou, pondo um brao  
volta dos ombros dela.
     - Nesse caso, no te portes como uma criana! - ripostou ela, entre dentes. Estava a 
comportar-se como um delinquente juvenil ou, no mnimo, como um bbedo. No podes 
controlar-me... - repetiu Liam, e ela fez um aceno de cabea, reparando que as pessoas 
continuavam a observ-los pelo canto do olho, aps o que desviavam o olhar. Ouviu um 
homem comentar que Liam iria ter uma ressaca dos diabos no dia seguinte, ao que o seu 
interlocutor respondeu com uma gargalhada. Sasha conhecia os dois indivduos. Haviam 
sido amigos de Arthur, o que no ajudava a situao.
     - Liam, estou exausta, quero ir para casa - implorou Sasha.
     - Nesse caso, dorme uma soneca. Podes esperar dentro do carro. Eu quero divertir-
me. Estou a divertir-me  grande e  francesa! - Voltou a desequilibrar-se para a frente e, 
para grande receio de Sasha, desapareceu entre a multido. Quando conseguiu encontr-
lo estava escarranchado em cima do Kavalo que puxava a carroa em que os convidados 
davam passeios. O cavalo estava a ficar nervoso e o cocheiro pedia-lhe que sasse de 
cima do animal, mas em vo. 
     Liam tinha interrompido o passeio de algumas pessoas, enquanto os outros por 
perto ficaram a olhar. Finalmente, foram precisos trs empregados de mesa da empresa 
que fornecera a comida e o anfitrio para o tirarem do cavalo. Entretanto, no parara de 
soltar gritos a acicatar o animal, ao mesmo tempo que lhe batia com os calcanhares. 
Sasha sentia um impulso quase irresistvel de o matar.
     O anfitrio ajudou-a a lev-lo para o automvel. Liam [perdeu a conscincia no 
assento do passageiro da frente e ela foi para casa. Quando chegaram, no conseguiu 
acord-lo, pelo que decidiu deix-lo dentro do carro a curar a bebedeira. Sentiu-o a deitar-
se na cama ao seu lado eram j sete da manh. Quando se levantou, s nove horas, 
constatou que ele estava morto para o mundo. S ao meio-dia  que Liam desceu do 
quarto; vinha de culos escuros e queixou-se da luminosidade do sol. Sasha no lhe deu 
rplica, sentada  mesa da cozinha a ler o jornal enquanto ele se servia de uma chvena 
de caf, de que estava muito necessitado.
      Pouco depois, Liam foi sentar-se ao lado dela, que, finalmente, desviou o olhar do 
jornal, dando-lhe os bons-dias. O seu tom de voz era de uma frialdade de gelo.
     - A festa de ontem  noite foi de arromba - comentou, tentando falar naturalmente, 
enquanto ela fixava o olhar nele. - Imagino que tenha bebido de mais, a julgar pela 
ressaca com que estou - acrescentou, rindo-se. Mas Sasha no se riu.
     - Sim, de facto bebeste de mais - foi tudo o que ela disse.
     - Foi muito mau? - perguntou ele, a medo. No se recordava do que acontecera na 
noite anterior. Mas ela lembrava-se de tudo.
     - Muito mau - respondeu Sasha, comeando a enumerar as suas faanhas, entre 
elas o facto de a ter agarrado pelo traseiro, o que fizera com que o segredo em que a 
relao fora mantida tivesse sido revelado diante dos amigos e conhecidos dela. -  claro 
que a minha preferida foi o episdio com o cavalo. Estavas absolutamente encantador, a 
assustar o animal e as crianas, a fazer de vaqueiro e a gritar Yippee-kie-yay! Estou em 
crer que toda a gente daqui at Chicago ouviu os teus gritos.
      - Sasha no achava graa nenhuma e ele tambm no se mostrava divertido. Liam 
no queria que ela o tratasse como se fosse uma criana nem queria ser repreendido por 
ela. Era um homem adulto e achava que podia comportar-se como muito bem lhe 
apetecesse ou, pelo menos, era o que afirmava. Disse a Sasha que havia muito tempo 
que agia com toda a sensatez. Estava a precisar de uma vlvula de escape.
     - Eu disse-te, Sasha, no podes controlar-me. A minha famlia j tentou, e no vou 
permitir que faas isso comigo. H ocasies em que todos precisam de se descontrair, 
portanto, foda-se!, o que  que eu fiz de mais? - Liam adoptava uma postura defensiva, 
apesar de estar a sentir-se de rastos.
     - Envergonhaste-me - replicou ela, fitando-o. Liam tinha voltado a acentuar a tnica 
no impossvel, o que era uma pena, dado que as coisas tinham estado a correr to bem 
at a. Sasha estivera disposta a que ele a acompanhasse em pblico, permitindo-lhe o 
acesso ao seu mundo pessoal, mas no caso ele se comportasse daquela maneira, 
reivindicando o direito a uma liberdade total s porque era um artista. Se no queria ser 
controlado, ento teria de aprender a dominar os seus instintos. 
     - No tenciono voltar a sair em pblico contigo se continuares a agir dessa maneira - 
acrescentou Sasha cheia de tristeza, sentindo-se ainda mais desanimada por ele no 
mostrar o mnimo remorso perante aquela situao. Sendo assim, no saias! - ripostou 
Liam num tom de desafio. - Tu pareces o meu pai a falar, e no estou disposto a aceitar 
merdas dessas de ti. No podes punir-me e deixar-me de castigo em casa s porque bebi 
uns copos numa festa!
     - Tu no bebeste uns copos, bebeste at cair, alm de te teres certificado de que 
todos os que estavam presentes, a observar, ficassem a saber que temos uma relao 
amorosa.
     - Estou farto de manter a relao em segredo! - Na verdade, ao longo do ms de 
estada em Nova Iorque esse seIgredo passara a ser cada vez mais do domnio pblico. 
Bernard inteirara-se desde o incio. Mareie j sabia, e Tatiana tambm, assim como 
Xavier, e Deus sabe quem mais desconfiaria... Mas desde que ele se comportasse  
altura, Sasha estava disposta a assumir a situao, mais cedo ou mais tarde, mas nunca 
se ele agisse da maneira como fizera na noite anterior.
     - Ento porta-te como uma pessoa crescida, e deixars de ser um segredo!
     - Se me amasses de verdade, no haverias de querer que a nossa relao 
continuasse a ser segredo! - Liam expressava-se como uma criana injustiada, e era 
como realmente se sentia. Queria ser merecedor da aprovao de Sasha e que se 
sentisse orgulhosa dele, no envergonhada.
     - Eu amo-te, mas no vou permitir que me exponhas ao ridculo. As coisas j so 
suficientemente difceis devido  diferena de idade entre ns. Preciso de tempo para me 
habituar a isso. Quanto a ti, tenho a impresso de que ests a precisar de tempo para 
cresceres.
     - Por amor de Deus, Sasha, nove anos no so nada! Desiste dessa! Eu j sou 
crescidinho. Sou um artista e um esprito livre. Recuso-me a ser domesticado como um 
co de circo para que possas impressionar os teus amigos e apaziguar a tua filha. Ou me 
amas como sou ou no amas!
     - Toda esta situao se resume a isso?  Tatiana? Liam, ela precisa de tempo para 
se acalmar. Isto foi um choque enorme para ela, est convencida de que atraioei a 
memria do pai. Ela adorava-o! Isto foi um golpe tremendo! E tu a comportares-te como 
um irresponsvel nas festas a que comparecemos no vai ajudar a convencer ningum de 
que esta relao  vivel, e muito menos a mim prpria.
      - Ele no disse nada, limitando-se a sair da cozinha, batendo com a porta da frente. 
Sasha ficou a v-lo pelas janelas da sala de estar deambulando pela praia. Ambos 
estavam perturbados; a noite anterior fora um pesadelo. Mas o pior era o facto de 
partirem para a Europa no dia seguinte, ela rumo a Paris e ele com destino a Londres. 
No dispunham de tempo para tentarem remediar o mal feito caso se envolvessem numa 
discusso no ltimo dia antes da partida.
     Quando regressaram de automvel  cidade, nessa noite, Liam continuava amuado, 
e quando Sasha se ofereceu para lhe preparar o jantar, disse que no tinha fome. Depois 
do que bebera na noite anterior, pensou Sasha, o mais provvel, realmente, era no ter 
fome. De qualquer maneira, preparou-lhe um prato de massa, e quando os dois se 
sentaram  mesa, por fim, ele comeou a relaxar. Peo desculpa por me ter comportado 
como um cretino ontem  noite. O que fiz foi uma estupidez. No sei dizer porqu, mas 
no estou acostumado a todas estas responsabilidades e restries. 
     No quero ter de agir de uma determinada maneira para conseguir merecer a tua 
aprovao e a das outras pessoas. S quero poder ser eu mesmo e que me ames como 
sou. Que diabo, Sasha, h ocasies em que me apetece beber uma cerveja com o 
porteiro! Ele parece ser um tipo simptico.
     - Tenho a certeza de que . Lamento muito que a minha vida te parea to restritiva 
- retorquiu Sasha, mostrando-se triste ao constatar o que dizia. Era precisamente o que a 
preocupara desde o incio, em virtude da fobia dele quanto a ser controlado. Qualquer 
tipo de expectativas ou de comportamento civilizado, na sua perspectiva, eram formas de 
controlo. Mas a vida dela era assim mesmo. 
     Sasha no era livre de poder fazer o que lhe desse na veneta. E se ele ficasse com 
ela, tambm no poderia fazer o que bem lhe apetecesse. A verdade, porm,  que ele 
estava a ter grandes dificuldades em aceitar essa realidade, o que correspondia 
exactamente ao que ela receara. Talvez, ao fim e ao cabo, aquela relao no fosse 
possvel. - No sei o que dizer, Liam. No quero que te sintas infeliz, mas a verdade  que 
no podes fazer loucuras sempre que te d para isso. 
     - Felizmente, tinha sido a nica vez em que aquilo acontecera, mas ele no se ficara 
por meias-medidas. Para ambos. Ele havia tentado marcar uma posio. Ou, 
simplesmente, perdera o controlo, e de que maneira...
     - O que  que vai acontecer quando voltarmos? - perguntou Liam, mostrando-se 
preocupado. No queria perd-la por causa do modo como se portara na noite anterior, 
mas, por outro lado, tambm no queria que ela lhe dissesse como  que devia agir. 
Pretendia o amor e a aceitao incondicionais dela, o que lhe deu a saber. Todavia, por 
vezes essa entrega entre adultos era difcil, particularmente se passar das palavras aos 
actos tivesse um preo demasiado elevado. E, na opinio de Sasha, era esse o caso. Era 
um dilema para ambos, e bastante srio. Para provar o amor que lhe dedicava, teria de se 
pr a si prpria numa situao de risco. 
     E no fim, se as coisas no resultassem entre os dois, as pessoas ficariam a rir-se 
dela, pelo menos, era o que Sasha pensava. Isso era algo que a incomodava muito. 
Queria que mantivessem a relao o mais discretamente possvel at chegarem a 
concluses palpveis. Mas as restries que isso impunha a Liam estavam a dar com ele 
em doido, afectando o seu amor-prprio, j bastante abalado. juntos, queria saber que 
teria liberdade para agir em conformidade com a sua maneira de ser. Quanto a Sasha, 
tudo o que queria era que ele crescesse; precisamente a nica coisa que ele no estava 
disposto a fazer e que nunca fizera.
      E subjacente a toda esta situao encontrava-se a preocupao de Sasha quanto  
reaco que a filha tivera perante ele. Inegavelmente, Tatiana e Liam tinham comeado 
da pior maneira possvel.
     - Vou ficar a trabalhar em Paris durante o resto do ms de Julho - disse Sasha em 
resposta  pergunta dele sobre o que aconteceria quando voltassem. - Poders aparecer 
sempre que quiseres. No dia um de Agosto parto de frias com os meus filhos.
     - E depois, o que  que acontece? - perguntou ele, e Sasha fitou-o com um ar 
inexpressivo; no compreendia o que ele queria dizer.
     - O que  que acontece quando fores de frias com os teus filhos? - acrescentou.
     -J te tinha dito. Vamos para Saint-Tropez e aluguei um barco. Estarei fora durante 
trs semanas. Quando regressar poderemos ir para qualquer lado, se quiseres. Tenho de 
voltar a Nova Iorque durante mais ou menos uma semana em Setembro; podes 
acompanhar-me. Mas nessa altura devias estar a trabalhar para a tua exposio. - 
Parecia simultaneamente a sua me e a sua negociante de arte, posio em que por 
vezes a colocava, ao invs de ser somente a mulher que amava.
     - E com respeito ao perodo em que estiveres com os teus filhos? Tambm serei 
bem-vindo se aparecer l? - perguntou Liam com uma expresso que era, mais uma vez, 
um misto de mgoa e desafio. 
     De fato tinham falado da possibilidade de ele se lhes juntar no barco durante alguns 
dias, especialmente porque Xavier tambm estaria presente, o que permitiria que Liam 
fingisse que ia s para passar uns dias com o amigo, o que seria natural, mas agora 
tornara-se impensvel. Tudo isso teria sido possvel antes de Tatiana os ter apanhado 
nus na casa de Southampton e a situao ter descambado num caos total. Agora, tanto o 
filho como a filha estavam inteirados do papel que Liam desempenhava na vida de Sasha.
     - Liam, depois do que aconteceu com a Tatiana, no podes esperar vir connosco. 
Vai ser preciso algum tempo para que a situao volte a acalmar. - Sasha ainda no tinha 
conseguido falar com a filha. 
     Tatiana continuava a recusar-se a atender ou a retribuir os telefonemas da me, o 
que, finalmente, levara Sasha a enviar-lhe uma mensagem, na esperana de conseguir 
restabelecer a paz com a filha, mas, at ao momento, ainda no tivera notcias dela. 
Tanto quanto lhe era dado perceber, a guerra continuava, e Xavier tambm no sabia 
nada dela. Sasha falara vrias vezes com o filho, que
     continuava a acreditar que a irm acabaria por se acalmar, mas, por enquanto, isso 
ainda no tinha acontecido. Ele dizia que Tatiana estava a portar-se de maneira infantil e 
com muita teimosia, tendo-a acusado de ser um fedelho birrento, portanto, agora tambm 
estava zangada com o irmo.
     - Talvez no fosse m ideia se lhe fizesses frente e lhe dissesses umas quantas 
verdades! - retorquiu Liam, manifestamente irritado. Estava furioso com a filha de Sasha, 
pelo que esta no o censurava. No entanto, no queria arriscar-se a um corte de relaes 
permanente com a filha por causa dele.
     - Primeiro vou ter de falar com ela, antes de poder explicar-lhe o que quer que seja.
     - E tencionas fazer isso? Ests disposta a defender-me, ou vais limitar-te a permitir 
que ela faa gato-sapato de mim, enquanto lhe lambes as botas?
     - Liam, no ests a ser justo - replicou Sasha, sentindo o ardor das lgrimas nos 
olhos. - Ela  minha filha. No estou disposta a perd-la por causa disto, at mesmo por 
ti. Primeiro preciso de fazer as pazes com ela. E vamos ter de ver em que  que a nossa 
relao dar. Se resultar, tratarei de resolver a situao com a Tatiana, mas a verdade  
que ainda no temos certezas - facto de que ele prprio estava bem ciente, mas que no 
queria admitir perante ela.
     - Durante quanto tempo esperas que eu preste provas ante ti? - perguntou Liam, 
levantando-se e olhando para ela, que soergueu a cabea, fitando-o.
     - No ests a prestar provas, estamos a tentar ver se isto resulta. Existem inmeras 
diferenas entre ns. No se pode dizer que tenhamos sido talhados um para o outro...
     - Pois eu pensei que tnhamos sido talhados um para o outro! - ripostou ele, saindo 
da cozinha. Emalou as suas coisas no quarto de hspedes, enquanto ela emalava as 
suas. Sasha perguntava-se se ele se deitaria consigo nessa noite, sentindo-se aliviada 
quando ele foi para a sua cama. 
     No fizeram amor, limitando-se a ficar abraados. Sasha adormeceu, enquanto Liam 
permaneceu acordado durante grande parte da noite, com os olhos pregados no tecto e 
uma expresso de pesar no rosto. Sentia o corao despedaado por ela no estar 
disposta a tomar o seu partido, defendendo-o perante Tatiana. Liam prometera-lhe em 
Abril que manteria a relao entre os dois em segredo, pelo menos durante algum tempo, 
mas quando se comprometeu no fazia a mnima ideia at que ponto isso viria a mago-
lo. Nessa noite, deitado na cama, Liam reflectia sobre tudo isso, sentindo uma angstia 
excruciante. 
     
     
     
     
     
     
                                        CAPTULO 16
     
     Sasha e Liam regressaram  Europa em voos separados, ela com destino a Paris e 
ele a Londres. Aterraram mais ou menos  mesma hora e ela telefonou-lhe nessa noite. 
Ele pareceu-lhe distante. Conversaram durante algum tempo e Liam prometeu-lhe que 
nesse fim-de-semana iria a Paris. Sasha perguntou-se se iria realmente; parecia estar 
pouco satisfeito com ela. Tatiana magoara-o, assim como prejudicara a relao entre os 
dois, e bastante. Tambm magoara a me, mas a verdade  que Sasha no estava 
disposta a discutir irreparavelmente com a filha por causa dele. Tatiana era sua filha, pelo 
que gozava do direito, por nascimento, ao amor incondicional que Liam exigia dela. 
Todavia, ele no gozava do mesmo direito.
     Nessa semana, Liam jantou com Xavier, discutindo o assunto com ele, mas este 
tinha tido uma infncia e juventude muito mais fceis do que ele. Tivera uns pais 
fantsticos e sabia que o amavam. No era o caso de Liam, e tinha as cicatrizes 
emocionais que o provavam. Neste momento estavam a reflectir-se em Sasha, do mesmo 
modo que o que ela sofrera na juventude, inevitavelmente, se reflectia nele, fazendo 
ambos sofrer. 
     A maneira de viver de cada um e a diferena de idade entre os dois tambm eram 
factores adversos. Uma vez mais, Sasha via-se forada a perguntar-se se a relao 
amorosa entre eles teria futuro. Queria que resultasse, mas no se o preo fosse ter de se 
aliar a ele contra a filha. Para ela, era um preo demasiado elevado a pagar pelo amor 
que lhe dedicava.
     Na noite de sexta-feira Liam seguiu de automvel para Paris e passaram um fim-de-
semana sossegado juntos. Ele ficou para o feriado do Catorze de Julho e foram ver o 
desfile militar nos Campos Elsios. Liam disse que era divertido, mas que tinha saudades 
dos Yankees. Tambm sentia a falta dos filhos. Quisera visit-los de novo antes de deixar 
os Estados Unidos, mas na altura andavam em viagem com Beth, e prometera-lhes que 
iria visit-los de novo em Setembro.A galeria tinha sempre pouco movimento em Julho e 
era com expectativa que Sasha antevia as frias com os filhos. Falava o mnimo possvel 
com Liam a respeito disso, a fim de no o magoar ainda mais por no ter sido convidado 
a juntar-se-lhes. 
     Finalmente, Tatiana voltara a falar com a me, ainda que apenas o mnimo 
indispensvel. Sasha conversara com Xavier e o filho tinha concordado com ela, achando 
que seria prefervel que Liam no fosse ter com eles durante as frias. O mais certo, se 
tal acontecesse, seria Tatiana perder as estribeiras outra vez, o que resultaria numa 
confrontao acesa. E Xavier disse isso mesmo a Liam, uma conversa que relatou  me. 
Tatiana no estava a portar-se de maneira razovel e s o tempo apaziguaria os nimos 
exaltados. Andava obcecada com a existncia de Liam na vida da me, considerando que 
era um desrespeito para com a memria do pai.
     No ltimo fim-de-semana antes das frias, quando passeavam pelo Bosque de 
Bolonha com a cadelita, Liam virou-se para Sasha, fitando-a.
     - O que  que tencionas fazer quanto s tuas frias? A pergunta apanhou-a de 
surpresa. Pensava que aquele assunto estava arrumado, muito embora o sacrifcio que 
teriam de fazer no agradasse a nenhum dos dois. Ela tambm queria estar com ele, mas 
essa possibilidade estava fora de questo. 
     Como Sasha veio a constatar, Liam esperara que ela ou Tatiana mudassem de 
ideias. O facto de tal no se ter concretizado foi interpretado por ele como a derradeira 
traio por parte de Sasha. Ela no tomava o seu partido, saindo em sua defesa. Na 
opinio de Sasha, aquela era uma atitude infantil e despropositada. No entanto, para ele 
era uma questo fundamental.
     - O que  que queres dizer? O que  que tenciono fazer? Pensei que tnhamos 
concordado que este ano no seria possvel ires connosco.
      - Caso continuassem juntos, o que ela esperava que viesse a acontecer, existiriam 
outros perodos de frias para gozar. Quanto a estas, no era possvel que as passassem 
juntos. Sasha precisava de tempo para resolver os diferendos com Tatiana.
     - Tu no tens inteno de a confrontar, pois no? Insistiu Liam. Sasha fitou-o, 
suspirando. O seu rosto tinha uma expresso empedernida.
     - Neste momento, no. F-lo-ei mais tarde, se tal for necessrio. Tenho esperana 
em no ter de o fazer. Com o tempo, ela acabar por aceitar a relao entre ns dois. Por 
vezes, at mesmo os adultos sentem dificuldade em aceitar que um dos progenitores 
ande envolvido com outra pessoa, - Sasha atribua a relutncia de Tatiana a esse aspecto 
e no  cena escabrosa que tivera lugar em Southampton, o que, sem margem para 
dvida, fora uma maneira muito pouco [auspiciosa de o apresentar  filha.
     - A menos que tu a forces a isso, ela jamais me aceitar - continuou Liam, obstinado.
     - S na semana passada  que ela voltou a falar comigo
     - retorquiu Sasha, com tristeza. Forosamente, algum perderia naquela situao; 
no queria que fossem eles. - No posso enfiar-lhe isto pela garganta abaixo, Liam. Ela 
precisa de tempo para reconsiderar.
     - Ela est a comportar-se como um fedelho! - ripostou ele, o que correspondia  
verdade, mas era pouco simptico. Sasha tambm estava ciente disso, mas Tatiana 
continuava a ser sua filha. Liam falara num tom de voz maldoso, o que a deixou furiosa.
     - Tal como tu prprio - retrucou, sem se exaltar. Liam virou-lhe as costas, afastando-
se e comeando a brincar com a cadela. J no automvel, a caminho de casa, manteve-
se em silncio. Exibia uma expresso de petulncia e irritao, como um garoto furioso 
com a me. Um homem atraioado pela mulher que amava.
     Sasha estava a preparar o jantar para os dois quando Liam desceu as escadas com 
a mochila na mo e entrou na cozinha.
     - O que  que ests a fazer? - perguntou Sasha, sentindo um calafrio de medo 
percorrer-lhe a espinha. Sabia de antemo o que ele lhe responderia.
     - Vou-me embora. Recuso-me a ser tratado por ti como se fosse um segredo 
repugnante, tal como no permito que a tua filha me humilhe.
     - Liam, por favor... - disse ela, sentindo que o pnico se apoderava da sua voz. - 
Tens de nos dar uma oportunidade. Desde o princpio que sabamos que esta situao 
levaria o seu tempo. E tu no s segredo nenhum. - Tatiana sabia da existncia dele, e 
era a que o problema residia.
     - No, eu sou uma desgraa! Tens vergonha de mim! Ambos se recordaram do 
churrasco do Quatro de Julho, quando ele disse aquilo e Sasha no lhe deu resposta.
     - Eu no tenho vergonha de ti. Amo-te. Mas ests-me a pedir que escolha entre ti e 
um dos meus filhos. Isso no  justo. No me peas que faa uma coisa dessas - 
retorquiu Sasha com os olhos marejados de lgrimas. Liam pedia-lhe que fizesse o 
impossvel por ele, condenando a relao entre os dois caso no agisse como ele queria.
     - Por vezes, essa deciso  o preo a pagar. Preciso que me ames e me respeites, o 
que no fazes.
     - Se me amasses e respeitasses, nunca me pedirias que escolhesse entre ti e a 
minha filha! - Liam mantinha-se de p a olhar para ela, sem dizer nada. Finalmente, algum 
tempo depois, voltou a falar, pegando na mochila.
     - Acabou, Sasha. Estou farto. J usmos todos os nossos recursos. Desde o 
princpio que tinhas razo:  uma relao impossvel. Pensei que conseguiramos lev-la 
avante. Estava enganado e tu estavas certa. - Mas ela no queria ter razo, queria estar 
enganada. Queria isso mais do que nunca! Tinha a impresso de que desta vez haviam 
estado to perto de conseguirem... At ele a ter posto perante aquela escolha atroz.
     Sasha tentou abeirar-se dele, mas Liam estendeu o brao para a impedir de se 
aproximar.
     - No faas isso! Amo-te, mas vou voltar para Londres. No me telefones. Est tudo 
acabado. - E em seguida, a crueldade final: - D os meus cumprimentos  Tatiana. Diz-
lhe que ganhou. - Sem mais palavras, Liam saiu de casa dela. Desta feita, fechou a porta 
suavemente. Sasha ouviu o barulho do porto de bronze macio a bater pouco depois, 
quando se fechou, vendo-se sozinha na cozinha, a olhar fixamente para o stio onde ele 
estivera momentos antes, com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces. 
     Desde que perdera Arthur que nunca se sentira to mal.Sentou-se no cho da 
cozinha, junto da cadela, afagando-lhe o plo, enquanto chorava convulsivamente. Agora 
a Pegas era tudo o que lhe restava dele. Liam tinha partido, voltara para o seu mundo, e 
ela sabia que desta feita era a srio.Deixou-se ficar sentada no cho da cozinha, s 
escuras, durante muito tempo. No se deu ao trabalho de ligar as luzes. Permaneceu 
onde estava sem parar de chorar, murmurando uma palavra na escurido:
     - Impossvel...
     Nessa altura j Liam seguia pela estrada a caminho de Londres, convencido da 
mesma coisa. 
     
                                          CAPTULO 17
     
     O tempo passado em Saint-Tropez teria sido divertido para Sasha se no tivesse o 
corao despedaado. Xavier apercebeu-se imediatamente quando chegou de que devia 
ter acontecido alguma coisa terrvel, e foi ter com a me ao Hotel Byblos, onde os trs 
estavam alojados. No via a me com uma expresso to angustiada desde o dia, havia 
vinte e dois meses, em que o pai falecera. 
     Xavier tinha desconfiado de qualquer coisa quando encontrou Liam num pub na 
noite anterior  sua partida acompanhado de uma jovem lindssima. Liam beijava-a e 
estava completamente embriagado. Xavier sentiu-se como se o corao lhe tivesse cado 
aos ps. Foi nessa altura que teve percepo de que a relao entre ele e a sua me 
devia ter acabado. Com excepo do pequeno deslize que levara ao seu divrcio, Liam 
no era um homem infiel, portanto, se ele estava acompanhado de outra mulher em 
pblico, isso queria dizer que a relao com Sasha acabara.
     - Vocs dois discutiram? - perguntou Xavier  me em voz baixa quando tomavam 
um Pernod no terrao.
     - Ele pretendia que eu confrontasse a Tatiana, e eu disse-lhe que ainda era 
demasiado cedo para isso. Ele queria vir de frias connosco... Talvez tenha razo, mas 
no quero arriscar-me a prejudicar o meu relacionamento com a tua irm. Ele exigiu de 
mais prematuramente, e eu no consegui fazer o que ele queria. A Tati ainda no est 
preparada para ceder. Penso que a atitude dele tem origem na sua vivncia com a 
famlia. 
     Durante toda a vida disseram-lhe que no era suficientemente bom, colocando-o  
margem, e ele achou que eu estava a agir da mesma maneira, mas no, eu s queria que 
a Tati tivesse algum tempo para se acalmar depois do que aconteceu em Southampton, e 
estas frias eram cedo de mais para isso. 
     - s vezes, Liam comportava-se como uma criana, o que ambos sabiam. Sob 
certos aspectos, era como um garoto brilhante e cheio de talento que tinha birras sempre 
que sentia que era rejeitado. Mas o pior era Sasha ter conscincia de que o amava. No 
entanto, tinha ainda mais amor  filha.
     - Foi uma atitude estpida da parte dele - retorquiu Xavier, irritado. Apesar de ter 
apenas vinte e seis anos, era muito mais maduro do que Liam. - Eu disse-lhe a mesma 
coisa que a me: tudo o que havia a fazer era relaxar e deixar correr o tempo.
     - Imagino que no tenha conseguido adoptar essa atitude. - Os ecos do passado de 
Liam continuavam a ser demasiado fortes e talvez nunca viessem a desaparecer. 
Chegadas a uma certa altura, as pessoas que se amavam tinham de aprender a aceitar o 
modo de vida do outro; caso no fossem capazes de o fazer, a relao no resultaria. 
Com Liam, no resultara.
     Xavier olhou de fugida para a me, dizendo, sem pensar: - Encontrei-o na noite 
antes de deixar Londres. Foi num pub, e estava to bbedo que nem sabia o que fazia, 
No me pareceu que fosse a ocasio mais apropriada para lhe [fazer perguntas, mas 
apercebi-me de que devia ter acontecido alguma coisa. - O modo como o filho se 
expressou disse mais a Sasha do que ele tencionara dar-lhe a perceber. Olhando bem 
fundo nos olhos do filho, fez-lhe uma pergunta que lhe diria tudo o que precisava de 
saber. Ele estava sozinho? - indagou Sasha, mal conseguindo articular as palavras. 
Sentia-se como se um torno lhe apertasse o peito
      Xavier no lhe deu resposta durante o que pareceu uma eternidade, mas depois 
abanou a cabea. l Estava com uma rapariga qualquer, uma perfeita idiota. O mais certo  
t-la conhecido no pub. Isso no quer dizer nada, me, ele estava perdido de bbedo. 
Tenho a certeza de que no a conhecia. - Xavier no lhe contou que Liam estava a beijar 
a rapariga e que ela aparentava ter uns vinte e dois anos, mas at mesmo com o pouco 
que ele disse, Sasha sentiu-se como se o seu corao tivesse sido trespassado por um 
punhal. Era inegvel que a relao acabara. 
     Depois desta conversa, o resto da viagem, para ela, foi uma verdadeira agonia. O 
que, de qualquer maneira, teria sido. A culpa no era de Xavier. Liam sara da sua vida. 
No conseguia pensar noutra coisa.
     Passaram duas semanas em Saint-Tropez, encontrando-se com pessoas amigas, 
indo para a praia de dia e a restaurantes  noite. Almoaram no Clube 55, foram tomar 
umas bebidas ao Gorilla Bar e, depois de Tatiana chegar, ela e a me foram dar uma 
vista de olhos pelas lojas. Sasha dava a impresso de estar numa agonia constante de 
manh  noite, no que Tatiana parecia no reparar. Nenhuma delas mencionou o nome 
de Liam. Quanto a Xavier, no se atrevia a voltar a falar nele.
      Pela expresso que se espelhava nos olhos da me, via at que ponto se sentia 
infeliz, at mesmo quando tentava mostrar-se animada, fingindo que estava tudo bem, o 
que fazia durante a maior parte do tempo. E quando se recolhia no seu quarto,  noite, 
adormecia sempre a chorar. Sentia uma falta excruciante de Liam, mas tinha noo de 
que no havia nada a fazer para que ele voltasse; s lhe restava aceitar o inevitvel. No 
podia telefonar-lhe para o convidar a juntar-se a eles em Saint-Tropez; Tatiana teria 
partido caso o fizesse. Sasha no queria arriscar-se a isso.
     Foram convidados para sair por amigos em vrias ocasies, o que Sasha aceitava 
quando quem a convidava tinha filhos mais ou menos da idade dos seus ou era cliente 
das suas galerias. Porm, ter de estar com outras pessoas e manter uma conversa dava-
lhe vontade de rastejar para fora da prpria pele. Nunca se sentira assim em toda a sua 
vida. Depois da morte de Arthur, mantivera-se em recluso durante vrios meses, mas 
agora voltara ao convvio social, fingindo que estava tudo bem consigo, o que se tornava 
quase insuportvel.
      Nada do que fizesse lhe proporcionava o mnimo alvio ou satisfao. Dia e noite 
sofria com a ausncia de Liam, sabendo de antemo que ele no podia ser seu. No lhe 
ligou e ele tambm no lhe telefonou uma s vez. Noite aps noite, imaginava-o pelos 
bares a conquistar mulheres jovens. O sofrimento era tanto que se sentia enlouquecer 
quando entraram a bordo do barco que alugara para as frias. Foi um alvio quando 
levantaram ncora, deixando Saint-Tropez rumo ao mar alto.
     Tanto Xavier como Tatiana tinham convidado amigos, por sugesto de Sasha. 
Todos gostavam da companhia uns dos outros, pelo que no precisava de os entreter. 
     Podia deitar-se no convs e fechar os olhos prximo da proa do barco a pensar nele, 
sentindo uma dor incomensurvel.  noite, quando os jovens iam a terra, ela optava por 
ficar no barco. Alegava que no lhes queria estragar o divertimento, mas a verdade  que 
no sentia vontade de falar com quem quer que fosse. Precisava de tempo a ss com o 
desgosto que se apoderara dela.
     Foram a Portofino, onde se decidiu a ir a terra, mas por pouco tempo. Jantaram no 
Splendido, para celebrar o facto de Sasha ter finalmente concordado em sair com eles. 
No entanto, a despeito de todos os seus esforos, esteve com um aspecto to infeliz 
durante o jantar que Tatiana perguntou ao irmo o que  que afligia a me depois de esta 
ter voltado para o barco, alegando que tinha dores de cabea.
     - A me est doente? - perguntou Tatiana, totalmente alheada do mal que causara 
ou a portar-se como se no tivesse acontecido nada de anormal; Xavier no sabia bem 
qual das hipteses estava certa.
     - No - respondeu, pesaroso -, sente-se extremamente infeliz. Desde a morte do pai 
que eu no a via neste estado - acrescentou, olhando-a com uma expresso de censura, 
mas ela no lhe deu resposta. - Tornaste as coisas terrivelmente difceis para ela, Tati. 
Ela no merecia isso. A me e o Liam acabaram tudo antes de ela ter vindo para Saint-
Tropez. - Xavier sentia-se entristecido pelos dois, pois acreditava que se amavam, 
independentemente da diferena de idades. 
     Na noite em que o vira, Liam tambm lhe parecera estar fora de si, com a diferena 
de o expressar de modo diverso do de Sasha. Ele dava largas aos seus sentimentos, 
enquanto ela guardava todo o seu sofrimento dentro de si. Tatiana, porm, no mostrou 
quaisquer remorsos quando a ps a par do que se estava a passar.
     - A me est melhor assim. Ele  um canalha! - ripostou Tatiana, o que fez Xavier 
sentir uma enorme vontade de a esbofetear.
     -  maldade dizeres uma coisa dessas! Por que razo queres v-la to infeliz? - 
Estava furioso com a atitude da irm. - Eu disse-te que ele  um bom tipo e que a ama, e 
 evidente que ela est apaixonada por ele. O que  que ests a pensar fazer agora? 
Sentares-te ao p dela para lhe fazeres companhia? Isso  que era bom! Tens a tua 
prpria vida. Tal como eu, e, por isso, ela volta a ficar sozinha. - Estava extremamente 
encolerizado e angustiado por causa da me. Ela ama o pai! - ripostou Tatiana, insistente 
e teimosamente.
     - Amou. Agora ama o Liam!
     - Ela andava a fazer uma figura ridcula e, seja como for, o mais provvel  ele ter 
andado a rir-se  custa dela. Alm do mais, era uma relao muito censurvel para com a 
memria do pai.
     - A me no fez nada de ofensivo  memria do pai. Ele morreu, Tati, nunca mais 
voltar. Ela tem o direito de ter uma vida feliz, quer tu aproves quer no. A razo por que 
acabaram com a relao deveu-se ao facto de ela no querer ficar de mal contigo, caso o 
tivesse convidado para passar uns dias connosco. Deves um pedido de desculpas  me. 
Talvez ainda no seja tarde de mais para ela remediar as coisas. Eles amam-se. Tm 
direito a esse amor. E tu no tens nada que interferir!
     - Mas eu no quero que ela remedeie as coisas... - retrucou Tatiana, devastada.
     - Depois de tudo o que ela faz por ns, como  que tens coragem de ser to 
egosta? - Xavier sentia uma vontade quase irresistvel de estrangular a irm pela sua 
atitude e falta de compaixo para com a me, que estava a sofrer terrivelmente por causa 
de Liam, o que mais do que convencia Xavier de quanto o amava.
     - Talvez eu lhe tenha feito um favor...
     - Precisavas de umas boas palmadas no traseiro. O Liam tem toda a razo, s um 
fedelho birrento!
     - Foi isso que ele disse de mim? - perguntou Tatiana, de novo furiosa.
      - Patife! Ali estava ele com a picha pendurada, pronto para me agredir com o 
atiador, depois de ter fornicado com a nossa me! - acrescentou num timbre de voz que 
acreditava transmitir a afronta de que fora vtima. Xavier pensava apenas que ela estava a 
portar-se como uma megera, o que lhe disse, e s serviu para a enraivecer ainda mais.
     - Tu metes nojo! Talvez ele devesse ter-te batido com o atiador. Merecias isso! - 
ripostou Xavier, encolerizado. Aps esta troca de palavras, Tatiana afastou-se, indignada. 
No dia seguinte, Sasha reparou que os filhos no se falavam, mas no fazia a mnima 
ideia porqu. Nem sequer lhe passou pela cabea que tivessem discutido por causa de si 
e de Liam. 
     Depois do episdio com a irm, Xavier passou a ser ainda mais gentil na maneira 
como tratava a me e Tatiana tambm se mostrou mais afvel. Sentia alvio por Liam 
estar fora de cena, considerando a sua ausncia uma bno. Nunca disse nada a 
respeito dele nas suas conversas com a me, e esta decidira no mencionar o assunto, 
para no voltar a exacerbar os nimos. Agora no valia a pena bater na mesma tecla; ele 
tinha desaparecido da sua vida, e falar sobre isso magoava-a de mais.
     Tiveram uma estada bastante agradvel no barco, a despeito da tristeza de Sasha, e 
todos se sentiram nostlgicos quando atracaram no porto do Mnaco. Fizeram um ltimo 
jantar a bordo e depois os mais jovens foram ao casino; Sasha deitou-se cedo. Na manh 
seguinte, todos partiram. Tatiana apanhou um voo de regresso a Nova Iorque, Xavier 
voltou para Londres, tendo prometido  me que iria visit-la dentro em pouco, e Sasha 
seguiu de avio para Paris, depois de os outros jovens terem ido cada um para seu lado. 
Para ela tinham sido trs semanas muito longas. 
     Havia desfrutado da companhia dos filhos, mas sentia-se aliviada por poder voltar 
para casa e ir para a cama com a Pegas. A residncia, em Paris, pareceu-lhe 
insuportavelmente silenciosa e vazia quando regressou.
     Agora no tinha nada na vida por que ansiasse, excepto o trabalho, o que lhe 
permitira continuar em frente outrora, depois da morte de Arthur. Mas desta vez a 
situao pareceu-lhe mais difcil. Quando Arthur falecera, a nica alternativa que lhe 
restara tinha sido aceitar o inevitvel e ajustar-se s novas circunstncias, por muito 
doloroso que isso fosse. No havia outra opo! Mas agora, sabendo que Liam estava 
vivo e de boa sade, a trabalhar no seu estdio e, provavelmente, dedicado  conquista 
de mulheres jovens, a situao tornava-se mais difcil de ultrapassar. 
     Claro que existia sempre a possibilidade, ainda que remota, de ele lhe telefonar ou 
mesmo de voltar para junto dela, mas Sasha estava ciente de que isso no aconteceria. 
Ele era demasiado casmurro e Sasha sabia at que ponto se sentia atraioado por ela se 
ter recusado a fazer frente  filha. 
     Para ele, tal atitude abrira muitas feridas antigas de abandono e traio, e Sasha 
sabia que Liam no era capaz de ultrapassar essas adversidades. Conhecia-o bem de 
mais e estava certa no seu raciocnio.
     No primeiro dia de trabalho depois de voltar de frias, como quem no quer a coisa, 
dissera a Bernard que se Liam telefonasse queria que fosse ele prprio a tratar de tudo. 
Ela no atenderia as chamadas dele. Sabia que Liam talvez ligasse para a galeria para 
tratar de assuntos relacionados com a exposio em que os seus trabalhos seriam 
exibidos e no era capaz de encarar a hiptese de falar com ele. Era demasiado doloroso.
     - Passa-se alguma coisa de errado? - perguntou Bernard, mostrando preocupao. 
Ela no parecia estar bem, apesar das frias bastante prolongadas. Sob o bronzeado que 
adquirira a bordo, tinha umas olheiras muito acentuadas, alm de dar a impresso de 
estar tensa. Tambm achava que perdera peso, o que era verdade.
     - No - respondeu Sasha, comeando a dizer qualquer coisa, mas depois decidiu 
falar com franqueza. - Est tudo acabado. - Os seus olhos reflectiam o desnimo que lhe 
ia na alma.
     - Oh! - exclamou Bernard, que no sabia o que dizer, olhando para ela. Apercebia-se 
de quanto se sentia infeliz, um sentimento que estava em proporo directa com a 
felicidade que mostrara havia apenas alguns meses na companhia de Liam. - 
Continuamos a fazer a exposio em Nova Iorque com os trabalhos dele? - perguntou 
Bernard.
     - Claro que sim. Somos os seus negociantes - replicou ela, adoptando uma atitude 
de profissionalismo, aps o que, sem acrescentar mais nada, se dirigiu para o seu 
gabinete, fechando a porta depois de entrar. O assunto Liam estava to encerrado como 
aquela porta.
     Eugnie tambm reparou que ela andava muito calada. Quando Sasha partiu para 
Nova Iorque, em Setembro, a fim de tratar dos preparativos para uma exposio, Mareie 
sentia-se apreensiva por causa dela. Sasha couraara-se para no chorar quando lhe 
disse que estava tudo acabado entre si e Liam. J haviam passado dois meses. Sentia-se 
como se tivesse rastejado por cima de arame farpado desde Julho e tinha uma aparncia 
de exausto, agora que o bronzeado j havia desaparecido. 
     Mareie achou que ela estava com um aspecto horrvel, o que correspondia ao que 
Sasha sentia. No havia nada que no o trouxesse  memria, tudo lhe parecia vazio sem 
a presena dele. A sua cama em Paris era demasiado grande; a da casa de Nova Iorque 
era uma autntica agonia. O porteiro perguntou-lhe se ele estava bem. Muito embora 
ambos tivessem sido extremamente cuidadosos para que ningum soubesse da relao, 
todos perguntavam por ele, todos gostavam dele.
      E, pior ainda, tambm ela gostava. S Tatiana  que o detestava. Nem sequer dera 
a entender que sabia que ele j no fazia parte da vida da me. Xavier, pelo contrrio, 
telefonava-lhe com frequncia, e para ela era sempre um prazer poder falar com o filho.
     Xavier encontrara-se vrias vezes com Liam, mas no partilhou isso com a me. 
Quando falava com ela, nunca aludia ao nome dele. Cada vez que o vira, estava 
acompanhado de uma mulher diferente. Dava a impresso de tentar recuperar o tempo 
perdido, falando constantemente sobre o seu divrcio. Nunca referia o nome de Sasha, o 
que levava Xavier a desconfiar de que continuava apaixonado por ela. O facto de ele no 
a mencionar parecia-lhe bastante estranho.
     Em Outubro, Xavier passou um fim-de-semana em Paris com a me. O tempo 
estava maravilhoso e decidiram ir jantar ao Le Voltaire, um restaurante que ambos 
adoravam. Nessa altura Sasha j estava com melhor aspecto. Havia regressado h pouco 
de Amesterdo, depois de ter assinado contratos com dois artistas. No mencionou o 
assunto a Xavier, mas andava a reunir coragem para ir a Nova Iorque, a fim de preparar a 
exposio de Liam. Ainda faltavam seis semanas... 
     Enfim, seis semanas era o tempo de que dispunha para ficar suficientemente forte 
para quando se encontrasse com ele, altura em que no queria mostrar qualquer reaco, 
independentemente do que sentisse no seu ntimo. Decidira que adoptaria uma atitude 
exclusivamente profissional em relao ao assunto; ao fim e ao cabo, era ela quem 
negociava os trabalhos dele. 
     Xavier j tinha visto os seus trabalhos mais recentes, dizendo que eram muito bons. 
Bernard tambm fora a Londres para ver esses novos quadros, e ficara deveras satisfeito, 
estando certo de que Sasha tambm haveria de os considerar excelentes.
     A exposio abriria ao pblico no primeiro dia de Dezembro. Sasha e os filhos 
tinham combinado reunir-se em Nova Iorque para celebrarem juntos o Dia de Aco de 
Graas, uma vez que ela teria de estar na galeria de Nova Iorque na segunda-feira a 
seguir ao feriado. Durante esse fim-de-semana tencionava tratar dos preparativos para a 
exposio. O Dia de Aco de Graas passado em Paris nunca fizera grande sentido para 
ela. Seria mais divertido para todos se o celebrassem em Nova Iorque.
     Pouco antes de partir, Xavier encontrou-se com Liam. Passou pelo estdio dele, 
tendo deparado com uma jovem; no fazia ideia se era a sua nova namorada ou no. 
Aparentava ter uns vinte e cinco anos, e Xavier s pedia aos santinhos que ele no a 
levasse para Nova Iorque. Se o fizesse, isso mataria a me, e esperava que Liam tivesse 
o bom senso de ir sozinho, se bem que qualquer deles tivesse o direito de seguir a sua 
prpria vida da maneira que melhor satisfizesse os seus desejos. 
     Todavia, Xavier sabia quanto a presena de outra mulher ao lado de Liam magoaria 
a me. Ela nunca mais voltara a sair com outro homem, segundo o que Xavier apurou 
durante o jantar no Le Voltaire; os seus olhos ficaram rasos de gua quando Xavier falou 
nisso, respondendo apenas com um abanar de cabea. 
     Xavier no voltou a tocar no assunto. Tinha o pressentimento assustador de que a 
me desistira de voltar a ser feliz. Aos quarenta e nove anos, na sua opinio, parecia-lhe 
um grande desperdcio, mas a verdade  que ela dava a impresso de se ter fechado 
dentro de si prpria, excepto quando estava a trabalhar. A galeria parecia ser a nica 
coisa que conseguia abstra-la do desgosto, pelo que ele se sentia agradecido.
     - Vemo-nos em Nova Iorque! - disse Liam alegremente  guisa de despedida quando 
Xavier saiu. Estava entusiasmado com a exposio, mas no falara em Sasha uma nica 
vez.
     Sasha e os filhos passaram o Dia de Aco de Graas no apartamento. Depois do 
jantar, ela e Xavier foram ao cinema, enquanto Tatiana optou por sair com os amigos. Era 
o terceiro Dia de Aco de Graas que passavam sem Arthur e o mais doloroso at 
agora. Durante o resto do fim-de-semana, Sasha andou muito ocupada a tratar da 
exposio de Liam.
     Os quadros, constatou  medida que os ia tirando das grades de embalagem, eram 
magnficos. Sasha recuou para poder admir-los melhor, sentindo-se muito orgulhosa 
dele. Fizera uns trabalhos fantsticos para a exposio. Os quadros chegaram todos em 
perfeitas condies. Entusiasmada, comeou a encost-los s paredes, colocando-os ao 
alto  volta da galeria antes de decidir onde os iria pendurar.
      A noite de domingo j ia adiantada e Sasha ainda estava na galeria, tentando 
decidir qual de dois quadros espectaculares havia de pendurar  frente, de maneira que 
as pessoas o vissem assim que entrassem. Nem sequer o ouviu chegar. A porta da 
galeria no estava trancada. Xavier passara por l de fugida e Sasha esquecera-se de a 
trancar depois de ele ter sado; estivera demasiado ocupada a pendurar os quadros de 
Liam.
     Observava atentamente as duas pinturas maiores quando ouviu uma voz atrs de si 
que lhe era familiar e que fez o seu corao bater mais depressa. Era Liam, que acabara 
de chegar de avio; trazia uma camisola preta de gola alta e calas de ganga, o habitual 
bon de basebol, botas de motociclista e um casaco de cabedal tambm preto e j com 
muito uso. O cabelo louro e comprido estava preso num rabo-de-cavalo que lhe caa 
pelas costas. Mais do que nunca, a sua parecena com James Dean era notria.
      E j no lhe pertencia, disse Sasha para si prpria quando se voltou para falar com 
ele numa voz enganadoramente calma, olhando-o bem de frente. Liam no se apercebeu 
de nada, mas a verdade  que lhe custou imenso afivelar aquela fachada de 
desprendimento.
     - Fizeste um trabalho magnfico! - disse ela numa voz suave. Agora era apenas a 
pessoa que negociava os seus quadros, recordou a si mesma, e nada mais. Os olhos dos 
dois prenderam-se enquanto se observavam  distncia. Ele no se aproximou dela para 
lhe dar um beijo na face. Manteve-se no extremo oposto da galeria a olhar para ela, que 
tambm mantinha o olhar fixo nele. Os tempos haviam mudado. Liam tinha uma 
expresso de tristeza, cansao e seriedade, mas estava lindo como sempre. - Pintaste um 
nmero inacreditvel de quadros! - De facto, era impressionante.
     - Tenho andado bastante ocupado - adiantou ele em voz baixa.
     - Desconfiei que estarias - retorquiu ela, mas arrependeu-se imediatamente do seu 
comentrio. 
     O que ele fazia nos seus tempos livres deixara de ser assunto que lhe dissesse 
respeito. Sasha parecia agitada quando voltou a dirigir-lhe a palavra. - De qual  que 
gostas mais para a frente? H uma hora que estou aqui especada a tentar decidir.
     - Daquele - replicou Liam, apontando para o quadro maior e com cores mais 
vibrantes sem a mnima hesitao.
     - No concordas? - Continuava a prezar a opinio dela. Sasha tinha um golpe de 
vista infalvel, o que o levava a ter o maior respeito pelo que ela fazia e pela sua 
competncia.
     - Sim, concordo. Tens razo. - Sasha pegou no quadro, levando-o para o stio onde 
queria pendur-lo, e ele aproximou-se para a ajudar. O quadro era demasiado grande 
para o poder levar sozinha, mas Sasha no se importava. Era frequente que trabalhasse 
 noite at tarde, ficando sozinha a pendurar quadros, travando uma verdadeira batalha 
com as molduras, o escadote, a fita mtrica, o nvel de bolha de ar, os pregos e o martelo. 
Liam sorriu ao v-la a pregar um prego na parede, aps o que pegou no quadro, enquanto 
ele o erguia para ela. 
     Mostrava-se to teimosa e determinada como sempre. Nada havia mudado. Ele 
continuava a sorrir quando ela desceu do escadote para poder admirar o seu trabalho. 
Magnfico! Est perfeito!
     Liam concordou com um acenar de cabea, observando o quadro com o olhar crtico 
de um pintor, mas tambm estava satisfeito.
     - Sim, de facto fica bem a. - Olhou  sua volta, sentindo-se satisfeitssimo ao ver a 
disposio que ela dera aos seus trabalhos para a exposio, tal como, alis, sabia que 
aconteceria. Ao olhar para ele, Sasha teve uma percepo muito clara de que era a 
primeira vez que o via em quatro meses e alguns dias. Tentou no pensar nisso quando 
passou por ele para guardar as ferramentas. 
     S de sentir a sua presena no mesmo espao em que se encontrava era-lhe difcil 
acalmar-se. a sentir-se percorrida pela mesma sensao electrizante que sempre 
experimentara junto dele, mas agora teria de ignorar isso, para bem de ambos. Liam dava 
a impresso de no sentir absolutamente nada por ela, o que era deprimente, no entanto, 
disse para si mesma que talvez fosse prefervel assim. Era a nica maneira possvel.
     Sasha desligou as luzes da galeria depois de ele ter visto todos os seus trabalhos e 
como ela os havia pendurado. Quando saram, ficou espantada ao ver que estava a 
nevar. Tinha ficado todo o dia e grande parte da noite na galeria a trabalhar para a 
exposio dele.
     - Onde  que vais ficar? - perguntou com naturalidade, ligando o alarme e fechando 
a porta  chave. Ele seguiu atrs dela, reparando quanto parecia cansada e como havia 
emagrecido. Ao olhar para ele, e sabendo a idade das mulheres com quem andava 
provavelmente a sair, Sasha sentiu-se como se tivesse cem anos. Liam, porm, achou 
que ela estava lindssima, apesar de ter emagrecido, esperando que no estivesse 
doente.
     - Estou em casa de uns amigos na Tribeca - respondeu de forma propositadamente 
vaga. No queria agir de maneira muito pessoal com ela. - Vou visitar os meus filhos a 
Vermont na semana que vem, depois da inaugurao da exposio. A Beth vai casar-se 
na vspera do Ano Novo. - Liam no sabia por que razo lhe dissera aquilo, mas era bom 
voltar a v-la. Bom, embora estranho. Era to esquisito ter amado algum, como ambos 
tinham amado, e agora nem sequer serem amigos... Apenas um pintor e a sua negociante 
de arte... Depois desta exposio, Sasha no fazia a mnima ideia de quando voltaria a 
v-lo.
     - Como  que esto os garotos? - perguntou-lhe enquanto esperavam que 
passassem txis. A neve acumulava-se no solo, tendo j uma altura de alguns 
centmetros, e txis nem v-los. Finalmente, apareceu um.
     - Os garotos esto ptimos - respondeu Liam, disposto a que ela ficasse com o txi. 
Seguiam em direces opostas, pelo que um no podia deixar o outro pelo caminho. Em 
qualquer dos casos, Sasha no queria seguir no mesmo txi. Estar to perto dele teria 
sido demasiado difcil para ela. Mas ento teve conscincia de que Liam talvez fosse 
forado a esperar durante mais uma hora que passasse outro txi. Tinham esperado 
quase vinte minutos at aquele ter aparecido.
     - Queres deixar-me em minha casa e depois continuas em direco a Tribeca? s 
capaz de ter de ficar aqui durante horas  espera de outro txi... - ofereceu Sasha, 
generosamente. A neve caa com mais intensidade, aumentando a camada no solo. Se 
no estivesse tanto frio e humidade, teria sido bonito de observar. Liam hesitou, mas 
depois aceitou com um aceno de cabea. O que ela sugerira, na sua opinio, tinha toda a 
razo de ser. Assim, ambos entraram no txi.
     Sasha indicou o endereo ao taxista e ficaram em silncio.
     - Espero que no caia um nevo, porque isso complicaria a vida das pessoas que 
quisessem ver a exposio - comentou Sasha, olhando pela janela do txi.
     - Gosto de Nova Iorque quando neva - disse ele, sorrindo, a olhar para a neve que 
rodopiava em redor do carro. Mais do que nunca, parecia um garoto, o que nele no era 
nada de novo. - Como  que passaste o teu Dia de Aco de Graas? - perguntou 
cortesmente.
     - Passou-se bem. Os feriados j no so como antigamente, mas foi melhor do que 
o do ano anterior e do que o outro antes desse - replicou Sasha, referindo-se a Arthur. No 
entanto, tinha sido muito pior sob outros aspectos por causa dele. Entretanto chegaram 
diante do prdio em que ela vivia. O porteiro abriu-lhe a porta do txi e ela saiu, 
agradecendo a Liam pela boleia. - Vemo-nos amanh. Depois disso passars a ser uma 
estrela - continuou ela, sorrindo-lhe, e depois acrescentou: - O que j s. Boa sorte para 
amanh.
     - Obrigado, Sasha. - Liam estava-lhe grato apesar de, em termos amorosos, as 
coisas no terem corrido bem entre eles.
     O txi comeou a afastar-se quando Sasha chocou com Tatiana, que passara por l 
para ir buscar um vestido que a me tinha prometido que lhe emprestaria para uma festa 
a que ela ia nessa semana. Sasha viu que a filha olhava de relance para o txi, tendo 
reconhecido quem se encontrava no interior. J no elevador, no fez qualquer comentrio, 
mas assim que entrou no apartamento com a me, Tatiana no escondeu a irritao que 
sentia.
     - Quem era aquele? - perguntou ela num tom de voz extremamente agreste, que fez 
Sasha ranger os dentes. Mas estava determinada a no reagir, por isso no mordeu o 
isco. Desde Julho que no discutiam por causa de Liam, havia cinco meses. Sabes bem 
quem era - replicou Sasha muito calma.
     - A exposio dele abre amanh ao pblico.
     - Voltou a andar com ele? - perguntou Tatiana  me com uma expresso de 
censura, como se esta fosse uma falhada aos olhos da filha caso isso se confirmasse, o 
que irritou Sasha ainda mais. Tatiana j causara estragos suficientes. No estava 
disposta a permitir-lhe que causasse mais problemas.
     - No, no voltei - respondeu Sasha, embora desejasse que sim. Mas era tarde de 
mais para isso.
     - O mais provvel  ele andar a sair com raparigas com metade da sua idade... - 
ripostou Tatiana, malvola, e Sasha perdeu a pacincia.
     -J chega! - disse a me com firmeza, num tom de voz que surpreendeu Tatiana. - O 
que ele faa, ou no faa,  assunto que no me diz respeito, nem to-pouco a ti.
     - Continua apaixonada por ele, no  verdade? - retorquiu Tatiana como se 
estivesse a acus-la, e Sasha olhou-a bem de frente.
     - Sim, continuo.
     - Isso  pattico!
     - A nica coisa pattica aqui  tu seres to malvola ao ponto de teres dito o que 
acabaste de dizer, por no dares trguas a esta espcie de vingana que tentas dignificar 
em nome do teu pai. Isto no tem nada a ver com ele, nem to-pouco contigo, e, nesta 
altura, nem sequer comigo. O Liam  um homem decente, Tatiana. As coisas no 
correram bem entre ns dois, o que, podes crer, lamento bastante. Se a tua inteno  
esfregar vinagre nas minhas feridas, sai daqui o mais rpido possvel. A minha vida j  
bastante difcil e suficientemente solitria e triste, sem que seja preciso que a tornes ainda 
mais amargurada. 
     - Havia lgrimas nos olhos de Sasha quando Tatiana olhou para ela, perplexa ao ver 
a veemncia com que a me reagira s suas palavras. Xavier dissera-lhe que ela estava 
apaixonada por Liam, mas Tatiana recusara-se a acreditar no irmo. Pensava que a 
relao era somente de natureza sexual, mas agora podia constatar que se tratava de 
muito mais do que isso. Nunca esperara que Sasha a atacasse com todas as armas ao 
seu dispor.
     - Peo desculpa, me - disse, contrita. - No me tinha apercebido de que gostava 
assim tanto dele. - Subitamente, Tatiana deu-se conta do que fizera e do preo que a me 
pagara pela sua atitude. Pela primeira vez, sentiu-se culpada.Sim, gosto muito dele, 
embora nesta altura isso no me sirva de nada - disse Sasha com toda a franqueza, 
despindo o casaco e limpando as lgrimas. Pela primeira vez desde aquela noite fatdica 
nos Hamptons, Tatiana sentiu sinceramente pena da me. A nica coisa em que pensava 
era na falta que sentia do pai, e no como a me se sentiria sozinha e infeliz.
     - Eu s queria que a me optasse por algum mais parecido com o pai - continuou 
Tatiana numa voz cheia de suavidade, agora que estava to arrependida do que lhe 
dissera antes. Foi nessa altura que, pela primeira vez, admitiu a verdade, ficando com os 
olhos marejados de lgrimas. O que eu disse no  exacto - corrigiu-se -, eu no queria 
que a me tivesse quem quer que fosse, queria que permanecesse fiel  memria do pai.
     - Sei que sim - retorquiu Sasha por entre lgrimas, puxando Tatiana para os seus 
braos. - Eu tambm sinto a falta dele, minha querida, pensei que morreria quando 
faleceu. Nunca esperei vir a apaixonar-me pelo Liam, foi algo que aconteceu. No tive 
qualquer inteno, mas as coisas so assim mesmo. - Sasha fechou os olhos enquanto 
as duas se abraavam. - Mas agora isso no interessa. Est tudo acabado - ao dizer isto, 
as lgrimas caam-lhe pelas faces.
     - Talvez ele volte... - alegou Tatiana, sentindo-se pesarosa pela me e cheia de 
remorsos pelo que fizera. Tinha sido preciso muito tempo, mesmo muito, para a 
compreender.
     - No,  impossvel - redarguiu Sasha em voz baixa; Tatiana chorava nos seus 
braos. - A culpa no foi tua, Tati. Se ele me amasse verdadeiramente, no se teria 
afastado de mim. Em qualquer dos casos, a relao estava destinada a acabar. Era 
impossvel desde o princpio. Tinhas razo
     - acrescentou com um sorriso cheio de tristeza -, sou demasiado velha para ele. 
Preciso de um homem adulto, o que quer que seja que isso signifique.
     - O pai era um adulto - retorquiu Tatiana, mostrando-se to triste como a me. 
Sentia-se responsvel pelo que tinha acontecido.
     - Sim, era. No h muitos homens como ele. - Sasha recordou-se da conversa que 
tivera com Mareie nesse Vero a respeito dos falhados e dos imbecis que andavam por 
a. Sasha acreditava nas suas palavras. Ela prpria tinha conhecido alguns depois de ter 
enviuvado. Pelo menos, Liam havia sido sincero e honesto, alm de a ter amado, ainda 
que, por vezes, se comportasse de maneira imatura e infantil. Se mais no fosse, no 
mnimo era decente e generoso. No podia dizer o mesmo quanto aos outros homens que 
conhecera. 
     Sabia que, provavelmente, haveria algures um homem como devia ser, mas j no 
possua a energia nem a vontade necessrias para o tentar encontrar nem para confiar 
nele. Era demasiado difcil; no queria mais nenhum homem na sua vida. Sasha chorava 
a perda de dois homens - Arthur e Liam.
     Pouco depois, Tatiana despediu-se da me com um beijo, saindo com o vestido que 
lhe pedira emprestado e deixando Sasha a pensar no que se passara entre as duas 
nessa noite. Tatiana comeara, uma vez mais, a implicar com Liam, mas desta feita a 
me fizera-lhe frente. Precisamente o que Liam quisera que ela fizesse em Julho, mas 
que Sasha no conseguira nessa altura. 
     Tinha sido uma boa ideia, mas no momento errado. Ficara a dever isso a Liam e 
agora, finalmente, fizera-o, mas quando ele pretendeu que ela agisse dessa maneira teria 
sido demasiado prematuro. Infelizmente para ela e para Liam, agora era tarde de mais. 
Contudo, fosse como fosse, sentia-se satisfeita por ter feito aquilo. Tatiana precisava de 
ouvir o que a me lhe disse, e ela havia sentido necessidade de o fazer. Como se fosse 
uma ltima prenda para
     ambos, finalmente procedera a um ajuste de contas em nome dele. No que isso 
tivesse grande importncia agora, mas h muito que devia ter assumido essa posio, 
alm de lhe ter feito bem dizer o que tinha a dizer  filha, dando a saber a Tatiana quanto 
amava Liam. Era como uma ltima prenda que lhe oferecesse. 
     
                                        CAPTULO 18
     
     Na manh seguinte, a neve parou de cair; as ruas foram varridas e a noite estava de 
uma limpidez cristalina, apesar do frio glido. Sasha vestia-se para a exposio de Liam. 
Como fazia sempre, optou por um traje escuro e simples. Desta feita escolheu um vestido 
preto de cocktail muito sbrio, sem nada de folhos nem plissados. Queria que o destaque 
se centrasse nos quadros, e no em si.Mareie dissera a Liam que estivesse na galeria s 
dezassete e trinta, a fim de falar com um crtico de arte; queriam fotograf-lo junto dos 
seus trabalhos. 
     As pessoas que haviam sido convidadas deviam comear a chegar por volta das 
dezoito horas.Sasha delegou em Mareie a tarefa de se ocupar de Liam e do crtico de arte 
e quando saiu do seu gabinete, pontualmente  hora marcada para a inaugurao, o 
crtico e o fotgrafo j tinham partido. Liam estava na galeria, denotando bastante 
nervosismo; vestia um fato preto e camisa branca, com uma gravata de um vermelho-
prpura, e calava sapatos pretos com atacadores sbrios; penteara o cabelo todo para 
trs, prendendo-o num rabo-de-cavalo. Sasha esboou um sorriso quando viu que ele 
usava meias pretas. 
     Liam estava impecavelmente trajado e penteado e, embora contra sua vontade, 
Sasha sentiu que o seu corao batia com mais fora. Porm, o seu semblante no traa 
os sentimentos que ele despertava nela. Era a imagem da negociante de arte fria e 
profissional, pronta a orient-lo na sua primeira exposio importante.
     - Ests uma maravilha, Liam - disse Sasha cortesmente, e os olhos dele prenderam-
se na figura dela, muito elegante no seu vestido de seda preta.
     - Tambm tu - retorquiu, retribuindo o cumprimento. Entretanto passou um 
empregado que lhe ofereceu uma taa de champanhe, que ele aceitou, olhando um tanto 
constrangido para ela. - No te preocupes, prometo comportar-me como deve ser.
     - Nem sequer me passou pela cabea que te portasses de outra forma - retorquiu 
ela, sorrindo-lhe com uma expresso reservada.
     - Espero que esta noite no haja passeios de carroa...
     - continuou ele, numa aluso ao churrasco em que ficara perdido de bbedo, tendo-
se comportado de maneira to censurvel.
     - No - disse ela com um brilhozinho nos olhos. Pensei que depois da exposio 
poderamos dar um passeio de tren.
     Liam abanou a cabea; pouco conseguia lembrar-se desse feriado do Quatro de 
Julho.Sasha sorriu e no disse mais nada sobre o assunto, optando por lhe fazer um 
brinde.
     - Ao sucesso da tua primeira exposio na Galeria Suvery.
     - Obrigado, Sasha.  minha negociante de arte! - brindou ele, quando os primeiros 
convidados j comeavam a chegar. Depois disso, instalou-se uma espcie de caos 
organizado. Havia centenas de pessoas que andavam de um lado para o outro pela 
galeria para ver os quadros dele, conversando, trocando banalidades, rindo-se, cruzando-
se com conhecidos e cumprimentando-se. 
     Fizeram-se apresentaes e perguntas, viram-se listas de preos e ouviram-se 
crticas de um misto de curiosos e de entendidos que admiravam o talento do pintor. 
Sasha no voltou a ter oportunidade de falar com Liam durante toda a noite. Instrura 
Mareie para que se mantivesse a postos, a fim de o apresentar aos convidados, de o 
manter satisfeito e de se certificar de que ele se comportava como devia ser, no fosse o 
diabo tec-las.
     Mas no houve qualquer problema, nada de situaes infelizes nem to-pouco 
surpresas desagradveis. A nica surpresa, mas no para Sasha, e esta bastante 
agradvel, foi o facto de terem vendido todos os quadros, com excepo de dois. Liam 
no conseguia acreditar, e ficou a olhar fixamente
     para Sasha quando ela lhe deu a notcia; foi por pouco que no desatou a chorar.
     -  deveras impressionante, Liam.  raro que isto acontea, excepto no caso de 
pintores muito, mas mesmo muito, famosos, o que significa que compreenderam e 
apreciaram o teu trabalho. Tens razo para estares orgulhoso de ti prprio.
     - E logo de seguida acrescentou: - Eu estou muito orgulhosa de ti!
     Sem dizer nada, Liam abraou-a, mas depois ficou com uma expresso de 
embarao; sentia-se avassalado.
     - Portanto, agora no s s um artista reconhecidamente talentoso, como tambm 
no tardar que sejas rico. Conta com isso dentro de muito pouco tempo. - Sasha j tinha 
decidido que aumentaria o preo dos quadros dele depois da exposio. - Acho que 
devemos agora organizar uma exposio em Paris com os teus trabalhos. O mercado no 
 to animado como aqui, mas depois de se ter triunfado em Nova Iorque, regra geral, as 
coisas tambm correm muito bem por l. Vamos ter de falar sobre isso antes de voltares 
para Londres.Liam ainda no conseguia acreditar, parecendo que continuava em estado 
de choque quando j iam a caminho do La Goulue. 
     Sasha mandou-o seguir  frente com Mareie e Karen, enquanto reunia as outras 
pessoas. Algumas das que convidara para jantar eram amigos dele, e as outras eram 
clientes que queria apresentar-lhe e que nessa noite haviam comprado quadros seus. 
Reservara mesa para vinte pessoas; ela e Liam sentar-se-iam  cabeceira, cada um do 
seu lado. Rodeara-o dos amigos. 
     Sasha sentia alguma estranheza por estar ali com ele, mas agora tinha de se 
incumbir das suas responsabilidades, o que devia fazer da melhor forma possvel, 
independentemente do que pudesse sentir por ele. Vrias das pessoas do seu crculo que 
lhe pedira que convidasse eram mulheres; j fora apresentada  maior parte delas e, pelo 
menos que se apercebesse, a relao que mantinham era apenas de amizade. No fazia 
a mais pequena ideia quanto  pessoa com quem andaria actualmente, nem to-pouco 
queria saber.
     As nicas pessoas da idade de Sasha que se encontravam  mesa eram clientes; os 
demais convidados eram consideravelmente mais novos do que Liam. Havia coisas que 
nunca mudavam. E agora j no existia razo alguma para que viessem a mudar. Ele 
regressara ao mundo com o qual estava familiarizado. 
     Deixara de precisar de fazer ajustamentos por causa dela, tal como no era 
obrigado a comportar-se devidamente. Mas nessa noite mostrou-se muito circunspecto, 
no s por opo pessoal, mas tambm por deferncia para com ela. Era uma noite 
importante para Liam, em que alcanara um sucesso enorme.
     No decorrer do jantar, Sasha declarou que tinha algo a anunciar: um dos clientes 
que se sentava perto da cabeceira da mesa onde ela estava acabara de decidir comprar 
os dois ltimos quadros que restavam. Na noite da inaugurao da exposio haviam 
vendido todas as pinturas de Liam! Pondo-se de p no seu extremo da mesa, depois de 
ter partilhado com os outros a notcia, Sasha voltou a fazer um brinde a Liam. Desta vez, 
ele deixou-se ficar sentado onde estava a olhar para ela.
     Em seguida fez-lhe um brinde, assim como ao cliente, numa voz pouco clara, devido 
 emoo, afirmando que no sabia o que dizer, a no ser agradecer a toda a gente, 
especialmente a Sasha, a Karen, a Mareie e aos clientes que haviam adquirido os seus 
quadros. Mostrava-se francamente aturdido, o que comoveu Sasha.
     Da sua cabeceira da mesa, ela sorriu-lhe numa ou duas ocasies, mas a expresso 
dos seus olhos no espelhava qualquer significado mais profundo. Simplesmente, sentia-
se feliz por ele, por a exposio ter alcanado um xito to grande. Ao fim e ao cabo, 
esse havia sido o objectivo, desde o princpio, da aliana entre os dois. O resto no fora 
mais do que um bnus suplementar, e no o motivo que a levara a assinar um contrato 
com Liam. Ambos haviam conseguido alcanar o que ela sempre quisera para ele: 
sucesso.
     O jantar prolongou-se para l da meia-noite e, como fazia sempre, Sasha ficou at o 
ltimo convidado partir. 
     Pagou a conta, agradeceu  gerncia do restaurante e saiu acompanhada de Liam 
para o frio glido da noite de Dezembro, que estava de uma limpidez cristalina. Fazia 
tanto frio que quando respirava parecia sentir picadas nos pulmes.
     - No tenho palavras para te agradecer - disse Liam com uma expresso de xtase. 
Os vinhos que Sasha seleccionara para o jantar tinham sido excelentes, mas era evidente 
que ele no bebera mais do que a conta. Portara-se exemplarmente durante toda a noite, 
sob todos os aspectos, e, de certa forma, dava a impresso de ter amadurecido.
     - No tens nada que me agradecer - retorquiu Sasha com simplicidade -,  este o 
meu trabalho: introduzir artistas em princpio de carreira mas com talento no mundo das 
artes plsticas. - E nessa noite, sem dvida alguma, Liam havia marcado presena. - 
Alm do mais, metade dos lucros so meus. Eu  que devia estar-te agradecida.
     - Obrigado por teres acreditado em mim, tendo-me dado uma oportunidade. Mal 
posso esperar para dizer aos meus filhos... - retorquiu Liam, sorrindo e voltando a olhar 
para Sasha. Com as suas botas de Inverno sem salto, ao lado dele, ela parecia ainda 
mais baixa. - Permites que te convide para tomar um copo num lugar qualquer? 
     - Sasha comeou por recusar, mas depois acenou que sim. Provavelmente, aquela 
seria a sua ltima oportunidade. No aconteceria nada de mais. Haviam deixado tudo 
para trs.
     Decidiram ir ao bar do Carlyle. Durante o trajecto, no txi, falaram sobre a exposio. 
Liam queria inteirar-se de todos os pormenores, de tudo o que as pessoas haviam dito. 
Sasha p-lo a par de tudo o que era do seu conhecimento, das observaes e elogios que 
as pessoas haviam feito. Ele parecia beber as suas palavras.
     J no Carlyle, Liam mandou vir um conhaque e Sasha um ch. Bebera vinho que 
chegasse durante o jantar e a ltima coisa que desejava era beber de mais na companhia 
dele. No queria perder o domnio das emoes. Com o tempo seria mais fcil, mas 
aquela era a primeira vez que saam depois da relao trrida entre os dois. Teria de 
encontrar uma nova maneira de o encarar e tratar com ele. Para Sasha, a relao 
estritamente profissional entre eles era algo muito estranho.
     Falaram durante algum tempo sobre trivialidades, sem focar nada em especial, mas 
de sbito deu consigo a contar-lhe a conversa que tivera com Tatiana na noite anterior. 
No tivera inteno de lhe falar sobre o assunto, mas, contra sua vontade e sem se 
conseguir conter, foi o que aconteceu.
     - No sei o que me levou a contar-te isto - disse Sasha, obviamente constrangida. - 
Talvez quisesse que soubesses que, ao fim e ao cabo, acabei por te defender. Tarde de 
mais para ns, mas no tarde de mais para ti. O mais estpido de toda esta situao  a 
Tatiana ter cedido assim que me mostrei firme com ela. - Sasha olhou para Liam com 
uma expresso contrita. 
     - Aconteceu apenas que em Julho eu ainda no estava preparada para assumir esta 
posio. Talvez devesse ter agido logo assim. Sei que era o que tu precisavas que eu 
fizesse. Mas, do mal o menos, fi-lo agora. Sasha no lhe dizia aquilo para o impressionar, 
s queria que Liam soubesse que, por fim, defendera a honra dele, assim como a sua.
     - Sasha, est tudo bem - assegurou Liam gentilmente.
     - Eu compreendo. Estavas numa situao muito difcil. Ambos estvamos.  
engraado como essas coisas por vezes acontecem. Tudo colide ao mesmo tempo, o 
passado, o presente e o futuro. Novas pessoas, pessoas de antigamente e fantasmas 
vindos do passado. Por vezes, fico confuso entre a minha famlia e as outras pessoas.  
uma situao que mexe muito comigo. Ela  apenas uma garota, mas  tua filha. Eu devia 
ter compreendido isso. Agora compreendo, mas precisei de muito tempo. Demasiado 
tempo, na verdade... rematou, com tristeza.
     - Obrigada por mostrares compreenso para com este assunto - redarguiu Sasha, 
sorrindo-lhe. - Sei que foi terrvel para ti. Para mim tambm foi muito difcil, mas tens 
razo, ela  minha filha. E a verdade  que, tanto quanto me diz respeito, ela  uma 
mulher adulta, mas no se comportou como tal. Talvez todos ns, por vezes, nos 
comportemos como crianas.
     - O que para mim  ponto de honra - retorquiu ele com uma careta de pesar, 
fazendo com que ambos se rissem.
     - De facto, tenho orgulho nisso. Para mim, agir de modo imaturo  o meu percurso 
de vida. O que  que te leva a dizer isso? - perguntou Sasha com uma expresso 
divertida. Havia ocasies em que ele era bastante engraado. Ao olhar para Liam, uma 
vez mais, deu-se conta de quanto sentira a sua falta durante os ltimos quatro meses, e 
sabia que seria sempre assim.
     - A idade, presumo eu. Estou quase a fazer quarenta e um anos. - Ao ouvi-lo dizer 
isto, Sasha gemeu.
     - Por favor, no me venhas com histrias de fazer chorar as pedras da calada... Em 
Maio vou fazer cinquenta anos. Merda!, como  que eu fiquei to velha? - E to 
estpida, apeteceu-lhe acrescentar. Subitamente, lamentou no ter feito frente a Tatiana 
em Julho, mas, para ela, essa no teria sido a altura mais apropriada. Tu no s velha, 
Sasha. Continuas a ser jovem e lindssima. No consigo perceber por que razo toda a 
gente se preocupa tanto com a idade. 
     Eu tambm. Continuo a querer fingir que sou um garoto, quando no sou. Estou a 
crescer, por muito que deteste ter de o admitir. No sei por que motivo acreditamos que a 
juventude  maravilhosa. Se me recordo correctamente, a minha foi uma porcaria. Tal 
como a minha capacidade de discernimento nessa altura. As coisas so muito melhores 
agora.
     - Quem me dera poder dizer a mesma coisa!... - redarguiu Sasha, recostando-se 
toda para trs no assento estofado ao longo da parede e olhando para ele. Era estranho. 
Tinham passado de amantes a negociante de arte e pintor e talvez agora, por fim, 
acabassem por ser amigos. Sasha conseguia falar mais facilmente com ele do que com 
qualquer outra pessoa, com excepo, talvez, de Xavier. Mas este era seu filho.
      Havia coisas que era capaz de admitir perante Liam que nunca admitiria face ao 
filho. - H ocasies em que penso que quanto mais velha sou menos sei.
     - Tu sabes muita coisa. s a pessoa mais inteligente que conheo, sob muitos 
aspectos. Alm de seres a melhor negociante de arte do mundo...
     - Formamos uma boa parceria - retorquiu Sasha, mas logo se conteve, 
apercebendo-se do que acabara de dizer e sentindo-se subitamente embaraada. No 
queria que ele pensasse que estava a tentar reatar alguma coisa. No estava. Fazia um 
esforo deliberado para no dar essa impresso, o que no lhe era nada fcil. - Estou a 
referir-me  nossa associao profissional. 
     No nos samos muito mal como parceria em outras coisas, a maior parte das vezes. 
Acontece apenas que, numa ou outra ocasio, perdemos o controlo da situao. - O que 
no correspondia  realidade dos factos, do ponto de vista de Sasha. Durante os onze 
meses de durao da relao entre ambos haviam estado separados duas vezes, num 
total de seis meses, o que significava que no tinham conseguido entender-se durante a 
maior parte do tempo.
     - Ests a ser generoso de mais... - disse ela, acabando de beber o seu ch. Havia 
duas horas que cavaqueavam no bar do Carlyle. Estava na hora de ir para casa. No 
podiam prolongar a conversa por mais tempo, at porque o bar estava a fechar.O porteiro 
chamou-lhes um txi e Liam deixou-a em casa. Sasha teria adorado convid-lo para 
entrar, mas sabia que no o devia fazer; s serviria para o desejar ainda mais. Essa 
experincia de uma vida em comum estava acabada, e desta feita de vez, do que ambos 
estavam bem cientes. 
     No havia forma de fugir  realidade. No fora a questo da diferena de idade que 
condenara a relao, mas sim a vida, assim como os valores morais de cada um e a 
forma de comportamento, com a participao de Tatiana. Fora o destino. No estava 
escrito que resultasse, por muito que se sentissem atrados, sendo evidente que essa 
atraco perdurava.
     Ele fitou-a por momentos antes de ela sair do txi.
     - Obrigado pela exposio fantstica que organizaste agradeceu Liam, hesitando, 
mas acabando por lhe tocar na mo. - Na sexta-feira parto para Vermont. - No sabia 
durante quanto tempo ela ficaria em Nova Iorque. - Posso convidar-te para jantar amanh, 
Sasha? Para te agradecer por esta noite e pelos velhos tempos? - Ela nem sequer sabia 
se ele tinha alguma namorada. Acreditava verdadeiramente que Liam queria convid-la 
para jantar como amiga. No sei se ser boa ideia. Quando fazemos isso, acabamos 
sempre por arranjar problemas - disse ela, falando-lhe com sinceridade e fazendo-o rir.
     - Podes confiar em mim. Prometo portar-me como deve ser.
     -  em mim que eu no confio - retorquiu ela, usando da maior franqueza com ele, o 
que era seu apangio e sempre fora desde o primeiro momento.
     - A est uma ideia deveras atractiva. Pintor em princpio de carreira arrebatado por 
negociante de arte processa-a judicialmente por assdio sexual. Confio em ti, mas, se te 
atirares a mim, no hesitarei em te violar. E que tal se experimentssemos? - Liam 
conseguiu retirar toda a carga de tenso ao convite e ela concordou com um aceno de 
cabea. Adorava estar com ele, conversar com ele...
     - Prometo tentar controlar-me - replicou com um sorriso endiabrado. Liam estava 
morto por lhe dar um beijo de boas-noites, mas resistiu. No queria estragar as coisas 
entre os dois, alm de no lhe ser difcil ver que ela estava receosa. Tal como ele prprio.
     - Vou buscar-te  galeria s seis da tarde. Quero aproveitar para entrar e admirar os 
meus quadros, principalmente agora, que foram todos vendidos. - Sasha riu-se, saiu do 
taxi e despediu-se, acenando com a mo e dirigindo-se para a entrada do prdio. Ele 
tambm lhe acenou, aps o que o txi arrancou.
     Sasha abriu a porta do apartamento vazio, recordando as ocasies em que ele 
estivera ali consigo.
      Tinha a sensao de que em casa, agora, s havia fantasmas. Arthur... Liam... At 
mesmo os filhos j tinham sado de casa. A realidade da sua existncia era o facto de 
estar sozinha, provavelmente para
     sempre. A nica coisa que no podia permitir-se, disse para si prpria enquanto 
despia o casaco, era apaixonar-se irremediavelmente por Liam outra vez, por muito 
encantador que ele fosse. J haviam provado em duas ocasies que a relao entre eles 
era impossvel. No havia necessidade de repetirem a experincia. 
     
                                          CAPTULO 19
     
     Liam foi busc-la  galeria pontualmente s dezoito horas, tal como prometera. 
Antes de sarem lanou um ltimo olhar aos seus quadros. Tinha uma sensao estranha 
por saber que nunca mais voltaria a v-los. Era como se tivesse de ceder os seus filhos 
para adopo. Por assim dizer, dera-os  luz, e agora era forado a separar-se deles. 
Continuou a sentir uma certa nostalgia quando j iam no txi a caminho da Baixa. 
Reservara mesa para os dois no Da Silvano, um restaurante a que haviam ido com 
bastante frequncia em Julho. 
     Era um restaurante italiano muito popular na Baixa, onde os empregados de mesa 
cantavam enquanto serviam a comida, que era muito boa.
     Falaram sobre arte, como de costume, e de pessoas que ambos conheciam, dos 
amigos dele que ela conhecera, dos filhos. Liam disse que Tom ia muito bem na 
faculdade e que os outros tambm estavam ptimos. Casualmente, falou de Beth, e 
admitiu que era uma sensao estranha saber que ela estava prestes a voltar a casar. 
Por altura do Natal, o divrcio estaria concludo. Ela ainda no lhe perdoara a infidelidade 
com Becky, e Liam sabia que jamais lhe desculparia esse deslize.
     - Pensei que, no mnimo, poderamos ficar amigos, mas, aparentemente, nem 
sequer isso  possvel. Pelo menos, tu e eu parece que conseguimos encontrar uma 
maneira de ficarmos amigos, o que j  alguma coisa. - Todavia, ambos estavam cientes 
de que existiria sempre algo mais, embora no o deixassem transparecer, entre os dois. A 
atraco que sentiam um pelo outro era forte de mais. 
     Sasha no conseguia evitar sentir-se preocupada com isso nessa noite, sentados  
mesa em frente um do outro, a comer um prato de massa acompanhado de um vinho tinto 
corrente.
     Depois falaram da viagem que haviam feito a Itlia, a qual fora verdadeiramente 
mgica para os dois. E ento, por casualidade, ele olhou para o pulso dela, vendo o 
bracelete que lhe comprara. Ela continuava a us-lo. Mesmo depois deterem acabado 
tudo, nunca o tirara. Sasha ficou constrangida quando viu que ele reparara nisso.
     -  uma idiotice da minha parte. Sou muito sentimental no que toca a pequenas 
coisas como esta.Tambm eu - retorquiu ele, sem fazer qualquer outro comentrio em 
relao ao assunto.
     - O que  que ests a pensar fazer no Natal?
     - Ainda no sei. Depois de visitar os meus filhos, tenciono voltar para Londres. Devo 
passar apenas um fim-de-semana em Vermont. Vamos ficar num motel, uma vez que o 
chal perto do lago no tem condies para l estar no Inverno, visto que no possui 
isolamento nem aquecimento. - Sasha acenou com a cabea, pensando nos filhos dele. 
No os conhecia, mas gostava de ter tido essa oportunidade.
      Era possvel que um dia viesse a conhec-los. Talvez ele os levasse  galeria para 
verem uma das suas exposies. Haveria de decorrer um ano at  prxima, talvez 
mesmo dois. Sasha tencionava organizar a prxima exposio dos trabalhos dele em 
Paris e, depois, outra vez em Nova Iorque, no ano seguinte. Como negociante dos 
quadros dele, tinha planos grandiosos; como mulher, no tinha nenhum. 
     Depois de tudo por que ambos haviam passado, tinha os olhos mais abertos. - E 
quanto a ti? Tencionas passar o Natal em Paris?
     - Ainda no tenho a certeza. Este ano a Tatiana vai para fora com uns amigos e o 
Xavier tem uma nova namorada com quem quer estar. Acho que vou continuar aqui 
durante mais algumas semanas, mas  provvel que volte a Paris por ocasio do Natal. 
Estava a pensar em dizer ao Xavier que podia levar a namorada. O tempo no pra... - 
Sasha sorriu, tentando mostrar coragem, mas continuava a sentir um aperto no corao 
sempre que pensava no Natal, em especial sem Arthur, e agora sem ele.
     Conseguiram chegar ao fim do jantar sem magoar os sentimentos um ao outro, tal 
como no trouxeram  baila recordaes penosas. Evitaram-nas com todo o cuidado, 
como se pisassem um campo minado, o que permitiu que a noite tivesse corrido bastante 
bem. Liam ofereceu-se para a acompanhar
     de txi, mas ela disse-lhe que era escusado, uma vez que ele teria de voltar para a 
Tribeca, na Baixa, a pouca distncia do restaurante, enquanto ela teria de fazer todo o 
percurso at  parte alta da cidade, a rea residencial em que vivia.No me importo - 
insistiu ele. Porm, o que quer que decidissem, era mau para ela. Se ele adoptasse uma 
atitude apenas amigvel, sentir-se-ia rejeitada, mas se voltasse a mostrar interesse nela 
como mulher, Sasha sabia que ambos viriam a arrepender-se. Estava na altura de deixar 
que o assunto ficasse por ali.
     Deu-lhe um abrao e um beijo na face, agradecendo-lhe o convite para jantar, e 
entrou no txi sozinha. No entanto, sentiu que estava a portar-se de maneira idiota, e 
chorou durante todo o caminho at casa. Tentou reagir, recordando a si prpria que, por 
muito sedutoras que algumas coisas pudessem parecer, no estavam destinadas a 
acontecer. E aquele era um desses casos. Tivera a sorte de ele lhe ter pertencido por 
algum tempo. Durante um curto perodo, haviam sido uma bno na vida um do outro. 
Na verdade, tendo em conta as zangas, haviam passado somente cinco meses juntos, o 
que no era nada no decurso de uma vida e no se podia comparar de forma alguma com 
os vinte e cinco anos que estivera casada com Arthur. 
     O caso amoroso de Sasha com Liam havia sido breve e doce, excitante e 
apaixonante, cheio de raios e coriscos. Tinha conscincia de que, com vista a uma 
relao duradoura, as pessoas precisavam de algo mais simples, fcil, tranquilo e slido. 
No existia nada de fcil nem de tranquilo com respeito a Liam. E talvez mesmo com 
respeito a si prpria.Quando chegou a casa ligou as luzes, vestiu a camisa de noite, lavou 
os dentes e foi para a cama. Tinha acabado de desligar a luz quando ouviu o som 
abafado do intercomunicador. Era o porteiro. No fazia a mnima ideia por que razo ele 
queria falar consigo, mas saiu da cama para lhe responder. O homem informou-a de que 
tinha uma visita.
     - No, no tenho. No estou  espera de ningum disse ela com uma expresso 
alheada. - Quem ? - O homem entregou o telefone  pessoa que queria falar com ela.
     - Sou eu - disse ele, parecendo pouco  vontade. Posso subir? - Era Liam.
     - No! - replicou ela de imediato, quase a gritar. No podes subir. J estou deitada. 
O que  que vieste fazer aqui? - Era uma coisa estpida da parte dele e Sasha sentia-se 
furiosa com tal atitude. No queria ser tentada... embora, verdade fosse dita, a tentao 
lhe agradasse muito. Mas no permitiria que ele lhe fizesse uma coisa dessas. No outra 
vez.
     - Quero falar contigo - retrucou ele em voz baixa, consciente de que o porteiro ouvia 
tudo o que dizia. Era uma situao em que nunca se tinha visto.
     - Mas eu no quero falar contigo. Telefona-me amanh de manh.
     - Subo j - retorquiu ele, sorrindo ao porteiro e desligando o telefone. Sem qualquer 
hesitao, dirigiu-se para o elevador, sendo bvio que conhecia o caminho. O porteiro no 
o deteve e Liam fez-lhe um aceno de agradecimento. Dois minutos depois, tocou  
campainha da porta dela. Sasha ouviu a campainha, mas no abriu. 
     Tambm no tinha coragem de chamar o porteiro para que o expulsasse dali para 
fora, o que podia ter feito e lhe disse atravs da porta fechada.
     - Vai-te embora!
     - No tenciono sair daqui - respondeu ele calmamente.
     - No te abro a porta!
     - Esplndido. Podemos falar assim. Tenho a certeza de que os teus vizinhos ficaro 
fascinados com a nossa conversa
     - replicou com toda a tranquilidade, enquanto ela se encostava  porta, cruzando os 
braos e cerrando os olhos.
     - No faas isto, Liam. No temos nada a dizer um ao outro.
     - Fala por ti. Eu tenho muito a dizer. - E, imperturbvel, comeou a cantar. Sasha 
sabia que os vizinhos ficariam furiosos e que se queixariam. No tinha alternativa. Abriu a 
porta e olhou-o com uma expresso que no augurava nada de bom.
     - Se me tocares, podes crer que chamo a Polcia e acuso-te de violao!
     - Perfeito. Isso s servir para reforar a minha reputao. E se tu me tocares, eu 
digo-lhes que abusaste de mim sexualmente. No te preocupes. No tenho ms 
intenes. Liam passou por ela com um tal -vontade que at parecia ser habitual que 
ficasse ali regularmente. Sasha, que continuava de camisa de noite, seguiu-o. Liam 
entrou na cozinha e foi direito ao congelador.
     - Perfeito. Rocky Road. - Mostrou-se deliciado; tirando a caixa do congelador, foi 
buscar uma tigela e serviu-se de uma poro enorme de sorvete, depois de o oferecer a 
Sasha. Ela respondeu com um abanar de cabea, dando a impresso de estar prestes a 
bater-lhe. O que teria feito, caso tivesse coragem para isso. Ele era a imagem da 
despreocupao quando se sentou  mesa da cozinha. J tinha atirado o casaco para 
cima de uma cadeira no vestbulo. Continuava a usar a camisola de l grossa e as calas 
pretas que tinha ao jantar. E meias. L fora fazia frio. At mesmo ele calava pegas no 
Inverno. Mas continuava a ser o Liam de sempre, irreprimvel e indomvel. O pintor louco 
preferido de Sasha.
     - No comas isso, j deve estar queimado pelo gelo. Tem estado no congelador 
desde que te foste embora. No me importo - retorquiu Liam, continuando a comer o 
sorvete e olhando para ela.
     - Ento, afinal, o que  que tens a dizer? - perguntou Sasha, que mantinha uma 
expresso furiosa, o que o fez sorrir.
     - Queria dizer que te amo. Pensei que devias saber.
     - Eu tambm te amo, mas isso no faz diferena nenhuma. Ns estvamos a dar em 
doidos... Magoei os teus sentimentos. Tu partiste o meu corao. Deixaste-me.  
impossvel, sabemos bem que sim. No precisamos de voltar a provar essa 
impossibilidade. Fizemo-lo por duas vezes. Para mim,  mais do que suficiente. - Tinham 
decorrido quatro meses e ela ainda no se esquecera dele. 
     Se Liam a voltasse a deixar, precisaria ainda de mais tempo para o esquecer. 
Chegara-lhe perd-lo duas vezes; no estava disposta a tentar de novo, por muito 
irresistvel que ele fosse. Desta feita, Sasha iria dar ouvidos  cabea e no ao corao. 
O corao j lhe causara problemas de mais, sempre que reatara a relao com ele.
     -  terceira  de vez - disse ele, acabando de comer o sorvete; passou a tigela por 
gua e meteu-a na mquina de lavar loua. - Ests a ver como estou bem domesticado? 
Porque haverias de estar a perder tempo com outra pessoa?
     - Tu apenas aparentas estar domesticado. s como aqueles ces enormes que se 
babam e abanam a cauda, que vo buscar o que lhes atiram e brincam com bolas. Mas 
no ests ensinado, o que sei muito bem.
     - Nem tu. Merecemo-nos um ao outro - retorquiu Liam, confiante.
     
     - Isso no  verdade. Sou uma pessoa extremamente civilizada, sob todos os 
aspectos - disse Sasha, endireitando-se o mais possvel para assumir uma postura 
intimidante, mas fracassou redondamente. Liam no ficou impressionado nem se sentiu 
intimidado. Estava apaixonado por ela e no receoso.
     - Sim, s uma pessoa civilizada, o que admito, mas nem por isso deixas de ser a 
mulher mais teimosa que conheo.
     - Por acaso andaste a fazer alguma sondagem? - perguntou ela, mostrando-se 
desconfiada. - O Xavier disse-me que te viu e que estavas com uma rapariga qualquer 
mais nova do que a Tati.
     - Tem havido uma srie de raparigas desde que fui suficientemente estpido para te 
deixar. Matam-me de enfado. Sasha, no sei o que me fizeste quando nos conhecemos, 
mas a verdade  que no posso viver sem ti. Quero voltar para ti. Amo-te. Prometo que 
desta vez me portarei bem.
     - Da ltima vez portaste-te bem - retorquiu ela, olhando-o com uma expresso de 
tristeza. - Foste fantstico e sentia-me feliz contigo. Eu tambm te amo, mas no sou 
capaz de lidar com as tuas merdas de artista louco. Sempre que espero que te comportes 
respeitavelmente, pensas logo que estou a tentar controlar-te. Ficas magoado se sentes 
que ests a ser criticado, seja em relao ao que for, imaginando que estou a votar-te ao 
ostracismo, como o teu pai fez.  bvio que no  o caso, mas no posso fazer 
constantemente o que tu queres, e, para ti, isso  como uma espcie de bomba de 
Hiroshima. Sempre que te sentes insultado, decides sair da minha vida.
     - Senti-me excludo - justificou-se Liam, como se isso fizesse a diferena. Mas o 
resultado final no deixava de ser ele ter acabado tudo, batendo com a porta. Entretanto, 
haviam passado quatro meses. Era tarde de mais para ela ou, pelo menos, era o que 
Sasha desejava que ele acreditasse.
     - Sei que te sentiste posto  margem, e tenho tido uma vida de merda sem ti. Mas 
no queria perder a minha filha para sempre por ter tomado o teu partido. Era cedo de 
mais.Agora compreendo isso. Levei algum tempo a perceber, mas agora entendo bem. - 
Liam continuava sentado  mesa da cozinha, como se estivesse  espera de assinar um 
contrato com ela.
     - O que  que pretendes de mim, Liam? - perguntou Sasha, mostrando-se assustada 
e frustrada. - Tu ds comigo em doida!
     - Ns somos doidos, tanto tu como eu! Loucamente apaixonados! Talvez seja uma 
doena, no sei. Se calhar devamos receber tratamento para isso. A verdade  que, 
sempre que te vejo, sei que no consigo viver sem ti. E no me venhas dizer que no 
sentes a mesma coisa... Sei que sentes! s apenas mais refinada do que eu e mais 
adulta, ou qualquer coisa no gnero.
      Esta noite quis entrar no txi contigo, mas prescindiste da minha companhia, 
portanto, decidi apanhar outro txi e vir a tua casa para falar contigo. No mnimo, podias 
ter-me convidado a vir at c para tomar um copo - disse Liam, dando a impresso de 
estar ofendido. Mas no estava. Falava na brincadeira, o que Sasha sabia perfeitamente. 
Ofereci-me para te trazer a casa e estava a falar a srio.
     - Para qu? Para fazermos algum disparate? E o que  que acontece a seguir? 
Passamos um, dois ou mesmo trs meses maravilhosos e depois deixas-me outra vez 
assim que eu voltar a ferir os teus sentimentos. Liam, no quero repetir essa experincia.
     - Pois bem, no tenciono sair daqui at concordares em voltar para mim. Quero 
passar o Natal contigo. Verdade seja dita, quero passar o resto da minha vida contigo. 
Preciso de ti. s a nica mulher que me compreende e que se preocupa comigo, a nica 
que cuida de mim.
     - Mas acontece que eu no quero ser tua me, Liam - redarguiu Sasha, irredutvel -, 
independentemente da minha idade.
     - Todos os homens desejam uma mulher maternal.  a natureza da besta. - Tinha 
havido outra pessoa que j dissera aquilo a Sasha, mas no se recordava de quem fora. 
Tentou lembrar-se, mas isso no importava. O que Liam estava a dizer era um disparate, 
por muito bonito, sedutor e sensual que ele fosse. - Gosto que sejas mais velha. Tens 
muito mais sensatez e discernimento do que eu.
     - Isso porque tu te recusas a crescer - ripostou Sasha.
     - Mas tu podes crescer pelos dois. Dou-te autorizao para isso. - Liam parecia 
acreditar que acabara de resolver o problema, mas no, pelo menos no que dizia respeito 
a Sasha.
     - Tu tambm tens de crescer.
     - Odeio essa parte! - retorquiu ele, dando estalos com os dedos. - No posso 
continuar a ser um pintor louco at fazer oitenta anos? Nessa altura s ters de dizer s 
pessoas que estou a ficar senil.
     - Podes ser um artista louco agora, mas no em todas as situaes. - No que ele 
se tivesse comportado sempre assim, apenas selectivamente, como na ocasio em que 
foram ao churrasco, onde se portou de maneira ultrajante, e no apenas louca. Ningum 
conseguiria esquecer essa noite, e ela mais do que qualquer outra pessoa. - No 
interessa aquilo em que possamos estar de acordo, Liam. Esta situao nunca resultaria. 
Pura e simplesmente, no nos levaria a nada. No resultou antes e no resultar agora.  
impossvel!
     - S ests a dizer merdas, Sasha!  possvel. S que tu no queres que o seja!
     - E por que razo eu haveria de no querer que fosse possvel? Por que motivo no 
haveria de querer estar contigo se te amasse, o que  o caso? Nunca deixei de te amar. 
Foste tu que me deixaste, no fui eu quem acabou com tudo. Tu  que tornaste a situao 
impossvel, o que provaste. Conseguiste convencer-me. Nessa altura, j eu tinha 
comeado a acreditar que era possvel, mas foi ento que ficaste destrambelhado por 
causa da Tati, embora seja forada a admitir que ela se portou de uma maneira 
deplorvel.
     - Ela portou-se mal e eu fui estpido. No sei, Sasha. O que  que posso dizer-te? 
Alm da Beth, tu s a nica mulher que amei em toda a minha vida. Talvez eu seja lento a 
aprender, dislxico, ou qualquer coisa assim. Tudo o que quero dizer  que agora 
compreendo.
     - Agora  tarde de mais - retorquiu Sasha, com ar triste. No queria que as coisas 
fossem assim, mas eram. Para ambos. No poderiam repetir aquilo que haviam 
partilhado, por muito tentador que fosse.
     - No  tarde de mais... - insistiu ele.
     - , sim - contraps Sasha, mostrando-se to teimosa como ele. Desta feita, mais 
ainda.
     - Vou embebedar-me daqui a pouco se no parares de discutir comigo. No me 
deixas alternativa...
     - Queres tomar uma bebida? - perguntou Sasha, que por instantes pensou que ele 
falava a srio. No, quero-te a ti. - Liam baixou-se, dobrando um joelho no cho da 
cozinha. Nunca tinham feito amor na cozinha e Sasha riu-se dele.
     - Ests a fazer uma figura ridcula, pra com isso... Por amor de Deus, pe-te de 
p!No ponho at concordares em tentar de novo. Que diabo, Sasha, o que  que temos 
a perder?
     - A nossa sanidade mental. Pelo menos, a minha. Foi por pouco que isso no 
aconteceu da ltima vez.
     - No volto a fazer o mesmo. Prometo que no.
     - Fars qualquer outra coisa ainda pior. Sei que  isso que ir acontecer.
     - E o que  que isso tem de mais? Discutimos durante algum tempo, mas depois 
resolvemos a situao.  um processo de aprendizagem. Eu sou lento a aprender, mas, 
meu Deus, mulher, eu amo-te!
     - Tu s impossvel!...
     - Talvez seja, mas isso no se aplica a esta relao. - Dizendo isto, Liam aproximou-
se dela, fazendo o que desejara durante toda a noite e na noite anterior, mas a que no 
se atrevera. Beijou-a, envolvendo-a nos seus braos. No parou de a beijar at que 
ambos ficaram sem respirao. - Amo-te
     - disse ele numa voz enrouquecida.
     - Eu tambm te amo - sussurrou ela. - Por favor, Liam... no me faas isto. - Sasha 
estava absolutamente incapaz de lhe resistir, do que tinha plena conscincia. Desejava-o 
demasiado.
     - Sasha, d-nos uma oportunidade... - retorquiu ele, no mesmo timbre de voz 
murmurado. Ela olhou para ele intensa e demoradamente e depois, como se houvesse 
outrem a decidir por si, sem qualquer domnio sobre as suas emoes, acenou que sim e 
fechou os olhos.
     Com um s gesto, ele tomou-a nos braos e levou-a para o quarto, deitando-a na 
cama que ambos haviam partilhado nesse Vero. Sasha deixou-se ficar deitada, 
observando-o a despir-se, interrogando-se quanto  irresponsabilidade do que estavam a 
fazer, embora completamente incapaz de lhe resistir.
     - Parece-me que estou possessa - disse ela, olhando para ele, que nesse momento 
descalava os sapatos e a seguir despiu as calas. - Estou a precisar de um exorcista. E 
eu estou a precisar de ti - retorquiu ele, deixando cair as calas no cho e depois a 
camisa. Sasha quase desfaleceu ao v-lo despir-se, aps o que ele apagou a luz. - Tudo 
de que preciso  de ti - acrescentou Liam, juntando-se a elana cama.
     - Amo-te, Liam...  bom que desta vez acertemos advertiu Sasha quando ele 
comeou a fazer amor com ela.
     - Acertaremos, Sasha, prometo-te.
     Fizeram amor como se estivessem viciados um no outro. O que partilhavam estava 
para l da racionalidade, de qualquer promessa, de quaisquer palavras. A nica coisa que 
sabiam, quando j estavam nos braos um do outro, era que ambos acreditavam uma vez 
mais que era possvel.
      
     
     
                                          CAPTULO 20
     
     Na manh seguinte, Sasha despertou ao lado de Liam, e a sua nica reaco, desta 
vez, foi rir-se. Diz-me que estou a sonhar. Devo ter usado uma droga qualquer... estamos 
ambos loucos, para tentarmos isto de novo.
     - Sim - retorquiu ele, voltando-se e ficando deitado de costas com um sorriso nos 
lbios -, e estou a adorar. Pensa como a vida seria enfadonha se no fosse assim.
     - Sim, e talvez at mesmo racional. S Deus sabe o que isso seria!... J me esqueci 
de como .
     - Ser bom do juzo  aborrecido - retrucou ele, sorrindo-lhe.
     - Oh, meu Deus! No me digas uma coisa dessas...
     - O que  que vamos fazer hoje?
     - Quanto a ti, no sei, Sir Pintor Louco. No que me diz respeito, necessito de 
trabalhar para ganhar a vida. Tenho filhos e artistas que preciso de sustentar.
     - Eu no. Vendi todos os meus quadros - disse ele com uma expresso de regozijo, 
virando-se para a beijar. Uma vez mais, sentiam-se felizes. A vida era maravilhosa. 
Quando vier de Vermont volto para aqui. 
     - Tinha planeado apanhar um avio em Boston para Londres, mas agora, num abrir 
e fechar de olhos, todos os seus planos se haviam alterado. - Posso fazer a viagem para 
Paris contigo, se desejares, mas pensa primeiro no assunto. No quero intrometer-me no 
teu Natal com o Xavier. Posso voltar para Londres por uns dias.
     - No - retorquiu Sasha com firmeza. - Quero que estejas l. O Xavier vai adorar. - 
Em qualquer dos casos, Tatiana no passaria o Natal com ela. Desde a morte do pai 
achava que o Natal era demasiado deprimente passado apenas com a me e o irmo, 
mas Xavier, como sempre, mostrava uma lealdade a toda a prova para com a me, pelo 
que nunca a teria deixado passar o Natal sozinha. - Liam  comeou ela a dizer com uma 
expresso de seriedade, sentando-se na cama. Parecia que queria anunciar alguma coisa 
importante.
     - Desta vez no estou disposta a perder-te. Farei o que for preciso para que isso no 
acontea. No quero voltar a estragar a nossa vida. E se decidires largar tudo, desta vez 
irei contigo. Quero que isto fique bem claro entre ns. Ou conseguimos fazer com que isto 
resulte ou vamos matar-nos um ao outro a tentar. Raios me partam se vou fracassar de 
novo!
     - Sim, minha senhora - anuiu ele, fazendo-lhe continncia e marchando para o 
chuveiro. Era to bom v-lo de novo em casa, com o seu corpo msculo, em toda a sua 
magnificncia, e o cabelo louro comprido...
     - Estou a falar a srio! - gritou Sasha quando ele abriu a torneira do chuveiro. - E 
hoje vou dizer isso mesmo  Tatiana. - Sasha dizia aquilo tanto para ele como para si 
prpria. Sabia que desta vez Tatiana no levantaria qualquer objeco, e, fosse como 
fosse, era a sua vida que estava em jogo, no a dos filhos.
     - Amo-te! - gritou-lhe ele do chuveiro em resposta ao que quer que fosse que ela lhe 
tivesse dito. Na sua perspectiva, aquilo servia para dar resposta a tudo.
     Sasha preparou toucinho fumado, ovos estrelados e pezinhos torrados com 
manteiga para o pequeno-almoo. Uma hora mais tarde, ele voltara para a cama, onde lia 
o jornal, e ela estava pronta para ir trabalhar. Liam parecia nunca ter sado daquela casa, 
e era essa tambm a sensao que Sasha tinha.
     - A mulher-a-dias vem ao meio-dia - recordou-lhe, sorrindo-lhe da porta com a pasta 
na mo.
     - Eu sei, no me esqueci. A essa hora j estarei a p. Hoje ests com uma 
aparncia de pessoa crescida - comentou Liam, divertido.
     - E sou.
     - No, no s. No me mintas, Sasha. No s mais crescida do que eu. Se fosses, 
no estarias a fazer isto. - Mas ela sentia-se satisfeita pelo que acontecera. Muito 
contente. Tal como ele. Na verdade, Liam estava em xtase. Sasha sentia-se como se 
tivesse acabado de recuperar a sua vida, mas o que ela recuperara era Liam. A realidade 
 que ela fazia com que ele crescesse e ele fazia com que ela se sentisse mais jovem. 
Algures no meio encontrava-se o reino da possibilidade, que haviam procurado durante 
um ano e que, aparentemente, tinham conseguido encontrar. 
     Mas o segredo estava em mant-lo. Ela sentia-se preparada para enfrentar esse 
desafio, tal como ele. Ambos sabiam que no seria fcil, mas valia a pena fazer um 
esforo. - Tens tempo para almoar? - Ela respondeu-lhe afirmativamente com um acenar 
de cabea. Vou buscar-te  uma hora. Primeiro tenho de tratar de uns assuntos. Quero 
fazer umas compras de Natal para os garotos. O que  que achas que eles gostariam que 
lhes oferecesse?
     - Eu nem sequer os conheo, Liam... - retorquiu ela, rindo-se da sua pergunta. Ele 
limitara-se a voltar para sua casa, e ali estava na cama dela como se fosse o rei e senhor 
de tudo.
     - Quero mudar isso dentro de muito pouco tempo. Sugiro que, na prxima vez que 
voltes a Nova Iorque, vamos juntos at Vermont.
     - Est combinado. - A partir de agora, no existiriam segredos na relao entre os 
dois. Se estavam determinados a ir em frente, sabia que teriam de levar tudo a srio e 
sem que nada fosse mantido em segredo. Sasha estava preparada para isso, tal como 
Liam. Haviam precisado de um ano para acertarem o passo, o que, bem vistas as coisas, 
no era assim to mau como poderia parecer. O facto de o ter perdido durante quatro 
meses mostrara a Sasha o quanto ele era importante na sua vida. Por seu lado, Liam 
chegara  mesma concluso. 
     Ela beijou-o antes de sair de casa e Liam saltou da cama pouco depois. Tambm 
queria comprar um presente de Natal para ela, o que tencionava fazer nessa mesma 
tarde. Desta vez no lhe ofereceria apenas um bracelete dourado, queria qualquer coisa 
melhor. Ganhara muito dinheiro nessa semana, e mal podia esperar para gastar algum 
com ela. Foi busc-la  galeria s treze horas. 
     Almoaram no Ginos e depois ele acompanhou-a a p de regresso  galeria, antes 
de ter ido tratar dos seus assuntos. Voltou  tarde e ficou a conversar com Mareie 
enquanto Sasha acabava de falar com um cliente. Antes de este sair, apresentou-o a 
Liam, dizendo que ele era o jovem pintor mais prometedor que representavam. Nessa 
altura beijou Liam na face, tendo ficado bem patente que, para si, ele era bastante mais 
do que um pintor que representava. A relao entre os dois deixara de ser segredo. Liam 
estava radiante quando saram da galeria.
     - Foi encantador, o que acabaste de fazer ali dentro.
     - O qu?! Apresentar-te a um cliente? - perguntou ela, embora soubesse muito bem 
a que  que ele se estava a referir, sentindo-se feliz por o seu gesto lhe ter agradado. 
Compreendia bem quanto significava para ele ser aceite e mesmo, por vezes, exibido. Ele 
precisava disso, e se contribua para o tornar feliz, estava mais do que disposta a faz-lo. 
Alis, f-lo-ia com todo o prazer. Queria proceder dessa maneira porque o amava e sabia 
que ele tambm a amava.
     Era espantosa, na percepo dos dois, a rapidez com que tudo voltara a ajustar-se, 
como se nunca se tivessem separado. Ele mudou-se para o apartamento dela, deixando a 
casa dos amigos na Tribeca. Sasha disse a Tatiana e ela telefonou a Xavier, que estava 
em Londres. Desta vez no arranjou confuses. 
     No via Liam com bons olhos, mas aceitava a deciso da me, estando mesmo na 
disposio de lhe dar uma oportunidade. Agora compreendia quanto a me o amava.
     Tudo voltara a entrar nos eixos, as coisas estavam melhores do que nunca. Era 
como se, de cada vez que se separavam, quando voltavam a juntar-se, a malha da rede 
que os unia se fosse apertando cada vez mais, fazendo-os ficar mais unidos. Desta vez, 
Sasha quase se sentia como se fosse casada com ele, o que Liam tambm comentou. 
Sasha perguntava-se se alguma vez viriam a casar, mas isso no lhe parecia uma 
questo muito importante. 
     Tudo o que lhe interessava era terem voltado a estar juntos. A relao entre os dois 
nunca lhe parecera ter tantas condies para ser possvel como desta vez, sentindo-se 
absolutamente certa de que tudo correria bem e que a relao se manteria. Nessa mesma 
manh, dissera precisamente isso a Mareie, que se sentia muito feliz por ela.
     Durante os dois dias seguintes almoaram e jantaram juntos, foram s compras, e 
ele deixava-se ficar pela galeria se ela estivesse ocupada; entraram numa rotina familiar 
em que faziam amor  noite e de manh e, de quando em vez, nos intervalos. Liam 
partiria para Vermont na manh seguinte, e j tinha guardado os presentes que ia 
oferecer aos filhos. 
     ambm comprara uma prenda para Sasha, que escondera numa gaveta no quarto 
de Xavier. Desta feita escolhera uma pulseira fina de diamantes, semelhante  que lhe 
tinha oferecido antes, mas esta cintilava e era muito mais prpria de gente crescida. 
     
     
     Agora possua dinheiro para essas extravagncias, o que no havia sido o caso em 
Maio. Depois da exposio dos seus quadros tudo mudara. Finalmente, estava prestes a 
receber bastante dinheiro, e sentia-se ansioso por voltar a trabalhar.
     Nessa noite, era j muito tarde quando o telemvel dele tocou; j se tinham deitado 
e s passado algum tempo  que ouviram. O aparelho estava no carregador que Liam 
deixara na casa de banho, mas o toque era to insistente que Sasha, finalmente, ouviu, 
dando-lhe uma pequena cotovelada e dizendo-lhe que era o telemvel dele.
      Liam j tinha adormecido. Ainda atordoado, dirigiu-se para a casa de banho para 
atender, perguntando-se quem  que estaria a ligar-lhe a uma hora daquelas. Era Beth. 
Alguns segundos depois, Liam j estava completamente acordado, a olhar fixamente para 
Sasha com uma expresso de pnico.
     -  muito grave? - perguntou, ficando em silncio bastante tempo, enquanto Beth lhe 
explicava o que se passara. Sasha ainda no sabia com quem  que ele estava a falar. 
Contudo, no lhe parecia que fosse coisa boa, ao ver que Liam empalidecera. Quando, 
por fim, desligou, tinha lgrimas nos olhos.
     - O que  que se passa? - indagou Sasha, preocupada. 
     Os telefonemas quela hora e com o tipo de perguntas que ele fizera nunca 
significavam boas notcias, e Sasha pressentiu imediatamente que se devia tratar de 
alguma coisa relacionada com os filhos dele.
     -  a Charlotte. Foi a Beth que me ligou. Foram ver a casa que o futuro marido est 
a construir para eles e que ainda no est acabada. A Charlotte pisou uma lona que 
estava a tapar um buraco e caiu da altura de um andar em cima de um monte de 
materiais de construo sobre um cho de cimento.
     - Oh, meu Deus!... - exclamou Sasha, mostrando-se to horrorizada quanto ele. 
Liam tremia quando pousou o telemvel; estendeu a mo a Sasha, apertando a dela com 
tanta fora que a magoou enquanto lhe contava o resto que sucedera.
     - Ela sofreu uma leso nas costas, e ainda no sabem at que ponto  grave.  
possvel que volte a andar, mas tambm pode ficar paralisada do pescoo para baixo, 
ainda no sabem. Tambm sofreu uma concusso na cabea, embora no to grave 
como a das costas. Est consciente, mas com dores atrozes. - Comeou a chorar quando 
Sasha o abraou. 
     Tinha de partir imediatamente, no podia esperar pela manh. Sasha telefonou para 
uma agncia de aluguer de carros e queria ir com ele, mas pensou que, naquelas 
circunstncias, seria difcil para Beth e para os dois rapazes terem uma pessoa estranha 
por perto. No entanto desejou profundamente poder estar l para dar o seu apoio a Liam. 
Sabia que ele precisava da sua presena.
     Menos de dez minutos depois j haviam sado de casa. Liam levava o saco de 
viagem quando apanharam um txi que os conduziria  agncia de aluguer de 
automveis para que Sasha telefonara. Passados trinta minutos Liam estava pronto para 
se fazer  estrada a caminho de Vermont.
     - Quem me dera poder ir contigo... - disse Sasha, falando com toda a sinceridade, 
mas ele concordou com o raciocnio dela. A sua presena provocaria algum mal-estar. 
Tanto ele como Beth teriam de se manter  cabeceira da cama de Charlotte na Unidade 
de Traumas, e Liam sabia que Beth ficaria perturbada caso Sasha o acompanhasse.
     - Assim que souber mais alguma coisa telefono-te - prometeu Liam, dando-lhe um 
ltimo abrao apertado de despedida. Precisava de toda a fora que ela pudesse incutir-
lhe. Era uma da manh, e tinha pela frente uma viagem de seis horas ao volante, talvez 
menos, se o tempo estivesse a seu favor, ou mais, se as condies atmosfricas fossem 
adversas. Beth dissera-lhe que nevava onde eles se encontravam.
     - Vou ficar a pensar em ti a todo o instante - disse Sasha, beijando-o pela janela do 
carro. Acenou-lhe com o brao e ele arrancou. Pouco depois, apanhou um txi que a 
levaria de regresso  parte alta da cidade. Tinha o telemvel consigo. 
     Liam telefonou-lhe antes mesmo de ter chegado ao apartamento. Estava 
extremamente emocionado, tendo chorado enquanto falava com ela.
     - Amo-te, Sasha... obrigado por me teres apoiado quando precisei de ti...
     - Estou aqui para ti, querido, para te apoiar. Estarei sempre aqui, a rezar por todos 
vs. - Pobrezinha da Charlotte. S por milagre  que a garota no tinha morrido. Sasha 
esperava, tal como Liam, que a leso no fosse to grave quanto receavam. - Guia com 
cuidado, meu amor... Se puderes, telefona-me quando chegares.
     Nessa mesma noite ele ligou-lhe vrias vezes para a informar do estado de sade 
da filha, informaes que lhe eram dadas por Beth pelo telefone. A garota encontrava-se 
em estado crtico, mas estvel. Os mdicos iam oper-la na manh seguinte, quando ele 
chegasse. Sasha sentia-se mortificada ao pensar na aflio por que estariam a passar. 
Era uma situao de pesadelo. 
     No lhe ocorria nada pior do que ter um filho gravemente doente. Liam chegou s 
nove horas e Sasha ficou  espera de ter notcias dele. Ficara a p durante toda a noite, 
partilhando da aflio dele, falando com ele de meia em meia hora. No o deixara por um 
minuto. E quando ele no lhe ligava, era ela que lhe telefonava. Dava graas por terem 
voltado a ficar juntos, o que lhe permitia, pelo menos, dar-lhe todo o seu apoio durante 
aquela prova terrvel.
     Sasha s voltou a ter notcias de Liam  hora do almoo, quando Charlotte foi para o 
Bloco Operatrio. Os cirurgies haviam dito que a operao s terminaria ao fim da tarde. 
No outro lado da linha, Liam chorava desconsoladamente ao descrever o estado em que 
a filha se encontrava. Sasha tambm estava lavada em lgrimas, na galeria,  espera de 
novidades. Os resultados da operao pareciam ser promissores. O estado da garota no 
era to srio como haviam temido inicialmente, mas nem por isso menos grave. 
     Quando tiveram oportunidade de falar sobre o assunto, Liam disse que o namorado 
de Beth estava absolutamente fora de si, inconsolvel por acreditar que a culpa do 
acidente fora sua. Charlotte encontrava-se com ele na altura, a ver o lugar que viria a ser 
o seu quarto; ele virara costas por instantes para lhe mostrar qualquer coisa, e foi ento 
que ela caiu. Liam acrescentou que Beth o culpava, mas no mais do que ele prprio se 
culpava. Pelo que ele contava, Sasha deduzia que ambos estariam a passar por uma 
situao extremamente penosa. 
     Tom, o filho mais velho de Liam, j sara da faculdade, tendo viajado de avio para 
poder estar perto da irm. Pelo menos, a famlia estava junta. Sasha sentia muita pena 
por no poder estar com eles. Ainda pensou em seguir para l de avio, alojando-se num 
hotel prximo do hospital, de modo a poder dar todo o seu apoio a Liam, mas este disse-
lhe que estavam a dormir no quarto de Charlotte e em divs no corredor, pelo que nem 
sequer teria oportunidade de estar com ela. Assim, Sasha decidiu quedar-se por Nova 
Iorque, certificando-se de que tinha o telemvel sempre  mo.
     Saiu da galeria s dezanove horas, mantendo-se sempre perto do telefone quando 
chegou ao apartamento. Nessa noite, Liam ligou-lhe vrias vezes. Pela manh, as 
notcias eram um pouco mais animadoras, depois de uma noite em que ningum havia 
pregado olho, incluindo Sasha e Liam. Este disse que, apesar de Beth se mostrar tensa, 
se portava civilizadamente para com ele, acrescentando que ela andava de cabea 
perdida. 
     Haviam sido forados a cancelar o casamento, que estava marcado para da a trs 
semanas, tendo decidido adi-lo at Janeiro, altura em que a evoluo e o estado de 
Charlotte se encontrariam mais definidos. Subitamente, a vida de todos eles ficara virado 
do avesso, o que se manteria enquanto Charlotte se encontrasse numa situao crtica, e 
ainda no se podia dizer, de maneira alguma, que a garota estava livre de perigo.
     Os dias arrastavam-se interminavelmente; no final da semana j sabiam que ela no 
ficaria quadriplgica, mas ainda no tinham a certeza quanto ao grau de mobilidade das 
pernas que conseguiria recuperar. 
     Tudo dependia do desenrolar do estado da medula espinal. Existia uma grande 
probabilidade de que voltasse a andar, mas nada era certo; se recuperasse o movimento 
das pernas, seriam necessrios meses, ou talvez mesmo anos, para que voltasse a andar 
normalmente, alm de ter pela frente vrias operaes cirrgicas. Sasha detestou fazer 
aquela pergunta, mas sentiu um grande alvio ao saber que eles possuam um bom 
seguro de sade, caso contrrio, o acidente teria sido tambm uma verdadeira catstrofe 
financeira. A convalescena levaria anos e custaria uma fortuna para que a garota 
voltasse a ficar a cem por cento. 
     Charlotte ainda passaria por tempos muito difceis, assim como Beth, que teria de 
cuidar da filha. Quando falou sobre esse assunto, Liam pareceu sentir-se culpado, mas 
algum teria de cuidar de Charlotte, e ele no podia estar ao p dela. Liam vivia em 
Londres e passaria a residir em Paris com Sasha. Andava preocupado por talvez no 
poder passar o Natal com ela, mas esse era o menor dos problemas, de momento. Ao 
ouvir o que ele dizia, Sasha decidiu que passaria a quadra natalcia em Nova Iorque.
      Se houvesse alguma possibilidade de ele poder afastar-se da filha, ainda que 
apenas por um dia, para poder passar o Natal com ela, seria muito mais fcil ir a Nova 
Iorque do que a Paris, onde Sasha inicialmente planeara pass-lo. Alm do mais, a 
gesto da galeria em Paris continuaria a fazer-se sem problemas apesar da sua ausncia, 
como sempre acontecia, graas a Bernard.
     Telefonou a Xavier, pondo-o ao corrente da situao, e ele manifestou o seu pesar 
por Liam, partilhando dos sentimentos da me. Xavier conhecia Charlotte, pois vira a 
garota em vrias ocasies antes de Beth ter sado de casa, e ficou com o corao 
despedaado ao pensar na menina paralisada, esperando sinceramente que tal no 
viesse a acontecer. Pediu  me que dissesse a Liam que desejava que tudo corresse 
pelo melhor e que iria  igreja rezar pela sua pequenita. Nessa mesma manh, Sasha 
acendera uma vela por ela, alm de ter ido  missa para orar pela garota, uma coisa que 
no fazia com muita frequncia.
     Xavier ofereceu-se para ir a Nova Iorque passar o Natal com a me, mas era 
evidente que desejava pass-lo em Londres com a nova namorada, alm de que ela j o 
tinha convidado para ir esquiar, pelo que Sasha decidiu dizer-lhe que ignorasse o que 
haviam combinado. De certeza absoluta que se divertiria muito mais em Londres. Xavier 
agradeceu  me pela sua compreenso, prometendo-lhe que passaria o prximo Natal 
com ela. Com um pouco de sorte, nessa altura Tatiana e Liam tambm estariam com 
eles, mas este ano existiam tantos motivos de preocupao que o Natal havia sido 
relegado para segundo plano.
     No decurso das duas semanas seguintes, Liam continuou a dar notcias sobre o 
estado de sade da filha; nessa altura j estavam a poucos dias do Natal. Porm, para os 
membros da famlia, que no arredavam p do hospital, o Natal deixara de existir, 
preocupados apenas com Charlotte e  espera dos prognsticos clnicos, os quais, 
apesar de animadores, no eram de molde a tranquiliz-los completamente. 
     A situao era de uma tenso extrema para todos. Liam sentia-se to exausto que 
comeara a manifestar algum mau humor quando falava com Sasha, tendo passado a 
telefonar com menos frequncia, porque se mantinha  cabeceira da cama de Charlotte 
durante turnos de oito horas, para aliviar um pouco Beth. Em seguida, geralmente, 
adormecia no div colocado no corredor, antes mesmo de ter tempo de lhe ligar. Sasha 
compreendia a enorme presso sob que ele se encontrava, ou tentava compreender. 
     Sentia-se esgotada, apesar de se manter a par da situao somente  distncia, 
imaginando o que seria para os que permaneciam dia e noite na Unidade de Traumas do 
hospital  espera que a garota mostrasse melhoras. Liam disse que Charlotte estava com 
muitas dores e que para ele era uma verdadeira agonia ver a filha naquele sofrimento. Era 
um pesadelo para todos! 
     Sempre que falava com ele, Sasha sentia um aperto no corao. Liam no se 
cansava de prometer que dentro em pouco iria a Nova Iorque para a ver, assim que lhe 
fosse possvel. No entanto ela no fazia a mais pequena ideia de quando  que isso seria, 
mas tambm no perguntava. A sua inteno era aliviar as agruras por que ele estava a 
passar, e no acresc-las.
     Dois dias antes do Natal, os mdicos ofereceram a Charlotte e  famlia a melhor 
prenda de todas: disseram-lhes que iria ser preciso muito tempo, mas que a garota 
voltaria a andar. Talvez ficasse a coxear ou a arrastar os ps ligeiramente, e tambm era 
possvel que viesse a necessitar de apoios metlicos, mas poderia voltar a andar. A 
medula espinal escapara  destruio total, embora existissem algumas leses 
irreversveis. Ia ser um processo bastante longo, mas o futuro da garota era muito mais 
risonho do que aquilo que todos haviam receado. 
     Continuaria hospitalizada durante, pelo menos, trs meses, talvez mais, mas os 
mdicos estavam confiantes em que acabaria por ter uma boa recuperao e, muito 
importante, no ficaria com leses cerebrais. Charlotte teria de ser corajosa face s vrias 
operaes a que seria submetida, mas estavam optimistas. Nesse mesmo dia, retiraram-
na da lista dos doentes em estado crtico. Quando Liam lhe ligou para lhe dar a notcia, 
Sasha ficou lavada em lgrimas. O seu choro juntou-se ao dele. Apesar de a situao 
continuar a ser bastante preocupante, aquilo j era um grande alvio. As coisas podiam ter 
sido muito piores, e durante vrias semanas tudo apontara para que assim fosse.Quero ir 
ver-te - disse Liam numa voz em que se adivinhava um cansao extremo.
     - E se eu me metesse no carro e fosse at a? No quero que conduzas no estado 
em que te encontras.
     - Estou ptimo - retorquiu ele, embora no fosse essa a impresso que deixava 
transparecer. Estivera num estado de exausto e presso extremas, quase  beira do 
colapso, durante mais de duas semanas. Perante tal realidade, Sasha detestava a ideia 
de ele se sentar vrias horas ao volante de um automvel. Todavia, Liam insistiu, dizendo 
que no dia seguinte estaria em Nova Iorque para poder passar a vspera de Natal com 
ela, acrescentando que teria de voltar para o hospital logo a seguir.
      Continuavam a velar a doente por turnos, em que ele alternava com Beth e Becky, o 
que a Sasha pareceu bastante peculiar. Contudo, numa situao de crise como aquela, 
no lhes restava outra opo. Havia um deles permanentemente  cabeceira da cama da 
garota; os avs tambm ajudavam tanto quanto lhes era possvel, assim como o noivo de 
Beth. 
     Charlotte estava rodeada de um exrcito de pessoas que lhe queriam bem e que lhe 
davam todo o seu apoio, podendo contar ainda com as oraes de Sasha e de Xavier. 
Esta tambm mencionara o ocorrido a Tatiana, que ficou horrorizada, pedindo  me que 
dissesse a Liam que lamentava sinceramente o que sucedera  filha. Sasha transmitiu-lhe 
a mensagem e ele confessou ter ficado muito sensibilizado, pedindo-lhe que agradecesse 
a Tatiana. A jovem era mimada e no era de trato fcil, mas possua bom corao.
     Durante toda a viagem de Liam de Vermont para sul, a preocupao de Sasha foi 
constante. Telefonou-lhe de hora a hora, mas ele parecia-lhe alerta e bem-disposto; tivera 
o cuidado de dormir como devia ser na noite anterior. Sasha estava ansiosa por voltar a 
v-lo, sentindo-se extremamente satisfeita por ele estar prestes a chegar para passar o 
Natal consigo, a despeito de tudo o que acontecera.
     Enquanto Liam estivera ausente, Sasha fizera a rvore de Natal e enfeitara-a para 
ele. Junto da rvore colocara alguns presentes que lhe ia oferecer: uma camisa patusca, 
um novo bon de basebol e um livro que pertencera ao pai, assim como um relgio 
Cartier. Esperava-o ansiosamente quando ele chegou, s seis da tarde. Fizera a viagem a 
boa velocidade, o que lhe fora possvel por as estradas estarem desimpedidas de neve.
     No mesmo instante em que o viu, Sasha desatou a chorar. 
     Ele tinha um aspecto abatido e angustiado, e quando o abraou, Liam comeou a 
chorar convulsivamente nos seus braos. Sentia-se como se tivesse estado prestes a 
afogar-se durante as ltimas duas semanas. Nunca em toda a sua vida passara por 
emoes to aterradoras! Aos olhos de Sasha, ele deixara de ser um rapaz; tinha-se 
transformado num homem mais velho do que a sua idade indicava, uma mudana que 
acontecera quase da noite para o dia.
      Dava a impresso de ter envelhecido dez anos nas ltimas semanas. Sasha sentiu-
se mortificada ao v-lo naquele estado, com uma expresso nos olhos que espelhava 
tanta dor e tenso. Liam tentou descrever-lhe aquilo por que passara, e, s de ouvir o que 
ele lhe contava, Sasha sentiu o estmago s voltas. Era horrvel! Mas, do mal o menos, 
agora Charlotte estava melhor e havia esperana para o seu futuro.
     - Como  que a Beth est a aguentar-se? - Sasha at se mostrava preocupada com 
ela.Tem  sido   extraordinria.   No   sai   do   hospital. O George est em casa de uns 
amigos e o Tom tem alternado
     connosco  cabeceira da cama da Charlotte. - Toda a famlia se unira, at mesmo 
Becky, da qual Liam no falou muito. Continuava a sentir-se constrangido na presena da 
cunhada, o que, provavelmente, perduraria para sempre. Sasha no sentia a mnima 
preocupao por causa dela, tinha sido uma aventura inconsequente e irresponsvel de 
uma noite, pela qual Liam pagara um preo muito elevado. Sasha sentia-se satisfeita por 
ele ter podido ficar no hospital com Charlotte. Era uma daquelas coisas que uma criana 
jamais esquecia, e o mesmo aconteceria com ele e at com a prpria Sasha.
     Preparou-lhe uma esplndida ceia de Natal, ps-lhe a gua a correr para o banho e 
depois aconchegou-o quando ele se deitou. Durante muito tempo, sem dizer nada, Liam 
ficou a olhar para Sasha, com a mo dela na sua. Sentia-se de tal maneira exausto que 
pouco falou. Porm, no tirou os olhos dela, e  meia-noite trocaram presentes. Ela levou-
lhe os dele  cama, altura em que Liam se levantou para ir ao quarto de Xavier, onde 
guardara a prenda que tinha comprado para ela. Quando viu o bracelete de diamantes, 
Sasha ficou estupefacta, colocando-o  volta do pulso.
     -  lindssimo... Estragas-me com mimos - disse ela, beijando-o e dando graas pela 
bno de o ter ali. Liam adorou tudo o que Sasha lhe ofereceu, especialmente o relgio 
de pulso e o livro que pertencera ao pai dela.
     Liam deixou-se ficar imvel na cama com os olhos fixos no tecto quando ela se 
deitou. No fez qualquer tentativa para fazer amor e Sasha procedeu do mesmo modo. 
Depois de tudo aquilo por que ele havia passado, Sasha considerou que seria de muito 
mau gosto. Alm do mais, parecia extremamente exausto. O sexo era a ltima coisa que 
tinha em mente, assim como ela. Queriam apenas ficar ao lado um do outro, deitados 
sossegadamente de mo dada.
     Era quase uma da madrugada quando ele se virou e se ps a olhar para ela. 
Sentira-se demasiado cansado para ir  Missa do Galo e ela tambm no havia sugerido 
que fossem. Tinha a certeza de que Deus compreenderia.
     - Pareces to cansado, meu querido. Porque  que no dormes? - perguntou Sasha, 
a quem s apetecia embal-lo como se fosse uma criana. Do que ele, alis, estava a 
precisar desesperadamente, e os problemas ainda no haviam ficado por ali. Logo pela 
manh, voltaria para a linha da frente. Aquela era a sua nica noite de trguas, e tinha 
guiado durante quase sete horas at chegar a Nova Iorque.
     - No quero dormir. Esta noite s quero estar contigo, reter cada minuto. - Eram 
imagens que teriam de perdurar na sua memria durante muito tempo.
     - Estou aqui. Tu precisas de dormir, caso contrrio, amanh estars demasiado 
cansado para conduzires. - Liam queria estar com os filhos ao cair da tarde do Dia de 
Natal, ou mais cedo, se conseguisse. Tencionava partir s sete da manh. Quando as 
coisas acalmarem um pouco, vou l para te ver.
     - Ainda era demasiado cedo para conhecer os filhos dele, embora Liam parecesse 
no fazer a mnima ideia de quanto mais tempo estaria ausente. Pacientemente, Sasha 
ficaria  sua espera.
     - Preciso de falar contigo, Sasha - disse ele, soerguendo-se sobre um cotovelo.
     - Acerca de qu? - Durante um momento indefinvel, perguntou-se se ele lhe iria 
propor casamento, mas a ocasio no lhe parecia ser a mais propcia. As emoes 
estavam  flor da pele. Sorriu-lhe, olhando-o com ternura. Sentia-se to feliz por Liam 
estar ali como ele prprio. Porm, mesmo longe do horror que vivera no hospital, ele 
mantinha uma expresso de tristeza. 
     Passara por momentos de grande angstia e vira sofrimento de mais para conseguir 
apagar essas recordaes de um momento para o outro. Iria ser preciso muito tempo para 
que todos eles conseguissem ultrapassar tanta mgoa; alm de Charlotte, todos haviam 
sofrido. Toda a famlia ficara traumatizada por causa do acidente que a garota sofrera.
     - Nem sequer sei por onde comear - continuou ele, fechando os olhos. Quando 
voltou a abri-los, Sasha fitava-o sem desviar o olhar. Aquilo parecia importante e ela 
prestava-lhe toda a ateno. - A Charlotte vai precisar de cuidados redobrados, de 
enfermagem, de fisioterapia e de toda uma srie de terapias. 
     Vai continuar internada durante vrios meses, aps o que ns mesmos poderemos 
ajud-la a fazer alguns exerccios de reabilitao fsica em casa, porque ela ainda  muito 
novinha, ou ento ter de ficar num centro de reabilitao fsica. Existe um em Burlington. 
- Foi nesta altura que Sasha compreendeu o que o preocupava. No existia a mais 
pequena dvida na sua mente. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para o ajudar, o 
que desejara ter-lhe dito h mais tempo, mas no queria que ele pensasse que estava a 
intrometer-se no que no lhe dizia respeito.
     - A resposta  sim - replicou simplesmente, inclinando-se para ele e beijando-o. 
Liam ficou com uma expresso de surpresa.
     - Sim a qu? - Ela apanhara-o desprevenido. A situao, em si, j era 
suficientemente difcil de explicar.
     - Sim, se precisares de um adiantamento. Com um acidente como esse deves gastar 
uma fortuna. Farei tudo o que for possvel para ajudar. A galeria fa-lo-, tal como eu 
pessoalmente. - As lgrimas assomaram-lhe aos olhos.
     - Amo-te. No s obrigada a fazer isso.
     - Mas quero fazer - respondeu ela -  to simples quanto isso.
     - Estamos bem, o nosso seguro de sade  dos melhores que existem. Graas a 
Deus que a Beth sempre foi uma manaca em relao ao seguro de sade. Deus sabe 
que eu nunca me preocupei com isso. Sempre pensei que o que pagvamos pelo seguro 
que tnhamos era uma exorbitncia. Afinal, graas a Deus que o fizemos; agora 
precisamos dele. Estou em crer que os pais da Beth trataro do resto. 
     Ao longo dos anos, conseguiram poupar bastante dinheiro. Alm disso, o noivo da 
Beth tambm quer ajudar. No acho bem, mas ele sente-se responsvel pelo que 
aconteceu. Enfim, mais tarde teremos tempo para resolver esse assunto. Ainda nem 
sequer recebemos nenhuma conta... Mas agradeo-te teres-te oferecido para ajudar.
     - Muito bem... ento o que  que se passa? - inquiriu Sasha, sorrindo. Liam respirou 
fundo. No quero pedir-te nada, Sasha. S queria dizer-te uma coisa, e no pedir-te o que 
quer que seja. Foi por essa razo que vim. Para te dizer. - Liam tinha os olhos brilhantes 
de lgrimas.
     - Dizer-me o qu?
     Ele fechou os olhos por alguns minutos e depois abriu-os, exalando as palavras. 
Sentia-se como se fosse um assassino armado de um machado ao dizer-lhe aquilo, mas 
no lhe restava outra alternativa.
     - Vou voltar para junto da Beth. - Sasha ficou a olhar para ele durante muito tempo, 
como se no compreendesse o que acabara de lhe dizer.
     - Vou voltar para a Beth - repetiu Liam, e Sasha sentiu-se como se tivesse sido 
atingida por um raio, sentando-se repentinamente na cama.
     - Ests a querer dizer que amanh vais voltar para Vermont, no  verdade? - No 
conseguia respirar, sentindo-se como se a sua vida estivesse por um fio. Ele abanou a 
cabea.
     - Estou a dizer que vamos dar outra oportunidade ao nosso casamento. Ela no  
capaz de fazer isto sozinha. Vo ser precisos meses, ou mesmo anos, at que a Charlotte 
volte a pr-se de p, literalmente, e  muito possvel que jamais venha a conseguir faz-
lo. Ainda no sabemos. - Nesse momento, Liam tambm estava sentado na cama. - Eu 
nunca estive ao lado da Beth quando passmos por dificuldades, portanto, agora tenho a 
obrigao de o fazer. Ela quer que eu volte, s Deus sabe porqu. 
     Acho que  doida! Durante vinte anos fui um pssimo marido. Andei ocupado a fazer 
o papel de pintor louco, passando o tempo a pintar, sem a ajudar no que quer que fosse. 
Mas agora tenho de fazer isto. No posso deix-la sozinha a braos com este problema, 
Sasha. No posso! Assim que o acidente teve lugar rompeu o noivado, alegando que 
nunca seria capaz de perdoar ao futuro marido. 
     Foi ento que me pediu que voltasse. - Liam deixou-se ficar a olhar para Sasha com 
as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto. Estava apaixonado por ela, mas tambm amava a 
mulher. E ela agora precisava dele mais do que nunca. Era precisamente a decncia que 
fazia dele o homem que era e a razo por que Sasha o amava, mas tambm era essa 
atitude que o obrigava agora a deix-la.
     - Isso no  motivo para reatar um casamento. Fica l durante uns seis meses, se 
pensas que  isso que deves fazer... Um ano, se for necessrio... Mas ningum tenta 
refazer um casamento s porque  preciso cuidar de um filho doente. O que  que vai 
acontecer quando a Charlotte estiver melhor? Ters o teu casamento e a Beth para o 
resto da vida.
     - No fui eu que a deixei, Sasha - recordou-lhe Liam.
     - Ela  que me deixou, o que eu mereci. Eu jamais a teria deixado, ou s crianas.
     - Oh, meu Deus! No acredito no que estou a ouvir!
     - Tinham acabado de reatar a relao e ele encontrava-se ali, na cama com ela. No 
entanto, no lhe havia tocado durante toda a noite. Tinha ido a sua casa apenas para 
poder estar com ela uma ltima vez e para lhe dizer pessoalmente que ia deix-la, o que, 
desta feita, seria de vez. - No me parece que estejas suficientemente lcido para tomar 
uma deciso dessas neste momento, o que se aplica a todos vs. 
     - Sasha lutava pela sua vida, pelo seu amor, mas, ao olhar para o rosto dele, 
apercebeu-se de que j tinha perdido. Desta vez no havia maneira de sair a ganhar. 
Estava tudo acabado. Realmente, era impossvel, mas por razes muito diferentes, e ela 
no possua armas para lutar por ele. 
     Beth tinha a seu favor vinte anos de casamento, alm de trs crianas, uma delas 
gravemente doente. Sasha no tinha a mnima hiptese. No podes esperar mais um 
tempo at tomares essa deciso? At depois de teres dormido algumas horas e teres as 
ideias mais claras?
     - Sasha, nesta situao no h outra deciso a tomar. No posso deixar a Beth 
sozinha com este problema nas mos, no posso abandonar os meus filhos. - Liam tinha 
crescido, tornara-se um homem responsvel, e agora j no a queria na sua vida. E nem 
sequer podia discutir com ele, porque sabia que estava a fazer o que era certo para todos. 
Excepto para ela. Sentiu-se como se ele a tivesse atingido com um maquinismo de 
demolio, o que acontecera. 
     Liam envolveu-a nos seus braos e Sasha chorou convulsiva e descontroladamente, 
tal como ele prprio. - Lamento muito, Sasha. Amo-te. Queria estar contigo, conseguir que 
a nossa relao resultasse... mas tenho de voltar para eles. Juro-te que teria casado 
contigo se isto no tivesse acontecido. Era o que eu mais desejava.
      Mas agora no posso. - Era uma tragdia para os dois. Porm, ele tambm amava 
Beth, o que Sasha no ignorava. Podia v-lo nos seus olhos. Era uma situao 
completamente absurda, mas verdadeira: Liam amava as duas. Mas devia mais a Beth do 
que a ela. Inevitavelmente, Sasha teria de sair a perder. Ela era o sacrifcio que ele sentia 
ter de fazer pela filha.
     Deixaram-se ficar na cama, nos braos um do outro, a chorar durante horas a fio, 
desejando que as coisas fossem diferentes.
     Ela queria sentir-se zangada, mesmo furiosa, queria odi-lo, mas no lhe era 
possvel. No estava encolerizada, apenas com o corao desfeito. Aquilo era to mau, 
ou mesmo pior, do que quando perdera Arthur, porque assim que Liam voltasse para 
Beth, passaria a estar morto para ela. Desta vez era mesmo verdade, Liam nunca mais 
voltaria, e ambos estavam cientes disso.
     - Se preferires, ponho fim ao meu contrato com a galeria. No quero tornar a 
situao ainda mais difcil para ti do que j .
     - No  necessrio que tomes uma deciso dessas, no seria justo para ti. Podes 
passar a tratar dos teus assuntos com a Karen e o Bernard. - Sasha sabia que depois 
daquilo no poderia continuar a v-lo ou mesmo a falar com ele. Se o fizesse, seria o 
mesmo que estar a matar-se a pouco e pouco. Nunca em toda a sua vida havia passado 
por um sofrimento como aquele ou, pelo menos, desde que Arthur falecera.
     s seis da manh continuavam nos braos um do outro. s seis e meia, Liam 
levantou-se. Ambos estavam com o aspecto de quem levara uma tareia. O pior de tudo 
era ela ter conscincia de que ele estava a agir da maneira mais correcta. Na deciso que 
tomara no havia qualquer vestgio do pintor louco. Era a deciso de um homem 
generoso e nobre, o qual tinha noo de que estava em dvida para com a mulher e os 
filhos e que no hesitava em cumprir as suas obrigaes, para o melhor e para o pior. A 
sua atitude s fazia que Sasha o amasse ainda mais.
     - E se as coisas no resultarem? - perguntou quando ele j se vestia. - E se quando 
a Charlotte melhorar vocs dois no forem capazes de se suportar? Nesse caso, o que  
que acontecer?
     - No sei - respondeu ele com toda a franqueza, olhando para ela. Ambos estavam 
devastados.
     - Deve ter acontecido qualquer coisa muito estranha para tu teres ido para a cama 
com a Becky. Os homens no costumam fazer coisas dessas, a menos que sejam 
infelizes com as mulheres com quem esto casados.
     - Talvez no. Acho que estvamos fartos um do outro. A Beth estava cansada de ser 
pobre e havia alturas em que eu me sentia assoberbado pelas crianas. Vi-me 
sobrecarregado com mais responsabilidades do que previra, alm de no estar preparado 
para as assumir. Que diabo, casei-me com ela apenas com dezanove anos!
     - Mas  para essa vida que vais voltar - alegou Sasha lugubremente. - Pensa bem 
nisso antes de tomares uma deciso definitiva. Nada te impede de cuidar da Charlotte 
durante o tempo que quiseres, sem seres obrigado a voltar para a Beth. Sasha, est feito 
- retorquiu Liam. Para ela, aquilo parecia uma sentena de morte. - No posso proceder 
de outro modo. Ela precisa de mim, no conseguir levar isto avante sozinha. A Beth no 
 uma mulher suficientemente forte. 
     - Sasha respondeu com um aceno de cabea. No lhe restavam mais argumentos. 
J utilizara todos, sem xito. Alm disso, no tinha coragem de tentar convenc-lo de algo 
que sabia estar errado. Liam tinha conscincia de que devia voltar para Beth somente por 
ser essa a atitude correcta, e no por ela lhe ter pedido. Ele prprio pensara nisso. Agora 
Sasha sabia que ele procederia dessa forma. No obstante o seu comportamento por 
vezes chocante e a sua maneira de ser irreverente, basicamente, era um homem bom e 
decente.
     Sasha ofereceu-se para lhe preparar o pequeno-almoo, mas ele limitou-se a 
responder-lhe com um abanar de cabea; no conseguia comer. Nenhum dos dois tinha 
dormido. Liam sentia-se a desistir da sua vida por estar prestes a abandonar Sasha. 
Queria desesperadamente construir uma vida com ela, mas o destino privara-os dessa 
felicidade; nenhum deles era culpado pelo desenrolar da situao. 
     Era a mo de Deus, o destino. Ambos tinham de desistir dos seus sonhos, que se 
desmoronavam de um momento para o outro. Agora era a vez de Beth, de Charlotte e dos 
rapazes. Liam pertencia-lhes. Fizera um juramento a Beth havia vinte e dois anos, e 
chegara a hora de o cumprir. Sentia que no lhe restava outra alternativa. Sasha era o 
seu sonho, Beth a sua vida.
     Guardou os presentes que ela lhe oferecera na mochila e ela mirou o bracelete que 
ele lhe dera e depois olhou para ele.
     - Nunca mais o tirarei. Amo-te para todo o sempre, Liam.
     - No digas isso - retorquiu ele, com as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto, 
misturando-se com as dela quando lhe deu um ltimo beijo. - Esquece-me. Esquece-nos. 
Guarda essa recordao algures no teu corao, tal como eu farei. Estars sempre aqui 
comigo - disse Liam, apontando para o corao, e Sasha acenou com a cabea.
     Agarrou-se a ele como se fosse morrer quando ele partisse, certa de que isso 
sucederia realmente. Este era um adeus que no lhe fora possvel dizer a Arthur. Nessa 
noite com Liam tudo havia sido dito entre eles. Ele ia deix-la, apesar de todo o amor que 
lhe dedicara ao longo do ltimo ano; de facto, amara-a mais do que a qualquer outra 
pessoa em toda a sua vida.
     Sasha chorava de mansinho quando o acompanhou at ao elevador. Liam carregou 
no boto. Ela estava apenas com a camisa de noite e descala, com o cabelo preto 
comprido solto como o de uma criana. Quando o ascensor chegou, ele olhou-a 
intensamente e entrou; o olhar dela cruzou-se com o dele, a porta fechou-se e Liam 
desapareceu. Quando regressou ao apartamento, Sasha lembrou-se que era a manh do 
Dia de Natal. 
     
     
                                         CAPTULO 21
     
     Para ela, aquele Natal era como uma imagem desfocada, um pesadelo em que era 
impossvel acreditar. Tatiana e Xavier telefonaram-lhe para lhe desejarem boas-festas e 
para saberem como estava. Sasha garantiu-lhes que estava tudo bem, embora Xavier 
tivesse desconfiado que havia qualquer coisa de estranho, o que o levou a voltar a ligar-
lhe mais tarde. Perguntou se Liam estava com ela, e Sasha respondeu-lhe que estivera, 
mas que j regressara a Vermont.
      O seu sofrimento era demasiado grande para poder partilh-lo com quem quer que 
fosse. Era uma dor to excruciante que ficou sentada numa poltrona durante todo o dia, 
mal se mexendo. Deixou-se ficar simplesmente sentada a olhar para o vazio. Encontrava-
se em estado de choque.
     No dia a seguir ao Natal, chegou  galeria s dez horas, como era seu costume, e 
quando Mareie entrou, deparou com ela sentada  secretria do seu gabinete. Tinha o 
cabelo todo puxado para trs, no se maquilhara e o rosto estava lvido. Sentada com 
uma postura extremamente rgida, separava alguns dos papis que tinha em cima da 
mesa, como se estivesse em estado de choque, e quando Mareie viu a expresso que se 
reflectia nos seus olhos, pensou que Charlotte teria morrido. De facto, Sasha  que tinha 
morrido.
     - Oh!, meu Deus, aconteceu alguma coisa ... - Mareie interrompeu-se, levando a 
mo  boca. Era bvio que acontecera alguma coisa terrvel. Sasha parecia um fantasma 
quando abanou a cabea e desviou o olhar. 
     Durante as ltimas trs horas no parara de chorar, inconsolvel. Sabia que nunca 
mais voltaria a ouvir a voz dele. Antes de partir, ela e Liam haviam prometido que no 
telefonariam um ao outro; faz-lo seria uma crueldade para qualquer dos dois. Sasha 
nunca fizera nada to difcil em toda a sua vida, honrar o que tinham decidido, mas f-lo 
pelo muito amor que lhe dedicava.
     
     Sempre soubera que o amava, mas s agora tinha noo de quo forte era esse 
amor. - Sasha, est a sentir-se bem?
     - perguntou Mareie, que, ao olhar para ela, ficou assustada.
     - Estou ptima - respondeu Sasha num tom de voz monocrdico e sem olhar para 
Mareie. Entregou-lhe alguns papis que acabara de assinar. Tinha dado incio ao resto da 
sua vida, que se estendia  sua frente, qual vasta terra rida de vazio e perda. Sentia-se 
como se tudo nela, cada fibra do seu ser, tivesse morrido.Mareie saiu do gabinete sem 
dizer mais nada, mas mencionou o assunto a Karen, que passou pelo gabinete de Sasha 
para ver se ela estava melhor, embora tivesse disfarado o motivo que a levara l, aps o 
que se apressou a voltar para junto de Mareie.
     - Deve ter acontecido alguma catstrofe. Perguntaste-lhe o que se passou?
     - Ela no diz nada...
     Ambas concordaram que Sasha parecia pior, muito pior, do que quando Arthur 
morrera. Mas entretanto haviam decorrido mais de dois anos e esta era a maior perda que 
ela sofria, combinando-se com o impacto da anterior. Duas perdas colossais que se 
haviam transformado numa s. Aquela situao trouxe-lhe  memria o que sofrera 
aquando da morte de Arthur, ao que acrescia agora a perda de Liam, desta vez para 
sempre. Desta feita no haveria lugar a moratria, e ela sabia disso. Liam nunca mais 
voltaria. No que dizia respeito  sua vida, era como se tivesse morrido.
     Nenhuma das duas mulheres conseguiu desvendar o mistrio e Sasha no falou 
durante todo o dia. No comeu nem bebeu nada. No se mexeu, limitando-se a 
permanecer sentada  secretria a mexer em papis. Pensou em matar-se, mas tinha 
conscincia de que no podia fazer uma coisa dessas a Xavier e a Tatiana. Estava 
condenada a viver, o que, no seu caso, parecia pior do que se tivesse sido condenada  
morte. Sasha havia sido sentenciada a uma eternidade sem a presena de Liam.
     Ao volante do automvel a caminho de Vermont, ele sentia precisamente a mesma 
coisa, mas no telefonou a Sasha. Sabia que nunca mais poderia falar com ela. Era 
forado a confi-la nas mos do destino, tal como fizera em relao a si prprio. Tudo o 
que podia fazer a partir de agora era recordar que existia uma mulher que jamais voltaria 
a ver, mas que em tempos amara inteiramente de corpo e alma.
     Nessa tarde, Sasha disse a Mareie que tencionava regressar a Paris na manh 
seguinte, pedindo-lhe que marcasse a passagem area. Mareie disse que assim faria, 
detendo-se para voltar a tentar saber o que se passava com ela.
     - Tem a certeza de que est bem? - Sasha respondeu-lhe com um aceno de cabea 
e Mareie perguntou-se se se teria passado alguma coisa com Liam. Talvez tivessem 
discutido, pondo fim  relao uma vez mais. - Que  feito do Liam? - foi tudo o que 
Mareie lhe perguntou. Sasha respondeu-lhe que ele regressara a Vermont e que estava 
bem. Sabia que s da a muitos meses, ou mesmo anos, seria capaz de confiar a algum 
o que acontecera entre os dois. 
     O vazio que ele deixara dentro de si ficara a transbordar de dor. Mareie saiu do 
gabinete e foi tratar da reserva da passagem area para Paris, mas depois fez algo que 
nunca fizera, nem mesmo quando Arthur falecera. Telefonou a Xavier para lhe dizer que 
se sentia muito preocupada por causa da me. Ele concordou que ela tambm lhe 
parecera estranha quando lhe falara no Dia de Natal. 
     - Ela est com um aspecto horrvel acrescentou Mareie, desolada por ter de lhe 
causar preocupaes, mas no sabia a quem mais poderia telefonar. Tatiana estava fora, 
e Mareie no fazia a mnima ideia onde, tal como Xavier no sabia do paradeiro da irm.
     - Talvez eu apanhe um avio para Paris este fim-de-semana para a ver - disse ele, 
pensando no assunto. No era uma hiptese que lhe agradasse por a alm, uma vez que 
seria na vspera do Ano Novo, mas a verdade  que estava preocupado com a me. 
Tinha-se passado alguma coisa e a me no falava do assunto com ningum.
     Nessa noite, Xavier ligou-lhe para casa, mas Sasha no atendeu o telefone. Estava 
deitada na cama s escuras a pensar em Liam, perguntando-se o que  que ele estaria a 
fazer nesse momento, se o estado de Charlotte teria evoludo e o que  que ele teria dito 
a Beth. Nem sequer sabia se ela tinha conhecimento da sua existncia. Da noite para o 
dia, passara a ser a mulher esquecida. 
     Sentia-se como se fosse invisvel, intocvel, no amada e completamente isolada do 
mundo. Ao sair da galeria, mal se despedira de Mareie e de Karen; limitara-se a dar-lhes 
as boas-noites, como fazia habitualmente, aps o que saiu. Foi para casa a p e j ia a 
meio do caminho quando se apercebeu de que estava a chover. Quando chegou a casa, 
estava encharcada at aos ossos. Mas isso no lhe importava. Nada lhe interessava.
     No dia seguinte partiu de avio para Paris; no falou com ningum durante a viagem 
e tambm no comeu nada, nem to-pouco viu nenhum filme; por fim conseguiu 
adormecer. Era um voo relativamente curto e quando chegou a casa apercebeu-se de 
que havia alguns dias que no comia. Mas agora isso tambm no lhe interessava.
     Quando Xavier chegou a Paris, no sbado seguinte, ficou chocado ao ver a me. 
Havia perdido peso, os olhos tinham um brilho febril e estava com uma aparncia 
emaciada. Xavier, que se fizera acompanhar da actual namorada, conseguiu convenc-la 
a comer um pouco. Quando perguntou  me por Liam, ela mostrou-se satisfeita e vaga, 
limitando-se a dizer que ele se encontrava em Vermont com Beth e os filhos.
     Uma semana mais tarde, querendo saber como  que as coisas estariam a correr, 
Xavier ligou para o telemvel de Liam. No mencionou o estado em que a me se 
encontrava, a fim de no preocupar o amigo; ele j tinha bastante com que se preocupar, 
por causa de Charlotte. Casualmente, Xavier perguntou-lhe quando  que pensava voltar 
para Londres.
     - No tenciono voltar - retorquiu Liam numa voz em que transparecia uma tristeza 
que deixou Xavier apreensivo. O tom de voz dele no se diferenciava muito do que ouvira 
recentemente sempre que falava com a me, no deixando adivinhar nada.
     - O que  que queres dizer com isso? - perguntou Xavier, confuso. - Vais ter de ficar 
em Vermont durante muito mais tempo?
     - Calculo que para sempre - respondeu Liam num tom enigmtico. - Um dia destes 
terei de voltar a Londres para fechar o meu estdio - acrescentou, dizendo que Charlotte 
ficaria hospitalizada durante mais alguns meses e, possivelmente, teria de fazer 
fisioterapia depois de ter alta.
     -  muito decente da tua parte estares a com ela numa situao como esta - elogiou 
Xavier perante o longo silncio por parte de Liam. Este sabia que no podia adiar contar-
lhe o que se passava. No fazia a mais pequena ideia sobre o que Sasha teria dito ao 
filho, mas Xavier dava a impresso de no estar a par do que acontecera, o que o 
surpreendeu. Sabia quanto me e filho eram chegados, o que o levara a deduzir que ela o 
teria posto ao corrente da situao. No conseguia imaginar qualquer razo que 
justificasse ela no lhe ter contado nada. Nem sequer lhe ocorreu que Sasha pudesse 
continuar em estado de choque, sentindo-se demasiado devastada para pr Xavier ao 
corrente do que acontecera.
     - Voltei para a Beth - informou Liam. No outro lado da linha, Xavier ficou em silncio, 
completamente aturdido.
     - Fui forado a voltar. Ela precisa de mim aqui, assim como os meus filhos. Telefono-
te quando voltar a Londres para encerrar o estdio. - Xavier desejou-lhe sorte, tendo 
ficado durante um bocado a pensar no que Liam lhe dissera. Tinha a sensao de ter sido 
atirado contra uma parede. Mal conseguia imaginar o que a me teria sentido ao ouvir 
aquelas mesmas palavras. Agora percebia tudo. 
     
                                         CAPTULO 22
     
     Sasha viveu cada dia da sua existncia durante grande parte de Janeiro como se 
fosse um autmato. Ia para a galeria e  noite voltava para casa, falando pouco com 
quem quer que fosse e fazendo o seu trabalho. Entregara a Bernard todas as pastas 
respeitantes a Liam sem fazer qualquer comentrio, embora actualmente ele no 
estivesse a trabalhar, por se encontrar a cuidar de Charlotte, e, portanto, no houvesse 
nada a tratar em relao a ele.
     Tinham recebido duas encomendas para Liam, mas ele informou que s da a seis 
meses poderia comear a trabalhar nesses quadros, por conseguinte, tudo o que se 
relacionava com Liam encontrava-se suspenso. Exactamente como a vida de 
Sasha.Depois de saber o que tinha acontecido, Xavier foi visitar a me, mas esta 
recusou-se a falar do assunto. Durante a sua estada, deram alguns passeios no parque 
com a cadela. Xavier tentou lev-la a jantar fora, mas Sasha no quis ir; nos ltimos 
tempos, dava a impresso de que no ia a lugar nenhum. Eugnie disse que ela recusava 
sistematicamente todos os convites que recebia, tendo feito o mesmo em Fevereiro, 
quando estivera em Nova Iorque. 
      excepo do trabalho, era como se se tivesse recolhido, fechando-se para o 
mundo.Xavier teve uma longa conversa com Tatiana sobre o que se passava com a me, 
o que levou a irm a ficar uma noite em casa da me, mas, aparentemente, no havia 
nada que despertasse Sasha daquela espcie de letargia. Entretanto o tempo foi 
passando, e em Abril j regressara a Paris. Em seguida teve de ir a Nova Iorque para 
organizar uma exposio, e Mareie ficou muito aliviada ao ver que ela parecia estar com 
melhor aspecto. 
     Continuava magra e plida, alm de ter um ar cansado, mas, do mal o menos, a 
aparncia fantasmagrica dos ltimos meses tinha desaparecido. Apesar do semblante 
triste, pelo menos parecia humana. No era segredo para quem a conhecia e se 
preocupava com ela que Sasha passara por um perodo terrvel. Em segredo, 
comentavam entre si a razo para tanta tristeza, embora ningum falasse com ela sobre o 
assunto. Era bvio que se tratava de uma questo que, no que lhe dizia respeito, no 
estava aberta ao dilogo com quem quer que fosse. Sasha isolara-se completamente do 
mundo  sua volta. O seu corpo encontrava-se presente, mas o esprito mantinha-se 
ausente.
     Liam voltara a Londres em Maro para fechar o estdio, despachando todos os seus 
pertences para Vermont. Deixou uma mensagem a Xavier, mas, quando este retribuiu o 
telefonema, ficou a saber que Liam j havia deixado a cidade; a estada fora apenas de 
dois dias. Xavier assumiu, com razo, que Liam provavelmente, no quisera encontrar-se 
com ele. O que acontecera, o acidente que Charlotte sofrera e a deciso de Liam de 
voltar para Vermont, para junto de Beth, tudo isso havia sido demasiado traumatizante 
para os dois. Tinham feito os possveis por enterrar o assunto, ultrapassando-o cada um  
sua maneira. Xavier nem sequer mencionou  me que Liam estivera em Londres. 
Pareceu-lhe mais assisado no voltar a falar-lhe dele, exemplo que era seguido por todos 
com quem ela convivia.
     Mareie no classificaria de recuperao o que viu em Abril, mas, pelo menos, o 
sangue da vida que se derramara da alma de Sasha dava a impresso de ter estancado. 
     Parecia que ela tinha chegado ao fundo e era a que se mantinha, o que 
representava uma grande melhoria em relao ao que todos haviam observado antes. A 
espiral descendente que levara Sasha ao abismo do desespero fora algo aterrador de 
observar, contudo, ela insistia em dizer que se sentia melhor, chegando mesmo a ir  
casa nos Hamptons quando voltou a Nova Iorque, em Maio. semelhana do que 
acontecia com todos os outros lugares, a casa estava cheia de recordaes de Liam, 
mas, quaisquer que fossem os seus pensamentos, no os partilhava com ningum. Havia 
vrios meses que no tinham notcias suas na galeria. 
     Tudo o que sabiam, atravs de Sasha e de uma ou outra mensagem por correio 
electrnico que ele enviava, eraque continuava em Vermont junto da famlia, tendo 
informado que Charlotte estava melhor. A garota encontrava-se agora no centro de 
reabilitao fsica e j conseguia pr-se de p. Quanto a Sasha, mantinha-se mais ou 
menos na mesma; o seu estado de esprito parecia capaz de se pr de p, mas ainda no 
conseguia andar.
      Preocupados, tanto os filhos como os que trabalhavam na galeria sentiam-se 
ansiosos por voltar a ver qualquer sinal de vida, e foi por pouco que Mareie no se ps de 
p e aplaudiu quando a viu esboar um sorriso, em Maio. Desde Dezembro que no se 
recordava de lhe ter visto um nico sorriso, altura em que ela e Liam reataram a relao 
por algum tempo, antes de ele ter voltado a partir.
     Xavier foi a Nova Iorque para celebrar o quinquagsimo aniversrio da me junto 
dela. Tudo o que Sasha desejava era passar uma noite tranquila com ele e com Tatiana, 
porm os filhos haviam insistido em que, pelo menos, fossem jantar fora, e ela optara por 
um pequeno restaurante italiano na Village que disse ser um lugar sossegado. No 
obstante os longos meses a chorar a ausncia de Liam, Sasha passou uns momentos 
muito agradveis com os filhos. No consigo acreditar que j tenho cinquenta anos disse 
ela, deixando transparecer alguma nostalgia. - Como  que fiquei to velha?
     - No  nada velha, me! - contraps Xavier gentilmente. Ele e Tatiana tinham-lhe 
oferecido um alfinete de peito em diamantes, dois coraes entrelaados, que Sasha 
adorou. Continuava a usar o bracelete de diamantes que Liam lhe oferecera no Natal. 
Nunca o tirava do pulso.
     Mareie e Karen tinham proposto fazer uma pequena festa, mas ela no aceitara a 
sugesto. As nicas festas a que comparecia ultimamente eram as que dava por ocasio 
da inaugurao de exposies na galeria. Durante os ltimos cinco meses, desde a 
partida de Liam, pusera de parte a sua vida social. Era como um animal cansado que 
hibernasse no pico do Inverno. Todos os que a amavam aguardavam algum sinal da 
chegada da Primavera. Por muito difcil que fosse, ela teria de esquecer Liam, mas esse 
processo parecia eternizar-se.
     Era como se a alma dos dois estivesse inextrincavelmente entrelaada e agora, sem 
a outra metade, ela se fechasse em si prpria para morrer. Como se fossem gmeos 
siameses. No espao de um ano, haviam passado a ser parte um do outro. A vida de 
Sasha sem ele era inexoravelmente sombria. No fim-de-semana do feriado do Memorial 
Day, na ltima segunda-feira de Maio, Sasha continuava em Nova Iorque, e decidiu ir  
casa de Southampton. 
     Tatiana tinha ido para fora e Xavier encontrava-se em Londres. Sasha tencionava 
voltar para Paris na semana seguinte, no entanto, era com satisfao que esperava poder 
passar o ltimo fim-de-semana na praia antes de partir. O tempo ainda estava frio, mas o 
perfume da Primavera j andava no ar, e quando saiu da galeria, na sexta-feira  noite, 
Mareie achou que ela estava com melhor aspecto. Actualmente, Sasha era alvo de 
observao e ateno constantes de todos os que lhe queriam bem, consultando-se entre 
si sobre o seu estado de esprito. A insistncia constante em dizer que se sentia bem s 
servia para se convencer a si prpria e mais ningum.
     Na sexta-feira  noite, quando seguia de automvel a caminho de Southampton, 
constatou que o trnsito intenso tornaria a viagem muito mais demorada. De tempos a 
tempos, quando era forada a parar num engarrafamento, pensava em Liam. Era um luxo 
que nos ltimos tempos s muito raramente se permitia. Sabia que no podia entregar-se 
s recordaes, e embora os outros no se apercebessem disso, a verdade  que se 
esforava para se sentir melhor. 
     Deixar-se ficar sentada a pensar nele era algo que s muito raramente concedia a si 
prpria. No obstante, Liam continuava no seu pensamento quando abriu a porta da casa 
da praia, quatro horas depois. J passava das vinte e trs horas, e quando se deitou era 
meia-noite. Adormeceu a pensar nele. Quando despertou, na manh seguinte, sentia-se 
melhor. Era como se ao permitir-se ficar embrenhada nas recordaes que guardava dele 
durante algumas horas tivesse aliviado parte da tenso em que andara.
     Navegar pelos baixios do sofrimento emocional era algo que se lhe tornara familiar. 
Sabia, com base na experincia da morte de Arthur, que a perda de algum era um 
processo demorado e difcil de ultrapassar; no nos desprendamos de um momento para 
o outro, mas sim dia a dia, centmetro a centmetro. Sasha precisara de um ano depois de 
Arthur ter falecido para voltar a sentir-se como um ser humano normal. E agora j haviam 
decorrido cinco meses desde que Liam a deixara. Sabia que um dia, num futuro prximo, 
conseguiria chegar l, acordando uma bela manh sem sentir aquela opresso no peito. A 
pouco e pouco, a opresso ia diminuindo.
      De tempos a tempos, perguntava-se como  que ele se sentiria ou se j se teria 
esquecido dela. Agora Liam tinha outras coisas que lhe ocupavam a mente, mas ficou 
satisfeita quando Mareie lhe disse que ele os havia informado de que Charlotte estava 
muito melhor. Sasha no conseguiu evitar perguntar-se se ele se sentiria feliz com Beth. 
De qualquer forma, no tinha maneira de saber, e talvez isso no interessasse. Para o 
melhor ou para o pior, acontecesse o que acontecesse, Liam agora pertencia-lhe. Sasha 
sabia que ele jamais a deixaria, do mesmo modo que nunca teria tomado a iniciativa de o 
fazer quando ela o deixou. Liam era o gnero de homem que no quebrava um 
compromisso depois de o ter assumido. 
     A situao havia sido diferente com eles porque, por muito que se tivessem amado, 
o compromisso nunca chegara a ser assumido. Tal como previra desde o princpio, para 
eles tinha sido uma relao impossvel, e no apenas pelas razes que ela temera. Nunca 
lhe ocorrera, nem sequer remotamente, que ele pudesse voltar para Beth. Sem o acidente 
de Charlotte, que quase lhe custara a vida, sabia que Liam nunca teria voltado para ela, 
mas o destino encarregara-se de intervir. 
     Nesse dia, j ao pr do Sol, quando passeava pela praia, forou-se uma vez mais a 
bani-lo dos seus pensamentos. Deixou que a sua mente se concentrasse noutras coisas, 
como Arthur e os filhos. Desde Fevereiro que Tatiana tinha um namorado a srio, um 
rapaz que, finalmente, merecia a aprovao de Sasha. Quanto a Xavier, havia comeado 
a falar em ir viver com a rapariga com quem andava desde o Natal passado,
     o que, para ele, era uma mudana enorme. Estava na altura de assentar. J fizera 
vinte e sete anos.
     Sasha sentia-se bem e tinha uma grande paz de esprito, pela primeira vez de h 
muito tempo a esta parte, quando se sentou por baixo de um telheiro entre as dunas 
cobertas de vegetao para admirar o pr do Sol. O ar continuava bastante fresco, mas o 
Sol aquecera o dia, e Sasha deitou-se na areia a pensar nos filhos e nos momentos que 
os trs haviam partilhado. Nesse Vero tinha alugado outro barco para eles, mas era ali, 
na praia, que ela passava algum tempo a ss consigo prpria. Momentos que para si 
eram preciosos e em que se dedicava a reflectir, dando graas pela sua vida, que ia 
recuperando a pouco e pouco. Sabia que, a despeito das perdas que sofrera, tinha de dar 
graas por muitas outras bnos recebidas, pelas quais se sentia agradecida.
     Observava o Sol, que se escondia rapidamente, perguntando-se se conseguiria ver 
o claro esverdeado no momento em que desaparecesse na linha do horizonte. Adorava 
esperar para o contemplar, e enquanto continuava ali ia saboreando cada momento. No 
desejava mais nada alm do que tinha agora. No precisava de nada e no queria 
ningum. Sentia-se como se estivesse suspensa no espao, sem peso e sem os fardos 
da vida. Pela primeira vez desde Dezembro, sentia-se bem na sua prpria pele. 
Finalmente, o processo de cicatrizao emocional, que tanto tempo levara a iniciar-se, 
estava a comear.
     De sbito viu o claro esverdeado, sorrindo quando este surgiu no horizonte. Era 
como um prenncio de coisas melhores que estariam para acontecer. Continuava a ver 
pontinhos luminosos diante dos olhos, por ter mantido a vista fixa no Sol enquanto este se 
punha, e o que vislumbrou pareceu-lhe uma viso. No conseguia v-lo com clareza, mas 
distinguiu a silhueta dele. Sabia que aquilo era fruto da sua imaginao, certamente 
estaria com alucinaes, mas ento ouviu a sua voz. Era Liam. Ele encontrava-se 
defronte dela, de costas para o claro do pr do Sol, como num filme. Sasha deixou-se 
ficar deitada a olhar fixamente para ele, sem dizer nada.
     - Ol, Sasha. - Ela no fazia ideia da razo que o levara ali. A ltima vez que o vira, 
ambos haviam chorado. Desta feita, limitou-se a olh-lo e a sorrir. Tinham passado cinco 
meses desde a ltima vez que haviam estado juntos.
     - Tenho estado a contemplar o pr do Sol.
     - Eu vi-te do alpendre.
     - Como  que a Charlotte tem passado? - No queria saber como  que Beth estava.
     - Est muito melhor. Recomeou a andar h pouco tempo.
     Sasha no o convidou a sentar-se. Fez apenas um ligeiro aceno de cabea.
     - O que  que te trouxe aqui?
     - Vou voltar. S quis vir c para me despedir de ti.
     -J nos despedimos. - Era estranho haver uma conversa to desarticulada entre 
duas pessoas que se tinham amado e se haviam perdido. J se tinham despedido uma 
vez, cinco meses antes. Por que razo teria voltado para dizer adeus de novo? - Quando 
 que vais voltar? - Era uma pergunta sem qualquer significado. O seu regresso deixara 
de ter o mnimo interesse para ela. Ele j tinha partido, o que fizera havia cinco meses.
     - Amanh - respondeu Liam, aps o que, finalmente, se sentou na areia, ao seu 
lado. Sentira-se pouco  vontade de p a olhar para ela, que continuava sentada. Sasha 
parecia-lhe mais baixa do que se lembrava, assim como mais plida, e o cabelo mais 
escuro, em contraste com a pele do rosto, de um branco de marfim. 
     Estava muito mais bonita do que se recordava, e tinha pensado nela com muita 
frequncia. Na verdade, Sasha no lhe sara do pensamento, atormentando-o, como 
algum que ele tivesse assassinado, sendo forado a viver com aquela imagem em 
suspenso e amargurada do rosto dela quando lhe dissera adeus. 
     - S queria ver-te uma vez mais antes de voltar. Pensei que tnhamos concordado 
em que no faramos isso. - O olhar dela foi ao encontro do dele. Esquecera-se como os 
olhos dela tinham uma expresso penetrante simultaneamente suave e intensa. Ela 
cumprira a sua parte do que haviam combinado; nunca lhe telefonara. E, ao contrrio do 
que ele fazia nesse momento, nunca aparecera inesperadamente em Vermont. Voltar 
com o intuito de a torturar uma ltima vez parecia a Sasha uma atitude que no merecia, 
lamentando que ele a tivesse procurado. Uma vez mais, ver-se-ia forada a escalar a 
montanha da cicatrizao emocional. Era um sacrifcio que j lhe custara bastante.
     - No te telefonei porque pensei que te recusarias a encontrares-te comigo.
     - E tens toda a razo, no teria concordado. Para mim, um adeus chegou. - A 
verdade  que tinha havido mais de um adeus ao longo do ano que haviam partilhado. - 
Porque  que vieste? - Sasha sabia que existia outra razo de que ele ainda no tinha 
falado. Conhecia-o melhor do que ele se conhecia a si prprio. 
     Todavia, no lhe passava despercebido quanto tambm mudara durante os ltimos 
cinco meses. No rosto de feies bonitas no se vislumbrava um nico trao da 
juvenilidade de antes, restando apenas um ar de masculinidade. Depois de ter partido, 
empreendera a sua prpria jornada de sofrimento emocional. Porm, diariamente, 
estivera acompanhado da mulher e dos trs filhos ao longo dessa jornada. Quanto a 
Sasha, s pudera contar consigo prpria, pelo que fora muito mais difcil para ela.
     - Odeias-me? - perguntou Liam. Devia t-lo odiado. Mas, para ela, isso eram guas 
passadas e, fosse como fosse, nunca teria ido por esse caminho. Respondeu-lhe com um 
abanar de cabea. Ele no tinha culpa do que acontecera.
     - No. Amo-te. Provavelmente, amar-te-ei para sempre
     - confessou Sasha. Os olhos dele fixaram-se na mo dela, vendo que os dois 
braceletes que lhe oferecera continuavam no pulso.
     - Tambm eu. - O Sol desaparecera por completo e o tempo arrefecera. - Queres 
que me v embora agora?
     - Ainda no - respondeu com sinceridade. Talvez fosse a ltima vez que o via. 
Queria saborear aquele momento antes de ele a deixar.
     - Ainda tenho de conduzir at Nova Iorque esta noite retorquiu Liam, que no sabia 
que mais poderia acrescentar. Nada do que tencionara dizer-lhe parecia fazer sentido 
nesse momento. Ela transformara-se numa pessoa diferente. Melhor, mais forte e mais 
profunda. Passara por uma espcie de baptismo de fogo; embora parecesse estranho, 
essa provao parecia t-la purificado.
     - Porqu Nova Iorque?
     - Porque vou voltar - respondeu ele com ar enigmtico, o que a deixou confundida.
     - Voltar para onde? Para Vermont?
     Liam sorriu, abanando a cabea. Ela no tinha compreendido.
     - No, vou voltar para Londres.
     - Porqu para l?
     Foi nesse momento que Liam sentiu que tinha de lhe dizer. Afinal, fora isso que o 
levara ali. Compreendeu, quando a viu, que lhe causara um grande sofrimento. E ainda 
que ela continuasse a am-lo, as portas haviam-se fechado. No lhe era difcil ver isso na 
expresso do seu rosto.
     - Deixei a Beth, as coisas no resultaram. Ao fim de um ms, ambos percebemos 
isso, mas mesmo assim continumos a tentar, quanto mais no fosse pelas crianas, mas 
as coisas no resultam sem amor. Separmo-nos como bons amigos.
     - Liam riu-se de mansinho. - Ela est feliz por se ter visto livre de mim. - Sasha 
observava-o atentamente, tentando apreender o que ele acabara de lhe dizer. 
Subitamente, perguntou-se se teria imaginado a presena dele e tudo o que lhe dizia. 
Talvez ele nem sequer estivesse ali. Qui fosse apenas uma viso que tivesse invocado 
em sonhos, uma alucinao que parecia extrada da vida.
     - O que  que acabaste de dizer? - perguntou Sasha.
     - Disse que eu e a Beth pusemos fim ao casamento; o divrcio  final. Amanh volto 
para Londres, mas queria ver-te antes de partir, quanto mais no seja, porque te devo um 
pedido de desculpas. - Tinha noo de que o que lhe fizera em Dezembro no tinha 
perdo, mas procedera dessa maneira pela mulher e pelos filhos. Como desculpa era um 
pouco esfarrapada, mas na altura pareceu-lhe ser o comportamento mais adequado. 
Sasha tambm sabia isso.
     - No me deves desculpa nenhuma - retorquiu ela gentilmente. - Limitaste-te a fazer 
o que sentiste ser teu dever.
     - E foi por pouco que no acabei contigo...
     - Continuo aqui - disse ela, levantando-se lentamente.
     - Sou mais rija do que pensas.
     - No. s mais rija do que tu prpria pensas. No houve um nico dia em que no 
pensasse em ti. Constantemente. - Liam estendeu o brao e ela viu o relgio.
     - Tambm eu pensei em ti - confessou Sasha. E agora, o que  que fazemos? - Os 
seus olhos encontraram-se, mas no se aproximaram um do outro. No se tinham tocado, 
e talvez isso nunca mais voltasse a acontecer.
     - Impossvel ou possvel? Depende de ti... - acrescentou Liam em voz baixa. O vento 
arrefecera e ele acercou-se mais dela. Estavam quase a tocar-se, mas ainda no. O que 
te parece?
     - Nunca me passou pela cabea que pudesses voltar, Liam - replicou Sasha com 
tristeza. Era difcil acreditar que ele regressara ou saber por que razo o fizera. Ele j a 
tinha deixado vrias vezes, e ela morrera igual nmero de vezes s mos dele.
     - Eu tambm no pensei que voltaria. No acreditei que fosse capaz. - Liam queria 
beij-la, mas agora a deciso cabia inteiramente a Sasha. Da ltima vez ele  que tomara 
a deciso. Desta feita, a deciso era dela. Liam respeitaria o que ela resolvesse.
     - O que  que decides? - perguntou ele; embora no quisesse pression-la, tinha de 
saber.
     - No sei - respondeu ela, sentando-se a olhar para o mar. Pouco depois voltou-se 
para ele e sorriu-lhe. - Ou talvez saiba... Qualquer que seja a deciso que eu tomar, talvez 
tenha deixado de interessar. A vida s nos concede um determinado nmero de 
oportunidades, mas por vezes concede-nos
     mais uma. As pessoas morrem, as pessoas partem, as pessoas voltam... Talvez isso 
no importe quando as pessoas se amam. E eu amo-te, Liam. Sempre te amei. Mais do 
que eu prpria sabia.
     - Tambm eu; amo-te mais do que imaginava. Quando te deixei, pensei que morria, 
mas tinha de o fazer.
     - Eu sei - retorquiu ela, voltando a sorrir-lhe, e ele beijou-a suavemente, um pouco a 
medo. Era como se estivesse a tocar numa brisa de Vero. Nunca se esquecera do que 
sentia quando a beijava e a tinha nos braos. Ao fim e ao cabo, era como se a tivesse 
levado consigo. Beth apercebera-se disso mesmo antes de ele prprio o ter 
compreendido, e porque era uma mulher generosa, mandara-o embora para que voltasse 
para junto dela.
     Liam beijou-a de novo, abraando-a, e ela murmurou qualquer coisa que se perdeu 
no peito dele. Sentiu mais as palavras do que as ouviu, baixando o olhar para o rosto de 
Sasha.
     - O que  que disseste?
     - Possvel... - sussurrou ela numa voz que mal se ouvia, mas desta vez ele 
conseguiu ouvir. - Possvel - repetiu Sasha. Era tudo o que ele queria ouvir, o que lhe 
dera alento durante os meses em que estivera afastado dela. Enlaou-a com mais fora e 
ela ergueu os olhos para o rosto que fazia parte de si desde o incio; riu-se. - Possvel. 
Desta vez, de certeza absoluta.
     
     
     
                                                FIM


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